sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Gelada solidão

"Que destino, ou maldição
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido,
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo,
Não te encontro, nem te entendo,
A mim o digo sem razão:
Coração... quando te cansas
Das nossas mortas esperanças,
Quando páras, coração?
Nesta luta, esta agonia,
Canto e choro de alegria,
Sou feliz e desgraçada.
Que sina a tua, meu peito,
Que nunca estás satisfeito,
Que dás tudo... e não tens nada.
Na gelada solidão,
Que tu me dás coração,
Não é vida nem é morte:
É lucidez, desatino,
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte."

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Debaixo da chuva

Neste momento o céu abate-se sobre Lisboa. Deixei mesmo de ver o rio tal é a intensidade da água que cai. Há trovões e raios a rasgar o céu. Se isto fosse um filme era agora que eu saía a correr atrás de ti e te puxava por um braço para te dar um beijo debaixo da chuva. Se isto fosse um filme tu não ias perceber que eram lágrimas que me escorriam pela face. Se fosse um filme estaríamos os dois encharcados e o teu olhar explicar-me-ia que desta vez partias para sempre. Se fosse um filme eu dava-te um último abraço para sentir o teu corpo debaixo da roupa molhada. Se fosse um filme tu afastavas-me em silêncio. Era o fim da tal promessa de um verão prematuro...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Sono gelado

"Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite -
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido - não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo -
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi -
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema."

Maria do Rosário Pedreira, in 'A Casa e o Cheiro dos Livros'

terça-feira, 4 de setembro de 2007

O incrível miraculoso

"Podia dizer o teu nome infinitamente na multiplicação do que nele me ressoa. E é assim o que mais me apetece, dizê-lo dizê-lo. E ouvir nele o maravilhoso que me abala todo o ser. Poderia escrever o teu nome ao longo do que escrevo e teria talvez dito tudo. Mas eu quero desse tudo dizer também o que aí se oculta. Dizer o meu enlevo e a razão de ele me existir. As tuas mãos nas minhas. O incrível miraculoso de eu dizer o teu rosto. O ardor de um meu dedo na tua pele. Na tua boca. O terrível dos meus dedos nos teus cabelos. O prazer horrível até à morte da minha entrada no teu corpo."
Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Eternity

"Time is too slow for those who wait,
Too swift for those who fear,
Too long for those who grieve,
Too short for those who rejoice,
But for those who love, time is eternity..."
Lamento mas desconheço o autor

domingo, 2 de setembro de 2007

Lumière

"Toujours l'arbre du cœur dans la nuit repoussait
La tache d'or strié
Toi qui étais partout,
Toi l'arc des jours tendus,
Toi l'étoile polaire,
Où en est maintenant ta vendange ô lumière?
Où sont les jeux d'enfants
les lilas les moulins?
Le lait qui descendait
sur le petit matin
des condamnés à mort,
Les souvenirs éteints?"
Georges Haldas in 'Poésies complètes'

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Da tristeza e da alegria

"Trago o fado nos sentidos
Tristezas no coração
Trago os meus sonhos perdidos
Em noite de solidão
Trago versos, trago sons,
De uma grande sinfonia
Tocada em todos os tons
Da tristeza e da alegria.
Trago amarguras aos molhos
Lucidez e desatino
Trago secos os meus olhos
Que choram desde meninos
Trago noites de luar
Trago planícies de flores
Trago o céu e trago o mar
Trago dores ainda maiores"
Amália Rodrigues, in 'Versos'

The cradles that surround us

"(...)
It embraces everything, night and dreams
Silence that arouses anxiety
Night that envelops sadness and despair
Dreams of hope for a transformation.
Let us take heed of Job
Then maybe we'll prevail against
The slogans, the labels, illusions and indifference,
The cradles that surround us."

tirado daqui

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Descanso

"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
Guimarães Rosa, in 'Grande Sertão: Veredas'

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Faces nuas

"(...) é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água."


