segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Tempo sem recordações
Lento desejo do teu corpo
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo."
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Dia Mundial da Música
"Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando há traição, ciúme e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
No dia de procissão
Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinhos
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar
Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca, mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, folião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E então
E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Ah! Corre em vertigem num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado."
domingo, 30 de setembro de 2007
Maldição
"Que destino ou maldição
Manda em nós, meu coração,
Um do outro assim perdidos?
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo.
Não te encontro, não te entendo,
Amo e odeio sem razão.
Coração quando te cansas
Das nossas mortas esperanças
Quando páras coração?
Nesta luta, nesta agonia
Canto e choro todo dia
Sou feliz e desgraçada.
Que sina tua meu peito
Que nunca estás satisfeito
Que dás tudo e não tens nada.
Ó gelada solidão
Que tu me dás coração
Não é vida nem é morte.
É lucidez, desatino
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte..."
(Alfredo Duarte e Armando V. Pinto)
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Fantástica vinda
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Chamo-Te
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado."
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Tempo distante

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaçoe o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram."
domingo, 23 de setembro de 2007
Toi que j'attendais même en ta présence
"Et tois, Hongrois, mon Arpad, plus exilé encore que moi, tellement présent, tellement absent, avec une langue qui semblait plus étrangère encore que la mienne aux camarades de terrasses et d'expositions, dans la ville du petit fleuve si différent non seulement de ton Danube mais de mon Tage, avec ta séculaire tradition d'errances, de déménagements interminables, maître du provisoire et transitoire, que je cherchais toujours sans pouvoir découvrir qu'un fragment, Arpad, mon Osiris, qui me trouvais toujours guidant ma main sans y toucher, toi, mon oeil supplémentaire établissant des dimensions nouvelles par ta façon de regarder ce que je te proposais, toi que j'attendais même en ta présence, Arpad, mon Ulysse, que j'imaginais combattant sous les murs de cités orgueilleuses, puis avec de cyclopes et des sorcières, quand tu t'es éloigné définitivement, il n'y a pas eu de rupture das ton silence ni dans les miens. Soudain seulement j'ai senti la vieillesse dont tu m'avais préservé, car je m'imaginais qu'elle était ta prérogative, siffler comme le vent des chevauchées de tes ancêtres depuis l'Asie à la découverte de nouvelles prairies aux climats moins rudes, comme celui des pérégrinations des miens à la découverte de nouvelles rivages aux civilisations surprenantes.".
(excerto retirado do texto de Michel Butor do catálogo da exposição 'Vieira da Silva - Oeuvres de la Fondation Arpad Szenes - Vieira da Silva et du Centre d'Art Moderne José de Azeredo Perdigão' no Centre Culturel Calouste Gulbenkian em Paris até 18 de Outubro e em Lisboa a partir de 25 de Outubro)
sábado, 22 de setembro de 2007
"Sim mãezinha?"

