sábado, 26 de maio de 2007

Still nights


"Ideal voices we have greatly loved,
of those that death has taken, or of those
that are, for us, lost, even as are the dead.
At times we hear them talking in our dreams;
at times in thought they echo through the brain.
And, with the sound of them, awhile recur
sounds from the first poetry of our lives, —
like music, on still nights, far off, that wanes."
C. P. Cavafy

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Sentido

"Porque estou tão saudoso de ti. Ou não de ti, talvez, mas de um tempo em que tudo em ti se centralizava. Ou não do tempo mas de quanto foi a minha vida e eu procuro numa palavra que viesse desde então até mim e não encontro. (...)
És o que no fim de contas me lembra só. Como se toda a vida se reunisse nela e nela se iluminasse e tivesse sentido."


Vergílio Ferreira in 'Para Sempre'

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Do outro lado

"Que há atrás dessa porta?
Não chames, não perguntes, ninguém responderá,
nada pode abri-la,
nem a gazua da curiosidade
nem a pequena chave da razão
nem o martelo da impaciência.
Não fales, não perguntes,
aproxima-te, encosta a orelha:
- não ouves a respiração?
Lá do outro lado,
como tu alguém pergunta:
- que há atrás dessa porta?"


quarta-feira, 16 de maio de 2007

Espaço negro

"Não vás. E não fui. Ainda que todo o dia, toda a vida, tivesse esperado aquele instante, único entre todos os instantes, ainda que tivesse imaginado o mundo ao pormenor depois da fronteira pequena daquele instante, não fui. Não vás. Ainda que se tivesse levantado uma cegonha a planar como um abraço que nunca demos, mas que julgámos possível, ainda que todo eu a tenha olhado, ainda que lhe tenha dito espera por mim, hoje vou buscar-te, ainda que o crepúsculo nos tenha visto onde só vão os mais sinceros, entrei neste quarto, e deitei-me nesta cama, e deixei que o instante único passasse indistinto e que toda a minha vida se tornas­se um lugar penoso de instantes desperdiçados, instantes desperdi­çados antes do tempo, durante o fastidioso do seu tempo, depois da memória má do seu tempo, no tédio de não ter e de não esperar nada. Não vás. E não fui. (...)
Abro e fecho a porta da rua. A noite é como a conheço: negra e profunda, a isolar-me dentro de si e a dizer-me que também eu sou a noite que a noite é. Não ponho as mãos nos bolsos, deixo-as e deixo os braços. Levanto a cabeça e olho a noite no céu, não as estrelas, mas o espaço negro que as separa."

José Luís Peixoto in 'Nenhum Olhar'

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Nunca possuir

"Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!
Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção p'ra me afundar no lodo.
Não sou amigo de ninguém. P'ra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...
Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...
Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...
Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...
Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...
De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo."
Mário de Sá Carneiro in 'No lado esquerdo da alma'

domingo, 13 de maio de 2007

Avec le temps




"Avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues
- alors vraiment
avec le temps on n'aime plus"

Léo Ferré, 1971

sábado, 12 de maio de 2007

Almost literature

- It's ok. 't was just another stupid joke... And I was sleeping on the couch, with a movie running. Thanks!
- Miss you...
- Not more than I do...
- And why all this...?
- I'm looking for seduction, desire and true love. You were quite clear about what you'd have to give. So I just came back to reality. Easy?
- Seduction was always there. Desire too... True love comes with time... Well you're the master... Maybe you're right being so defensive... Miss you anyway...
- I didn't say anything had to be there right away, you just need to feel things available to come. And one action makes the other react. We're never sure, off course. That's life. I decided to live it strong: I need to feel things the way I have them to give. Maybe that's a problem...
- Maybe I have to say sorry... But I like you and I miss you anyway...
- If you feel it, say it. All I ever need is truth or sincerity.
- Did you ever feel that I wasn't true to you?
- Maybe yes, I do. I felt too much poetry and less passion for reality. They're both roles to play, the way I feel them and the way I believe them.
- I'm sorry if I've disappointed you. I care too much for you... I really do...
- And maybe I wanted you too much. That's the way things are. At one point you have to carry them and keep on driving with your goals. Even if it hurts...
- There is something stupid with timings in life... Sometimes you meet a person that seems so right but you meet him on the wrong time... Why is that? To test us? To make us feel bad?
- That's just because it's not the person. I believe. But, who am I?
- You are who you are and I am who I am... And time is what it is... And missing you hurts. And you stepped out of the game. Lack of courage or fear of getting hurt? Am I that bad? Was the set so scary? What have we done to our joy of laughing together...? We could/should have done love and not war...
- I never gave you the right to put me on a stand by shelf. I'm sorry if you have timing problems. To laugh together is better than an orchestra: is to be there completely and give yourself. You feel stupid if you realise you're laughing alone. I've had too much of that. This is not easy for me, really.
- Ok... (silence)
- Maybe one day, if you feel it. Maybe I'm still here falling asleep with movies and having casual flirts to find you. Maybe not. That's the timing problem. I really like you. So maybe I will. Have fun.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Desespero

