
Julguei-me grande pelo sofrimento
E pelo orgulho ainda sou maior
(...)"
''A SOLIDÃO DESOLA-ME; A COMPANHIA OPRIME-ME. A PRESENÇA DE OUTRA PESSOA DESENCAMINHA-ME OS PENSAMENTOS; SONHO A SUA PRESENÇA COM UMA DISTRACÇÃO ESPECIAL, QUE TODA A MINHA ATENÇÃO ANALÍTICA NÃO CONSEGUE DEFINIR.'' (FERNANDO PESSOA)
Lágrima por lágrima hei-de te cobrar
Todos os meus sonhos que tu carregaste, hás-de me pagar
A flor dos meus anos, meus olhos insanos de te esperar
Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei-de te cobrar
Cada ruga que trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar
Cada vez que no meu coração, morrer uma ilusão, hás-de me pagar
Toda a festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar
As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar...
Lágrima por lágrima.
Roque Ferreira por Maria Bethânia, in 'Dentro do Mar tem Rio'
Quem por amor se perdeu não chore, não tenha pena
Uma das santas do céu foi Maria Madalena!
Desse amor que nos encanta
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa
Quem por amor se perdeu
Jesus só nos quis mostrar que o amor não se condena
Por isso quem sabe amar não chore, não tenha pena!
A Virgem Nossa Senhora
Quando o amor conheceu
Fez da maior pecadora
Uma das santas do céu
E de tanta que pecou, da maior à mais pequena
E aquela que mais amou foi Maria Madalena!
Augusto Gil (1873-1929), in 'Music Box' de Yolanda Soares
(um dos melhores projectos em língua portuguesa dos últimos tempos!
Estou à espera do próximo Yolanda!!)
Quando era pequeno imaginava-me já adulto, com 30 anos. Imaginava como ia ser a minha vida e os sonhos e as ilusões desfilavam como se o mundo não tivesse limites. Fazer anos é também fazer balanços. E o balanço, aos 30, é muito positivo. Cheguei calmamente aos 30. As ilusões e os sonhos foram mudando, desparecendo, dando lugar a realidades e a factos. Aos 30 anos sou substancialmente diferente daquilo que imaginei que seria. Não sei dizer se sou mais ou menos feliz. Estou seguro de que sou um felizardo. Tenho ao meu lado, na minha vida, os melhores amigos do mundo. Sei que conto com eles mesmo quando acho que estou sozinho. Os meus amigos são o meu capital e eu sou riquíssimo. Aos amigos soma-se uma uma fé a cada dia mais fortalecida no Deus de Amor e de Misericórdia. É bom ter um Pai que olha por mim, diariamente, assegurando que mesmo nos momentos mais duros eu sou "levado ao colo". Tenho a benção de ter uma família extraordinária, uns pais que fazem tudo por mim e uns irmãos que são, provavelmente os melhores do mundo porque são também os meus melhores amigos. Tenho um trabalho que me estimula diariamente, que não deixa margem para rotinas e que me garante uma realização profissional que nunca imaginei possível com a minha idade. Tudo isto faz com que os 30 anos cheguem serenamente, sem angústias. Tenho sede de viver os próximos 10 e de chegar aos 40 tão tranquilo como me sinto hoje. "Esta é só uma noite para comemorar". Obrigado a todos pela presença, pelo carinho, pela paciência, pela amizade, pelas palavras e pelo silêncio. Sou como sou, hoje, graças a todos os que conheci. Obrigado.
"Esta é só uma noite para partilhar
qualquer coisa que ainda podemos guardar
cá dentro num lugar a salvo para onde correr
quando nada bate certo
e se fica a céu aberto
sem saber o que fazer
Esta é só uma noite para comemorar
qualquer coisa que ainda podemos salvar
no tempo um lugar pra nós onde demorar
quando nada faz sentido
e se fica mais perdido
e se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar
do que a vida foi fazendo sem nos avisar
foi-se acumulando em fotografias,
em distâncias e saudade numa dor
que nunca acaba e faz transbordar os dias
Esta é só uma noite para me lembrar
que há qualquer coisa infinita como o firmamento,
um sorriso, um abraço
que transcende o tempo
e ter medo como dantes de acordar
a meio da noite a precisar de um regaço"
Tenho saudades tuas. Do tempo em que éramos dois mas éramos um só. Do tempo em que o primeiro telefonema do dia era para ti. Do tempo em que éramos um do outro e gostávamos disso. Do tempo em que os dias passavam devagar mas não importava porque à noite estávamos juntos. Do tempo em que os teus pés gelados procuravam os meus debaixo dos lençóis. Do tempo em que falávamos com o olhar. Do tempo em que o teu toque me arrepiava. Do tempo em que os teus abraços eram remédio para tudo. Do tempo em que o silêncio não era uma arma. Do tempo em que as discussões eram pretexto para nos amarmos. Do tempo em que me sentia amado. Do tempo em que me fazias feliz e eu a ti. Do tempo em que éramos felizes mas não sabíamos. Tenho saudades nossas. "Só hoje senti que o rumo a seguir levava pra longe
Senti que este chão já não tinha espaço pra tudo o que foge
Não sei o motivo pra ir só sei que não posso ficar
Não sei o que vem a seguir mas quero procurar
E hoje deixei de tentar erguer os planos de sempre
Aqueles que são pra outro amanhã que há-de ser diferente
Não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar um pouco de céu
Um pouco de céu
Só hoje esperei já sem desespero que a noite caísse
Nenhuma palavra foi hoje diferente do que já se disse
E há qualquer coisa a nascer bem dentro no fundo de mim
E há uma força a vencer qualquer outro fim
Não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar um pouco de céu
Um pouco de céu"
"Um pouco de céu" de Mafalda Veiga, in 'Tatuagem'



"Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado."
Esquadros de Adriana Calcanhoto, in 'Público'
Sampa de Caetano Veloso, in 'Circulado ao Vivo'