domingo, 1 de julho de 2007

Vestígio de passagem


"Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem."


Fernando Pessoa
* Foto de Daniel Gustav Cramer (cuja exposição pode ser vista na Vera Cortes Art Agency até 7 de Setembro)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

El valor de no negarlo...

"Por tu amor que tanto quiero, y tanto extraño
que me sirvan otra copa y muchas mas
que me sirvan de una vez pa' todo el año
que me pienso seriamente enborrachar
Si te cuentan que me vieron muy borracho
orgullosamente diles que es por ti
porque yo tendre el valor de no negarlo
gritare que por tu amor me estoy matando
y sabran que por tus besos me perdi
Para de hoy en adelante ya el amor no me interesa
cantare por todo el mundo mi dolor y mi tristeza
Porque se que de este golpe ya no voy a levantarme
y aunque yo no lo quisiera voy a morirme de amor..."

José Alfredo Jiménez por Lila Downs, in 'La Cantina - De copa en copa'

Cada um de nós

"(...) Mas tudo para mim foi difícil e provisório, porque eu estava impaciente pelo que não era isso. Mas havia um cerimonial a cumprir para afastar o mais possível o seu terceiro andar de uma casa de passe. Oh, gostei bem que não fosse, eu amava-te decerto. Era um amor geometrizado na linearidade do teu corpo, como hei-de dizer? no rigor de seres um ser corpóreo. Porque o teu corpo perfeito adiantava-se sobre ti e era com ele que eu primeiro me defrontava. Que é que quer dizer amor? contigo não o sabia, nunca o soube, teria alguma significação? ou a significação não é dele mas de cada um de nós ou de tudo aquilo com que somos cada um de nós. (...)"
.
Vergílio Ferreira, in 'Até ao Fim'

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Grande silêncio

"(...) grito para o universo, sento-me de novo confundido. Estás só, estás só e em silêncio, aguenta em ti tudo o que é de ti - berro desvairado, calo-me no grande silêncio que alastra pela tarde, os olhos doridos, o queixo tremente. Estou só comigo, que destino dar a isto?"

Vergílio Ferreira

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Que sintas o que sinto

"Quando me sinto só como tu me deixaste,
Mais só que um vagabundo num banco de jardim,
É quando tenho dó de mim e, por contraste,
Eu tenho ódio ao mundo que nos separa assim.
Quando me sinto só sabe-me a boca a fado,
Lamento de quem chora a sua triste mágoa.
Rastejando no pó, o meu coração cansado
Lembra uma velha nora, morrendo à sede de água.
Para que não façam pouco, procuro não gritar,
A quem pergunta, minto, não quero que tenham dó.
Num egoísmo louco eu chego a desejar
Que sintas o que sinto quando me sinto só."

Artur Ribeiro e Joaquim Campos por Mariza, in 'Transparente'

quarta-feira, 20 de junho de 2007

De que foges

"(...) Prometi a mim mesmo que vou regressar à vida. Para isso inventei um ritual. Agarrei na caixa que tenho com as infinitas fotografias que te tirei e decidi que todos os dias escolho uma. Passo horas a fixá-la até a conhecer de cor e no fim rasgo-a em mil pedaços. Conto com isto acabar com todas a fotografias e poder enfim passar a um plano menos corpóreo da tua memória. Porque se conseguir fixar todos os teus traços e expressões, não vai haver perigo de que te esqueça. É disso que tenho medo. De me esquecer da tua cara. Há histórias de pessoas que a pouco e pouco vão esquecendo as feições dos que mais amaram. (...) Mas já pensaste o que seria, se te esquecesse?
(...) Como encaravas tu o encontrares-me com outra pessoa aqui em casa, profanando aquele espaço que sempre foi tão nosso? Tens o teu território marcado, é o que penso para comigo. Não posso ultrapassar o peso da tua presença, mas reconheço que por vezes me falta o ar quando penso na eternidade desse teu estado imaterial. Sei que me rodeias mas por vezes a força para te agarrar não chega e foges de mim, correndo pela casa, brincando comigo. Tenho medo disso. Porque foges tu? És feliz?(...)"
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Perdido no vazio de outros passos

"Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando me encontrar
E nesse desepero em que me vejo
já cheguei a tal ponto
de me trocar diversas vezes por você
só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la."

