sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Vontade


"Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)"

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Maresia

"Mais forte que a ventania
Vieste com a maresia
Amor sem berço nem fim
Foste o mar e um veleiro
Muito mais que o mundo inteiro
Ficaste ancorado em mim

Nem tormentas nem naufrágios
Nem os mais negros presságios
Mudam as cores deste mar
Só eu conheço os segredos
Só eu navego sem medos
Nas águas do teu olhar

Gaivotas de voo rasante
Vão trazendo a cada instante
Notícias de outras marés

Que me importam outras ilhas
Se eu descobri maravilhas
No fundo do meu convés?"


"Ancorado em Mim" por Katia Guerreiro, in 'Nas mãos do Fado'

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Podia



Podia fugir, mas não quero.
Podia esquecer-te mas não consigo.
Podia tentar mas tenho medo.
Podia desistir mas não sou assim.
Podia duvidar mas tenho a certeza.
Podia fingir que não, mas sei que sim.

(para ti, directamente do Luxemburgo)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Aconteceu...


"Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor."
Adriana Calcanhoto por Cristina Branco, in 'Corpo Iluminado'

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Não

Não posso ficar na cama porque encontro o teu cheiro nela. Encontro ali o teu corpo. E lembro-me que sinto falta das tuas mãos sobre mim e sinto saudades do teu rosto sobre os meus ombros e dos nossos pés a brincar no fundo da cama. Quero ir para esse lugar estranho onde estás e deixar-te abraçares-me até pouco antes do dia amanhecer e as outras pessoas acordarem. Porque eu não devia querer isso...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Tudo



“Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo”


Vergílio Ferreira

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Pequenas verdades


"(...) tenho sentido a tua ausência nas palavras que não te escrevo. Trabalho, muito, distracções várias, preocupações mil que me afastam de ti. Nas palavras quero dizer. Em pensamento, tu a interromperes-me as manhãs as tardes as noites. As mesmas manhãs tardes noites que não te escrevo. Sinto-te na ausência do que não digo. Preciso de escrever-te.
Repito: preciso de escrever-te.
Na altura em que acordavas ao meu lado, por vezes achei que tinha tudo por garantido e descurei de elaborar versos com as nossas vidas. Mesmo que não os apreciasses e optasses por dar mais atenção à necrologia dos jornais que não lias. Nessa altura, achava que dizer
-adoro-te
era o mesmo que escrever-te um caderno inteiro só com poemas. Nessas alturas,
- adoro-te
era suficiente para ti, pois nunca aceitarias nada que tivesse maior extensão que aquele microsegundo em que me ouvias e fingias acreditar. Por vezes, abraçados à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, respondias na inevitável repetição do
- também te adoro,
e o meu peito, buscando forças para acreditar no que dizias, sorria. Dali a um pouco, deixar-te-ia. Iria à minha vida e tu continuarias na tua. Os versos que antes te escrevera, tu irias esquecê-los, ao passo que eu optava por recordá-los, aspirando ter oportunidade de os reproduzir numa outra noite em que me dissesses
- adoro-te
e eu, abraçado à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, pudesse responder-te na inevitável repetição de
- também te adoro.
Sabíamos que eram pequenas verdades como estas que nos davam forças para continuar a nossa grande mentira."

Paulo Ferreira, in 'Cartas a Mónica'

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Tu


"Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim."

António Mega Ferreira in 'Amor'

Eu sei



"Eu sei, não te conheço mas existes.
Por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

(...)
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo."



sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Companhia

"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."


Alberto Caeiro

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Coisa simples


"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói."


Nuno Júdice, in 'Poesia Reunida'

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Cansaço


"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Tarde



"Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate"


José Tolentino Mendonça in 'A Noite Abre Meus Olhos'

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Novo dia

" E para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente"

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 20 de janeiro de 2007

Já...

Já me dói a tua ausência... Chegámos mesmo ao fim?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

"De que vale a alguém ganhar o mundo inteiro se perder a alma?"

in 'O Aventureiro de Deus', de Pedro Miguel Lamet

sábado, 6 de janeiro de 2007

O quereres...

