quinta-feira, 6 de julho de 2006

Tristeza


"Ao norte dessa triste cidade havia poderosas fábricas nas quais a tristeza (assim me disseram) era literalmente fabricada, e depois embalada e enviada para o mundo inteiro, que parecia sempre querer mais. Das chaminés das fábricas de tristeza saía aos borbotões uma fumaça negra, que pairava sobre a cidade como uma má notícia."
Salman Rushdie, in 'Haroun e o Mar de Histórias'

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Lies


"Yes, each new day in suburbia brings with it a new set of lies. The worst are the ones we tell ourselves right before we fall asleep. We whisper them in the dark, telling ourselves we're happy, or that he's happy. That we can change, or that he will change his mind. We persuade ourselves that we can live with our sins, or that we can live without him. Yes, each night before we fall asleep we lie to ourselves in a desperate, desperate hope that come morning - it will all be true. "

Nada


"Nada a dizer, nada a acrescentar, a não ser a reincidente, renitente, constatação da solidão humana".

terça-feira, 4 de julho de 2006

Tell me something nice


Johnny: How many men have you forgotten?
Vienna: As many women as you've remembered.
Johnny: Don't go away.
Vienna: I haven't moved.
Johnny: Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
Vienna: All those years I've waited.
Johnny: Tell me you'd died if I hadn't come back.
Vienna: I would have died if you hadn't come back.
Johnny: Tell me you still love me like I love you.
Vienna: I still love you like you love me.
Johnny: Thanks. Thanks a lot.

Nicholas Ray, Johnny Guitar, 1954,
com Joan Crawford e Sterling Hayden
(roubado
daqui. Obrigado João!)

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Amar


"Quem me ama tem de me adivinhar... Não pode ficar à espera de ordens!"

in 'Quaresma', de José Álvaro Morais

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Culpa


"A culpa é sentirmo-nos culpados, e não um resultado dos crimes cometidos; o ser inocente é alegre, feliz, e não deixa, seja em que caso for, que os acontecimentos perturbem a sua calma e a sua paz."
Stig Dagerman, in 'A Ilha dos Condenados'

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Noite


"(...) Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem... Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos."
Raul Brandão, in 'Húmus'

terça-feira, 20 de junho de 2006

Debaixo dos caracóis dos teus cabelos...



"... penso que foste tu, só podes ter sido tu, que me falaste um dia que gostavas de homens com caracois..."

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Separação


"O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo. Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos."
Marguerite Yourcenar, in 'O TEMPO – esse grande escultor'

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Decrescer


"Tudo o que não cresce, decresce e arrisca-se a desaparecer. Este parece ser um princípio básico da vida. Não há meio termo, ninguém fica de fora desta realidade. Se deixo de investir numa relação, ela não se aguenta; se não dou continuidade à minha formação, deformo-me inevitavelmente, e por aí fora... E quem não continua a investir na fé e no amor, corre o risco de perder ambas as coisas."
Vasco Pinto de Magalhães Sj, in 'Não Há Soluções, Há Caminhos'

domingo, 11 de junho de 2006

Mar


para ti...

"Este amor não é um rio
Tem a vastidão do mar
E a dança verde das ondas
Soluça no meu olhar.

Tentei esquecer as palavras
Nunca ditas entre nós
Mas pairam sobre o silêncio
Nas margens da nossa voz.

Tentei esquecer os teus olhos
que nao sabem ler nos meus
Mas neles nasce a alvorada
Que amanhece a terra e os céus.

Tentei esquecer o teu nome
Arranca-lo ao pensamento
Mas regressa a todo a instante
Entrelaçado no vento.

Tentei ver a minha imagem
Mas foi a tua que vi
No meu espelho porque trago
os olhos rasos de ti.
Este amor nao é um rio
Tem abismos como o mar
E o manto negro das ondas
Cobre-me de negro o olhar.
Este amor nao é um rio
Tem a vastidão do mar..."
Fado Perdição
na voz de Cristina Branco, in '
Murmúrios'

sábado, 10 de junho de 2006

Portugal


“Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente há-de ainda erguer-se desta gente?”

