sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

A tua ausência em todos os lugares


"Era em Setembro nos anfiteatros vazios,
na alameda que subia para onde nos deviamos encontrar,
e não estavas; era um outono que caía sobre
as árvores do estádio, empurrando-lhes
as folhas para cima da mesa da esplanada, onde está vazia a mesa em
que as minhas mãos deviam procurar as tuas; era
a tua ausência em todos os lugares em que eu sabia
que poderias estar à minha espera, e só a sombra
das nuvens me trazia a memória da tua passagem, como
se fosses a ave que parte quando o primeiro sopro
do inverno se anuncia.


Que fazer sem ti, nestes anfiteatros de bancos
vazios, nos corredores melancólicos que levam para
átrios e pátios, nesses relvados onde não vale a pena
sentar-me, perguntar-te se gostas do outono, ou dizer que
os teus olhos é que valem a pena, agora que vejo, neles,
as nuvens que correm para o sul? E tu, sem estares aqui,
dizes-me que não é preciso que eu me lembre de ti; que
estás para chegar, de trás das árvores do estádio, para
limpares de folhas a mesa da esplanada, e pedires-me que
pegue nas tuas mãos, como se o inverno
não estivesse para chegar.

Mas um cansaço antigo prende-me a estes bancos
de anfiteatro; uma indecisão de passos empurra-me por
corredores e salas, em busca de um bar que fechou
há muito; o vento varreu as folhas da mesa
da esplanada, tirando a única justificação para que venhas. Abro,
então, as gavetas do passado. Tiro cartas, fotografias,
poemas, o livro em que me escreveste a frase interrompida
do amor. Como se eu não soubesse que as nuvens encheram
de sombra todas as imagens; que os pássaros levaram
para o sul tudo o que tinhas para me dizer; que
as folhas no chão cobriram o teu corpo, antes que
o inverno tivesse de o fazer."

Nuno Júdice in 'Cartografia de Emoções'

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Luz



"Diz-me agora o teu nome
se já dissemos que sim
pelo olhar que demora
porque me olhas assim?
Porque me rondas assim?
Toda a luz da avenida
se desdobra em paixão
magias de druida
pelo teu toque de mão.
São os ventos amenos
pelos mares morenos
do meu coração.
Espelhando as vitrinas
da cidade sem fim
tu surgiste divina
porque me abeiras assim?
Porque me tocas assim?
E trocámos pendentes
velhas palavras tontas
com sotaques diferentes
nossa prosa está pronta.
Dobrando esquinas e gretas
pelo caminho das letras
que todo o resto não conta.
E lá fomos audazes
por passeios tardios
vadiando o asfalto
cruzando outras pontes
de mares que são rios.
E num bar fora de horas
se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa.
Diz-me então que sou teu
que tu és toda para mim
que me pões no apogeu
porque me abraças assim?
Porque me beijas assim?
Por esta noite adiante
se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim.
À luz vã dos faróis
são de seda os lençóis
porque me amas assim?"


Fausto por Cristina Branco in 'Ulisses'

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Coisas simples

"Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios."


Nuno Júdice

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Há dias...

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder.
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer.
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera.
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade."

Jorge Fernando por Mariza in 'Fado em Mim'

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Amor

"Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum

em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam."


Jorge de Sena

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Chovia

"Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ò meu amor o teu olhar
o meu olhar e o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora
talvez apenas dizer
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos"

Ruy Belo, in 'O Homem de Palavra'

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Palavras


"Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas."

Pedro Tamen in 'Tábua das Matérias - Poesia 1956-1991'

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Vontade


"Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)"

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Maresia

"Mais forte que a ventania
Vieste com a maresia
Amor sem berço nem fim
Foste o mar e um veleiro
Muito mais que o mundo inteiro
Ficaste ancorado em mim

Nem tormentas nem naufrágios
Nem os mais negros presságios
Mudam as cores deste mar
Só eu conheço os segredos
Só eu navego sem medos
Nas águas do teu olhar

Gaivotas de voo rasante
Vão trazendo a cada instante
Notícias de outras marés

Que me importam outras ilhas
Se eu descobri maravilhas
No fundo do meu convés?"


"Ancorado em Mim" por Katia Guerreiro, in 'Nas mãos do Fado'

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Podia



Podia fugir, mas não quero.
Podia esquecer-te mas não consigo.
Podia tentar mas tenho medo.
Podia desistir mas não sou assim.
Podia duvidar mas tenho a certeza.
Podia fingir que não, mas sei que sim.