Fiama Hasse Pais Brandão, in 'Cenas Vivas'

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

To put it away

"Dear Leonard. To look life in the face, always, to look life in the face and to know it for what it is. At last to know it, to love it for what it is, and then, to put it away. Leonard, always the years between us, always the years. Always the love. Always the hours."

sábado, 18 de agosto de 2007

A independência da solidão

"O que me importa unicamente é o que tenho de fazer, não o que pensam os outros. Esta regra, igualmente árdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para a distinção total entre a grandeza e a baixeza. E é tanto mais dura quanto sempre se encontrarão pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual é o teu dever. É fácil viver no mundo de conformidade com a opinião das gentes; é fácil viver de acordo consigo próprio na solidão; mas o grande homem é aquele que, no meio da turba, mantém, com perfeita serenidade, a independência da solidão."

Ralph Waldo Emerson, in 'Essays'

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Tenho saudades tuas...

Sinto a tua falta. E nem o dourado do sol nestes dias de céu azul, nem o calor afrodisíaco das noites de Agosto, nem tão pouco a certeza de que o verão vai chegar ao fim, ajudam a esquecer a falta que me fazes. Este é o dia em que as certezas se transformam em dúvidas, em que os risos se convertem em lamentos, em que a constatação de te ter perdido faz com que o inverno chegue muito mais cedo. Tenho tantas saudades tuas. Do sal no teu corpo, do sol nos teus olhos, das estrelas no teu sorriso. Da forma como te entregavas. E não sei tão pouco se ainda te amo ou se isto é apenas a saudade dos dias mais felizes da minha vida, os que passei ao teu lado, nesses verões em que o mar era o nosso denominador comum e o alentejo era a nossa casa.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Os olhos ocos do mar

Fugir, fugir, fugir do sal, do perigo, do solitário círculo da água onde os olhos ocos do mar (ou seriam os teus olhos?) desinquietaram o espantado buguês da cidade...

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A lembrança deste amor

"Se já não lembras como foi,
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.
Mas uma coisa é certa, eu sei.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.

Não tenho esperança de te ver,
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como é que estás.
Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que eu nunca sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei."

Pedro Ayres Magalhães, in 'Fado das Dúvidas' por Madredeus

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Shadows and light

"Far away, far away,
Far away from here...
There is no worry after joy
Or away from fear
Far away from here.
Her lips were not very red,
Nor her hair quite gold.
Her hand plays with rings.
She did not let me hold
Her hands playing with gold.
She is something past.
Far away from pain.
Joy can touch her not, nor hope
Enter her domain,
Neither love in vain.
Perhaps at some day beyond
Shadows and light
She will think of me and make
All me a delight
All away from sight."

Fernando Pessoa

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Estar vago

"Nessa parede verde da hera
o teu rosto cada vez ganha mais forma,
entre as mãos de verdura estendidas
aos ventos que as dobram e movem.

Quando te vejo na luz ou nessa sombra
estar vago e ser tão próximo,
só tu sendo não sabes onde te vejo,
só eu muda não digo onde te guardo."

Fiama Hasse Pais Brandão, in 'Cenas Vivas'

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Repugnância pela vida

"Estava aqui sentado e sabes o que cogitava para comigo? Se não tiver fé na vida, se perder a confiança na minha mulher amada, se perder a fé na ordem das coisas e se, pelo contrário, me convencer de que tudo é um caos desordenado, maldito e, talvez, diabólico, se me atingirem todos os horrores da desilusão humana, desejarei na mesma viver, e já que levei à boca esta taça, não a largarei até que beba a última gota! Aliás, aos trinta anos sou capaz de largar a taça, mesmo que não a tenha bebido até ao fim, e de me afastar... não sei para onde. Mas, até aos trinta, sei muito bem que a minha juventude vencerá tudo, vencerá qualquer desilusão, qualquer repugnância pela vida. Tenho perguntado a mim mesmo muitas vezes: haverá no mundo um desespero que possa vencer em mim esta sede de vida, frenética e, talvez, indecente? Cheguei à conclusão de que, pelos vistos, não existe, pelo menos até aos tais trinta anos; e, ao chegar lá, repito, talvez já não anseie por nada, assim me parece."


Fiodor Dostoievski, in 'Os Irmaos Karamazov'

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Inferno de amar

"Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui na alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que antes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol com tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei..."

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

terça-feira, 31 de julho de 2007

Vida perfeita

"Vir morte e levar-nos. E não fazermos falta a ninguém. Nem a nós. Que outra vida mais perfeita?"