"As God is my witness, as God is my witness they're not going to lick me. I'm going to live through this and when it's all over, I'll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I'll never be hungry again."

Margaret Mitchell in 'E tudo o vento levou'

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Puro irreal

"Que é que eu amo em ti? Não é o teu corpo, não é o teu espírito, mas a transfiguração de um pelo outro, a transcendência da tua carne frágil, a abordagem de quem tu és no mais profundo de ti; na posse compacta de toda tu, no espasmo de um punho cerrado - dorme. Não posso dormir, não quero. Como perder esta hora máxima de ser, de tocar toda a realidade secreta, drasticamente separada, segregada da minha ânsia em agonia? Porque tu eras para mim o puro irreal e imaginário, o subtil incorpóreo, a pura iluminação sem consistência, a aparência do não-ser, a terrível beleza intocável, a graça aérea imaterial. E agora estavas ao pé de mim, e eu estendo a mão devagar para condensar em realidade a tua imaterialização. Como dormir e perder-te e acordar depois - tu não estavas aqui e ser tudo fantástico de impossível?..."

Vergílio Ferreira in 'Para Sempre'

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Tout peut s'oublier

"Ne me quitte pas, Il faut oublier, Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà Oublier le temps Des malentendus Et le temps perdu
A savoir comment Oublier ces heures Qui tuaient parfois A coups de pourquoi Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai Des perles de pluie Venues de pays Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre Jusqu'après ma mort Pour couvrir ton corps D'or et de lumière
Je ferai un domaine Où l'amour sera roi Où l'amour sera loi Où tu seras reine
Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Je t'inventerai Des mots insensés Que tu comprendras
Je te parlerai De ces amants-là Qui ont vu deux fois Leurs cœurs s'embraser
Je te raconterai L'histoire de ce roi Mort de n'avoir pas Pu te rencontrer
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
On a vu souvent Rejaillir le feu D'un ancien volcan Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il Des terres brûlées Donnant plus de blé Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir Pour qu'un ciel flamboie Le rouge et le noir Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer Je ne vais plus parler
Je me cacherai là A te regarder Danser et sourire Et à t'écouter Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir L'ombre de ton ombre L'ombre de ta main L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas."

Jacques Brel, 1959

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Momento

"Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos, e o meu destino apareceu-me na alma como um precipício. A minha vida passada misturou-se com a futura, e houve no meio um ruído do salão de fumo, onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado na sensação das ondas! Ah, embalado na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã, de pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas, de não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali, em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse. Ah, afundado num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono, irrequieto tão sossegadamente, tão análogo de repente à criança que fui outrora quando brincava na quinta e não sabia álgebra, nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.
Ah, todo eu anseio por esse momento sem importância nenhuma na minha vida. Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos — Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma, aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o compreender. E havia luar e mar e a solidão (...)."

Álvaro de Campos in 'Poesia'

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Falta

"De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres."