(para ti, directamente do Luxemburgo)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Aconteceu...


"Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor."
Adriana Calcanhoto por Cristina Branco, in 'Corpo Iluminado'

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Não

Não posso ficar na cama porque encontro o teu cheiro nela. Encontro ali o teu corpo. E lembro-me que sinto falta das tuas mãos sobre mim e sinto saudades do teu rosto sobre os meus ombros e dos nossos pés a brincar no fundo da cama. Quero ir para esse lugar estranho onde estás e deixar-te abraçares-me até pouco antes do dia amanhecer e as outras pessoas acordarem. Porque eu não devia querer isso...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Tudo



“Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo”


Vergílio Ferreira

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Pequenas verdades


"(...) tenho sentido a tua ausência nas palavras que não te escrevo. Trabalho, muito, distracções várias, preocupações mil que me afastam de ti. Nas palavras quero dizer. Em pensamento, tu a interromperes-me as manhãs as tardes as noites. As mesmas manhãs tardes noites que não te escrevo. Sinto-te na ausência do que não digo. Preciso de escrever-te.
Repito: preciso de escrever-te.
Na altura em que acordavas ao meu lado, por vezes achei que tinha tudo por garantido e descurei de elaborar versos com as nossas vidas. Mesmo que não os apreciasses e optasses por dar mais atenção à necrologia dos jornais que não lias. Nessa altura, achava que dizer
-adoro-te
era o mesmo que escrever-te um caderno inteiro só com poemas. Nessas alturas,
- adoro-te
era suficiente para ti, pois nunca aceitarias nada que tivesse maior extensão que aquele microsegundo em que me ouvias e fingias acreditar. Por vezes, abraçados à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, respondias na inevitável repetição do
- também te adoro,
e o meu peito, buscando forças para acreditar no que dizias, sorria. Dali a um pouco, deixar-te-ia. Iria à minha vida e tu continuarias na tua. Os versos que antes te escrevera, tu irias esquecê-los, ao passo que eu optava por recordá-los, aspirando ter oportunidade de os reproduzir numa outra noite em que me dissesses
- adoro-te
e eu, abraçado à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, pudesse responder-te na inevitável repetição de
- também te adoro.
Sabíamos que eram pequenas verdades como estas que nos davam forças para continuar a nossa grande mentira."

Paulo Ferreira, in 'Cartas a Mónica'

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Tu


"Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim."

António Mega Ferreira in 'Amor'

Eu sei



"Eu sei, não te conheço mas existes.
Por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

(...)
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo."



sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Companhia

"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."


Alberto Caeiro

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Coisa simples


"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói."


Nuno Júdice, in 'Poesia Reunida'

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Cansaço


"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Tarde



"Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate"


José Tolentino Mendonça in 'A Noite Abre Meus Olhos'

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Novo dia

" E para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente"

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 20 de janeiro de 2007

Já...

Já me dói a tua ausência... Chegámos mesmo ao fim?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

"De que vale a alguém ganhar o mundo inteiro se perder a alma?"

in 'O Aventureiro de Deus', de Pedro Miguel Lamet

sábado, 6 de janeiro de 2007

O quereres...

"Onde queres revolver, sou coqueiro. E onde queres dinheiro, sou paixão. Onde queres descanso, sou desejo. E onde sou só desejo, queres não. E onde não queres nada, nada falta. E onde voas bem alto, eu sou o chão. E onde pisas o chão, minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão. Onde queres família, sou maluco. E onde queres romântico, burguês. Onde queres Leblon, sou Pernanbuco. E onde queres eunuco, garanhão. Onde queres o sim e o não, talvez. E onde vês, eu nao vislumbro razão. Onde queres o lobo, eu sou o irmão. E onde queres cowboy, eu sou chinês. Onde queres o acto, eu sou o espírito. E onde queres ternura, eu sou tesão. Onde queres o livre, decassílabo. E onde buscas o anjo, eu sou mulher. Onde queres prazer, sou o que dói. E onde queres tortura, mansidão. Onde queres um lar, revolução. E onde queres bandido, sou herói.
(...)
O quereres e o estares sempre a fim, do que em mim é de mim tão desigual, faz-me querer-te bem, querer-te mal. Bem a ti, mal ao quereres assim. Infinitamente pessoal. E eu querendo querer-te sem ter fim. E querendo-te, aprender o total do querer que há e do que não há em mim."