Vergílio Ferreira

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Forget my fate

"(...) darkness shades me,
On thy bosom let me rest,
More I would, but Death invades me;
Death is now a welcome guest.
When I am laid in earth,
May my wrongs create
No trouble in thy breast;
Remember me, but ah! forget my fate."

Henry Purcell, in 'Dido and Aeneas' (Libretto by Nahum Tate)
.
A não perder:
O quê: "
Ópera"
Quem: Tiago Guedes e Maria Duarte
Quando: de 30 de Julho a 5 de Agosto, 21h30
Onde: Negócio/zdb (R. de O Século, 9)
Quanto: 10€
.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Suave é viver só

"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."
Ricardo Reis in 'Odes'

terça-feira, 24 de julho de 2007

O recomeço

"(...) no mais das vezes, a durabilidade das relações vem de todo o lado excepto do prazer imediato que elas nos proporcionam. O Homem, criatura de hábitos, prefere a ilusão de conforto de um conhecido que já não lhe aqueça a alma ao perigo iminente da solidão fria ou às amplitudes térmicas do estado de enamoramento, e por isso rumina e retarda o fim das relações já mortas, encetando (numa lógica absurda e autista de fugas para a frente) uma sucessão de novas tentativas, repristinações e recomeços. O problema é que “o recomeço” — esse conceito nobre e luminoso que encobre uma demão de tinta mal enjorcada na nossa parede grafitada de emoções — só funcionaria se pudéssemos, um dia, reencontrar o outro, sem memória."

Laura Cravo, in 'Sem Memória'

domingo, 22 de julho de 2007

Não existo

"Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida..."

Fernando Pessoa

sábado, 21 de julho de 2007

Liberté

"Sur mes cahiers d'écolier, Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige J'écris ton nom
Sur toutes les pages lues Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre J'écris ton nom
Sur les images dorées Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois J'écris ton nom
Sur la jungle et le désert Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance J'écris ton nom
Sur les merveilles des nuits Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées J'écris ton nom
Sur tous mes chiffons d'azur Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante J'écris ton nom
Sur les champs sur l'horizon Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres J'écris ton nom
Sur chaque bouffée d'aurore Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente J'écris ton nom
Sur la mousse des nuages Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade J'écris ton nom
Sur les formes scintillantes Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique J'écris ton nom
Sur les sentiers éveillés Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent J'écris ton nom
Sur la lampe qui s'allume Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis J'écris ton nom
Sur le fruit coupé en deux Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide J'écris ton nom
Sur mon chien gourmand et tendre Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite J'écris ton nom
Sur le tremplin de ma porte Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni J'écris ton nom
Sur toute chair accordée Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend J'écris ton nom
Sur la vitre des surprises Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence J'écris ton nom
Sur mes refuges détruits Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui J'écris ton nom
Sur l'absence sans désir Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort J'écris ton nom
Sur la santé revenue Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir J'écris ton nom
Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté."
Paul Eluardin, in 'Oeuvres complètes 1913-1943'

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Por me faltares

"— Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
.....................................................................
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
.....................................................................
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surdo,
Te ouvisse todo com o coração.
Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas [...] ...
Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas. (...)
.....................................................................
Quando eu era pequeno, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe...
.....................................................................
Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?"
Fernando Pessoa in 'Primeiro Fausto'

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Morrerei de amor porque te quero

"Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo."

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Desintegrar-me em ti


"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Manuel Alegre, in 'Obra Poética'

terça-feira, 17 de julho de 2007

Que me tocasses


"(...) Há dia, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar. (...)"

Pedro Paixão, in 'Assinar a Pele'

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Meu estremecimento

"Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém."
António Gedeão, in 'Poesia Completa'

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Trazer-te no sangue

"Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue."
Rainer Marie Rilke, in 'Livro das Horas'

terça-feira, 10 de julho de 2007

A luz da noite

"É noite. O jardim resplandece à luz fraca, rasteira dos candeeiros. Ganha espessura o teu jardim, ganha vida, respondeste, olhei para as ondas, percebi que era ao seu movimento cadenciado, como um corpo adormecido, que te referias. Claro, é mais parecido, na sombra da noite escura, com o mar. O teu silêncio, depois uma pausa, depois de novo o teu silêncio, respiraste fundo: não, sim, ou melhor, sim, não. Como o mar, disseste, mas não pelas formas, sim por causa das almas que o habitam, cada corpo que aqui se deitou, cada abraço, cada grito ou choro de criança ou zanga de adulto ou mão hábil de jardineiro, a sua história só de noite se vê, recortada contra a luz que nos cega. A luz da noite, percebes? Os teus dedos tocaram nos meus ombros, os meus ombros encostaram-se aos teus dedos, foram ao encontro das mãos, roçaram pelos teus seios, aconchegaram-se no côncavo do teu corpo. Os restos de uma onda vieram cobrir-me os pés."

