O "meio-termo" não me chega, disse-te eu no meio das lágrimas. "Amo-te mas quero mais. Não posso viver com alguém que se contenta com as pequenas migalhas de tempo que me sobram." As tuas lágrimas continuavam a correr como um rio e ainda assim, quebrado por dentro, eu não conseguia parar de falar. "Regresso à solidão de onde saí quando te conheci". Saíste do carro e a chuva não parava. Fiquei ali a ver-te entrar no prédio e esperei que acendesses a luz da casa que construímos juntos. Voltaste atrás e pediste que me fosse embora mas estranhamente não conseguia ligar o carro, como se o ir-me embora significasse deixar-te para sempre.Nunca imaginei que a nossa relação pudesse terminar assim. Mas a chuva de Junho devia ser um prenúncio de que as coisas iam chegar ao fim. Não te amei à primeira vista como me disseram que aconteceria quando conhecesse o grande amor da minha vida. Por isso, agora que chegou o fim, a dor que sinto vale por todas as pessoas que amei e que perdi até hoje.
O tempo cura tudo. Mas as cicatrizes não desaparecem nunca. O fim de um grande amor deixa uma marca e um vazio tão grande que não imagino que o tempo alguma vez vá apagar o teu cheiro, o teu sorriso, o brilho dos teus olhos quando me vias chegar, os beijos apaixonados que me davas quando nos despedíamos, a alegria do teu rosto quando estávamos juntos, a escolha cuidada das tuas palavras para me agradares.
Agora é real. Acabou mesmo. Lembro-me de algo que escrevi no passado e vejo que depois de te conhecer tudo faz mais sentido: "O teu olhar fazia-me acreditar na distância do eterno e na proximidade do amor. Quando a nossa entrega era real, o tempo tornava-se nosso aliado e os momentos de eternidade pareciam estar em nós. E aí, viver de ti e para ti parecia-me a única saída. A forma como nos amávamos era intemporal e o modo como sorrias não fazia mais que confirmar essa intemporalidade. Olho em volta e não te encontro e neste momento de uma lucidez cortante apercebo-me de que te perdi. Faço um esforço para acreditar que não partiste, que te pertenço, que me pertences e para nós não existe tempo nem espaço. Nós somos o tempo e o espaço, a noite e o dia, o longe e o perto. Não no sentido antagónico das verdades mas na verdade complementar dos sentidos: viver em nós, morrer em mim. Olho em volta, mais uma vez, e a tua ausência subitamente não faz sentido porque te amo, porque me amas e porque é em ti que me preencho. Sinto o teu cheiro em mim e vejo o teu corpo no meu. Porque é aí que existes, na procura que fazemos um do outro. Em qualquer outra noite sei que estendo o braço e no teu lado frio da cama descubro o corpo quente e familiar que me completa e me acalma. Chamo por ti e o teu nome enche o espaço como se o ar não existisse no deserto da tua presença. E sei que respondes com o sim que nunca disseste e com a aceitação de um amor que nunca recebeste."
Curiosamente fui eu que, em nome de não sei bem o quê, abdiquei do teu amor e da tua entrega. Regresso à solidão. E só a memória dos nossos momentos felizes fará com que o meu Verão não seja tão frio como a chuva que caiu no momento em que liguei o carro e me afastei da tua rua.











