Vergílio Ferreira in 'Pensar'

terça-feira, 1 de maio de 2007

My face is not sad, but inside, I am sad

"In any other world
You could tell the difference
And let it all unfurl
Into broken remnants
Smile like you mean it
And let yourself let go
Cos it's all in the hands of a bitter, bitter man
Say goodbye to the world you thought you lived in
Take a bow, play the part of a lonely lonely heart
Say goodbye to the world you thought you lived in
To the world you thought you lived in
I tried to live alone
But lonely is so lonely, alone
So human as I am
I had to give up my defences

So I smiled and tried to mean it
To let myself let go
Cos it's all in the hands of a bitter, bitter man
Say goodbye to the world you thought you lived in
Take a bow, play the part of a lonely lonely heart
Say goodbye to the world you thought you lived in
To the world you thought you lived in
Cos it's all in the hands of a bitter, bitter man
Say goodbye to the world you thought you lived in
Take a bow, play the part of a lonely lonely heart
In any other world
You could tell the difference

"I never ever, I forget my story.
My face is not sad, but inside, I am sad."

'Any other world' por Mika in 'Life In Cartoon Motion'

segunda-feira, 30 de abril de 2007

A última noite de amor

"Sinto que se aproxima de mim um destino que não escolhi. O amor corrói-me a pele, mistura-se ao desejo e não me deixa sossegar, nem mesmo quando durmo - mas o amor não é eterno. Deve ser avassaladora e medonha a última noite de amor...
(...)
Precisava bem de falar de ti, arrumar contigo duas ideias. Não sei bem que ideias sejam antes de as pensar e começarem a existir. Não sei bem o que sejam além desta curiosidade de as pensar... Gostava de saber porque te amo nesta forma estranha de te não ter amado nunca..."

Vergílio Ferreira in 'Na Tua Face'

sábado, 28 de abril de 2007

Um ano de Inquietude

in 'Tacones Lejanos' de Pedro Almodovar

Obrigado a todos quantos lêem e seguem as Inquietudes. Um ano de blog, um ano de inquietudes, um ano de amor. Um espaço que surgiu do silêncio e que tem encontrado voz nas palavras dos poetas que mais gosto. Mensagens para ninguém que se dirigem a cada um. Um ano depois continuo a entusiasmar-me com versos alheios. Um ano depois continuo a querer descobrir a foto perfeita para acompanhar as palavras perfeitas. Uma viagem solitária que tem encontrado companhia pelo caminho. A todos muito obrigado.

(O vídeo que ilustra o post? Só uma excentricidade. O que eu estava à procura era mesmo da música da Luz Casal mas no youtube foi só isto que apareceu. Como gostamos de Almodovar e gostamos do kitsch pareceu-nos bem!)

sexta-feira, 27 de abril de 2007

O teu sofrimento

"(...) Lembrei-me daquela vez em que me telefonaste a dizer que querias passar comigo uma noite em cheio. Contavas comigo para te surpreender. Fiquei numa excitação infantil. Fui para casa e como estava uma noite de verão quentíssima achei que poderíamos comer na varanda, que era o mais próximo do grande terraço com que sempre sonhaste... Fiz tudo o que era suposto. Cozinhei as coisas mais sofisticadas que sabia, com direito a entrada e sobremesa. Pus a mesa lá fora, com velas e um ambiente o mais quente e tropical possível, que nos remetesse a um cenário exótico, lembrando talvez as férias em conjunto sempre prometidas, mas nunca cumpridas... Quando acabei todos estes preparativos tomei um daqueles duches que nos deixam preparados para nos amarmos. Vesti uma camisa branca, a tua favorita, e acendi as velas todas da casa. A voz do João Gilberto fez-me companhia na aparelhagem e esperei por ti. Esperei... esperei... e nunca apareceste. Quando te liguei respondeste que não te tinha dado jeito aparecer. “Não te tinha dado jeito”... Como se tudo o que me tinha motivado não significasse nada para ti... E de facto não significava. Não te sei dizer o que senti.
Vou contar-te uma história. A minha mãe sempre trabalhou muito, fora de casa. Chegava muito tarde e eu já estava deitado. Naqueles momentos após eu me deitar, ficava muito direito e quieto na cama, esperando que a porta de casa abrisse. Era terrível aquela angústia, a de não querer adormecer sem ouvir o barulho da chave que significava que provavelmente a mãe iria ao quarto dar-me um beijo de boa noite. Acabava sempre por adormecer, e no meio da revolta da manhã seguinte, ficava em mim uma sensação de vazio que me deixava inseguro e muito só. Pior que isso era estar acordado e perceber que os passos dela se encaminhavam para todos os lados menos para o meu quarto. Aí sim, sofria a sério. Sentia algo a quebrar-se por dentro e penso, agora, que foi assim que fui perdendo a noção de ser criança.