"Onde queres revolver, sou coqueiro. E onde queres dinheiro, sou paixão. Onde queres descanso, sou desejo. E onde sou só desejo, queres não. E onde não queres nada, nada falta. E onde voas bem alto, eu sou o chão. E onde pisas o chão, minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão. Onde queres família, sou maluco. E onde queres romântico, burguês. Onde queres Leblon, sou Pernanbuco. E onde queres eunuco, garanhão. Onde queres o sim e o não, talvez. E onde vês, eu nao vislumbro razão. Onde queres o lobo, eu sou o irmão. E onde queres cowboy, eu sou chinês. Onde queres o acto, eu sou o espírito. E onde queres ternura, eu sou tesão. Onde queres o livre, decassílabo. E onde buscas o anjo, eu sou mulher. Onde queres prazer, sou o que dói. E onde queres tortura, mansidão. Onde queres um lar, revolução. E onde queres bandido, sou herói.
(...)
O quereres e o estares sempre a fim, do que em mim é de mim tão desigual, faz-me querer-te bem, querer-te mal. Bem a ti, mal ao quereres assim. Infinitamente pessoal. E eu querendo querer-te sem ter fim. E querendo-te, aprender o total do querer que há e do que não há em mim."

'O Quereres' de Caetano Veloso, por Lula Pena in 'Phados'

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Quando eu amo


"Quando eu amo
Eu devoro
Todo o meu coração
Eu odeio
Eu adoro
Numa mesma oração"


'Baioque' de Chico Buarque, por Maria Bethânia
in 'Maria Bethânia Interpreta Chico Buarque de Todas as Maneiras'

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

To trust


"Trust is a fragile thing. Once earned, it affords us tremendous freedom. But once trust is lost, it can be impossible to recover. Of course the truth is, we never know who we can trust. Those we're closest to can betray us, and total strangers can come to our rescue. In the end, most people decide to trust only themselves. It really is the simplest way to keep from getting burned."

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Mágoa


"(...)
Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te."


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'No tempo dividido'

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Primeira liberdade



"Eu falo da primeira liberdade
Do primeiro dia que era mar e luz
Dança, brisa, ramagens e segredos
E um primeiro amor morto tão cedo
Que em tudo que era vivo se encarnava."


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'No tempo dividido'

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Año nuevo


"Acaba de una vez
de un solo golpe
porque quieres matarme
poco a poco
Si va a llegar el dia
que me abandones
prefiero corazon
que sea esta noche
Diciembre me gusto
pa' que te vayas
que sea tu cruel adios
mi Navidad
No quiero comenzar
el año nuevo
con este mismo amor
que me hace tanto mal
Y ya despues
que pasen muchas cosas
que estes arrepentida
que tengas mucho miedo
Vas a saber
que aquello que dejaste
fue lo que mas quisiste
pero ya no hay remedio
Diciembre me gusto
pa' que te vayas
que sea tu cruel adios
mi Navidad
No quiero comenzar
el año nuevo
con este mismo amor
que me hace tanto mal"

José Alfredo Jiménez, in 'Amarga Navidad' por Lila Downs

domingo, 31 de dezembro de 2006

Sabor

Cruel é olhar para cada pessoa com quem tive uma relação e encará-la como um fracasso meu.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Vita Nuova


Quando vi aquela imagem no espelho, vi que não era eu. A barba cresceu muito rápido desde a última vez; eu já não consigo acreditar nas pessoas de quem gosto. Eu estou mal e não posso fazer nada senão dormir e esperar. Amanhã vou acordar cedo e tirar a barba, tirar também toda a desconfiança e o peso dos meus ombros. Eu quero ver-ME, ao menos uma vez mais.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Aparência

Eu gosto da minha aparência nos dias em que acordo assim; lábios cerrados, olhar baixo, sorriso forçado no canto da boca. Eu só não gosto de me sentir desta forma.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Ficções

É curioso ver que tu estás muito feliz e eu estou assim, desolado. E vens dizer-me que é para sempre? Desculpas! Mas eu vou conseguir arrancar-te da minha vida, não importa quantos pedaços de mim se percam pelo caminho, ou quantas vezes eu te queira de novo. Se é para alguém morrer na minha vida, prefiro que sejas tu. Mesmo assim é para sempre, ok?