'O Quereres' de Caetano Veloso, por Lula Pena in 'Phados'

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Quando eu amo


"Quando eu amo
Eu devoro
Todo o meu coração
Eu odeio
Eu adoro
Numa mesma oração"


'Baioque' de Chico Buarque, por Maria Bethânia
in 'Maria Bethânia Interpreta Chico Buarque de Todas as Maneiras'

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

To trust


"Trust is a fragile thing. Once earned, it affords us tremendous freedom. But once trust is lost, it can be impossible to recover. Of course the truth is, we never know who we can trust. Those we're closest to can betray us, and total strangers can come to our rescue. In the end, most people decide to trust only themselves. It really is the simplest way to keep from getting burned."

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Mágoa


"(...)
Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te."


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'No tempo dividido'

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Primeira liberdade



"Eu falo da primeira liberdade
Do primeiro dia que era mar e luz
Dança, brisa, ramagens e segredos
E um primeiro amor morto tão cedo
Que em tudo que era vivo se encarnava."


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'No tempo dividido'

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Año nuevo


"Acaba de una vez
de un solo golpe
porque quieres matarme
poco a poco
Si va a llegar el dia
que me abandones
prefiero corazon
que sea esta noche
Diciembre me gusto
pa' que te vayas
que sea tu cruel adios
mi Navidad
No quiero comenzar
el año nuevo
con este mismo amor
que me hace tanto mal
Y ya despues
que pasen muchas cosas
que estes arrepentida
que tengas mucho miedo
Vas a saber
que aquello que dejaste
fue lo que mas quisiste
pero ya no hay remedio
Diciembre me gusto
pa' que te vayas
que sea tu cruel adios
mi Navidad
No quiero comenzar
el año nuevo
con este mismo amor
que me hace tanto mal"

José Alfredo Jiménez, in 'Amarga Navidad' por Lila Downs

domingo, 31 de dezembro de 2006

Sabor

Cruel é olhar para cada pessoa com quem tive uma relação e encará-la como um fracasso meu.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Vita Nuova


Quando vi aquela imagem no espelho, vi que não era eu. A barba cresceu muito rápido desde a última vez; eu já não consigo acreditar nas pessoas de quem gosto. Eu estou mal e não posso fazer nada senão dormir e esperar. Amanhã vou acordar cedo e tirar a barba, tirar também toda a desconfiança e o peso dos meus ombros. Eu quero ver-ME, ao menos uma vez mais.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Aparência

Eu gosto da minha aparência nos dias em que acordo assim; lábios cerrados, olhar baixo, sorriso forçado no canto da boca. Eu só não gosto de me sentir desta forma.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Ficções

É curioso ver que tu estás muito feliz e eu estou assim, desolado. E vens dizer-me que é para sempre? Desculpas! Mas eu vou conseguir arrancar-te da minha vida, não importa quantos pedaços de mim se percam pelo caminho, ou quantas vezes eu te queira de novo. Se é para alguém morrer na minha vida, prefiro que sejas tu. Mesmo assim é para sempre, ok?

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Morte de luz


"Perdi-me muitas vezes pelo mar, o ouvido cheio de flores recém cortadas, a língua cheia de amor e de agonia. Muitas vezes perdi-me pelo mar, como me perco no coração de alguns meninos. Não há noite em que, ao dar um beijo, não sinta o sorriso das pessoas sem rosto (...). Porque as rosas buscam na frente uma dura paisagem de osso e as mãos do homem não têm mais sentido senão imitar as raízes sob a terra. Como me perco no coração de alguns meninos, perdi-me muitas vezes pelo mar. Ignorante da água vou buscando uma morte de luz que me consuma."
Frederico Garcia Llorca

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Morrer não dói


"O amor é o ridículo da vida. A gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora. A vida veio e me levou com ela. Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como as borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não dói."
Cazuza

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Às vezes





"Às vezes é no meio do silêncio que descubro o amor em teu olhar.
É uma pedra ou é um grito que nasce em qualquer lugar.
Às vezes é no meio de tanta gente que descubro afinal aquilo que sou.
Sou um grito ou sou uma pedra de um lugar onde não estou.

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
e aquilo em que ninguém quer acreditar.
Às vezes sou também um sim alegre ou um triste não.

E troco a minha vida por um dia de ilusão...
e troco a minha vida por um dia de ilusão.