Conto-te isto porque nessa noite, todas essas imagens e sensações da minha infância voltaram a percorrer o meu cérebro. Acho que por instantes voltei a ser a criança solitária que fui. Desta vez não chorei, desta vez limitei-me a apanhar os pedacinhos de mim. E prometi a mim mesmo que iria ser forte de novo. Dias depois começou o teu processo penoso em direcção ao fim. E eu esqueci-me da minha promessa e mesmo contra tua vontade, acompanhei-te e estive ao teu lado, assistindo a algo que sempre me proibiste de ver: o teu sofrimento."


Pedro Rapoula in 'Iniciação à Tristeza'

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Luz

"Se eu pudesse deixar de correr
Caminhava se eu pudesse deixar de caminhar
Sentava-me à sombra da nogueira azul do céu
Se eu pudesse deitar-me deitava-me
Numa cova com a forma do meu corpo em
Repouso se eu pudesse deixar de cantar
Fechava os olhos e olhava o alto vazio
Onde não acontece nada a não ser
A conciliação provisória do caos
E da luz que não se cansa de nascer."
Casimiro de Brito in 'Na Via Do Mestre'

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Madrugada

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 24 de abril de 2007

Tarde

"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"


José Carlos Ary dos Santos in 'As Palavras das Cantigas'

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Lonely

"(...) I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me,
Love is touching souls
Surely you touched mine
'Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time (...)"

Joni Mitchell por Cristina Branco in 'Ulisses'

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Tudo

"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(...)

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstracta,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
(...)"
Álvaro de Campos in 'Poesia'

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Pergunta

"Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinzas
e despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enovoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer"

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Alheamento

"Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim."


Eugénio de Andrade in 'Coração do dia'

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Nunca se sabe

"Nunca se sabe o que é para sempre, sobretudo nas coisas do amor. E era uma coisa do amor, isto tudo. São tão estranhas as coisas do amor que não se compreendem por inteiro. Tem de se estar sempre a fazer suposições. Nunca se sabe como e até que ponto e até quando. [...]Quando se perde tudo pela primeira vez fica-se com o terror de perder todas as vezes. [...] O primeiro amor dá cabo de nós. E o último é sempre o primeiro."



Pedro Paixão in 'Nos teus braços morreríamos'

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A ausência

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."


Carlos Drummond de Andrade in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Agora/ Todo o dia

"Debaixo d' água tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água se formando como um feto
sereno confortável amado completo
sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber o quanto
esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água ficaria para sempre ficaria contente
longe de toda gente para sempre
no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo d'água protegido salvo fora de perigo
aliviado sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Agora que a agora é nunca Agora posso recuar Agora sinto minha tumba Agora o peito a retumbar Agora a última resposta Agora quartos de hospitais Agora abrem uma porta Agora não se chora mais Agora a chuva evapora Agora ainda não choveu Agora tenho mais memória Agora tenho o que foi meu Agora passa a paisagem Agora não me despedi Agora compro uma passagem Agora ainda estou daqui Agora sinto muita sede Agora já é madrugada Agora diante da parede Agora falta uma palavra Agora o vento no cabelo Agora toda minha roupa Agora volta pro novelo Agora a língua em minha boca Agora meu avô já vive Agora meu filho nasceu Agora o filho que não tive Agora a criança sou eu Agora sinto um gosto doce Agora vejo a cor azul Agora a mão de quem me trouxe Agora é só meu corpo nu Agora eu nasço lá de fora Agora minha mãe é o ar Agora eu vivo na barriga Agora eu brigo pra voltar Agora... "

Arnaldo Antunes e Titãs, na voz de Maria Bethânia in 'Mar de Sophia'

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Estou cansado


"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."
Álvaro de Campos in 'Poesia'

terça-feira, 10 de abril de 2007

Há dias


“Há dias cheios de vento,
Há dias cheios de raiva…
Há dias cheios de lágrimas.
Mas depois…
Há dias há dias cheios de amor,
Que nos dão coragem de ir em frente,
Todos os dias da nossa vida.”


