segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Quando*






Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,

E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'
por Katia Guerreiro, in 'Tudo ou Nada'
.
.
*Se fosse viva, Sophia faria hoje 87 anos.

domingo, 5 de novembro de 2006

Mentira


"De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ... - Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade... Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram."

Jorge de Sena, in 'Genesis'

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Agonia


"(...) Mas na realidade não sei ainda se quero que te vás ou fiques, é tão difícil saber. Porque num caso ou noutro agonizo. Mas como sabes há um outro de nós que escolhe quando é de ser, mesmo contra o que julgamos querer. Assim, hoje ao acordar fiquei aterrado ao ver que de noite me rolara para o meio da cama. Deitei-me como sempre do meu lado, para deixar livre o teu no caso de resolveres voltar e te deitares nele. Mas o sono levou-me para o sítio que é o bom e fica à minha esquerda. Porque é que eu me passei para o meio da cama? e só acho uma como resposta o teres morrido para sempre. E fiquei horrorizado da minha libertação. Não vás ainda. Volta de novo. Vou deitar-me outra vez no meu lugar e deixar o teu à espera. Vem de noite sem eu dar conta e acordar contigo ainda no teu sono e tocar-te e seres tu. (...)"
Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Último Adeus




"Talvez por não saber falar de cor, imaginei. Talvez por não saber o que será melhor, aproximei. "O meu corpo é o teu corpo, o desejo entregue a nós". Sei lá eu o que queres dizer... Despedir-me de ti, adeus um dia voltarei a ser feliz. Talvez por não saber falar de cor, aproximei. Triste é o virar as costas, o último adeus sabe Deus o que quero dizer. Obrigado por saberes cuidar de mim, tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou... E se ao menos tudo fosse igual a ti. Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, já não sei se sei o que é sentir. Se por falar falei, pensei que se falasse era fácil de entender... É o amor que chega ao fim, um final assim assim é mais fácil de entender..."

The Gift, in "Fácil de Entender"

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Tristeza



"(...) E é curioso como te ouço e te vejo sempre igual. O meu nome. É o que quase sempre te ouço. O chamamento de mim mas como de longe, mesmo se for ao pé. Como se num pedido de socorro, chamamento leve de sofrimento. E a tua face. Ou o teu andar não sei por onde. Face doce flutua no incerto de ti. E os olhos, só olhar. Sempre séria e triste, devias ter o que te magoasse desde os começos da vida ou de mais longe(...)."
Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Facto


"Nós não sabemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos - este é o facto."
Jean-Paul Sartre

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Sagrado


"(...) Mas do que eu mais gosto é de quando me acompanhas em passeio. Às vezes saio só, mas tu vens ter comigo ao caminho. Ou de relembrar-te outrora quando te via passar. Havia em ti uma sacralidade intocável, na tua anca fina ondeando por entre outras raparigas. E essas jovens eu sentia que as podia tocar sem estremecer, sem uma grande distância até elas. Mas a ti envolvia-te um halo numinoso e eu sentia que num gesto meu ia a tua profanação sacrílega, qualquer coisa assim como creio já ter dito. Violar o sagrado de ti, que odioso prazer na minha violência. Transpor a enorme distância que ia da minha condição terrestre à tua sacralidade e para lá dela ao teu corpo. Via-te às vezes com outras mulheres e sentia bem que não eras da sua condição. Porque elas eram materiais concretas manipuláveis e tu eras de uma outra ordem de se ser. Como uma deusa que estivesse de passagem, jamais te falei assim porque tu ignoravas o que havia em ti de transcendência e querias que não houvesse e eu fosse mais quotidiano e talvez que te magoasse. Querias ser real para mim e que eu praticasse a tua realidade. Talvez que se te batesse, palavra, às vezes penso, no desespero de relembrar quanto te amei para além de ti e quanto tu querias que não. (...)"

Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

domingo, 29 de outubro de 2006

Fado Perdição





"Este amor não é um rio
Tem a vastidão do mar
A dança verde das ondas
Soluça no meu olhar
Tentei esquecer as palavras
Nunca ditas entre nós
Mas pairam sobre o silencio
Nas margens da nossa voz
Tentei esquecer os teus olhos
Que não sabem ler nos meus
Mas neles nasce a alvorada
Que amanhece a terra e os céus
Tentei esquecer o teu nome
Arrancá-lo ao pensamento
Mas regressa a todo o instante
Entrelaçado no vento
Tentei ver a minha imagem
Mas foi a tua que vi
No meu espelho, porque trago
Os olhos rasos de ti
Este amor não é um rio
Tem abismos como o mar
E o manto negro das ondas
Cobre-me de negro o olhar
Este amor não é um rio
Tem a vastidão do mar"

Cristina Branco, in 'Murmúrios'

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Espera


"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes cegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo os meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro."
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Estarei contigo


"Mulher mais adorada! Agora que não estás, deixa que rompa o meu peito em soluços! Te enrustiste em minha vida; e cada hora que passa é mais porque te amar. A hora derrama o seu óleo de amor, em mim, amada... E sabes de uma coisa? Cada vez que o sofrimento vem, essa saudade de estar perto, se longe, ou estar mais perto se perto, - que é que eu sei! Essa agonia de viver fraco, o peito extravasado, o mel correndo; essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso que é bem capaz de confundir o espírito de um homem - nada disso tem importância quando tu chegas com essa charla antiga, esse contentamento, essa harmonia, esse corpo! E me dizes essas coisas que me dão essa força, essa coragem, esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice, meu verso, meu silêncio, minha música! Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada, sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada. Orfeu menos Eurídice... Coisa incompreensível! A existência sem ti é como olhar para um relógio só com o ponteiro dos minutos. Tu és a hora, és o que dá sentido e direção ao tempo, minha amiga mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada! A beleza da vida és tu, amada! Milhões amada! Ah! criatura! quem poderia pensar que Orfeu: Orfeu cujo violão é a vida da cidade e cuja fala, como o vento à flor, despetala as mulheres - que ele, Orfeu, ficasse assim rendido aos teus encantos! Mulata, pele escura, dente branco, vai teu caminho que eu vou te seguindo no pensamento e aqui me deixo rente quando voltares, pela lua cheia, para os braços sem fim do teu amigo! Vai tua vida, pássaro contente! Vai tua vida que eu estarei contigo!"
"Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes
in "Que Falta Você Me Faz" por Maria Bethânia

terça-feira, 24 de outubro de 2006

O segredo do futuro


"El secreto de la felicidad, o, por lo menos, de la tranquilidad, es saber separar el sexo del amor. Y, si es posible, eliminar el amor romántico de tu vida, que es el que hace sufrir. Así se vive más tranquilo y se goza más, te aseguro."
Mario Vargas Llosa, in 'Travesuras de la niña mala'
(Roubado
daqui)

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Não, obrigado!

Intemporal


"Tenho saudades tuas.
Sempre me achaste um fraco. E de facto ao pé de ti eu era vulnerável. Quebraste as barreiras do meu isolamento e com isso destruíste-me as defesas. Na altura, disseste, era o preço a pagar pelo teu amor. Nunca fomos felizes e ainda assim, a tua morte acabou por tornar-se na forma de me pertenceres para sempre. Porque me apropriei da tua memória e agora sinto que só a mim me pertences. É irónico, não é? Enquanto viveste nunca conseguimos realmente pertencer um ao outro. E agora já não há nada que te arranque de mim porque a tua existência tornou-se intemporal. Há noites em que sei perfeitamente que estás ao meu lado, porque sinto o teu calor, porque ouço o teu respirar e até consigo tocar-te. Imagino-me a percorrer o teu corpo com as minhas mãos, com um toque suave que te causa arrepio. E tu a deixares-te amar de um modo confortável e descomprometido, como nunca fizeste."
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Cansaço


"La mort est à mes yeux aujourd'hui
Comme la guérison pour le malade,
Comme de sortir après avoir souffert.

La mort est à mes yeux aujourd'hui
Comme le parfum de la myrrhe,
Comme de s'asseoir sous un dais un jour où souffle la brise.
La mort est à mes yeux aujourd'hui,
Comme le parfum du lotus,
Comme de s'asseoir sur la rive du pays de l'ivresse.
La mort est à mes yeux aujourd'hui
Comme le chemin de la pluie battante,
Comme le retour du soldat à la maison.
La mort est à mes yeux aujourd'hui
Comme une éclaircie dans le ciel,
Comme de comprendre une énigme.
La mort est à mes yeux aujourd'hui
Comme le désir d'un homme de revoir sa maison
Après de longues années de captivité."



texto popular do antigo Egipto, da XIIª dinastia
(1990 AC, aproximadamente)

