sábado, 26 de maio de 2007

Still nights


"Ideal voices we have greatly loved,
of those that death has taken, or of those
that are, for us, lost, even as are the dead.
At times we hear them talking in our dreams;
at times in thought they echo through the brain.
And, with the sound of them, awhile recur
sounds from the first poetry of our lives, —
like music, on still nights, far off, that wanes."
C. P. Cavafy

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Sentido

"Porque estou tão saudoso de ti. Ou não de ti, talvez, mas de um tempo em que tudo em ti se centralizava. Ou não do tempo mas de quanto foi a minha vida e eu procuro numa palavra que viesse desde então até mim e não encontro. (...)
És o que no fim de contas me lembra só. Como se toda a vida se reunisse nela e nela se iluminasse e tivesse sentido."


Vergílio Ferreira in 'Para Sempre'

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Do outro lado

"Que há atrás dessa porta?
Não chames, não perguntes, ninguém responderá,
nada pode abri-la,
nem a gazua da curiosidade
nem a pequena chave da razão
nem o martelo da impaciência.
Não fales, não perguntes,
aproxima-te, encosta a orelha:
- não ouves a respiração?
Lá do outro lado,
como tu alguém pergunta:
- que há atrás dessa porta?"


quarta-feira, 16 de maio de 2007

Espaço negro

"Não vás. E não fui. Ainda que todo o dia, toda a vida, tivesse esperado aquele instante, único entre todos os instantes, ainda que tivesse imaginado o mundo ao pormenor depois da fronteira pequena daquele instante, não fui. Não vás. Ainda que se tivesse levantado uma cegonha a planar como um abraço que nunca demos, mas que julgámos possível, ainda que todo eu a tenha olhado, ainda que lhe tenha dito espera por mim, hoje vou buscar-te, ainda que o crepúsculo nos tenha visto onde só vão os mais sinceros, entrei neste quarto, e deitei-me nesta cama, e deixei que o instante único passasse indistinto e que toda a minha vida se tornas­se um lugar penoso de instantes desperdiçados, instantes desperdi­çados antes do tempo, durante o fastidioso do seu tempo, depois da memória má do seu tempo, no tédio de não ter e de não esperar nada. Não vás. E não fui. (...)
Abro e fecho a porta da rua. A noite é como a conheço: negra e profunda, a isolar-me dentro de si e a dizer-me que também eu sou a noite que a noite é. Não ponho as mãos nos bolsos, deixo-as e deixo os braços. Levanto a cabeça e olho a noite no céu, não as estrelas, mas o espaço negro que as separa."

José Luís Peixoto in 'Nenhum Olhar'

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Nunca possuir

"Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!
Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção p'ra me afundar no lodo.
Não sou amigo de ninguém. P'ra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...
Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...
Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...
Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...
Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...
De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo."
Mário de Sá Carneiro in 'No lado esquerdo da alma'

domingo, 13 de maio de 2007

Avec le temps




"Avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues
- alors vraiment
avec le temps on n'aime plus"

Léo Ferré, 1971

sábado, 12 de maio de 2007

Almost literature

- It's ok. 't was just another stupid joke... And I was sleeping on the couch, with a movie running. Thanks!
- Miss you...
- Not more than I do...
- And why all this...?
- I'm looking for seduction, desire and true love. You were quite clear about what you'd have to give. So I just came back to reality. Easy?
- Seduction was always there. Desire too... True love comes with time... Well you're the master... Maybe you're right being so defensive... Miss you anyway...
- I didn't say anything had to be there right away, you just need to feel things available to come. And one action makes the other react. We're never sure, off course. That's life. I decided to live it strong: I need to feel things the way I have them to give. Maybe that's a problem...
- Maybe I have to say sorry... But I like you and I miss you anyway...
- If you feel it, say it. All I ever need is truth or sincerity.
- Did you ever feel that I wasn't true to you?
- Maybe yes, I do. I felt too much poetry and less passion for reality. They're both roles to play, the way I feel them and the way I believe them.
- I'm sorry if I've disappointed you. I care too much for you... I really do...
- And maybe I wanted you too much. That's the way things are. At one point you have to carry them and keep on driving with your goals. Even if it hurts...
- There is something stupid with timings in life... Sometimes you meet a person that seems so right but you meet him on the wrong time... Why is that? To test us? To make us feel bad?
- That's just because it's not the person. I believe. But, who am I?
- You are who you are and I am who I am... And time is what it is... And missing you hurts. And you stepped out of the game. Lack of courage or fear of getting hurt? Am I that bad? Was the set so scary? What have we done to our joy of laughing together...? We could/should have done love and not war...
- I never gave you the right to put me on a stand by shelf. I'm sorry if you have timing problems. To laugh together is better than an orchestra: is to be there completely and give yourself. You feel stupid if you realise you're laughing alone. I've had too much of that. This is not easy for me, really.
- Ok... (silence)
- Maybe one day, if you feel it. Maybe I'm still here falling asleep with movies and having casual flirts to find you. Maybe not. That's the timing problem. I really like you. So maybe I will. Have fun.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Desespero

"As God is my witness, as God is my witness they're not going to lick me. I'm going to live through this and when it's all over, I'll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I'll never be hungry again."

Margaret Mitchell in 'E tudo o vento levou'

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Puro irreal

"Que é que eu amo em ti? Não é o teu corpo, não é o teu espírito, mas a transfiguração de um pelo outro, a transcendência da tua carne frágil, a abordagem de quem tu és no mais profundo de ti; na posse compacta de toda tu, no espasmo de um punho cerrado - dorme. Não posso dormir, não quero. Como perder esta hora máxima de ser, de tocar toda a realidade secreta, drasticamente separada, segregada da minha ânsia em agonia? Porque tu eras para mim o puro irreal e imaginário, o subtil incorpóreo, a pura iluminação sem consistência, a aparência do não-ser, a terrível beleza intocável, a graça aérea imaterial. E agora estavas ao pé de mim, e eu estendo a mão devagar para condensar em realidade a tua imaterialização. Como dormir e perder-te e acordar depois - tu não estavas aqui e ser tudo fantástico de impossível?..."

Vergílio Ferreira in 'Para Sempre'

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Tout peut s'oublier

"Ne me quitte pas, Il faut oublier, Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà Oublier le temps Des malentendus Et le temps perdu
A savoir comment Oublier ces heures Qui tuaient parfois A coups de pourquoi Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai Des perles de pluie Venues de pays Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre Jusqu'après ma mort Pour couvrir ton corps D'or et de lumière
Je ferai un domaine Où l'amour sera roi Où l'amour sera loi Où tu seras reine
Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Je t'inventerai Des mots insensés Que tu comprendras
Je te parlerai De ces amants-là Qui ont vu deux fois Leurs cœurs s'embraser
Je te raconterai L'histoire de ce roi Mort de n'avoir pas Pu te rencontrer
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
On a vu souvent Rejaillir le feu D'un ancien volcan Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il Des terres brûlées Donnant plus de blé Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir Pour qu'un ciel flamboie Le rouge et le noir Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer Je ne vais plus parler
Je me cacherai là A te regarder Danser et sourire Et à t'écouter Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir L'ombre de ton ombre L'ombre de ta main L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas."

Jacques Brel, 1959

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Momento

"Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos, e o meu destino apareceu-me na alma como um precipício. A minha vida passada misturou-se com a futura, e houve no meio um ruído do salão de fumo, onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado na sensação das ondas! Ah, embalado na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã, de pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas, de não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali, em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse. Ah, afundado num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono, irrequieto tão sossegadamente, tão análogo de repente à criança que fui outrora quando brincava na quinta e não sabia álgebra, nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.
Ah, todo eu anseio por esse momento sem importância nenhuma na minha vida. Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos — Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma, aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o compreender. E havia luar e mar e a solidão (...)."

Álvaro de Campos in 'Poesia'

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Falta

"De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres."


Vergílio Ferreira in 'Pensar'

terça-feira, 1 de maio de 2007

My face is not sad, but inside, I am sad

"In any other world
You could tell the difference
And let it all unfurl
Into broken remnants
Smile like you mean it
And let yourself let go
Cos it's all in the hands of a bitter, bitter man
Say goodbye to the world you thought you lived in
Take a bow, play the part of a lonely lonely heart
Say goodbye to the world you thought you lived in
To the world you thought you lived in
I tried to live alone
But lonely is so lonely, alone
So human as I am
I had to give up my defences

So I smiled and tried to mean it
To let myself let go
Cos it's all in the hands of a bitter, bitter man
Say goodbye to the world you thought you lived in
Take a bow, play the part of a lonely lonely heart
Say goodbye to the world you thought you lived in
To the world you thought you lived in
Cos it's all in the hands of a bitter, bitter man
Say goodbye to the world you thought you lived in
Take a bow, play the part of a lonely lonely heart
In any other world
You could tell the difference

"I never ever, I forget my story.
My face is not sad, but inside, I am sad."

'Any other world' por Mika in 'Life In Cartoon Motion'

segunda-feira, 30 de abril de 2007

A última noite de amor

"Sinto que se aproxima de mim um destino que não escolhi. O amor corrói-me a pele, mistura-se ao desejo e não me deixa sossegar, nem mesmo quando durmo - mas o amor não é eterno. Deve ser avassaladora e medonha a última noite de amor...
(...)
Precisava bem de falar de ti, arrumar contigo duas ideias. Não sei bem que ideias sejam antes de as pensar e começarem a existir. Não sei bem o que sejam além desta curiosidade de as pensar... Gostava de saber porque te amo nesta forma estranha de te não ter amado nunca..."

Vergílio Ferreira in 'Na Tua Face'

sábado, 28 de abril de 2007

Um ano de Inquietude

in 'Tacones Lejanos' de Pedro Almodovar

Obrigado a todos quantos lêem e seguem as Inquietudes. Um ano de blog, um ano de inquietudes, um ano de amor. Um espaço que surgiu do silêncio e que tem encontrado voz nas palavras dos poetas que mais gosto. Mensagens para ninguém que se dirigem a cada um. Um ano depois continuo a entusiasmar-me com versos alheios. Um ano depois continuo a querer descobrir a foto perfeita para acompanhar as palavras perfeitas. Uma viagem solitária que tem encontrado companhia pelo caminho. A todos muito obrigado.

(O vídeo que ilustra o post? Só uma excentricidade. O que eu estava à procura era mesmo da música da Luz Casal mas no youtube foi só isto que apareceu. Como gostamos de Almodovar e gostamos do kitsch pareceu-nos bem!)

sexta-feira, 27 de abril de 2007

O teu sofrimento

"(...) Lembrei-me daquela vez em que me telefonaste a dizer que querias passar comigo uma noite em cheio. Contavas comigo para te surpreender. Fiquei numa excitação infantil. Fui para casa e como estava uma noite de verão quentíssima achei que poderíamos comer na varanda, que era o mais próximo do grande terraço com que sempre sonhaste... Fiz tudo o que era suposto. Cozinhei as coisas mais sofisticadas que sabia, com direito a entrada e sobremesa. Pus a mesa lá fora, com velas e um ambiente o mais quente e tropical possível, que nos remetesse a um cenário exótico, lembrando talvez as férias em conjunto sempre prometidas, mas nunca cumpridas... Quando acabei todos estes preparativos tomei um daqueles duches que nos deixam preparados para nos amarmos. Vesti uma camisa branca, a tua favorita, e acendi as velas todas da casa. A voz do João Gilberto fez-me companhia na aparelhagem e esperei por ti. Esperei... esperei... e nunca apareceste. Quando te liguei respondeste que não te tinha dado jeito aparecer. “Não te tinha dado jeito”... Como se tudo o que me tinha motivado não significasse nada para ti... E de facto não significava. Não te sei dizer o que senti.
Vou contar-te uma história. A minha mãe sempre trabalhou muito, fora de casa. Chegava muito tarde e eu já estava deitado. Naqueles momentos após eu me deitar, ficava muito direito e quieto na cama, esperando que a porta de casa abrisse. Era terrível aquela angústia, a de não querer adormecer sem ouvir o barulho da chave que significava que provavelmente a mãe iria ao quarto dar-me um beijo de boa noite. Acabava sempre por adormecer, e no meio da revolta da manhã seguinte, ficava em mim uma sensação de vazio que me deixava inseguro e muito só. Pior que isso era estar acordado e perceber que os passos dela se encaminhavam para todos os lados menos para o meu quarto. Aí sim, sofria a sério. Sentia algo a quebrar-se por dentro e penso, agora, que foi assim que fui perdendo a noção de ser criança.

Conto-te isto porque nessa noite, todas essas imagens e sensações da minha infância voltaram a percorrer o meu cérebro. Acho que por instantes voltei a ser a criança solitária que fui. Desta vez não chorei, desta vez limitei-me a apanhar os pedacinhos de mim. E prometi a mim mesmo que iria ser forte de novo. Dias depois começou o teu processo penoso em direcção ao fim. E eu esqueci-me da minha promessa e mesmo contra tua vontade, acompanhei-te e estive ao teu lado, assistindo a algo que sempre me proibiste de ver: o teu sofrimento."


Pedro Rapoula in 'Iniciação à Tristeza'

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Luz

"Se eu pudesse deixar de correr
Caminhava se eu pudesse deixar de caminhar
Sentava-me à sombra da nogueira azul do céu
Se eu pudesse deitar-me deitava-me
Numa cova com a forma do meu corpo em
Repouso se eu pudesse deixar de cantar
Fechava os olhos e olhava o alto vazio
Onde não acontece nada a não ser
A conciliação provisória do caos
E da luz que não se cansa de nascer."
Casimiro de Brito in 'Na Via Do Mestre'

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Madrugada

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 24 de abril de 2007

Tarde

"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"


José Carlos Ary dos Santos in 'As Palavras das Cantigas'

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Lonely

"(...) I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me,
Love is touching souls
Surely you touched mine
'Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time (...)"

Joni Mitchell por Cristina Branco in 'Ulisses'