Jorge de Sena

terça-feira, 6 de junho de 2006

Acordar



"Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é cedo ainda… Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê…
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Caio de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta… para que há-de um dia raiar?...
Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este…"
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

domingo, 4 de junho de 2006

Amargura



"Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um"
Eugénio de Andrade, in 'Os amantes sem dinheiro'

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Adeus


"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."

Eugénio de Andrade, in 'Os amantes sem dinheiro'

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Asas


Cortaste-me as asas.
Quebraste-me os sonhos.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

(curta) Distância


Sei que andas por aí, por Lisboa... O meu coração palpita por te imaginar perto, mais perto, mas depois tudo me lembra que temos que estar longe, e subitamente o dia de sol parece-me festivo demais para a tristeza que sinto cá dentro... Fecho todas as janelas da casa e espero que a escuridão apague os teus traços da minha memória, mas não... Estás aqui... Estás cá dentro, no sítio mais difícil de desocupar...

Sei que andas por aí, por Lisboa... E eu ando também...
E buscando-te, não te procuro... E fugindo, não te esqueço...
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

terça-feira, 23 de maio de 2006

Fogo



Ardo em desespero. Queima-me a solidão. Levanto os olhos para o vazio e, é já sem sentimentos, que sinto o meu coração parar .

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Quem


"- Quem é que tu amas? - continuou Murphy.
- Eu, tal como sou. Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo. (...)
- Se assim é, por que diabo te esforças tanto para me modificar?
- Para poderes deixar de me amar - aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante honrosa - para deixares de estar condenada a amar-me, para seres dispensada de me amar."
Samuel Beckett, in 'Murphy'

Queres amar a vida e não te deixam.


"Queres amar a vida e não te deixam. Tens de respirar o ódio, o insulto, o bafo azedo do vexame e isso faz-te mal. Emanações de um pântano de febres, de esgotos a céu aberto com o seu fedor de vómito. Um dos tormentos do inferno medievo era esse, o fedor - a essência da podridão. E o que te fazem respirar de uma flor, do aroma de existires? Porque é que o ódio é assim fundamental para os teus parceiros em humanidade existirem? Têm uma estrutura diferente de serem, Deus fabricou-os num momento de mau génio. Vale a pena irritares-te contra a existência da víbora ou do touro? "
Vergílio Ferreira, in 'Escrever'

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Aceitação


Faço um esforço para acreditar que não partiste, que te pertenço, que me pertences e para nós não existe tempo nem espaço. Nós somos o tempo e o espaço, a noite e o dia, o longe e o perto. Não no sentido antagónico das verdades mas na verdade complementar dos sentidos: viver em nós, morrer em mim. Olho em volta, mais uma vez, e a tua ausência subitamente não faz sentido porque te amo, porque me amas e porque é em ti que me preencho. Sinto o teu cheiro em mim e vejo o teu corpo no meu. Porque é aí que existes, na procura que fazemos um do outro. Em qualquer outra noite sei que estendo o braço e no teu lado frio da cama descubro o corpo quente e familiar que me completa e me acalma.
Chamo por ti e o teu nome enche o espaço como se o ar não existisse no deserto da tua presença. E sei que respondes com o sim que nunca disseste e com a aceitação de um amor que nunca recebeste.
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

terça-feira, 16 de maio de 2006

Sonho


Para KG

"Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, é então que me interrogo sobre quem tu és, Nossa Senhora do Silêncio... Figura que atravessa todas as minhas visões demoradas de paisagens outras, de interiores antigos, de cerimoniais faustosos de silêncio.
Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e de desumanidade. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu. Talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos.
Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil nunca é o mesmo mas nada muda. Eu digo isso porque eu sei, ainda que não saiba o que sei. Tu não és mulher, nem mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É quando falo de ti, é quando as palavras te chamam fêmea e as expressões te contornam de mulher que eu tenho de te falar com ternura e amoroso.
Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não penso nem sinto mas os meus pensamentos são ogivais de te sentir e os meus sentimentos góticos de evocar-te.
Ah Nossa Senhora do Silêncio! Ó Lua de memórias perdidas sobre a negra paisagem do vazio da minha imperfeição. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas nocturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua. "
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Ausência


E não é, como me dizem, na tua ausência que te esqueço porque é exactamente na inexistência de ti que mais te encontro. E de repente tudo se torna mais fácil porque te entregas e te deixas amar.

Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

sábado, 6 de maio de 2006

Abandono


"Mesmo que um dia o teu espelho te não mostre mais que um retrato deformado onde não ouses reconhecer-te, existirá sempre noutro sítio o reflexo imóvel de ti. E desse modo imobilizarei a tua alma também.
Tu já não me amas. Se consentes em ouvir-me durante uma hora é porque somos sempre indulgentes com aqueles que vamos deixar. Ligaste-me e agora desligas-me. Não te censuro, Gherardo. O amor de alguém é sempre um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela ....
... só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos."

Marguerite Yourcenar, in 'O TEMPO – esse grande escultor'

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Amar é



"Amar é reconhecer nos outros um ser misterioso, e não um objecto - tu eras uma vibração à tua volta, não a estreita presença de um corpo. Aqueles que não amamos nem odiamos são nítidos como uma pedra. Sentir neles uma pessoa é começar a amar ou a odiá-los. Só amamos ou odiamos quem é vivo para nós. («Nunca amaste ninguém...»). "

Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Silêncio


Silêncio!
Do silêncio faço um grito
O corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco.
De sombra a sombra
Há um Céu...tão recolhido...
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido.

Ao céu!
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela.

E eu,
A quem o sol esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora.

Solidão!
Que nem mesmo essa é inteira...
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura.

(...)
Adeus
Já fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede.

Adeus,
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai, como dói
A solidão quase loucura.
Amália Rodrigues, in "Versos"

terça-feira, 2 de maio de 2006

Liberdade


Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

domingo, 30 de abril de 2006

Olhar

"Ao olhar para as pessoas que passavam na rua, caiu-me em cima uma solidão de proporções inimagináveis, mesmo no rapaz solitário que sempre fora. Nunca seria compreendido por ninguém ; isso agora parecia-me óbvio. O que se passava dentro de mim, nenhum ser humano poderia intuir."
Frederico Lourenço, in 'A Máquina do Arcanjo'

sexta-feira, 28 de abril de 2006

A primeira palavra

"Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela."

Vergílio Ferreira, in 'Para Sempre'

Não existe humanidade


"A humanidade não existe sociologicamente, não existe perante a civilização. Considerar a humanidade como um todo é, virtualmente, considerá-la como nação; mas uma nação que deixe de ser nação passa a ser absolutamente o seu próprio meio. Ora um corpo que passa a ser absolutamente do meio onde vive é um corpo morto. A morte é isso - a absoluta entrega de si próprio ao exterior, a absoluta absorção no que cerca. Por isso o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber. Todo o internacionalista devia ser fuzilado para que obtenha o que quer, a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer. Só existem nações, não existe humanidade."

Dor


"É certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa 'coisa' repelente."
Gonçalo M. Tavares, in 'A Máquina de Joseph Walser'


"É exactamente porque não há solidão que dizes que há solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros... "

Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'

Começou...

Nasce hoje, a negro, o meu espaço de solidão. É aqui que começo. É aqui que acabo. O meu sentir, o meu viver. Tudo e nada. Um lugar só meu. Da Inquietude. Da intranquilidade. Da tristeza. O eu que ninguém conhece. Sombrio. Só. O eu que só eu conheço. Desesperado. Começou hoje. Está aqui. Onde sempre esteve.