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Burning Heart


“He woke her then, trembling and obedient she ate that burning heart out of his hand. Weeping, I saw him then depart from me.
Could he daily feel a stab of hunger for her and find nourishment in the very sight of her? I think so. Would she see through the bars of his plight and ache for him?”
Dante Alighieri, in 'La Vita Nuova'

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Infância


"(...) Vou contar-te uma história. A minha mãe sempre trabalhou muito, fora de casa. Chegava sempre tarde e eu já estava deitado. Naqueles momentos após eu me deitar, ficava muito direito e quieto na cama, esperando que a porta de casa abrisse. Era terrível aquela angústia, de não querer adormecer sem ouvir o barulho da chave que significava que provavelmente a mãe iria ao quarto dar-me um beijo de boa noite. Acabava sempre por adormecer, e no meio da revolta da manhã seguinte, ficava em mim uma sensação de vazio que me deixava inseguro e muito só. Pior que isso era estar acordado e perceber que os passos dela se encaminhavam para todos os lados menos para o meu quarto. Aí sim, sofria a sério. Sentia algo a quebrar-se por dentro e penso, agora, que foi assim que fui perdendo a noção de ser criança. Conto-te isto porque nessa noite, todas essas imagens e sensações da minha infância voltaram a percorrer o meu cérebro. Acho que por instantes voltei a ser a criança solitária que fui. Desta vez não chorei, desta vez limitei-me a apanhar os pedacinhos de mim."
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Fragilidade


"Como poderia eu ter imaginação para te reconstituir na sólida delicadeza da tua fragilidade? (...) O amor e a morte inserem-se um no outro, deves saber. Mas eu sobrevivi e isso é uma condenação. Penso-te e o teu esplendor renasce-me no meu pensar e a minha idade retrai-se quando me apareces. E a eternidade em que se vive, mesmo se a velhice é real, restabelece-me igual a ti que nunca envelheceste. E não me perguntes porque te escrevo se tudo é em vão. Mas há o meu desejo de te fixar na palavra escrita que te diz, para ficares aí com o milagre que puder. É Primavera e tudo é nítido no seu ser real. Os campos cobrem-se de relva, as flores despertam da sua hibernação, passa na aragem o perfume da vida, de tudo o que é vivo no mundo. A luz nítida demora-se no cimo dos montes e eu olho-a na sua agonia para um pouco existir no que te digo. Ou no teu nome de que nao gostava muito e agora renasce em sonoridade branda quando o penso ou o escrevo ou o digo em voz alta."
Virgilio Ferreira, in 'Para Sempre'

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Realista


"Tenho sido sempre um sonhador irónico, infiel, às promessas interiores. Gozei sempre, como outro e estrangeiro, as derrotas dos meus devaneios, assistente casual ao que pensei ser. Nunca dei crença àquilo em que acreditei. Enchi as mãos de areia, chamei-lhe ouro, e abri as mãos dela toda, escorrente. A frase fora a única verdade. Com a frase dita estava tudo feito; o mais era a areia que sempre fora.
Se não fosse o sonhar sempre, o viver num perpétuo alheamento, poderia, de bom grado, chamar-me um realista, isto é, um indivíduo para quem o mundo exterior é uma nação independente. Mas prefiro não me dar nome , ser o que sou com uma certa obscuridade e ter comigo a malícia de me não saber prever."
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Inocência


"Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência."

Fernando Namora, in 'Jornal sem Data'

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Para ti


"Não se pode defender o que não se ama, e, não se pode amar o que não se conhece..."

Autor desconhecido

Crepúsculo


"Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo."

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

domingo, 8 de outubro de 2006

Infinito da tua perfeição


"... Vou-te amar intensamente como nunca. Amei-te com avidez precipitação impreparação juvenil. Havia uma distância enorme de permeio e eu tinha que a preencher. Amei-te depois com luxúria como se diz no catecismo. E amei-te como cumprimento de um horário semanal. (...) Vou pôr na rua da lembrança tudo o que não for a tua nudez, a amargura vexame sofrimento. Mesmo as alegrias que não são para aqui. Mesmo os filhos que também não - a vida inteira que passou. Preciso tanto de te amar - e como te vou amar? Não sei. Vou-te amar no infinito da tua perfeição."

Vergílio Ferreira, in 'Em nome da terra'

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Partida



"A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida."

Sophia de Mello Breyner, in 'Poesias'

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Outro


"Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpétuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

Fernando Pessoa, in 'Para a Explicação da Heteronímia'

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Pedra Escura


"Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto os meus dias
quebrados na cintura."