Às vezes é no meio do silêncio que descubro as palavras por dizer.
É uma pedra ou é um grito de um amor por acontecer.
Às vezes é no meio de tanta gente que descubro afinal para onde vou.
E esta pedra e este grito são a história daquilo que eu sou. "
Maria Guinot, in 'Silêncio é tanta gente'

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Espera


"Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça"
Mário Cesariny

Pensar em nada


"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o tejo não mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grande navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."


Alberto Caeiro, in 'Guardador de Rebanhos'

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Cinzas


"Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras."

Sophia de Mello Breyner Andersen

sábado, 9 de dezembro de 2006

Fica...


"E aqueles olhos tão lindos afastaram-se dos meus..."
9 palavras de Pedro Homem de Mello e uma imagem do "E tudo o vento levou" para dizer que não quero que desistas...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Fria claridade


"Em todos os meus sentidos, tive presságios de adeus..."

Pedro Homem de Mello, in 'Fria Claridade'

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Quem és...


"(...)

És
para meu desespero
Como as nuvens que andam altas
Todos os dias te espero
Todos os dias me faltas."


Linhares Barbosa, in "Os teus olhos são dois círios"

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Cansaço (Fado-Tango)





"Por trás do espelho quem está
De olhos fixados nos meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao deus-dará
Deixando os olhos nos meus.
Quem dorme na minha cama,
E tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama,
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos.
Tudo o que faço ou não faço,
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim."

Luís de Macedo, por Cristina Branco in "Live"

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Deixai-me

"Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio"

Sophia de Mello Breyner Adrensen

sábado, 25 de novembro de 2006

Pausa



Vou ali, já venho...

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Horas


"Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais."
Michael Cunningham, in 'As Horas'

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Certezas


“Não se pode ter muitos amigos e mesmo os poucos amigos que se tem, não se podem ter tanto como nos apetecia. Para não passar mal, aprende-se a economia da amizade, ciência um bocado triste e um bocado simples que consiste em ampliar os gestos e os momentos de comunidade para compensar os grandes desertos de silêncio e de separação que são normais. Como por exempo? Como, por exemplo, abrir mesmo os braços e dar mesmo um abraço. Dizer mesmo na cara de alguém «Tu és um grande amigo» e ser mesmo verdade. Acho que não é de aproveitar todos os momentos como se fossem os únicos, porque isso seria uma forma de paixão, mas antes estarmos com os amigos, nos poucos momentos que se têm, como se nunca nos tivéssemos separado.
A amizade é uma condição que nunca pode ser excepcional. Tem de ser habitual e eterna e previsível. E a economia dela nota-se mais quando reparamos que, sempre que não estamos com os nossos amigos, estamos sempre a falar deles. É bom dizer bem de um amigo, sem que ele venha a saber que dissemos. E ter a certeza que ele faz o mesmo, pensando que nós não sabemos.
A amizade vale mais que a razão, o senso comum, o espírito crítico e tudo o mais que tantas vezes justifica a conversação, o convívio e a traição. A amizade tem de ser uma coisa à parte, onde a razão não conta. Ter um amigo é como ter uma certeza. Num mundo onde certezas, como é óbvio, não há.”

Miguel Esteves Cardoso, inOs Amigos e os Amigalhaços

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Apesar de mim


"O que costumava amar, já não amo
minto: amo, mas amo menos
ainda assim continuo a mentir:
amo, mas mais envergonhadamente, mais tristemente
agora é que disse a verdade.
De facto, é assim: amo, mas desejaria não amar o que amo, desejaria odiá-lo
amo todavia, mas sem querer, mas coagido, mas triste e em pranto.
E, mísero, em mim mesmo experimento aquele famosíssimo dito:
Odiarei se puder
se não, amarei apesar de mim."


obrigado pela descoberta e pela partilha, Miguel

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

amor


"amor
o amor perdido
o amor de ti e de mim
O amor que só aparece
quando o amor está no fim"

José Manuel dos Santos, in 'O Livro dos Registos'

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Flor da Pele





"Ando tão à flor da pele,
que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele,
que teu olhar, flor na janela, me faz morrer
Ando tão à flor da pele,
que meu desejo se confunde com a vontade de ... não ser
Ando tão à flor da pele,
que a minha pele tem o fogo do juízo final"
Flor da Pele de Zeca Baleiro, in 'Por Onde Andará Stephen Fry?'

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Ruas


"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
— a delimitar a tua altura
e bebo a água
e sorvo o ar que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco"

Mario Cesariny