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Morte de luz


"Perdi-me muitas vezes pelo mar, o ouvido cheio de flores recém cortadas, a língua cheia de amor e de agonia. Muitas vezes perdi-me pelo mar, como me perco no coração de alguns meninos. Não há noite em que, ao dar um beijo, não sinta o sorriso das pessoas sem rosto (...). Porque as rosas buscam na frente uma dura paisagem de osso e as mãos do homem não têm mais sentido senão imitar as raízes sob a terra. Como me perco no coração de alguns meninos, perdi-me muitas vezes pelo mar. Ignorante da água vou buscando uma morte de luz que me consuma."
Frederico Garcia Llorca

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Morrer não dói


"O amor é o ridículo da vida. A gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora. A vida veio e me levou com ela. Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como as borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não dói."
Cazuza

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Às vezes





"Às vezes é no meio do silêncio que descubro o amor em teu olhar.
É uma pedra ou é um grito que nasce em qualquer lugar.
Às vezes é no meio de tanta gente que descubro afinal aquilo que sou.
Sou um grito ou sou uma pedra de um lugar onde não estou.

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
e aquilo em que ninguém quer acreditar.
Às vezes sou também um sim alegre ou um triste não.

E troco a minha vida por um dia de ilusão...
e troco a minha vida por um dia de ilusão.

Às vezes é no meio do silêncio que descubro as palavras por dizer.
É uma pedra ou é um grito de um amor por acontecer.
Às vezes é no meio de tanta gente que descubro afinal para onde vou.
E esta pedra e este grito são a história daquilo que eu sou. "
Maria Guinot, in 'Silêncio é tanta gente'

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Espera


"Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça"
Mário Cesariny

Pensar em nada


"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o tejo não mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grande navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."


Alberto Caeiro, in 'Guardador de Rebanhos'

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Cinzas


"Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras."

Sophia de Mello Breyner Andersen

sábado, 9 de dezembro de 2006

Fica...


"E aqueles olhos tão lindos afastaram-se dos meus..."
9 palavras de Pedro Homem de Mello e uma imagem do "E tudo o vento levou" para dizer que não quero que desistas...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Fria claridade


"Em todos os meus sentidos, tive presságios de adeus..."

Pedro Homem de Mello, in 'Fria Claridade'

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Quem és...


"(...)

És
para meu desespero
Como as nuvens que andam altas
Todos os dias te espero
Todos os dias me faltas."


Linhares Barbosa, in "Os teus olhos são dois círios"

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Cansaço (Fado-Tango)





"Por trás do espelho quem está
De olhos fixados nos meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao deus-dará
Deixando os olhos nos meus.
Quem dorme na minha cama,
E tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama,
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos.
Tudo o que faço ou não faço,
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim."

Luís de Macedo, por Cristina Branco in "Live"

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Deixai-me

"Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio"

Sophia de Mello Breyner Adrensen

sábado, 25 de novembro de 2006

Pausa



Vou ali, já venho...

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Horas


"Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais."
Michael Cunningham, in 'As Horas'

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Certezas


“Não se pode ter muitos amigos e mesmo os poucos amigos que se tem, não se podem ter tanto como nos apetecia. Para não passar mal, aprende-se a economia da amizade, ciência um bocado triste e um bocado simples que consiste em ampliar os gestos e os momentos de comunidade para compensar os grandes desertos de silêncio e de separação que são normais. Como por exempo? Como, por exemplo, abrir mesmo os braços e dar mesmo um abraço. Dizer mesmo na cara de alguém «Tu és um grande amigo» e ser mesmo verdade. Acho que não é de aproveitar todos os momentos como se fossem os únicos, porque isso seria uma forma de paixão, mas antes estarmos com os amigos, nos poucos momentos que se têm, como se nunca nos tivéssemos separado.
A amizade é uma condição que nunca pode ser excepcional. Tem de ser habitual e eterna e previsível. E a economia dela nota-se mais quando reparamos que, sempre que não estamos com os nossos amigos, estamos sempre a falar deles. É bom dizer bem de um amigo, sem que ele venha a saber que dissemos. E ter a certeza que ele faz o mesmo, pensando que nós não sabemos.
A amizade vale mais que a razão, o senso comum, o espírito crítico e tudo o mais que tantas vezes justifica a conversação, o convívio e a traição. A amizade tem de ser uma coisa à parte, onde a razão não conta. Ter um amigo é como ter uma certeza. Num mundo onde certezas, como é óbvio, não há.”

