terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mas não quando se ama


"Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferença,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te."


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Tempo sem recordações

Sento-me e peço un gin tónico. A Pamela atende-me com o sorriso de sempre, aberto, carinhoso, fiel. Percebo no seu olhar a surpresa de me ver pedir uma bebida tão forte quando ainda não é meio-dia. Mas não diz nada. Baixa os olhos, como eu os baixo por sentir que a minha angústia está espelhada no meu rosto.

À minha volta há demasiada gente, demasiada luz. Há barulho de crianças a correr pela praça e há conversas cruzadas. Todos parecem ter algo a dizer. Eu não converso com ninguém. Não tenho com quem conversar. Ninguém sabe quem sou, de onde venho e porque estou ali sentado, a beber um gin tónico quando ainda não é meio-dia. Nunca ouviram falar de ti nem da demência que a tua ausência quase me causou. Ninguém sabe que desde que partiste eu não vivi, eu sobrevivi apenas. Ninguém faz ideia de como me perturbam e me irritam as gentes, a luz em demasia, as crianças a correr pela praça, as conversas cruzadas. Ninguém imagina como queria ter para onde ir, como queria ir para qualquer lugar, deixar para trás as recordações de um tempo sem recordações e aceitar que tudo vai ser diferente daqui para a frente...

Na rádio toca "Los Panchos". Associo-te a esta música. É quente... e apesar de estarmos em Agosto e de os termómetros marcarem mais de 30 graus, morro de frio ao pensar na tua ausência...

Lento desejo do teu corpo

"(...) E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo."
Herberto Helder, in 'O Amor em visita'

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Dia Mundial da Música


"Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando há traição, ciúme e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
No dia de procissão
Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinhos
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar
Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca, mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, folião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E então
E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Ah! Corre em vertigem num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado."

domingo, 30 de setembro de 2007

Maldição


"Que destino ou maldição
Manda em nós, meu coração,
Um do outro assim perdidos?
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo.
Não te encontro, não te entendo,
Amo e odeio sem razão.
Coração quando te cansas
Das nossas mortas esperanças
Quando páras coração?
Nesta luta, nesta agonia
Canto e choro todo dia
Sou feliz e desgraçada.
Que sina tua meu peito
Que nunca estás satisfeito
Que dás tudo e não tens nada.
Ó gelada solidão
Que tu me dás coração
Não é vida nem é morte.
É lucidez, desatino
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte..."

(Alfredo Duarte e Armando V. Pinto)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Fantástica vinda

"Espero sempre por ti o dia inteiro
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda"
Sophia de Mellho Breyner Andresen, in 'Mar'

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Chamo-Te

"Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado."

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Tempo distante


"Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaçoe o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram."


Herberto Helder, in 'Poesia Toda'

domingo, 23 de setembro de 2007

Toi que j'attendais même en ta présence

"Et tois, Hongrois, mon Arpad, plus exilé encore que moi, tellement présent, tellement absent, avec une langue qui semblait plus étrangère encore que la mienne aux camarades de terrasses et d'expositions, dans la ville du petit fleuve si différent non seulement de ton Danube mais de mon Tage, avec ta séculaire tradition d'errances, de déménagements interminables, maître du provisoire et transitoire, que je cherchais toujours sans pouvoir découvrir qu'un fragment, Arpad, mon Osiris, qui me trouvais toujours guidant ma main sans y toucher, toi, mon oeil supplémentaire établissant des dimensions nouvelles par ta façon de regarder ce que je te proposais, toi que j'attendais même en ta présence, Arpad, mon Ulysse, que j'imaginais combattant sous les murs de cités orgueilleuses, puis avec de cyclopes et des sorcières, quand tu t'es éloigné définitivement, il n'y a pas eu de rupture das ton silence ni dans les miens. Soudain seulement j'ai senti la vieillesse dont tu m'avais préservé, car je m'imaginais qu'elle était ta prérogative, siffler comme le vent des chevauchées de tes ancêtres depuis l'Asie à la découverte de nouvelles prairies aux climats moins rudes, comme celui des pérégrinations des miens à la découverte de nouvelles rivages aux civilisations surprenantes."
.
Maria Helena Vieira da Silva em carta a Arpad Szenes
(excerto retirado do texto de Michel Butor do catálogo da exposição 'Vieira da Silva - Oeuvres de la Fondation Arpad Szenes - Vieira da Silva et du Centre d'Art Moderne José de Azeredo Perdigão' no Centre Culturel Calouste Gulbenkian em Paris até 18 de Outubro e em Lisboa a partir de 25 de Outubro)

sábado, 22 de setembro de 2007

"Sim mãezinha?"


Saiu de casa com a certeza de que não voltaria. Não sabia bem se era o último dia da sua vida ou se era exactamente o primeiro de todo o resto. Sentia apenas que o fim de uma época tinha chegado e que a sua existência iria mudar radicalmente daí para a frente.
Tinha 23 anos protegidos pela asfixiante presença da mãe que se recusava continuamente a perceber que o seu filho tinha crescido. Continuava a ir esperá-lo ao emprego, como tinha esperado o toque de saída no infantário, na escola primária, de sucessivas em sucessivas humilhações até à universidade.

O pai tinha saído de casa poucos anos depois dele ter nascido e esta sombra marcaria para sempre a sua relação com a mãe, uma mulher obcecada com a ideia do abandono. As razões da fuga do seu pai eram para si um mistério. Quando se tocava no assunto, nas raras vezes em que tinha conseguido romper a barreira de silêncio, todos baixavam os olhos com vergonha, ou com receio. A mãe tinha criado uma lenda à volta deste desaparecimento. Dizia a todos que o seu marido tinha sido mais uma vítima da ditadura, sem perceber que as datas não eram sequer coincidentes, ou se calhar compreendendo bem a mentira em que se enredara para poder continuar a viver. Talvez se recusasse a aceitar que o único homem com quem se deitara tinha saído de casa por sua causa, por causa do seu comportamento asfixiante. O filho pensava nas hipóteses: o pai tinha ido embora depois de perceber que a mulher com quem tinha casado não lhe despertava o melhor que tinha dentro de si. Ou porque a sua vida comportava limites mais vastos do que aquele triste quotidiano lhe estabelecia.

Nuno ia já ao fundo da rua (chamava-se Nuno este filho) quando se apercebeu que não sabia o que iria fazer, para onde iria ou o que queria para si. Era domingo e tirando um ou outro transeunte distraído, as ruas estavam praticamente desertas na sua melancólica calma de fim de semana. Caminhava vagarosamente, sentindo a cada passo o peso de uma decisão que iria decerto acabar com a felicidade artificial que a sua mãe tinha criado para os dois.

Enquanto se afastava de casa pensava, orgulhoso, como tinha sido fácil a sua fuga. "Vou comprar pão", disse, sabendo que se lhe faltasse a coragem poderia sempre regressar com um saco de carcaças da Padaria Mimosa que era mesmo ali na esquina. Não acreditava que fosse capaz de ultrapassar essa fronteira.

Quando passou à porta da padaria o seu coração batia a um ritmo descontrolado. Por momentos achou que algo ia explodir no seu peito, que iria ter um colapso e ficar estendido ali mesmo. Parou um pouco e encostou-se à parede, branco, ofegante e a insultar-se pela sua fraqueza. Resolveu entrar e comprar o pão, saindo a correr sem sequer levar o troco o que suscitou a desconfiança da mulher do padeiro que nunca tinha visto aquelas atitudes numa pessoa que sempre lhe parecera calma. Se lhe pedissem para descrever o Nuno diria que era uma daquelas pessoas que fica à espera que o mundo gire para dar um passo. "Uma mosca-morta!"

Entrou em casa batendo com a porta e depois de atirar o pão para a mesa da cozinha trancou-se no quarto com lágrimas de raiva nos olhos, saboreando a sensação de liberdade que lhe percorrera o corpo quando decidira fugir. Mas falhara. Uma vez mais falhara. E quando a mãe lhe bateu à porta para saber o que se passava recompos-se respondendo a frase de sempre: "sim mãezinha?"

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Que a noite fosse eterna

"Hoje estou quase bêbado de tristeza. Profundamente só, vou-me perdendo na noite. Estou vencido e massacrado, como não calculas. Desejaria que a noite fosse eterna , que o céu sorrisse pela boca das estrelas, (...). Seria pedir de mais, eu sei. O meu destino de homem, talvez de pária, não deve comportar desejos etéreos. Assim, resta-me converter a dor ao credo das palavras. É, de facto, demasiado doloroso não ter um pedaço de manhã guardado para uma alegria, é mesmo quase humilhante de tão cruel. Mas parece que convém continuar. Ou pelo menos fingir que a angústia não é connosco. «Tudo, menos a piedade...» (diria o Álvaro de Campos). E diria certo. Mas, às vezes, o coração contorce-se e é necessário sangrar. Como hoje, dia igual a tantos outros que já nem sei bem se chegaram a passar. Ia dizer avante! e encontrei-me a sorrir. Acontece-me sempre isto, quando tento projectar-me num espaço ou num tempo. Qualquer dia de tão irreal, talvez acorde homem. Talvez me cresçam certezas na boca... (...)."

José Bação Leal, in 'Poesias e Cartas'

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Gelada solidão

"Que destino, ou maldição
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido,
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo,
Não te encontro, nem te entendo,
A mim o digo sem razão:
Coração... quando te cansas
Das nossas mortas esperanças,
Quando páras, coração?
Nesta luta, esta agonia,
Canto e choro de alegria,
Sou feliz e desgraçada.
Que sina a tua, meu peito,
Que nunca estás satisfeito,
Que dás tudo... e não tens nada.
Na gelada solidão,
Que tu me dás coração,
Não é vida nem é morte:
É lucidez, desatino,
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte."

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Debaixo da chuva

Neste momento o céu abate-se sobre Lisboa. Deixei mesmo de ver o rio tal é a intensidade da água que cai. Há trovões e raios a rasgar o céu. Se isto fosse um filme era agora que eu saía a correr atrás de ti e te puxava por um braço para te dar um beijo debaixo da chuva. Se isto fosse um filme tu não ias perceber que eram lágrimas que me escorriam pela face. Se fosse um filme estaríamos os dois encharcados e o teu olhar explicar-me-ia que desta vez partias para sempre. Se fosse um filme eu dava-te um último abraço para sentir o teu corpo debaixo da roupa molhada. Se fosse um filme tu afastavas-me em silêncio. Era o fim da tal promessa de um verão prematuro...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Sono gelado

"Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite -
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido - não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo -
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi -
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema."

Maria do Rosário Pedreira, in 'A Casa e o Cheiro dos Livros'

terça-feira, 4 de setembro de 2007

O incrível miraculoso

"Podia dizer o teu nome infinitamente na multiplicação do que nele me ressoa. E é assim o que mais me apetece, dizê-lo dizê-lo. E ouvir nele o maravilhoso que me abala todo o ser. Poderia escrever o teu nome ao longo do que escrevo e teria talvez dito tudo. Mas eu quero desse tudo dizer também o que aí se oculta. Dizer o meu enlevo e a razão de ele me existir. As tuas mãos nas minhas. O incrível miraculoso de eu dizer o teu rosto. O ardor de um meu dedo na tua pele. Na tua boca. O terrível dos meus dedos nos teus cabelos. O prazer horrível até à morte da minha entrada no teu corpo."
Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Eternity

"Time is too slow for those who wait,
Too swift for those who fear,
Too long for those who grieve,
Too short for those who rejoice,
But for those who love, time is eternity..."
Lamento mas desconheço o autor

domingo, 2 de setembro de 2007

Lumière

"Toujours l'arbre du cœur dans la nuit repoussait
La tache d'or strié
Toi qui étais partout,
Toi l'arc des jours tendus,
Toi l'étoile polaire,
Où en est maintenant ta vendange ô lumière?
Où sont les jeux d'enfants
les lilas les moulins?
Le lait qui descendait
sur le petit matin
des condamnés à mort,
Les souvenirs éteints?"
Georges Haldas in 'Poésies complètes'

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Da tristeza e da alegria

"Trago o fado nos sentidos
Tristezas no coração
Trago os meus sonhos perdidos
Em noite de solidão
Trago versos, trago sons,
De uma grande sinfonia
Tocada em todos os tons
Da tristeza e da alegria.
Trago amarguras aos molhos
Lucidez e desatino
Trago secos os meus olhos
Que choram desde meninos
Trago noites de luar
Trago planícies de flores
Trago o céu e trago o mar
Trago dores ainda maiores"
Amália Rodrigues, in 'Versos'

The cradles that surround us

"(...)
It embraces everything, night and dreams
Silence that arouses anxiety
Night that envelops sadness and despair
Dreams of hope for a transformation.
Let us take heed of Job
Then maybe we'll prevail against
The slogans, the labels, illusions and indifference,
The cradles that surround us."

tirado daqui

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Descanso

"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
Guimarães Rosa, in 'Grande Sertão: Veredas'