Eugénio de Andrade, in "Palavras interditas até amanhã"

Segredos


"Meu amor, porque me prendes?
Meu amor, tu não entendes,
Eu nasci para ser gaivota.
Meu amor, não desesperes,
Meu amor, quando me queres
Fico sem rumo e sem rota.

Meu amor, eu tenho medo
De te contar o segredo
Que trago dentro de mim.
Sou como as ondas do mar,
Ninguém as sabe agarrar,
Meu amor, eu sou assim.

Fui amada, fui negada,
Fugi, fui encontrada,
Sou um grito de revolta.
Mesmo assim, porque te prendes?
Foge de mim, não entendes?
Eu nasci para ser gaivota.
"
Paulo Valentim por Katia Guerreiro*, in "Nas mãos do Fado"
* Por ocasião do Dia Mundial da Música

sábado, 30 de setembro de 2006

Liberdade


"Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas... e entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. Talvez, de facto, nunca mais saisses de lá. Está lá tudo! "Estou muito bem aqui sozinho!". Mas, de repente - uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros, e é-te dito: 'Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!". Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu paraíso e pular por cima do muro. Mais! Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo... Sim, apenas uma coisa te falta... um pouco de liberdade."
Fiodor Dostoievski, in "O Movimento de Liberação"

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Outono


"É outono, desprende-te de mim.
Solta-me os cabelos, potros indomáveis
Sem nenhuma melancolia,
Sem encontros marcados,
Sem cartas a responder.
Deixa-me o braço direito
O mais ardente dos meus braços,
O mais azul
O mais feito para voar.
Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálperas acessas.
Deixa-me só, vegetal e só,
Correndo como rio de folhas
Para a noite onde a mais bela aventura
Se escreve exactamente sem nenhuma letra."
Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

sábado, 23 de setembro de 2006

Fica


"Quantas dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo."

Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Depois beijo-te

Respiro-te.
Inspiras-me.
Com o olhar.
Com ternura.
Sem pressa.

Descubro-te.
Revelas-me.
Sinto-te:
Somos um.
Somos tudo.

Exorciso o Nada.
Respiro-te.
E depois?
Depois beijo-te.

(Pedro Rapoula)

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Medo



"O pior de tudo é que eu sinto uma sombra por trás de mim e não sei por que nome lhe hei-de chamar. (...) Tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada, o fim e o princípio da vida e a razão do meu ser. Mesmo que Deus não exista e a consciência seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida e imensa diante de mim, ao pé de mim, perto de mim."


Raul Brandão, in 'Húmus'

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Morte


"O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido. O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu. Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre. Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma."

Vergílio Ferreira, in 'Escrever'

sábado, 16 de setembro de 2006

Maria Callas, 1923 - 1977


"Real friends are very special, but you have to be careful because sometimes you have a friend and you think he is made of rock, then suddenly you realise he's only made of sand. It's a terrible thing to go through life thinking that you have a rock on your side when you haven't."
Maria Callas, no dia em que passam 29 anos sobre a sua morte

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Chuva


"Não existe em mim nada de teu ", respondeste quando te perguntei porquê, confirmando que acabava assim um amor - o nosso -, ou a ilusão dele. Na verdade não existia em nós nada de nenhum dos dois porque o que sempre ambicionei foi que fossemos um só. "Mas... não há nada em mim que queiras?", perguntei quase em surdina... Das palavras que murmuraste a seguir só consegui distinguir o "adeus". E foi assim, sem gritos, sem lágrimas, sem olhares que te afastaste de mim no preciso momento em que senti na pele a primeira chuva de Setembro.
(Pedro Rapoula)

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Outro


"Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espectáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu. Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desconheço-me deles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio."
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Derrota


"Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. (...) Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar, diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo."
Marguerite Yourcenar, in 'Memórias de Adriano'

Ausência


"Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças ?"
Marcel Proust

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Caminho


"Hoje arrependo-me mil vezes de não termos ficado apenas amigos, como me propuseste na semana em que nos conhecemos, quando completamente embriagado de paixão, pedi que casasses comigo. Vamos ser só amigos, disseste, bons e grandes amigos. Mas, amigos? Como gostaria de ser teu amigo, mas não posso. Não posso porque quem ama pode jurar mil vezes por dia que só sente amizade, para que, na primeira oportunidade sinta ódio, desespero, solidão, ciúme e todos os sentimentos entrelaçados com o amor. (...)

