quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Toda a noite

"Toda a noite, e pelas horas fora, o chiar da chuva baixou. Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia liquida me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade - áquela hora parecia que também indefinidamente. Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir. O som casual de um carro tardo, áspero a saltar nas pedras, crescia do fundo da rua, estralejou por debaixo da vidraça, apagava-se para o fundo da rua, para o fundo do vago sono que eu não conseguia de todo. Batia de quando em quando, uma porta de escada. Às vezes havia um chapinhar líquido de passos, um roçar por si mesmos de vestes molhadas. Uma ou outra vez, quando os passos eram mais, soava alto e atacavam. Depois, o silêncio volvia, com os passos que se apagavam, e a chuva continuava, inumeravelmente. Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela, eu só a ouvia. Nova, fluída, incerta, a chuva soava. Os momentos tardavam ao som dela. A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que ia sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passam a ter lugar e dor na minha desolação."
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Queria

"Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos."


Ana Paula Inácio in 'Poetas sem qualidades'

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Uma questão de tempo


"A melancolia é uma questão de tempo,
disse-me o homem. Era um homem que existia
- normal como os que existem. Daqueles que não
costumam vir nos poemas porque não
são centros de metáfora ou revolução. Porque não
gritam nada. Porque não dizem nunca.
Hoje sei.
A melancolia é uma questão de falta
de tempo."
Filipa Leal

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Triste

"Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos.
Eu não sou pessimista, sou triste."



Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

You are my shadow...

Sanvean by Dead can Dance in 'Toward the Within'

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Ya me canso de llorar y no amanece

"Ya me canso de llorar y no amanece
Ya no sé si maldecirte o por ti rezar
Tengo miedo de buscarte y de encontrarte
Donde me aseguran mis amigos que te vas


Hay momentos en que quisiera mejor rajarme
Y arrancarme ya los clavos de mi penar
Pero mis ojos se mueren si mirar tus ojos
Y mi cariño con la aurora te vuelve a esperar


Y agarraste por tu cuenta la parranda
Paloma negra, paloma negra, dónde, dónde andarás?
Ya no jueges con mi honra parrandera
Si tus caricias han de ser mías, de nadie mas


Y aunque te amo con locura ya no vuelves
Paloma negra eres la reja de un penar
Quiero ser libre vivir mi vida con quien yo quiera
Dios dame fuerza que me estoy muriendo por irla a buscar

Y agarraste por tu cuenta las parrandas"


José Alfredo Jiménez por Chavela Vargas in 'Somos'

domingo, 18 de fevereiro de 2007

De repente

"De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam - só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente."


Bernardo Soares in 'Livro do Desassossego'

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

A tua ausência em todos os lugares


"Era em Setembro nos anfiteatros vazios,
na alameda que subia para onde nos deviamos encontrar,
e não estavas; era um outono que caía sobre
as árvores do estádio, empurrando-lhes
as folhas para cima da mesa da esplanada, onde está vazia a mesa em
que as minhas mãos deviam procurar as tuas; era
a tua ausência em todos os lugares em que eu sabia
que poderias estar à minha espera, e só a sombra
das nuvens me trazia a memória da tua passagem, como
se fosses a ave que parte quando o primeiro sopro
do inverno se anuncia.


Que fazer sem ti, nestes anfiteatros de bancos
vazios, nos corredores melancólicos que levam para
átrios e pátios, nesses relvados onde não vale a pena
sentar-me, perguntar-te se gostas do outono, ou dizer que
os teus olhos é que valem a pena, agora que vejo, neles,
as nuvens que correm para o sul? E tu, sem estares aqui,
dizes-me que não é preciso que eu me lembre de ti; que
estás para chegar, de trás das árvores do estádio, para
limpares de folhas a mesa da esplanada, e pedires-me que
pegue nas tuas mãos, como se o inverno
não estivesse para chegar.

