segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Que a noite fosse eterna

"Hoje estou quase bêbado de tristeza. Profundamente só, vou-me perdendo na noite. Estou vencido e massacrado, como não calculas. Desejaria que a noite fosse eterna , que o céu sorrisse pela boca das estrelas, (...). Seria pedir de mais, eu sei. O meu destino de homem, talvez de pária, não deve comportar desejos etéreos. Assim, resta-me converter a dor ao credo das palavras. É, de facto, demasiado doloroso não ter um pedaço de manhã guardado para uma alegria, é mesmo quase humilhante de tão cruel. Mas parece que convém continuar. Ou pelo menos fingir que a angústia não é connosco. «Tudo, menos a piedade...» (diria o Álvaro de Campos). E diria certo. Mas, às vezes, o coração contorce-se e é necessário sangrar. Como hoje, dia igual a tantos outros que já nem sei bem se chegaram a passar. Ia dizer avante! e encontrei-me a sorrir. Acontece-me sempre isto, quando tento projectar-me num espaço ou num tempo. Qualquer dia de tão irreal, talvez acorde homem. Talvez me cresçam certezas na boca... (...)."

José Bação Leal, in 'Poesias e Cartas'

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Gelada solidão

"Que destino, ou maldição
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido,
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo,
Não te encontro, nem te entendo,
A mim o digo sem razão:
Coração... quando te cansas
Das nossas mortas esperanças,
Quando páras, coração?
Nesta luta, esta agonia,
Canto e choro de alegria,
Sou feliz e desgraçada.
Que sina a tua, meu peito,
Que nunca estás satisfeito,
Que dás tudo... e não tens nada.
Na gelada solidão,
Que tu me dás coração,
Não é vida nem é morte:
É lucidez, desatino,
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte."

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Debaixo da chuva

Neste momento o céu abate-se sobre Lisboa. Deixei mesmo de ver o rio tal é a intensidade da água que cai. Há trovões e raios a rasgar o céu. Se isto fosse um filme era agora que eu saía a correr atrás de ti e te puxava por um braço para te dar um beijo debaixo da chuva. Se isto fosse um filme tu não ias perceber que eram lágrimas que me escorriam pela face. Se fosse um filme estaríamos os dois encharcados e o teu olhar explicar-me-ia que desta vez partias para sempre. Se fosse um filme eu dava-te um último abraço para sentir o teu corpo debaixo da roupa molhada. Se fosse um filme tu afastavas-me em silêncio. Era o fim da tal promessa de um verão prematuro...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Sono gelado

"Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite -
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido - não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo -
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi -
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema."

Maria do Rosário Pedreira, in 'A Casa e o Cheiro dos Livros'

terça-feira, 4 de setembro de 2007

O incrível miraculoso

"Podia dizer o teu nome infinitamente na multiplicação do que nele me ressoa. E é assim o que mais me apetece, dizê-lo dizê-lo. E ouvir nele o maravilhoso que me abala todo o ser. Poderia escrever o teu nome ao longo do que escrevo e teria talvez dito tudo. Mas eu quero desse tudo dizer também o que aí se oculta. Dizer o meu enlevo e a razão de ele me existir. As tuas mãos nas minhas. O incrível miraculoso de eu dizer o teu rosto. O ardor de um meu dedo na tua pele. Na tua boca. O terrível dos meus dedos nos teus cabelos. O prazer horrível até à morte da minha entrada no teu corpo."
Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Eternity

"Time is too slow for those who wait,
Too swift for those who fear,
Too long for those who grieve,
Too short for those who rejoice,
But for those who love, time is eternity..."
Lamento mas desconheço o autor

domingo, 2 de setembro de 2007

Lumière

"Toujours l'arbre du cœur dans la nuit repoussait
La tache d'or strié
Toi qui étais partout,
Toi l'arc des jours tendus,
Toi l'étoile polaire,
Où en est maintenant ta vendange ô lumière?
Où sont les jeux d'enfants
les lilas les moulins?
Le lait qui descendait
sur le petit matin
des condamnés à mort,
Les souvenirs éteints?"
Georges Haldas in 'Poésies complètes'

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Da tristeza e da alegria

"Trago o fado nos sentidos
Tristezas no coração
Trago os meus sonhos perdidos
Em noite de solidão
Trago versos, trago sons,
De uma grande sinfonia
Tocada em todos os tons
Da tristeza e da alegria.
Trago amarguras aos molhos
Lucidez e desatino
Trago secos os meus olhos
Que choram desde meninos
Trago noites de luar
Trago planícies de flores
Trago o céu e trago o mar
Trago dores ainda maiores"
Amália Rodrigues, in 'Versos'

The cradles that surround us

"(...)
It embraces everything, night and dreams
Silence that arouses anxiety
Night that envelops sadness and despair
Dreams of hope for a transformation.
Let us take heed of Job
Then maybe we'll prevail against
The slogans, the labels, illusions and indifference,
The cradles that surround us."

tirado daqui

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Descanso

"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
Guimarães Rosa, in 'Grande Sertão: Veredas'

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Faces nuas

"(...) é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água."