M. Batagglia

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Tempo

"No tempo em que éramos felizes não chovia.
Levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.
As manhãs eram um céu infinito. O nosso amor
era as manhãs. No tempo em que éramos felizes
o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.
As marés traziam o fim da tarde e não víamos
mais do que o olhar um do outro. Brincávamos
e éramos crianças felizes. Às vezes ainda
te espero como te esperava quando chegavas
com o uniforme lindo da tua inocência.
Há muito tempo que te espero.
Há muito tempo que não vens. "

José Luís Peixoto in "A criança em ruínas"

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Palavras

"Olhava para a fotografia daquela que amei com amor. Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido. Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa nem sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível. Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra. Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém virará a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada."

José Luís Peixoto in "Uma casa na Escuridão"

terça-feira, 3 de abril de 2007

Todos os dias

"Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo."
Alberto Caeiro in 'Poesia'

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Nada


"(...)
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim
(...) "


Ana Carolina por Maria Bethânia em "Pirata"

sexta-feira, 30 de março de 2007

Desejar

"Sabiam perfeitamente que era preciso acabar com tudo - pelo menos que deviam acabar com tudo - e todavia desejavam-no, mas sem o ardor do começo - e somente com a ajuda das razões muito claras que tinham para o desejar. Do grande impulso do princípio já não lhes restava senão um abatimento melancólico que os fazia esquecer a própria causa desta consternação."


Albert Camus

quinta-feira, 29 de março de 2007

The moment

Para ti...
"I remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself: So, this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more. It never occurred to me it wasn't the beginning. It was happiness. It was the moment. Right then."
Michael Cunningham in 'The Hours'

quarta-feira, 28 de março de 2007

Creio

"Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me move,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.
(...)"


terça-feira, 27 de março de 2007

Sentir

"Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído."

segunda-feira, 26 de março de 2007

Sol

"Há sol na rua
Gosto do sol mas não gosto da rua
Então fico em casa
À espera que o mundo venha
Com as suas torres douradas
E as suas cascatas brancas
Com suas vozes de lágrimas
E as canções das pessoas que são alegres
Ou são pagas para cantar
E à noite chega um momento
Em que a rua se transforma noutra coisa
E desaparece sob a plumagem
Da noite cheia de talvez
E dos sonhos dos que estão mortos
Então saio para a rua
Ela estende-se até à madrugada
Um fumo espraia-se muito perto
E eu ando no meio da água seca.
Da água áspera da noite fresca
O sol voltará em breve"


Boris Vian in 'Canções e Poemas'

sexta-feira, 23 de março de 2007

Esquecimento

Esse de quem eu era e que era meu,
E foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...

E desde que era meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...
Florbela Espanca in 'Poesia Completa'

quinta-feira, 22 de março de 2007

Sonolência

"Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma. A vida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste."


Bernardo Soares in 'Livro do Desassossego'

quarta-feira, 21 de março de 2007

Primavera

"És tu a Primavera que eu esperava
A vida multiplicada e brilhante,
em que é pleno e perfeito cada instante."

Sophia de Mello Breyner Andresen in 'Poesia'

terça-feira, 20 de março de 2007

Promessas


"Promets-moi aucune promesse et je ne te promettrai rien"
Christina Rossetti in 'Complete Poems'

Palavras de Christina Rossetti que traduzi para francês para que as possas ler apesar de estares longe e não falares francês. É na tua ausência que descubro a falta que me fazes. É sempre assim, não é? Que o futuro seja feito de "não-promessas". É disso que precisamos: de não prometer nada um ao outro.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Casa

“Afastou-se desculpando-se e regressou a casa, feliz de que a satisfação da sua curiosidade houvesse deixado inato o seu amor e, depois de haver por tanto tempo dissimulado uma espécie de indiferença para com Odette, não lhe ter dado, com uma demonstração de ciúme, a prova de que a amava demasiado, o que, entre dois amantes, dispensa para sempre, aquele que a recebe, de amar o suficiente.”