Caetano Veloso

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Regresso à solidão

O "meio-termo" não me chega, disse-te eu no meio das lágrimas. "Amo-te mas quero mais. Não posso viver com alguém que se contenta com as pequenas migalhas de tempo que me sobram." As tuas lágrimas continuavam a correr como um rio e ainda assim, quebrado por dentro, eu não conseguia parar de falar. "Regresso à solidão de onde saí quando te conheci". Saíste do carro e a chuva não parava. Fiquei ali a ver-te entrar no prédio e esperei que acendesses a luz da casa que construímos juntos. Voltaste atrás e pediste que me fosse embora mas estranhamente não conseguia ligar o carro, como se o ir-me embora significasse deixar-te para sempre.

Nunca imaginei que a nossa relação pudesse terminar assim. Mas a chuva de Junho devia ser um prenúncio de que as coisas iam chegar ao fim. Não te amei à primeira vista como me disseram que aconteceria quando conhecesse o grande amor da minha vida. Por isso, agora que chegou o fim, a dor que sinto vale por todas as pessoas que amei e que perdi até hoje.

O tempo cura tudo. Mas as cicatrizes não desaparecem nunca. O fim de um grande amor deixa uma marca e um vazio tão grande que não imagino que o tempo alguma vez vá apagar o teu cheiro, o teu sorriso, o brilho dos teus olhos quando me vias chegar, os beijos apaixonados que me davas quando nos despedíamos, a alegria do teu rosto quando estávamos juntos, a escolha cuidada das tuas palavras para me agradares.

Agora é real. Acabou mesmo. Lembro-me de algo que escrevi no passado e vejo que depois de te conhecer tudo faz mais sentido: "O teu olhar fazia-me acreditar na distância do eterno e na proximidade do amor. Quando a nossa entrega era real, o tempo tornava-se nosso aliado e os momentos de eternidade pareciam estar em nós. E aí, viver de ti e para ti parecia-me a única saída. A forma como nos amávamos era intemporal e o modo como sorrias não fazia mais que confirmar essa intemporalidade. Olho em volta e não te encontro e neste momento de uma lucidez cortante apercebo-me de que te perdi. Faço um esforço para acreditar que não partiste, que te pertenço, que me pertences e para nós não existe tempo nem espaço. Nós somos o tempo e o espaço, a noite e o dia, o longe e o perto. Não no sentido antagónico das verdades mas na verdade complementar dos sentidos: viver em nós, morrer em mim. Olho em volta, mais uma vez, e a tua ausência subitamente não faz sentido porque te amo, porque me amas e porque é em ti que me preencho. Sinto o teu cheiro em mim e vejo o teu corpo no meu. Porque é aí que existes, na procura que fazemos um do outro. Em qualquer outra noite sei que estendo o braço e no teu lado frio da cama descubro o corpo quente e familiar que me completa e me acalma. Chamo por ti e o teu nome enche o espaço como se o ar não existisse no deserto da tua presença. E sei que respondes com o sim que nunca disseste e com a aceitação de um amor que nunca recebeste."

Curiosamente fui eu que, em nome de não sei bem o quê, abdiquei do teu amor e da tua entrega. Regresso à solidão. E só a memória dos nossos momentos felizes fará com que o meu Verão não seja tão frio como a chuva que caiu no momento em que liguei o carro e me afastei da tua rua.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Parcela de ilusão