Fiama Hasse Pais Brandão, in 'Cenas Vivas'

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

To put it away

"Dear Leonard. To look life in the face, always, to look life in the face and to know it for what it is. At last to know it, to love it for what it is, and then, to put it away. Leonard, always the years between us, always the years. Always the love. Always the hours."

sábado, 18 de agosto de 2007

A independência da solidão

"O que me importa unicamente é o que tenho de fazer, não o que pensam os outros. Esta regra, igualmente árdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para a distinção total entre a grandeza e a baixeza. E é tanto mais dura quanto sempre se encontrarão pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual é o teu dever. É fácil viver no mundo de conformidade com a opinião das gentes; é fácil viver de acordo consigo próprio na solidão; mas o grande homem é aquele que, no meio da turba, mantém, com perfeita serenidade, a independência da solidão."

Ralph Waldo Emerson, in 'Essays'

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Tenho saudades tuas...

Sinto a tua falta. E nem o dourado do sol nestes dias de céu azul, nem o calor afrodisíaco das noites de Agosto, nem tão pouco a certeza de que o verão vai chegar ao fim, ajudam a esquecer a falta que me fazes. Este é o dia em que as certezas se transformam em dúvidas, em que os risos se convertem em lamentos, em que a constatação de te ter perdido faz com que o inverno chegue muito mais cedo. Tenho tantas saudades tuas. Do sal no teu corpo, do sol nos teus olhos, das estrelas no teu sorriso. Da forma como te entregavas. E não sei tão pouco se ainda te amo ou se isto é apenas a saudade dos dias mais felizes da minha vida, os que passei ao teu lado, nesses verões em que o mar era o nosso denominador comum e o alentejo era a nossa casa.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Os olhos ocos do mar

Fugir, fugir, fugir do sal, do perigo, do solitário círculo da água onde os olhos ocos do mar (ou seriam os teus olhos?) desinquietaram o espantado buguês da cidade...

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A lembrança deste amor

"Se já não lembras como foi,
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.
Mas uma coisa é certa, eu sei.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.

Não tenho esperança de te ver,
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como é que estás.
Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que eu nunca sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei."

Pedro Ayres Magalhães, in 'Fado das Dúvidas' por Madredeus

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Shadows and light

"Far away, far away,
Far away from here...
There is no worry after joy
Or away from fear
Far away from here.
Her lips were not very red,
Nor her hair quite gold.
Her hand plays with rings.
She did not let me hold
Her hands playing with gold.
She is something past.
Far away from pain.
Joy can touch her not, nor hope
Enter her domain,
Neither love in vain.
Perhaps at some day beyond
Shadows and light
She will think of me and make
All me a delight
All away from sight."

Fernando Pessoa

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Estar vago

"Nessa parede verde da hera
o teu rosto cada vez ganha mais forma,
entre as mãos de verdura estendidas
aos ventos que as dobram e movem.

Quando te vejo na luz ou nessa sombra
estar vago e ser tão próximo,
só tu sendo não sabes onde te vejo,
só eu muda não digo onde te guardo."

Fiama Hasse Pais Brandão, in 'Cenas Vivas'

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Repugnância pela vida

"Estava aqui sentado e sabes o que cogitava para comigo? Se não tiver fé na vida, se perder a confiança na minha mulher amada, se perder a fé na ordem das coisas e se, pelo contrário, me convencer de que tudo é um caos desordenado, maldito e, talvez, diabólico, se me atingirem todos os horrores da desilusão humana, desejarei na mesma viver, e já que levei à boca esta taça, não a largarei até que beba a última gota! Aliás, aos trinta anos sou capaz de largar a taça, mesmo que não a tenha bebido até ao fim, e de me afastar... não sei para onde. Mas, até aos trinta, sei muito bem que a minha juventude vencerá tudo, vencerá qualquer desilusão, qualquer repugnância pela vida. Tenho perguntado a mim mesmo muitas vezes: haverá no mundo um desespero que possa vencer em mim esta sede de vida, frenética e, talvez, indecente? Cheguei à conclusão de que, pelos vistos, não existe, pelo menos até aos tais trinta anos; e, ao chegar lá, repito, talvez já não anseie por nada, assim me parece."


Fiodor Dostoievski, in 'Os Irmaos Karamazov'

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Inferno de amar

"Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui na alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que antes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol com tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei..."

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'