segunda-feira, 16 de julho de 2007

Meu estremecimento

"Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém."
António Gedeão, in 'Poesia Completa'

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Trazer-te no sangue

"Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue."
Rainer Marie Rilke, in 'Livro das Horas'

terça-feira, 10 de julho de 2007

A luz da noite

"É noite. O jardim resplandece à luz fraca, rasteira dos candeeiros. Ganha espessura o teu jardim, ganha vida, respondeste, olhei para as ondas, percebi que era ao seu movimento cadenciado, como um corpo adormecido, que te referias. Claro, é mais parecido, na sombra da noite escura, com o mar. O teu silêncio, depois uma pausa, depois de novo o teu silêncio, respiraste fundo: não, sim, ou melhor, sim, não. Como o mar, disseste, mas não pelas formas, sim por causa das almas que o habitam, cada corpo que aqui se deitou, cada abraço, cada grito ou choro de criança ou zanga de adulto ou mão hábil de jardineiro, a sua história só de noite se vê, recortada contra a luz que nos cega. A luz da noite, percebes? Os teus dedos tocaram nos meus ombros, os meus ombros encostaram-se aos teus dedos, foram ao encontro das mãos, roçaram pelos teus seios, aconchegaram-se no côncavo do teu corpo. Os restos de uma onda vieram cobrir-me os pés."

António Mega Ferreira, in 'A Expressão dos Afectos'


segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ao silêncio

"Como é difícil entendermo-nos com a vida. Nós a compor, ela a estragar. Nós a propor, ela a destruir. O ideal seria então não tentarmos entender-nos com ela mas apenas connosco. Simplesmente o nós com que nos entendêssemos depende infinitamente do que a vida faz dele. Assim jamais o poderemos evitar. E todavia, alguns dir-se-ia conseguirem-no. Que força de si mesmos ou importância de si mesmos eles inventam em si para a sobreporem ao mais? Jamais o conseguirei. O que há de grande em mim equilibra-se nas infinitas complacências da vida que me ameaça ou me trai. E é nesses pequenos intervalos que vou erguendo o que sou. Mas fatigada decerto de ser complacente, à medida que a paciência se lhe esgota em ser intervalarmente tolerante, ela vai-me sendo intolerante sem intervalo nenhum. E então não há coragem que chegue e toda a virtude se me esgota na resignação. É triste para quem sonhou estar um pouco acima dela. Mas o simples dizê-lo é já ser mais do que ela. A resignação total é a que vai dar ao silêncio."

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 4'

quinta-feira, 5 de julho de 2007

O dia dos meus anos*


*para o André que faz hoje anos...
"No tempo em que festejava o dia dos meus anos
Eu era feliz e ninguém estava morto
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha
Estava certa como uma religião qualquer
No tempo em que festejava o dia dos meus anos
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma
De ser inteligente para entre a família
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças."

Fernando Pessoa

No sé del dolor

"Cuando te hablen de amor y de ilusiones
y te ofrezcan un sol y un cielo entero;
si te acuerdas de mí no me menciones
porque vas a sentir amor del bueno.
Y si quieren saber de tu pasado
es preciso decir una mentira,
dí que vienes de allá de un mundo raro,
que no sabes llorar, que no entiendes de amor
y que nunca has amado.
Porque yo a donde voy, hablaré de tu amor
como un sueño dorado
y olvidando el rencor no diré que tu amor
me volvio desgraciado.
Y si quieren saber de mi pasado,
es preciso decir otra mentira,
les diré que llegué de un mundo raro,
que no sé del dolor, que triunfé en el amor
y que nunca he llorado."
José Alfredo Jiménez