Ainda sabes o caminho de regresso para mim?"
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

Música




Sento-me numa qualquer rua do Chiado. À volta as pessoas passam indiferentes à minha presença à minha solidão. Sentei-me porque um músico toca guitarra sem perceber que me atinge fundo, muito fundo. A música penetra-me e eu fico sem saber exactamente onde estou, se em Lisboa, se numa qualquer rua de uma qualquer cidade…
Agora parou. Fuma um charro com dois miúdos que também já o escutam há algum tempo. O silêncio de volta à rua devolve-me alguma lucidez. Volto a perceber que estou em Lisboa,que estou sozinho, que tu partiste e que a vida reorganizar-se-á na tua ausência.
Conversam animadamente enquanto partilham o tal charro. Tenho vontade de me juntar a eles, a fumar algo que me faça esquecer a minha dor. O vinho que bebi ao almoço começa a perder o seu efeito e eu não quero estar sóbrio. Há demasiado sol e é demasiado cedo para ficar consciente.
É na minha consciência que me torturas. É na minha consciência que a tua falta dói mais, a segurares-me, a compores-me, a insistires para que fosse sério, adulto, bem comportado.
Recomeçaram a tocar. Quero voar nesta música. Quero sentir que não estou de facto aqui, que posso estar em qualquer lugar. Quero fugir de ti, de mim, de tudo o que me prende ao nosso mundo. Quero estar só, ficar só, dormir só, mas morro de medo da minha solidão. Morro de medo da tua saudade… Quero viver sem ti e não sei. Quero respirar fundo e serenar
por te saber ausente, como se esta tua ausência não me fosse destruindo por dentro.
A música continua a percorrer-me. Sinto-me assustado. São ritmos quentes, que me atiram à cara as recordações de ti, que me transportam aos teus pés.
Ouço o rio a correr, lá longe, e de súbito, os minutos passam por mim com indiferença, como se o meu sofrimento pouco importasse.
Estou cansado.
Quero viver sem ti e não posso.
Quero possuir-te e odeio-te.
Quero tocar-te e não suporto ver-te.

(Pedro Rapoula)

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

De noite...



"Quando me deito ao pé da minha dor,
Minha Noiva-fantasma; e em derredor
Do meu leito, a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos intimas, acesos,
Extáticos, surpresos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o hábito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dor ... o amor antigo.

A minha dor está comigo ali,
Como outrora, eu estava ao pé de ti ...

Se eu fosse a minha dor, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!

Mas eu não sou a dor, a dor etérea ...
Sou a Carne que sofre; esta miséria
Que no silêncio clama!

A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama ..."


Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Amanhã


"Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro."

Vergílio Ferreira, in 'Escrever'

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Três


Onde queres revólver sou coqueiro e onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada nada falta e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas o chão minha alma salta e ganha liberdade na amplidão
Onde queres família sou maluco e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco e onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez, e onde vês eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo eu sou o irmão e onde queres cowboy eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres o acto eu sou o espírito e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo e onde buscas o anjo sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói e onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução e onde queres bandido sou herói
Eu queria querer-te amar o amor, construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés e vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou, não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo e onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua eu sou o sol e onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério eu sou a luz e onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro e onde queres coqueiro sou obus
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal e eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total do querer que há e do que não há em mim
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Caetano Veloso, in "Letra Só"

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Grito de Alerta



"Primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça
Me bota na boca um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas, assim meio pedindo
Querendo ganhar um bocado de mel
Não vê que então eu me rasgo, engasgo, engulo
Reflito e estendo a mão
E assim nossa vida é um rio secando
As pedras cortando e eu vou perguntando: até quando?
São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo
Arrasando aos poucos com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo de gritos e gestos
Num jogo de culpa que faz tanto mal
Não quero a razão pois eu sei o quanto estou errado
O quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio
E que já não dá mais pra engolir
Veja bem, nosso caso é uma porta entreaberta
Eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta
Veja bem, é o amor agitando meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E a vida da gente gritando que não."


Gonzaguinha Jr. por Maria Bethânia in 'Imitação da Vida'

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

O amor também acaba


"Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento, porque ele te faria desgostar de mim. Não te farei censuras: elas irritar-te-iam justamente. Não te direi as razões que tu tens para amar-me, porque não as tens. A razão de amar é o amor. Também não me mostrarei mais, tal como tu me desejavas. Porque tu já não desejas esse. Se não, amar-me-ias ainda. Mas educar-te-ei para mim. E, se sou forte, mostrar-te-ei uma paisagem que fará de ti meu amigo."