Marcel Proust in 'Um amor de Swann'

domingo, 18 de março de 2007

Não sei...


"Não sei o que se passa comigo:
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado,
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites pra jantar.
O lamento era o meu hobby preferido.


Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
a queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim."

sábado, 17 de março de 2007

Solitude

"La solitude ne m'est pas donnée, je la gagne. Je suis conduit vers elle par un souci de beauté. J'y veux me définir, délimiter mes contours, sortir de la confusion, m'ordonner."
Jean Genet in 'Journal du Voleur'

sexta-feira, 16 de março de 2007

Estás aqui


"Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular istoa que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui"
Ruy Belo in 'Toda a Terra'

quinta-feira, 8 de março de 2007

A certeza

"Vou passar a noite com estes dias.
Com o sorriso que deixaste nos lençóis.
Ainda ardo com os restos do teu nome
e vejo com os teus olhos as coisas que tocaste.
Estou entre o pão e a mesa, no copo
que levas à boca. Na boca que me guarda.
E não sei o que sou entre ontem e o que vier.
Ontem era o rio ao entardecer, o olhar que acaricia a luz.
O meu filho escreve nos seixos da praia e eu invento
passos para os decifrar. Todos rolam para longe.
É assim o mar. Vou aprendendo com as ondas
a desfazer-me em espuma. Há sempre uma gaivota
que grita quando estou perto, sempre uma asa
entre o céu e o chão da casa. Mas nada me pertence,
nem as palavras com que cimento as horas.
Talvez o amor seja uma pequena diferença entre fusos
horários ou o acordo ortográfico que só existe
no fundo da pele. Mas aqui onde não sou
o que me funda é a certeza que existes."
Rosa Alice Branco in 'Soletrar o dia'

quarta-feira, 7 de março de 2007

Saudade

"Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste."

Sophia de Mello Breyner Andresen in 'Antologia'

terça-feira, 6 de março de 2007

Tive um coração perdi-o

"Tive um coração perdi-o
Ai quem mo dera encontrar!
Preso no fundo do rio
Ou afogado no mar!
Quem me dera ir embora
Ir embora sem voltar!
A morte que me namora...
Já me pode vir buscar!
Tive um coração...Perdi-o!
Ainda o vou encontrar
Preso no lodo do rio...
Ou afogado no mar!"


Amália Rodrigues in 'Versos'

segunda-feira, 5 de março de 2007

Para sempre



(...)
Andando, o principezinho encontrou um jardim cheio de rosas. Contemplou-as… Eram todas iguais à sua flor.E deitado na relva, ele chorou……
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços…"
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um menino inteiramente igual a cem mil outros meninos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo… Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos fazem-me entrar debaixo da terra. O teu chamar-me-á para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor… Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens já não têm tempo de conhecer nada. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens já não têm amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu sentar-te-ás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu olharei para ti pelo canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, vais sentar-te mais perto…

No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… São precisos rituais.
- Que é um ritual? Perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. (…)
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
- A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
- Pois quis.
- Mas agora vais-te pôr a chorar!
- Pois vou
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo. (…)
- Adeus…
- Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa…
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
(...)