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Embriaguez de ti

Chegámos já as luzes se tinham apagado. Deixei que te sentasses primeiro para escolher o lugar de onde te poderia admirar melhor. Começou. E eu ignorava o palco para te poder observar. A estrela do espectáculo eras tu. A minha paisagem era o teu perfil. A minha música era a tua respiração. As luzes eram o brilho dos teus olhos. Ah, que vontade de mexer no teu cabelo, dar-te a mão, tocar a tua pele. Que vontade de perceber que a tua indiferença era apenas timidez, que o teu silêncio era apenas deferência, que o teu sorriso era todo para mim... Que vontade que as luzes nunca se acendessem para poder estar ali ao teu lado a sentir a tua entrega. Que desejo de que me amasses. Abandonei-me àquela contemplação. Deixei ficar a minha perna ao teu lado, sem te tocar, de tal forma próxima que sentia o calor do teu corpo. Quase esquecia a névoa que me saía do olhar sempre que te ausentavas. Que momento sublime. Que desejo. Que amor. Ah que embriaguez de ti!

domingo, 1 de julho de 2007

Vestígio de passagem


"Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem."


Fernando Pessoa
* Foto de Daniel Gustav Cramer (cuja exposição pode ser vista na Vera Cortes Art Agency até 7 de Setembro)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

El valor de no negarlo...

"Por tu amor que tanto quiero, y tanto extraño
que me sirvan otra copa y muchas mas
que me sirvan de una vez pa' todo el año
que me pienso seriamente enborrachar
Si te cuentan que me vieron muy borracho
orgullosamente diles que es por ti
porque yo tendre el valor de no negarlo
gritare que por tu amor me estoy matando
y sabran que por tus besos me perdi
Para de hoy en adelante ya el amor no me interesa
cantare por todo el mundo mi dolor y mi tristeza
Porque se que de este golpe ya no voy a levantarme
y aunque yo no lo quisiera voy a morirme de amor..."

José Alfredo Jiménez por Lila Downs, in 'La Cantina - De copa en copa'

Cada um de nós

"(...) Mas tudo para mim foi difícil e provisório, porque eu estava impaciente pelo que não era isso. Mas havia um cerimonial a cumprir para afastar o mais possível o seu terceiro andar de uma casa de passe. Oh, gostei bem que não fosse, eu amava-te decerto. Era um amor geometrizado na linearidade do teu corpo, como hei-de dizer? no rigor de seres um ser corpóreo. Porque o teu corpo perfeito adiantava-se sobre ti e era com ele que eu primeiro me defrontava. Que é que quer dizer amor? contigo não o sabia, nunca o soube, teria alguma significação? ou a significação não é dele mas de cada um de nós ou de tudo aquilo com que somos cada um de nós. (...)"
.
Vergílio Ferreira, in 'Até ao Fim'

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Grande silêncio

"(...) grito para o universo, sento-me de novo confundido. Estás só, estás só e em silêncio, aguenta em ti tudo o que é de ti - berro desvairado, calo-me no grande silêncio que alastra pela tarde, os olhos doridos, o queixo tremente. Estou só comigo, que destino dar a isto?"

Vergílio Ferreira

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Que sintas o que sinto

"Quando me sinto só como tu me deixaste,
Mais só que um vagabundo num banco de jardim,
É quando tenho dó de mim e, por contraste,
Eu tenho ódio ao mundo que nos separa assim.
Quando me sinto só sabe-me a boca a fado,
Lamento de quem chora a sua triste mágoa.
Rastejando no pó, o meu coração cansado
Lembra uma velha nora, morrendo à sede de água.
Para que não façam pouco, procuro não gritar,
A quem pergunta, minto, não quero que tenham dó.
Num egoísmo louco eu chego a desejar
Que sintas o que sinto quando me sinto só."