Miguel Esteves Cardoso, inOs Amigos e os Amigalhaços

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Apesar de mim


"O que costumava amar, já não amo
minto: amo, mas amo menos
ainda assim continuo a mentir:
amo, mas mais envergonhadamente, mais tristemente
agora é que disse a verdade.
De facto, é assim: amo, mas desejaria não amar o que amo, desejaria odiá-lo
amo todavia, mas sem querer, mas coagido, mas triste e em pranto.
E, mísero, em mim mesmo experimento aquele famosíssimo dito:
Odiarei se puder
se não, amarei apesar de mim."


obrigado pela descoberta e pela partilha, Miguel

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

amor


"amor
o amor perdido
o amor de ti e de mim
O amor que só aparece
quando o amor está no fim"

José Manuel dos Santos, in 'O Livro dos Registos'

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Flor da Pele





"Ando tão à flor da pele,
que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele,
que teu olhar, flor na janela, me faz morrer
Ando tão à flor da pele,
que meu desejo se confunde com a vontade de ... não ser
Ando tão à flor da pele,
que a minha pele tem o fogo do juízo final"
Flor da Pele de Zeca Baleiro, in 'Por Onde Andará Stephen Fry?'

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Ruas


"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
— a delimitar a tua altura
e bebo a água
e sorvo o ar que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco"

Mario Cesariny

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Nada

"Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minha alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
-Onde existo que não existo em mim?

..........................................................
Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas
-Tudo outro espasmo que principio ou fim..."


Mário de Sá Carneiro, in 'Obra Poética Completa'

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Shhh...


Há dias assim, em que só o silêncio me convém...

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Quando*






Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,

E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'
por Katia Guerreiro, in 'Tudo ou Nada'
.
.
*Se fosse viva, Sophia faria hoje 87 anos.

domingo, 5 de novembro de 2006

Mentira


"De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ... - Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade... Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram."

Jorge de Sena, in 'Genesis'

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Agonia


"(...) Mas na realidade não sei ainda se quero que te vás ou fiques, é tão difícil saber. Porque num caso ou noutro agonizo. Mas como sabes há um outro de nós que escolhe quando é de ser, mesmo contra o que julgamos querer. Assim, hoje ao acordar fiquei aterrado ao ver que de noite me rolara para o meio da cama. Deitei-me como sempre do meu lado, para deixar livre o teu no caso de resolveres voltar e te deitares nele. Mas o sono levou-me para o sítio que é o bom e fica à minha esquerda. Porque é que eu me passei para o meio da cama? e só acho uma como resposta o teres morrido para sempre. E fiquei horrorizado da minha libertação. Não vás ainda. Volta de novo. Vou deitar-me outra vez no meu lugar e deixar o teu à espera. Vem de noite sem eu dar conta e acordar contigo ainda no teu sono e tocar-te e seres tu. (...)"
Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Último Adeus




"Talvez por não saber falar de cor, imaginei. Talvez por não saber o que será melhor, aproximei. "O meu corpo é o teu corpo, o desejo entregue a nós". Sei lá eu o que queres dizer... Despedir-me de ti, adeus um dia voltarei a ser feliz. Talvez por não saber falar de cor, aproximei. Triste é o virar as costas, o último adeus sabe Deus o que quero dizer. Obrigado por saberes cuidar de mim, tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou... E se ao menos tudo fosse igual a ti. Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, já não sei se sei o que é sentir. Se por falar falei, pensei que se falasse era fácil de entender... É o amor que chega ao fim, um final assim assim é mais fácil de entender..."

The Gift, in "Fácil de Entender"