António Mega Ferreira, in 'A Expressão dos Afectos'


segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ao silêncio

"Como é difícil entendermo-nos com a vida. Nós a compor, ela a estragar. Nós a propor, ela a destruir. O ideal seria então não tentarmos entender-nos com ela mas apenas connosco. Simplesmente o nós com que nos entendêssemos depende infinitamente do que a vida faz dele. Assim jamais o poderemos evitar. E todavia, alguns dir-se-ia conseguirem-no. Que força de si mesmos ou importância de si mesmos eles inventam em si para a sobreporem ao mais? Jamais o conseguirei. O que há de grande em mim equilibra-se nas infinitas complacências da vida que me ameaça ou me trai. E é nesses pequenos intervalos que vou erguendo o que sou. Mas fatigada decerto de ser complacente, à medida que a paciência se lhe esgota em ser intervalarmente tolerante, ela vai-me sendo intolerante sem intervalo nenhum. E então não há coragem que chegue e toda a virtude se me esgota na resignação. É triste para quem sonhou estar um pouco acima dela. Mas o simples dizê-lo é já ser mais do que ela. A resignação total é a que vai dar ao silêncio."

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 4'

quinta-feira, 5 de julho de 2007

O dia dos meus anos*


*para o André que faz hoje anos...
"No tempo em que festejava o dia dos meus anos
Eu era feliz e ninguém estava morto
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha
Estava certa como uma religião qualquer
No tempo em que festejava o dia dos meus anos
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma
De ser inteligente para entre a família
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças."

Fernando Pessoa

No sé del dolor

"Cuando te hablen de amor y de ilusiones
y te ofrezcan un sol y un cielo entero;
si te acuerdas de mí no me menciones
porque vas a sentir amor del bueno.
Y si quieren saber de tu pasado
es preciso decir una mentira,
dí que vienes de allá de un mundo raro,
que no sabes llorar, que no entiendes de amor
y que nunca has amado.
Porque yo a donde voy, hablaré de tu amor
como un sueño dorado
y olvidando el rencor no diré que tu amor
me volvio desgraciado.
Y si quieren saber de mi pasado,
es preciso decir otra mentira,
les diré que llegué de un mundo raro,
que no sé del dolor, que triunfé en el amor
y que nunca he llorado."
José Alfredo Jiménez

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Embriaguez de ti

Chegámos já as luzes se tinham apagado. Deixei que te sentasses primeiro para escolher o lugar de onde te poderia admirar melhor. Começou. E eu ignorava o palco para te poder observar. A estrela do espectáculo eras tu. A minha paisagem era o teu perfil. A minha música era a tua respiração. As luzes eram o brilho dos teus olhos. Ah, que vontade de mexer no teu cabelo, dar-te a mão, tocar a tua pele. Que vontade de perceber que a tua indiferença era apenas timidez, que o teu silêncio era apenas deferência, que o teu sorriso era todo para mim... Que vontade que as luzes nunca se acendessem para poder estar ali ao teu lado a sentir a tua entrega. Que desejo de que me amasses. Abandonei-me àquela contemplação. Deixei ficar a minha perna ao teu lado, sem te tocar, de tal forma próxima que sentia o calor do teu corpo. Quase esquecia a névoa que me saía do olhar sempre que te ausentavas. Que momento sublime. Que desejo. Que amor. Ah que embriaguez de ti!

domingo, 1 de julho de 2007

Vestígio de passagem


"Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem."


Fernando Pessoa
* Foto de Daniel Gustav Cramer (cuja exposição pode ser vista na Vera Cortes Art Agency até 7 de Setembro)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

El valor de no negarlo...