Artur Ribeiro e Joaquim Campos por Mariza, in 'Transparente'

quarta-feira, 20 de junho de 2007

De que foges

"(...) Prometi a mim mesmo que vou regressar à vida. Para isso inventei um ritual. Agarrei na caixa que tenho com as infinitas fotografias que te tirei e decidi que todos os dias escolho uma. Passo horas a fixá-la até a conhecer de cor e no fim rasgo-a em mil pedaços. Conto com isto acabar com todas a fotografias e poder enfim passar a um plano menos corpóreo da tua memória. Porque se conseguir fixar todos os teus traços e expressões, não vai haver perigo de que te esqueça. É disso que tenho medo. De me esquecer da tua cara. Há histórias de pessoas que a pouco e pouco vão esquecendo as feições dos que mais amaram. (...) Mas já pensaste o que seria, se te esquecesse?
(...) Como encaravas tu o encontrares-me com outra pessoa aqui em casa, profanando aquele espaço que sempre foi tão nosso? Tens o teu território marcado, é o que penso para comigo. Não posso ultrapassar o peso da tua presença, mas reconheço que por vezes me falta o ar quando penso na eternidade desse teu estado imaterial. Sei que me rodeias mas por vezes a força para te agarrar não chega e foges de mim, correndo pela casa, brincando comigo. Tenho medo disso. Porque foges tu? És feliz?(...)"
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Perdido no vazio de outros passos

"Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando me encontrar
E nesse desepero em que me vejo
já cheguei a tal ponto
de me trocar diversas vezes por você
só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la."

Caetano Veloso

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Regresso à solidão

O "meio-termo" não me chega, disse-te eu no meio das lágrimas. "Amo-te mas quero mais. Não posso viver com alguém que se contenta com as pequenas migalhas de tempo que me sobram." As tuas lágrimas continuavam a correr como um rio e ainda assim, quebrado por dentro, eu não conseguia parar de falar. "Regresso à solidão de onde saí quando te conheci". Saíste do carro e a chuva não parava. Fiquei ali a ver-te entrar no prédio e esperei que acendesses a luz da casa que construímos juntos. Voltaste atrás e pediste que me fosse embora mas estranhamente não conseguia ligar o carro, como se o ir-me embora significasse deixar-te para sempre.

Nunca imaginei que a nossa relação pudesse terminar assim. Mas a chuva de Junho devia ser um prenúncio de que as coisas iam chegar ao fim. Não te amei à primeira vista como me disseram que aconteceria quando conhecesse o grande amor da minha vida. Por isso, agora que chegou o fim, a dor que sinto vale por todas as pessoas que amei e que perdi até hoje.

O tempo cura tudo. Mas as cicatrizes não desaparecem nunca. O fim de um grande amor deixa uma marca e um vazio tão grande que não imagino que o tempo alguma vez vá apagar o teu cheiro, o teu sorriso, o brilho dos teus olhos quando me vias chegar, os beijos apaixonados que me davas quando nos despedíamos, a alegria do teu rosto quando estávamos juntos, a escolha cuidada das tuas palavras para me agradares.

Agora é real. Acabou mesmo. Lembro-me de algo que escrevi no passado e vejo que depois de te conhecer tudo faz mais sentido: "O teu olhar fazia-me acreditar na distância do eterno e na proximidade do amor. Quando a nossa entrega era real, o tempo tornava-se nosso aliado e os momentos de eternidade pareciam estar em nós. E aí, viver de ti e para ti parecia-me a única saída. A forma como nos amávamos era intemporal e o modo como sorrias não fazia mais que confirmar essa intemporalidade. Olho em volta e não te encontro e neste momento de uma lucidez cortante apercebo-me de que te perdi. Faço um esforço para acreditar que não partiste, que te pertenço, que me pertences e para nós não existe tempo nem espaço. Nós somos o tempo e o espaço, a noite e o dia, o longe e o perto. Não no sentido antagónico das verdades mas na verdade complementar dos sentidos: viver em nós, morrer em mim. Olho em volta, mais uma vez, e a tua ausência subitamente não faz sentido porque te amo, porque me amas e porque é em ti que me preencho. Sinto o teu cheiro em mim e vejo o teu corpo no meu. Porque é aí que existes, na procura que fazemos um do outro. Em qualquer outra noite sei que estendo o braço e no teu lado frio da cama descubro o corpo quente e familiar que me completa e me acalma. Chamo por ti e o teu nome enche o espaço como se o ar não existisse no deserto da tua presença. E sei que respondes com o sim que nunca disseste e com a aceitação de um amor que nunca recebeste."

