sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

A tua ausência em todos os lugares


"Era em Setembro nos anfiteatros vazios,
na alameda que subia para onde nos deviamos encontrar,
e não estavas; era um outono que caía sobre
as árvores do estádio, empurrando-lhes
as folhas para cima da mesa da esplanada, onde está vazia a mesa em
que as minhas mãos deviam procurar as tuas; era
a tua ausência em todos os lugares em que eu sabia
que poderias estar à minha espera, e só a sombra
das nuvens me trazia a memória da tua passagem, como
se fosses a ave que parte quando o primeiro sopro
do inverno se anuncia.


Que fazer sem ti, nestes anfiteatros de bancos
vazios, nos corredores melancólicos que levam para
átrios e pátios, nesses relvados onde não vale a pena
sentar-me, perguntar-te se gostas do outono, ou dizer que
os teus olhos é que valem a pena, agora que vejo, neles,
as nuvens que correm para o sul? E tu, sem estares aqui,
dizes-me que não é preciso que eu me lembre de ti; que
estás para chegar, de trás das árvores do estádio, para
limpares de folhas a mesa da esplanada, e pedires-me que
pegue nas tuas mãos, como se o inverno
não estivesse para chegar.

Mas um cansaço antigo prende-me a estes bancos
de anfiteatro; uma indecisão de passos empurra-me por
corredores e salas, em busca de um bar que fechou
há muito; o vento varreu as folhas da mesa
da esplanada, tirando a única justificação para que venhas. Abro,
então, as gavetas do passado. Tiro cartas, fotografias,
poemas, o livro em que me escreveste a frase interrompida
do amor. Como se eu não soubesse que as nuvens encheram
de sombra todas as imagens; que os pássaros levaram
para o sul tudo o que tinhas para me dizer; que
as folhas no chão cobriram o teu corpo, antes que
o inverno tivesse de o fazer."

Nuno Júdice in 'Cartografia de Emoções'

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Luz



"Diz-me agora o teu nome
se já dissemos que sim
pelo olhar que demora
porque me olhas assim?
Porque me rondas assim?
Toda a luz da avenida
se desdobra em paixão
magias de druida
pelo teu toque de mão.
São os ventos amenos
pelos mares morenos
do meu coração.
Espelhando as vitrinas
da cidade sem fim
tu surgiste divina
porque me abeiras assim?
Porque me tocas assim?
E trocámos pendentes
velhas palavras tontas
com sotaques diferentes
nossa prosa está pronta.
Dobrando esquinas e gretas
pelo caminho das letras
que todo o resto não conta.
E lá fomos audazes
por passeios tardios
vadiando o asfalto
cruzando outras pontes
de mares que são rios.
E num bar fora de horas
se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa.
Diz-me então que sou teu
que tu és toda para mim
que me pões no apogeu
porque me abraças assim?
Porque me beijas assim?
Por esta noite adiante
se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim.
À luz vã dos faróis
são de seda os lençóis
porque me amas assim?"


Fausto por Cristina Branco in 'Ulisses'

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Coisas simples

"Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios."


Nuno Júdice

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Há dias...

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder.
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer.
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera.
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade."

Jorge Fernando por Mariza in 'Fado em Mim'

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Amor

"Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum

em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam."


Jorge de Sena

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Chovia

"Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ò meu amor o teu olhar
o meu olhar e o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora
talvez apenas dizer
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos"

Ruy Belo, in 'O Homem de Palavra'

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Palavras


"Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas."

Pedro Tamen in 'Tábua das Matérias - Poesia 1956-1991'

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Vontade


"Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)"

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Maresia

"Mais forte que a ventania
Vieste com a maresia
Amor sem berço nem fim
Foste o mar e um veleiro
Muito mais que o mundo inteiro
Ficaste ancorado em mim

Nem tormentas nem naufrágios
Nem os mais negros presságios
Mudam as cores deste mar
Só eu conheço os segredos
Só eu navego sem medos
Nas águas do teu olhar

Gaivotas de voo rasante
Vão trazendo a cada instante
Notícias de outras marés

Que me importam outras ilhas
Se eu descobri maravilhas
No fundo do meu convés?"


"Ancorado em Mim" por Katia Guerreiro, in 'Nas mãos do Fado'

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Podia



Podia fugir, mas não quero.
Podia esquecer-te mas não consigo.
Podia tentar mas tenho medo.
Podia desistir mas não sou assim.
Podia duvidar mas tenho a certeza.
Podia fingir que não, mas sei que sim.

(para ti, directamente do Luxemburgo)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Aconteceu...


"Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor."
Adriana Calcanhoto por Cristina Branco, in 'Corpo Iluminado'

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Não

Não posso ficar na cama porque encontro o teu cheiro nela. Encontro ali o teu corpo. E lembro-me que sinto falta das tuas mãos sobre mim e sinto saudades do teu rosto sobre os meus ombros e dos nossos pés a brincar no fundo da cama. Quero ir para esse lugar estranho onde estás e deixar-te abraçares-me até pouco antes do dia amanhecer e as outras pessoas acordarem. Porque eu não devia querer isso...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Tudo



“Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo”


Vergílio Ferreira

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Pequenas verdades


"(...) tenho sentido a tua ausência nas palavras que não te escrevo. Trabalho, muito, distracções várias, preocupações mil que me afastam de ti. Nas palavras quero dizer. Em pensamento, tu a interromperes-me as manhãs as tardes as noites. As mesmas manhãs tardes noites que não te escrevo. Sinto-te na ausência do que não digo. Preciso de escrever-te.
Repito: preciso de escrever-te.
Na altura em que acordavas ao meu lado, por vezes achei que tinha tudo por garantido e descurei de elaborar versos com as nossas vidas. Mesmo que não os apreciasses e optasses por dar mais atenção à necrologia dos jornais que não lias. Nessa altura, achava que dizer
-adoro-te
era o mesmo que escrever-te um caderno inteiro só com poemas. Nessas alturas,
- adoro-te
era suficiente para ti, pois nunca aceitarias nada que tivesse maior extensão que aquele microsegundo em que me ouvias e fingias acreditar. Por vezes, abraçados à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, respondias na inevitável repetição do
- também te adoro,
e o meu peito, buscando forças para acreditar no que dizias, sorria. Dali a um pouco, deixar-te-ia. Iria à minha vida e tu continuarias na tua. Os versos que antes te escrevera, tu irias esquecê-los, ao passo que eu optava por recordá-los, aspirando ter oportunidade de os reproduzir numa outra noite em que me dissesses
- adoro-te
e eu, abraçado à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, pudesse responder-te na inevitável repetição de
- também te adoro.
Sabíamos que eram pequenas verdades como estas que nos davam forças para continuar a nossa grande mentira."

Paulo Ferreira, in 'Cartas a Mónica'

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Tu


"Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim."

António Mega Ferreira in 'Amor'

Eu sei



"Eu sei, não te conheço mas existes.
Por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

(...)
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo."



sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Companhia

"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."


Alberto Caeiro

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Coisa simples


"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói."


Nuno Júdice, in 'Poesia Reunida'

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Cansaço


"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Tarde



"Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate"


José Tolentino Mendonça in 'A Noite Abre Meus Olhos'