"Apetecia-me ficar por aqui, mas espera, ainda quero dizer-te uma coisa. Lembras-te de uma noite te ter perguntado se duas pessoas podiam viver juntas em mundos diferentes? Tu ficaste muito sério, percebi que, por qualquer razão que tinha a ver com a tua história pessoal, era uma pergunta que já te tinhas colocado a ti próprio. Depois, quase a medo, disseste que teoricamente era uma hipótese admissível, que durante muitos anos tinhas pensado que essa era mesmo a forma mais recomendável para evitar o tédio que nasce do hábito quando a rotina se sobrepõe aos afectos, que talvez essa fosse a única forma de fazer uma relação sobreviver no tempo, mas que era preciso que na base desse entendimento houvesse uma espécie de pacto, aqui o meu domínio reservado, ali o teu, mas o pior, disseste, o pior é que, pouco a pouco, os territórios vão-se definindo até à incomunicabilidade, e os seus lugares relativos crescem até ocuparem os espaço inteiros que antes era o domínio comum dos sonhos e dos projectos, e sem sonho, tu mesmo o disseste, sem sonho não há amor que resista.

Ficaste calado muito tempo, tinhas qualquer coisa dentro de ti e eu vi que não estava lá, que nunca estaria lá, e senti um ciúme insuportável da tua vida, de tudo o que cabia dentro da tua vida, as tuas alegrias e o teu sofrimento, a tua mágoa injustificável e o teu sorriso sem contemplação, os romances que querias escrever e até aqueles que não sabes ainda que vais escrever. E era isso a sensação de dois mundos separados, de dois universos que nunca poderiam sobrepor-se, de duas metades que nunca se juntariam uma à outra, dir-me-ás, mas nunca se juntam, eu sei, mas por favor, deixa-me essa última parcela de ilusão, eu quero acreditar, ao menos por algum tempo mais, que a vida tem que ser uma e uma só, e isso, se acontecer, acontece para sempre, e fica estampado no vidro baço do nosso desejo de perdição."


António Mega Ferreira, in 'A Expressão dos Afectos'

A minha solidão

"Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, (...) se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio."

António Lobo Antunes, in 'Memória de Elefante'

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Deixa-me ser feliz

"Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada."

Miguel Torga, in 'Antologia Poética'

terça-feira, 12 de junho de 2007

Quase esquecimento

"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo."

Sophia de Mello Breyner Andresen in 'Pirata'

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Sempre, então...

- Como estás?
- Bem...
- Não estás bem? Ou apenas cansado? Não sei e a incerteza preocupa-me...
- Cansado. Muito cansado. Excessivamente cansado.
- Vai para casa e dorme.
- Não percebeste... Estou irremediavelmente cansado.
- Vai descansar, por favor... Dorme.
- I will... Latter...
- Estou aqui para ti.
- Ok, mas não é preciso estares...
- Estarei sempre.
- Sempre?
- Mesmo que não queiras.
- "Sempre" não é exagero?
- Não, porquê?
- Mesmo que eu não queira?
- Sim.
- Qual é o interesse de estares mesmo que eu não queira? És masoquista?
- Sim.
- Isso é território dos amigos. "Estar sempre" só os amigos é que o fazem..
- E que sou eu?
- Muito bem. Sempre, então...
- Achas que não?
- Acho que sim. Mas o tempo o dirá.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Hoje nada sou

"Você, que tanto tempo faz,
Você que eu não conheço mais
Você, que um dia eu amei demais
Você, que ontem me sufocou
De amor e de felicidade
Hoje me sufoca de saudade
Você, que já não diz pra mim
As coisas que eu preciso ouvir
Você, que até hoje eu não esqueci
Você que, eu tento me enganar
Dizendo que tudo passou
Na realidade, aqui em mim você ficou
Você que eu não encontro mais
Os beijos que já não lhe dou
Fui tanto pra você
E hoje nada sou"

Roberto Carlos

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Um céu para me acontecer...

"Entrego ao vento os meus ais
Onde o desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata
Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde
Na vontade de ser tua
Quero ser
Eu sou assim
Sete pedaços de vento
Sete vozes no jardim
No jardim que eu própria invento
Sete ares de nostalgia
Sete perfumes diversos
Nos cristais da fantasia
Amante de amores dispersos
Sete gritos por gritar
Sete silêncios viver
Sete luas por brilhar
E um céu para me acontecer
Entrego ao vento os meus ais
Onde desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata
Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua"


José Luís Gordo por Cristina Branco in 'Ulisses'

quinta-feira, 31 de maio de 2007

De Amicitia

"(...) Tinha uma paixão secundária, mas não menos importante, embora possivelmente não tão egoísta e seguramente menos solitária. Cultivava os amigos, não este nem aquele em especial, mas os amigos, como entes que corporizavam uma categoria sobre a qual era capaz de discorrer horas a fio: a amizade. (...) Citava Cícero mas não sabia mais do De Amicitia que uma frase (...) que, na sua imprecisa recordação, dizia mais mais ou menos assim: «De todas as virtudes humanas, nenhuma é tão rara e tão próxima do coração do homem como a amizade.» Praticava com zelo a disciplina, como ele a entendia: não perguntava nada, não pedia nada, disponibilizava-se para tudo o que os amigos precisassem. E seguia as necessidades dos outros com uma bulimia do pormenor que ficaria bem a um detective, intuindo-lhes desejos, adivinhando-lhes projectos, antecipando gestos e afectos. Era um verdadeiro amigo, diziam os amigos; ele, modestamente, achava-se apenas um homem comum.(...)."
António Mega Ferreira, in 'A Expressão dos Afectos'

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Alma inquieta

"No berço que a ilha encerra
Bebo as rimas deste canto
No mar alto desta terra
Nada a razão do meu pranto.

Mas no terreiro da vida
O jantar serve de ceia
E mesmo a dor mais sentida
Dá lugar à sapateia.

Refrão
Ó meu bem ó chamarrita
Meu alento e vai e vem
Vou embarcar nesta dança
Sapateia, ó meu bem.

Se a sapateia não der
P'ra acalmar minha alma inquieta
Estou pró que der e vier
Nas voltas da chamarrita.

Chamarrita Sapateia
Eu quero é contradizer
No alento desta bruma
Que ás vezes me que vencer."

'Chamateia' de Luís Bettencourt e António Melo e Sousa
.
A versão que é cantada não é a que eu queria. Ouvi esta música pela primeira vez há muito pouco tempo, no Dia Mudial da Música, em Outubro passado, num fim de semana extraordinário que passei nos Açores. Na companhia da minha irmã e de mais alguns (excelentes) amigos tive a oportunidade de ver e ouvir a maior fadista portuguesa viva interpretar este tema tão sentido da música popular portuguesa. A minha querida Katia Guerreiro fez história naquela noite do Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. Foi, de resto, a primeira vez que voltei àquela terra onde vivemos quando éramos crianças e a nossa amizade começou. Ela ficou por lá até ser grande e eu vim ainda pequeno. Hoje ela é a única pessoa que percebe o peso da bruma na minha alma inquieta. Os Açores marcam quem lá vive e ainda que eu tenha saído de lá com apenas 4 anos continuo a sentir o "alento desta bruma Que ás vezes me que vencer", como canta a música. Porque é uma música de saudade e porque hoje me sinto assim, nostálgico, fica a lembrança.

sábado, 26 de maio de 2007

Still nights


"Ideal voices we have greatly loved,
of those that death has taken, or of those
that are, for us, lost, even as are the dead.
At times we hear them talking in our dreams;
at times in thought they echo through the brain.
And, with the sound of them, awhile recur
sounds from the first poetry of our lives, —
like music, on still nights, far off, that wanes."
C. P. Cavafy

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Sentido

"Porque estou tão saudoso de ti. Ou não de ti, talvez, mas de um tempo em que tudo em ti se centralizava. Ou não do tempo mas de quanto foi a minha vida e eu procuro numa palavra que viesse desde então até mim e não encontro. (...)
És o que no fim de contas me lembra só. Como se toda a vida se reunisse nela e nela se iluminasse e tivesse sentido."


Vergílio Ferreira in 'Para Sempre'

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Do outro lado

"Que há atrás dessa porta?
Não chames, não perguntes, ninguém responderá,
nada pode abri-la,
nem a gazua da curiosidade
nem a pequena chave da razão
nem o martelo da impaciência.
Não fales, não perguntes,
aproxima-te, encosta a orelha:
- não ouves a respiração?
Lá do outro lado,
como tu alguém pergunta:
- que há atrás dessa porta?"