Antoine de Saint-Exupéry, in 'Cidadela'

sábado, 12 de agosto de 2006

Volúpia


"A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a, fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência."
Rainer Maria Rilke, in 'Cartas a um Jovem Poeta'

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

ELIZABETH SCHWARTZKOPF (1915-2006)


"Donde lieta uscì
al tuo grido d'amore,
torna sola Mimí
al solitario nido.

Ritorna un'altra volta
a intesser finti fior.

Addio, senza rancor.

Ascolta, ascolta.
Le poche robe aduna

che lasciai sparse.
Nel mio cassetto
stan chiusi quel cerchietto d'or
e il libro di preghiere.
Involgi tutto quanto in un grembiale
e manderò il portiere...


Bada, sotto il guanciale
c'è la cuffietta rosa.
Se vuoi serbarla a ricordo d'amor!
Addio, senza rancor."


"Donde lieta uscì", La Bohème
Giacomo Puccini

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Fim


"Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras."

Samuel Beckett, in 'Textos para Nada'

quinta-feira, 27 de julho de 2006

"The Peace of Wild Things"



"When despair for the world grows in me
and I wake in the night at the least sound
in fear of what my life and my children's lives may be,
I go and lie down where the wood drake
rests in his beauty on the water, and the great heron feeds.

I come into the peace of wild things
who do not tax their lives with forethought
of grief. I come into the presence of still water.
And I feel above me the day-blind stars
waiting with their light. For a time
I rest in the grace of the world, and am free."

Wendell Berry

sexta-feira, 21 de julho de 2006

"They are just trying to survive...!"


Conheci o meu amigo Rany Saad vai fazer três anos em Setembro. Eu fazia parte da equipa portuguesa e ele da francesa, numa viagem (de luxo) que a Mercedes Benz promoveu na altura para fazer a apresentação do novo modelo Classe A.

Posso dizer que a nossa amizade foi praticamente instantânea, não se juntando água mas sim gin. Depois de uns dias divertidos nas melhores estradas da Europa e de muitas festas faustosas nas principais capitais europeias, cada um voltou às suas vidas com a certeza de que voltaríamos a estar juntos. Nem que fosse para assistirmos aos respectivos casamentos.

Não foi preciso passar tanto tempo e nesse mesmo ano o Rany veio a Lisboa por ocasião do meu aniversário. Aí, longe do brilho das festas Mercedes, tivemos oportunidade de conversar muito. O Rany era (é) um representante de duas culturas uma vez que é franco-libanês. Aproveitei para lhe fazer na altura todas as perguntas que esclarecessem de uma vez as minhas dúvidas sobre o Islão, sobre o ser muçulmano, sobre o "não ser ocidental". Ele, pacientemente foi respondendo.

A nossa amizade continuou e tem crescido à distância. Ele liga-me, eu ligo-lhe e torcemos pelas respectivas selecções no Mundial. Eu admirei o telefonema dele quando Portugal foi eliminado dizendo que tinha sido muito injusto para nós. E a partir desse dia vesti a camisola da selecção francesa. Até ao desfecho que se conhece.

De há uns dias para cá tenho pensado muito no Rany. Desde que começou a ofensiva militar no Líbano. Os pais dele (que não conheço mas que, segundo me disse o Rany, rezam por mim com frequência) vivem em Beirute. Assim como toda a família de Rany. Tentei ligar-lhe vezes sucessivas sem sucesso. Até hoje.

Falei com ele e percebi que a guerra não é lá longe. Com uma profundíssima tristeza na voz contou que à volta de casa dos pais só existe morte e destruição. As notícias que lhe chegam (ele vivem em Amsterdão) são escassas e o meu amigo treme sempre que o telefone toca por achar que vai receber a notícia que teme receber. Os pais do Rany estão em perigo. Assim como toda a família dele.

Não há muito a fazer, diz ele. Quando lhe perguntei como estava a família, a resposta foi lacónica: "They are just trying to survive". Esmagador.

O Rany está hoje um homem diferente. Para trás ficaram já os planos que fizemos para irmos juntos ao Líbano para eu conhecer a irmã que queria tanto apresentar-me. O Líbano que ele queria mostrar-me está a desaparecer rapidamente às mãos de Israel.

No dia de hoje, para o meu amigo Rany e para toda a família Saad, fica a minha oração. Em Portugal existe uma família que reza por uma família no Líbano. Uma oração a um Deus que é o mesmo. Pela paz que todos desejamos.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Lucidez


"Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez."
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassosego'