segunda-feira, 22 de outubro de 2007
A queda
sábado, 20 de outubro de 2007
Olhar-te última vez com tristes olhos

Que dormes ainda nos braços do teu Tejo
Amante fiel que a solidão perdoa
Rio alegre que me traz tudo o que vejo.
É mar que também ama e não esquece
A dor de partir além de ti,
A dor de ficar num espaço breve.
Que esta manhã já não acordas a meu lado,
Que este sol que nos invade também separa,
Que este mar que hoje me leva não é salgado.
Que lânguida te abandonas em meus braços
Deixa-me olhar-te última vez com tristes olhos
Que pelo mundo levarão o teu retrato.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Intervalo
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Em verdade e transparência
A tua face será pura, limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre.
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei Senhor que possa morrer."
in “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”
Amar-te
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia
2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia
3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo
4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma
5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia
6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.
7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados)."
domingo, 14 de outubro de 2007
Na placidez dos lábios
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Mais sem fim

dia iluminado pela exactidão solar do teu nascer
dia sem noite e sem confim
o fiel certo da balança humana do olhar
signo da justiça da luz e do ar
dia em que não pesei a solidão
porque nos teus olhos reconheci
ainda sem o ver
o amor mais fundo e mais sem fim"
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Um dia de ilusão
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou é um grito
Que nasce em qualquer lugar
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou
Às vezes sou
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão
Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que eu sou"
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Mas não quando se ama

os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferença,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te."
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Tempo sem recordações
Lento desejo do teu corpo
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo."
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Dia Mundial da Música
"Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando há traição, ciúme e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
No dia de procissão
Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinhos
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar
Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca, mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, folião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E então
E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Ah! Corre em vertigem num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado."
domingo, 30 de setembro de 2007
Maldição
"Que destino ou maldição
Manda em nós, meu coração,
Um do outro assim perdidos?
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo.
Não te encontro, não te entendo,
Amo e odeio sem razão.
Coração quando te cansas
Das nossas mortas esperanças
Quando páras coração?
Nesta luta, nesta agonia
Canto e choro todo dia
Sou feliz e desgraçada.
Que sina tua meu peito
Que nunca estás satisfeito
Que dás tudo e não tens nada.
Ó gelada solidão
Que tu me dás coração
Não é vida nem é morte.
É lucidez, desatino
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte..."
(Alfredo Duarte e Armando V. Pinto)
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Fantástica vinda
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Chamo-Te
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado."
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Tempo distante

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaçoe o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram."
domingo, 23 de setembro de 2007
Toi que j'attendais même en ta présence
"Et tois, Hongrois, mon Arpad, plus exilé encore que moi, tellement présent, tellement absent, avec une langue qui semblait plus étrangère encore que la mienne aux camarades de terrasses et d'expositions, dans la ville du petit fleuve si différent non seulement de ton Danube mais de mon Tage, avec ta séculaire tradition d'errances, de déménagements interminables, maître du provisoire et transitoire, que je cherchais toujours sans pouvoir découvrir qu'un fragment, Arpad, mon Osiris, qui me trouvais toujours guidant ma main sans y toucher, toi, mon oeil supplémentaire établissant des dimensions nouvelles par ta façon de regarder ce que je te proposais, toi que j'attendais même en ta présence, Arpad, mon Ulysse, que j'imaginais combattant sous les murs de cités orgueilleuses, puis avec de cyclopes et des sorcières, quand tu t'es éloigné définitivement, il n'y a pas eu de rupture das ton silence ni dans les miens. Soudain seulement j'ai senti la vieillesse dont tu m'avais préservé, car je m'imaginais qu'elle était ta prérogative, siffler comme le vent des chevauchées de tes ancêtres depuis l'Asie à la découverte de nouvelles prairies aux climats moins rudes, comme celui des pérégrinations des miens à la découverte de nouvelles rivages aux civilisations surprenantes.".
(excerto retirado do texto de Michel Butor do catálogo da exposição 'Vieira da Silva - Oeuvres de la Fondation Arpad Szenes - Vieira da Silva et du Centre d'Art Moderne José de Azeredo Perdigão' no Centre Culturel Calouste Gulbenkian em Paris até 18 de Outubro e em Lisboa a partir de 25 de Outubro)
sábado, 22 de setembro de 2007
"Sim mãezinha?"

Tinha 23 anos protegidos pela asfixiante presença da mãe que se recusava continuamente a perceber que o seu filho tinha crescido. Continuava a ir esperá-lo ao emprego, como tinha esperado o toque de saída no infantário, na escola primária, de sucessivas em sucessivas humilhações até à universidade.
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
Que a noite fosse eterna
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Gelada solidão
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido,
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo,
Não te encontro, nem te entendo,
A mim o digo sem razão:
Coração... quando te cansas
Das nossas mortas esperanças,
Quando páras, coração?
Nesta luta, esta agonia,
Canto e choro de alegria,
Sou feliz e desgraçada.
Que sina a tua, meu peito,
Que nunca estás satisfeito,
Que dás tudo... e não tens nada.
Na gelada solidão,
Que tu me dás coração,
Não é vida nem é morte:
É lucidez, desatino,
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte."