"Por tu amor que tanto quiero, y tanto extraño
que me sirvan otra copa y muchas mas
que me sirvan de una vez pa' todo el año
que me pienso seriamente enborrachar
Si te cuentan que me vieron muy borracho
orgullosamente diles que es por ti
porque yo tendre el valor de no negarlo
gritare que por tu amor me estoy matando
y sabran que por tus besos me perdi
Para de hoy en adelante ya el amor no me interesa
cantare por todo el mundo mi dolor y mi tristeza
Porque se que de este golpe ya no voy a levantarme
y aunque yo no lo quisiera voy a morirme de amor..."

José Alfredo Jiménez por Lila Downs, in 'La Cantina - De copa en copa'

Cada um de nós

"(...) Mas tudo para mim foi difícil e provisório, porque eu estava impaciente pelo que não era isso. Mas havia um cerimonial a cumprir para afastar o mais possível o seu terceiro andar de uma casa de passe. Oh, gostei bem que não fosse, eu amava-te decerto. Era um amor geometrizado na linearidade do teu corpo, como hei-de dizer? no rigor de seres um ser corpóreo. Porque o teu corpo perfeito adiantava-se sobre ti e era com ele que eu primeiro me defrontava. Que é que quer dizer amor? contigo não o sabia, nunca o soube, teria alguma significação? ou a significação não é dele mas de cada um de nós ou de tudo aquilo com que somos cada um de nós. (...)"
.
Vergílio Ferreira, in 'Até ao Fim'

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Grande silêncio

"(...) grito para o universo, sento-me de novo confundido. Estás só, estás só e em silêncio, aguenta em ti tudo o que é de ti - berro desvairado, calo-me no grande silêncio que alastra pela tarde, os olhos doridos, o queixo tremente. Estou só comigo, que destino dar a isto?"

Vergílio Ferreira

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Que sintas o que sinto

"Quando me sinto só como tu me deixaste,
Mais só que um vagabundo num banco de jardim,
É quando tenho dó de mim e, por contraste,
Eu tenho ódio ao mundo que nos separa assim.
Quando me sinto só sabe-me a boca a fado,
Lamento de quem chora a sua triste mágoa.
Rastejando no pó, o meu coração cansado
Lembra uma velha nora, morrendo à sede de água.
Para que não façam pouco, procuro não gritar,
A quem pergunta, minto, não quero que tenham dó.
Num egoísmo louco eu chego a desejar
Que sintas o que sinto quando me sinto só."

Artur Ribeiro e Joaquim Campos por Mariza, in 'Transparente'

quarta-feira, 20 de junho de 2007

De que foges

"(...) Prometi a mim mesmo que vou regressar à vida. Para isso inventei um ritual. Agarrei na caixa que tenho com as infinitas fotografias que te tirei e decidi que todos os dias escolho uma. Passo horas a fixá-la até a conhecer de cor e no fim rasgo-a em mil pedaços. Conto com isto acabar com todas a fotografias e poder enfim passar a um plano menos corpóreo da tua memória. Porque se conseguir fixar todos os teus traços e expressões, não vai haver perigo de que te esqueça. É disso que tenho medo. De me esquecer da tua cara. Há histórias de pessoas que a pouco e pouco vão esquecendo as feições dos que mais amaram. (...) Mas já pensaste o que seria, se te esquecesse?
(...) Como encaravas tu o encontrares-me com outra pessoa aqui em casa, profanando aquele espaço que sempre foi tão nosso? Tens o teu território marcado, é o que penso para comigo. Não posso ultrapassar o peso da tua presença, mas reconheço que por vezes me falta o ar quando penso na eternidade desse teu estado imaterial. Sei que me rodeias mas por vezes a força para te agarrar não chega e foges de mim, correndo pela casa, brincando comigo. Tenho medo disso. Porque foges tu? És feliz?(...)"
Pedro Rapoula, in 'Iniciação à Tristeza'

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Perdido no vazio de outros passos

"Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando me encontrar
E nesse desepero em que me vejo
já cheguei a tal ponto
de me trocar diversas vezes por você
só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la."

Caetano Veloso

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Regresso à solidão

O "meio-termo" não me chega, disse-te eu no meio das lágrimas. "Amo-te mas quero mais. Não posso viver com alguém que se contenta com as pequenas migalhas de tempo que me sobram." As tuas lágrimas continuavam a correr como um rio e ainda assim, quebrado por dentro, eu não conseguia parar de falar. "Regresso à solidão de onde saí quando te conheci". Saíste do carro e a chuva não parava. Fiquei ali a ver-te entrar no prédio e esperei que acendesses a luz da casa que construímos juntos. Voltaste atrás e pediste que me fosse embora mas estranhamente não conseguia ligar o carro, como se o ir-me embora significasse deixar-te para sempre.

Nunca imaginei que a nossa relação pudesse terminar assim. Mas a chuva de Junho devia ser um prenúncio de que as coisas iam chegar ao fim. Não te amei à primeira vista como me disseram que aconteceria quando conhecesse o grande amor da minha vida. Por isso, agora que chegou o fim, a dor que sinto vale por todas as pessoas que amei e que perdi até hoje.

O tempo cura tudo. Mas as cicatrizes não desaparecem nunca. O fim de um grande amor deixa uma marca e um vazio tão grande que não imagino que o tempo alguma vez vá apagar o teu cheiro, o teu sorriso, o brilho dos teus olhos quando me vias chegar, os beijos apaixonados que me davas quando nos despedíamos, a alegria do teu rosto quando estávamos juntos, a escolha cuidada das tuas palavras para me agradares.

Agora é real. Acabou mesmo. Lembro-me de algo que escrevi no passado e vejo que depois de te conhecer tudo faz mais sentido: "O teu olhar fazia-me acreditar na distância do eterno e na proximidade do amor. Quando a nossa entrega era real, o tempo tornava-se nosso aliado e os momentos de eternidade pareciam estar em nós. E aí, viver de ti e para ti parecia-me a única saída. A forma como nos amávamos era intemporal e o modo como sorrias não fazia mais que confirmar essa intemporalidade. Olho em volta e não te encontro e neste momento de uma lucidez cortante apercebo-me de que te perdi. Faço um esforço para acreditar que não partiste, que te pertenço, que me pertences e para nós não existe tempo nem espaço. Nós somos o tempo e o espaço, a noite e o dia, o longe e o perto. Não no sentido antagónico das verdades mas na verdade complementar dos sentidos: viver em nós, morrer em mim. Olho em volta, mais uma vez, e a tua ausência subitamente não faz sentido porque te amo, porque me amas e porque é em ti que me preencho. Sinto o teu cheiro em mim e vejo o teu corpo no meu. Porque é aí que existes, na procura que fazemos um do outro. Em qualquer outra noite sei que estendo o braço e no teu lado frio da cama descubro o corpo quente e familiar que me completa e me acalma. Chamo por ti e o teu nome enche o espaço como se o ar não existisse no deserto da tua presença. E sei que respondes com o sim que nunca disseste e com a aceitação de um amor que nunca recebeste."

Curiosamente fui eu que, em nome de não sei bem o quê, abdiquei do teu amor e da tua entrega. Regresso à solidão. E só a memória dos nossos momentos felizes fará com que o meu Verão não seja tão frio como a chuva que caiu no momento em que liguei o carro e me afastei da tua rua.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Parcela de ilusão

"Apetecia-me ficar por aqui, mas espera, ainda quero dizer-te uma coisa. Lembras-te de uma noite te ter perguntado se duas pessoas podiam viver juntas em mundos diferentes? Tu ficaste muito sério, percebi que, por qualquer razão que tinha a ver com a tua história pessoal, era uma pergunta que já te tinhas colocado a ti próprio. Depois, quase a medo, disseste que teoricamente era uma hipótese admissível, que durante muitos anos tinhas pensado que essa era mesmo a forma mais recomendável para evitar o tédio que nasce do hábito quando a rotina se sobrepõe aos afectos, que talvez essa fosse a única forma de fazer uma relação sobreviver no tempo, mas que era preciso que na base desse entendimento houvesse uma espécie de pacto, aqui o meu domínio reservado, ali o teu, mas o pior, disseste, o pior é que, pouco a pouco, os territórios vão-se definindo até à incomunicabilidade, e os seus lugares relativos crescem até ocuparem os espaço inteiros que antes era o domínio comum dos sonhos e dos projectos, e sem sonho, tu mesmo o disseste, sem sonho não há amor que resista.

Ficaste calado muito tempo, tinhas qualquer coisa dentro de ti e eu vi que não estava lá, que nunca estaria lá, e senti um ciúme insuportável da tua vida, de tudo o que cabia dentro da tua vida, as tuas alegrias e o teu sofrimento, a tua mágoa injustificável e o teu sorriso sem contemplação, os romances que querias escrever e até aqueles que não sabes ainda que vais escrever. E era isso a sensação de dois mundos separados, de dois universos que nunca poderiam sobrepor-se, de duas metades que nunca se juntariam uma à outra, dir-me-ás, mas nunca se juntam, eu sei, mas por favor, deixa-me essa última parcela de ilusão, eu quero acreditar, ao menos por algum tempo mais, que a vida tem que ser uma e uma só, e isso, se acontecer, acontece para sempre, e fica estampado no vidro baço do nosso desejo de perdição."


António Mega Ferreira, in 'A Expressão dos Afectos'

A minha solidão

"Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, (...) se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio."

António Lobo Antunes, in 'Memória de Elefante'

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Deixa-me ser feliz

"Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada."

Miguel Torga, in 'Antologia Poética'

terça-feira, 12 de junho de 2007

Quase esquecimento

"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo."

Sophia de Mello Breyner Andresen in 'Pirata'

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Sempre, então...

- Como estás?
- Bem...
- Não estás bem? Ou apenas cansado? Não sei e a incerteza preocupa-me...
- Cansado. Muito cansado. Excessivamente cansado.
- Vai para casa e dorme.
- Não percebeste... Estou irremediavelmente cansado.
- Vai descansar, por favor... Dorme.
- I will... Latter...
- Estou aqui para ti.
- Ok, mas não é preciso estares...
- Estarei sempre.
- Sempre?
- Mesmo que não queiras.
- "Sempre" não é exagero?
- Não, porquê?
- Mesmo que eu não queira?
- Sim.
- Qual é o interesse de estares mesmo que eu não queira? És masoquista?
- Sim.
- Isso é território dos amigos. "Estar sempre" só os amigos é que o fazem..
- E que sou eu?
- Muito bem. Sempre, então...
- Achas que não?
- Acho que sim. Mas o tempo o dirá.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Hoje nada sou

"Você, que tanto tempo faz,
Você que eu não conheço mais
Você, que um dia eu amei demais
Você, que ontem me sufocou
De amor e de felicidade
Hoje me sufoca de saudade
Você, que já não diz pra mim
As coisas que eu preciso ouvir
Você, que até hoje eu não esqueci
Você que, eu tento me enganar
Dizendo que tudo passou
Na realidade, aqui em mim você ficou
Você que eu não encontro mais
Os beijos que já não lhe dou
Fui tanto pra você
E hoje nada sou"

Roberto Carlos

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Um céu para me acontecer...

"Entrego ao vento os meus ais
Onde o desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata
Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde
Na vontade de ser tua
Quero ser
Eu sou assim
Sete pedaços de vento
Sete vozes no jardim
No jardim que eu própria invento
Sete ares de nostalgia
Sete perfumes diversos
Nos cristais da fantasia
Amante de amores dispersos
Sete gritos por gritar
Sete silêncios viver
Sete luas por brilhar
E um céu para me acontecer
Entrego ao vento os meus ais
Onde desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata
Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua"


José Luís Gordo por Cristina Branco in 'Ulisses'

quinta-feira, 31 de maio de 2007

De Amicitia

"(...) Tinha uma paixão secundária, mas não menos importante, embora possivelmente não tão egoísta e seguramente menos solitária. Cultivava os amigos, não este nem aquele em especial, mas os amigos, como entes que corporizavam uma categoria sobre a qual era capaz de discorrer horas a fio: a amizade. (...) Citava Cícero mas não sabia mais do De Amicitia que uma frase (...) que, na sua imprecisa recordação, dizia mais mais ou menos assim: «De todas as virtudes humanas, nenhuma é tão rara e tão próxima do coração do homem como a amizade.» Praticava com zelo a disciplina, como ele a entendia: não perguntava nada, não pedia nada, disponibilizava-se para tudo o que os amigos precisassem. E seguia as necessidades dos outros com uma bulimia do pormenor que ficaria bem a um detective, intuindo-lhes desejos, adivinhando-lhes projectos, antecipando gestos e afectos. Era um verdadeiro amigo, diziam os amigos; ele, modestamente, achava-se apenas um homem comum.(...)."
António Mega Ferreira, in 'A Expressão dos Afectos'