Antoine Saint Exupery in 'O Principezinho'

sexta-feira, 2 de março de 2007

Tu e eu (mas em francês)

"Je suis ton pile
Tu es mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l'envie et moi le geste
Toi le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la guitare et moi la basse
Je suis la pluie et tu es mes gouttes
Tu es le oui et moi le doute
T'es le bouquet je suis les fleurs
Tu es l'aorte et moi le coeur
Toi t'es l'instant moi le bonheur
Tu es le verre je suis le vin
Toi tu es l'herbe et moi le joint
Tu es le vent j'suis la rafale
Toi la raquette et moi la balle
T'es le jouet et moi l'enfant
T'es le vieillard et moi le temps
Je suis l'iris tu es la pupille
Je suis l'épice toi la papille
Toi l'eau qui vient et moi la bouche
Toi l'aube et moi le ciel qui s'couche
T'es le vicaire et moi l'ivresse
T'es le mensonge moi la paresse
T'es le guépard moi la vitesse
Tu es la main moi la caresse
Je suis l'enfer de ta pécheresse
Tu es le Ciel moi la Terre, hum
Je suis l'oreille de ta musique
Je suis le soleil de tes tropiques
Je suis le tabac de ta pipe
T'es le plaisir je suis la foudre
Tu es la gamme et moi la note
Tu es la flamme moi l'allumette
T'es la chaleur j'suis la paresse
T'es la torpeur et moi la sieste
T'es la fraîcheur et moi l'averse
Tu es les fesses je suis la chaise
Tu es bémol et moi j'suis dièse
T'es le Laurel de mon Hardy
T'es le plaisir de mon soupir
T'es la moustache de mon Trotski
T'es tous les éclats de mon rire
Tu es le chant de ma sirène
Tu es le sang et moi la veine
T'es le jamais de mon toujours
T'es mon amour t'es mon amour
Je suis ton pile
Toi mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l'envie et moi le geste
T'es le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la putain et moi la passe
Tu es la tombe et moi l'épitaphe
Et toi le texte, moi le paragraphe
Tu es le lapsus et moi la gaffe
Toi l'élégance et moi la grâce
Tu es l'effet et moi la cause
Toi le divan moi la névrose
Toi l'épine moi la rose
Tu es la tristesse moi le poète
Tu es la Belle et moi la Bête
Tu es le corps et moi la tête
Tu es le corps. Hummm !
T'es le sérieux moi l'insouciance
Toi le flic moi la balance
Toi le gibier moi la potence
Toi l'ennui et moi la transe
Toi le très peu moi le beaucoup
Moi le sage et toi le fou
Tu es l'éclair et moi la poudre
Toi la paille et moi la poutre
Tu es le surmoi de mon ça
C'est toi Charybde et moi Scylla
Tu es la mère et moi le doute
Tu es le néant et moi le tout
Tu es le chant de ma sirène
Toi tu es le sang et moi la veine
T'es le jamais de mon toujours
T'es mon amour t'es mon amour"

Carla Bruni in 'Quelqu'un m'a dit'

quinta-feira, 1 de março de 2007

Se

"Se envelhecesses a meu lado, cedo perceberias que nunca fui digno do teu rosto ou da tua ternura. É isto que penso quando me lembro que partiste."

José Luís Peixoto in 'A Casa, a Escuridão'

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Toda a noite

"Toda a noite, e pelas horas fora, o chiar da chuva baixou. Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia liquida me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade - áquela hora parecia que também indefinidamente. Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir. O som casual de um carro tardo, áspero a saltar nas pedras, crescia do fundo da rua, estralejou por debaixo da vidraça, apagava-se para o fundo da rua, para o fundo do vago sono que eu não conseguia de todo. Batia de quando em quando, uma porta de escada. Às vezes havia um chapinhar líquido de passos, um roçar por si mesmos de vestes molhadas. Uma ou outra vez, quando os passos eram mais, soava alto e atacavam. Depois, o silêncio volvia, com os passos que se apagavam, e a chuva continuava, inumeravelmente. Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela, eu só a ouvia. Nova, fluída, incerta, a chuva soava. Os momentos tardavam ao som dela. A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que ia sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passam a ter lugar e dor na minha desolação."
Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Queria

"Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos."


Ana Paula Inácio in 'Poetas sem qualidades'

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Uma questão de tempo


"A melancolia é uma questão de tempo,
disse-me o homem. Era um homem que existia
- normal como os que existem. Daqueles que não
costumam vir nos poemas porque não
são centros de metáfora ou revolução. Porque não
gritam nada. Porque não dizem nunca.
Hoje sei.
A melancolia é uma questão de falta
de tempo."
Filipa Leal