Mas um cansaço antigo prende-me a estes bancos
de anfiteatro; uma indecisão de passos empurra-me por
corredores e salas, em busca de um bar que fechou
há muito; o vento varreu as folhas da mesa
da esplanada, tirando a única justificação para que venhas. Abro,
então, as gavetas do passado. Tiro cartas, fotografias,
poemas, o livro em que me escreveste a frase interrompida
do amor. Como se eu não soubesse que as nuvens encheram
de sombra todas as imagens; que os pássaros levaram
para o sul tudo o que tinhas para me dizer; que
as folhas no chão cobriram o teu corpo, antes que
o inverno tivesse de o fazer."

Nuno Júdice in 'Cartografia de Emoções'

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Luz



"Diz-me agora o teu nome
se já dissemos que sim
pelo olhar que demora
porque me olhas assim?
Porque me rondas assim?
Toda a luz da avenida
se desdobra em paixão
magias de druida
pelo teu toque de mão.
São os ventos amenos
pelos mares morenos
do meu coração.
Espelhando as vitrinas
da cidade sem fim
tu surgiste divina
porque me abeiras assim?
Porque me tocas assim?
E trocámos pendentes
velhas palavras tontas
com sotaques diferentes
nossa prosa está pronta.
Dobrando esquinas e gretas
pelo caminho das letras
que todo o resto não conta.
E lá fomos audazes
por passeios tardios
vadiando o asfalto
cruzando outras pontes
de mares que são rios.
E num bar fora de horas
se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa.
Diz-me então que sou teu
que tu és toda para mim
que me pões no apogeu
porque me abraças assim?
Porque me beijas assim?
Por esta noite adiante
se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim.
À luz vã dos faróis
são de seda os lençóis
porque me amas assim?"


Fausto por Cristina Branco in 'Ulisses'

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Coisas simples

"Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios."


Nuno Júdice

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Há dias...

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder.
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer.
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera.
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade."

Jorge Fernando por Mariza in 'Fado em Mim'

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Amor

"Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum

em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam."


Jorge de Sena

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Chovia

"Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ò meu amor o teu olhar
o meu olhar e o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora
talvez apenas dizer
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos"

Ruy Belo, in 'O Homem de Palavra'

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Palavras


"Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas."

Pedro Tamen in 'Tábua das Matérias - Poesia 1956-1991'

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Vontade


"Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)"

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Maresia

"Mais forte que a ventania
Vieste com a maresia
Amor sem berço nem fim
Foste o mar e um veleiro
Muito mais que o mundo inteiro
Ficaste ancorado em mim

Nem tormentas nem naufrágios
Nem os mais negros presságios
Mudam as cores deste mar
Só eu conheço os segredos
Só eu navego sem medos
Nas águas do teu olhar

Gaivotas de voo rasante
Vão trazendo a cada instante
Notícias de outras marés

Que me importam outras ilhas
Se eu descobri maravilhas
No fundo do meu convés?"


"Ancorado em Mim" por Katia Guerreiro, in 'Nas mãos do Fado'

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Podia



Podia fugir, mas não quero.
Podia esquecer-te mas não consigo.
Podia tentar mas tenho medo.
Podia desistir mas não sou assim.
Podia duvidar mas tenho a certeza.
Podia fingir que não, mas sei que sim.

(para ti, directamente do Luxemburgo)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Aconteceu...


"Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor."
Adriana Calcanhoto por Cristina Branco, in 'Corpo Iluminado'

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Não

Não posso ficar na cama porque encontro o teu cheiro nela. Encontro ali o teu corpo. E lembro-me que sinto falta das tuas mãos sobre mim e sinto saudades do teu rosto sobre os meus ombros e dos nossos pés a brincar no fundo da cama. Quero ir para esse lugar estranho onde estás e deixar-te abraçares-me até pouco antes do dia amanhecer e as outras pessoas acordarem. Porque eu não devia querer isso...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Tudo



“Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo”


Vergílio Ferreira