Curiosamente fui eu que, em nome de não sei bem o quê, abdiquei do teu amor e da tua entrega. Regresso à solidão. E só a memória dos nossos momentos felizes fará com que o meu Verão não seja tão frio como a chuva que caiu no momento em que liguei o carro e me afastei da tua rua.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Parcela de ilusão

"Apetecia-me ficar por aqui, mas espera, ainda quero dizer-te uma coisa. Lembras-te de uma noite te ter perguntado se duas pessoas podiam viver juntas em mundos diferentes? Tu ficaste muito sério, percebi que, por qualquer razão que tinha a ver com a tua história pessoal, era uma pergunta que já te tinhas colocado a ti próprio. Depois, quase a medo, disseste que teoricamente era uma hipótese admissível, que durante muitos anos tinhas pensado que essa era mesmo a forma mais recomendável para evitar o tédio que nasce do hábito quando a rotina se sobrepõe aos afectos, que talvez essa fosse a única forma de fazer uma relação sobreviver no tempo, mas que era preciso que na base desse entendimento houvesse uma espécie de pacto, aqui o meu domínio reservado, ali o teu, mas o pior, disseste, o pior é que, pouco a pouco, os territórios vão-se definindo até à incomunicabilidade, e os seus lugares relativos crescem até ocuparem os espaço inteiros que antes era o domínio comum dos sonhos e dos projectos, e sem sonho, tu mesmo o disseste, sem sonho não há amor que resista.

Ficaste calado muito tempo, tinhas qualquer coisa dentro de ti e eu vi que não estava lá, que nunca estaria lá, e senti um ciúme insuportável da tua vida, de tudo o que cabia dentro da tua vida, as tuas alegrias e o teu sofrimento, a tua mágoa injustificável e o teu sorriso sem contemplação, os romances que querias escrever e até aqueles que não sabes ainda que vais escrever. E era isso a sensação de dois mundos separados, de dois universos que nunca poderiam sobrepor-se, de duas metades que nunca se juntariam uma à outra, dir-me-ás, mas nunca se juntam, eu sei, mas por favor, deixa-me essa última parcela de ilusão, eu quero acreditar, ao menos por algum tempo mais, que a vida tem que ser uma e uma só, e isso, se acontecer, acontece para sempre, e fica estampado no vidro baço do nosso desejo de perdição."


António Mega Ferreira, in 'A Expressão dos Afectos'

A minha solidão

"Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, (...) se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio."

António Lobo Antunes, in 'Memória de Elefante'

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Deixa-me ser feliz

"Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada."

Miguel Torga, in 'Antologia Poética'

terça-feira, 12 de junho de 2007

Quase esquecimento

"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo."

Sophia de Mello Breyner Andresen in 'Pirata'

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Sempre, então...

- Como estás?
- Bem...
- Não estás bem? Ou apenas cansado? Não sei e a incerteza preocupa-me...
- Cansado. Muito cansado. Excessivamente cansado.
- Vai para casa e dorme.
- Não percebeste... Estou irremediavelmente cansado.
- Vai descansar, por favor... Dorme.
- I will... Latter...
- Estou aqui para ti.
- Ok, mas não é preciso estares...
- Estarei sempre.
- Sempre?
- Mesmo que não queiras.
- "Sempre" não é exagero?
- Não, porquê?
- Mesmo que eu não queira?
- Sim.
- Qual é o interesse de estares mesmo que eu não queira? És masoquista?
- Sim.
- Isso é território dos amigos. "Estar sempre" só os amigos é que o fazem..
- E que sou eu?
- Muito bem. Sempre, então...
- Achas que não?
- Acho que sim. Mas o tempo o dirá.