Tinha 23 anos protegidos pela asfixiante presença da mãe que se recusava continuamente a perceber que o seu filho tinha crescido. Continuava a ir esperá-lo ao emprego, como tinha esperado o toque de saída no infantário, na escola primária, de sucessivas em sucessivas humilhações até à universidade.
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
Que a noite fosse eterna
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Gelada solidão
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido,
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo,
Não te encontro, nem te entendo,
A mim o digo sem razão:
Coração... quando te cansas
Das nossas mortas esperanças,
Quando páras, coração?
Nesta luta, esta agonia,
Canto e choro de alegria,
Sou feliz e desgraçada.
Que sina a tua, meu peito,
Que nunca estás satisfeito,
Que dás tudo... e não tens nada.
Na gelada solidão,
Que tu me dás coração,
Não é vida nem é morte:
É lucidez, desatino,
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte."
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Debaixo da chuva
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Sono gelado
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido - não ter medo de nada. Pudesse
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi -
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema."
terça-feira, 4 de setembro de 2007
O incrível miraculoso
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Eternity
domingo, 2 de setembro de 2007
Lumière
La tache d'or strié
Toi qui étais partout,
Toi l'arc des jours tendus,
Toi l'étoile polaire,
Où en est maintenant ta vendange ô lumière?
Où sont les jeux d'enfants
les lilas les moulins?
Le lait qui descendait
sur le petit matin
des condamnés à mort,
Les souvenirs éteints?"
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Da tristeza e da alegria
Tristezas no coração
Trago os meus sonhos perdidos
Em noite de solidão
Trago versos, trago sons,
De uma grande sinfonia
Tocada em todos os tons
Da tristeza e da alegria.
Trago amarguras aos molhos
Lucidez e desatino
Trago secos os meus olhos
Que choram desde meninos
Trago noites de luar
Trago planícies de flores
Trago o céu e trago o mar
Trago dores ainda maiores"
The cradles that surround us
It embraces everything, night and dreams
Silence that arouses anxiety
Night that envelops sadness and despair
Dreams of hope for a transformation.
Let us take heed of Job
Then maybe we'll prevail against
The slogans, the labels, illusions and indifference,
The cradles that surround us."
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Descanso
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Faces nuas
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
To put it away
sábado, 18 de agosto de 2007
A independência da solidão
"O que me importa unicamente é o que tenho de fazer, não o que pensam os outros. Esta regra, igualmente árdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para a distinção total entre a grandeza e a baixeza. E é tanto mais dura quanto sempre se encontrarão pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual é o teu dever. É fácil viver no mundo de conformidade com a opinião das gentes; é fácil viver de acordo consigo próprio na solidão; mas o grande homem é aquele que, no meio da turba, mantém, com perfeita serenidade, a independência da solidão." sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Tenho saudades tuas...
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Os olhos ocos do mar
terça-feira, 7 de agosto de 2007
A lembrança deste amor
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como é que estás.
Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que eu nunca sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei."
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Shadows and light
Far away from here...
There is no worry after joy
Or away from fear
Far away from here.
Her lips were not very red,
Nor her hair quite gold.
Her hand plays with rings.
She did not let me hold
Her hands playing with gold.
She is something past.
Far away from pain.
Joy can touch her not, nor hope
Enter her domain,
Neither love in vain.
Perhaps at some day beyond
Shadows and light
She will think of me and make
All me a delight
All away from sight."
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Estar vago
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Repugnância pela vida
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Inferno de amar
Quem mo pôs aqui na alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que antes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol com tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei..."
terça-feira, 31 de julho de 2007
Vida perfeita
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Forget my fate
"(...) darkness shades me,On thy bosom let me rest,
More I would, but Death invades me;
Death is now a welcome guest.
When I am laid in earth,
May my wrongs create
No trouble in thy breast;
Remember me, but ah! forget my fate."
Henry Purcell, in 'Dido and Aeneas' (Libretto by Nahum Tate)
O quê: "Ópera"
Quem: Tiago Guedes e Maria Duarte
Quando: de 30 de Julho a 5 de Agosto, 21h30
Onde: Negócio/zdb (R. de O Século, 9)
Quanto: 10€
.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Suave é viver só
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."
terça-feira, 24 de julho de 2007
O recomeço
domingo, 22 de julho de 2007
Não existo
sábado, 21 de julho de 2007
Liberté
Sur le sable sur la neige J'écris ton nom
Sur toutes les pages lues Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre J'écris ton nom
Sur les images dorées Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois J'écris ton nom
Sur la jungle et le désert Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance J'écris ton nom
Sur les merveilles des nuits Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées J'écris ton nom
Sur tous mes chiffons d'azur Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante J'écris ton nom
Sur les champs sur l'horizon Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres J'écris ton nom
Sur chaque bouffée d'aurore Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente J'écris ton nom
Sur la mousse des nuages Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade J'écris ton nom
Sur les formes scintillantes Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique J'écris ton nom
Sur les sentiers éveillés Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent J'écris ton nom
Sur la lampe qui s'allume Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis J'écris ton nom
Sur le fruit coupé en deux Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide J'écris ton nom
Sur mon chien gourmand et tendre Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite J'écris ton nom
Sur le tremplin de ma porte Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni J'écris ton nom
Sur toute chair accordée Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend J'écris ton nom
Sur la vitre des surprises Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence J'écris ton nom
Sur mes refuges détruits Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui J'écris ton nom
Sur l'absence sans désir Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort J'écris ton nom
Sur la santé revenue Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir J'écris ton nom
Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté."
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Por me faltares
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
.....................................................................
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
.....................................................................
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surdo,
Te ouvisse todo com o coração.
Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas [...] ...
Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas. (...)
.....................................................................
Quando eu era pequeno, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe...
.....................................................................
Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?"
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Morrerei de amor porque te quero
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo."
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Desintegrar-me em ti

desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."
terça-feira, 17 de julho de 2007
Que me tocasses

segunda-feira, 16 de julho de 2007
Meu estremecimento
"Sós,irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém."
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Trazer-te no sangue
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue."
terça-feira, 10 de julho de 2007
A luz da noite
"É noite. O jardim resplandece à luz fraca, rasteira dos candeeiros. Ganha espessura o teu jardim, ganha vida, respondeste, olhei para as ondas, percebi que era ao seu movimento cadenciado, como um corpo adormecido, que te referias. Claro, é mais parecido, na sombra da noite escura, com o mar. O teu silêncio, depois uma pausa, depois de novo o teu silêncio, respiraste fundo: não, sim, ou melhor, sim, não. Como o mar, disseste, mas não pelas formas, sim por causa das almas que o habitam, cada corpo que aqui se deitou, cada abraço, cada grito ou choro de criança ou zanga de adulto ou mão hábil de jardineiro, a sua história só de noite se vê, recortada contra a luz que nos cega. A luz da noite, percebes? Os teus dedos tocaram nos meus ombros, os meus ombros encostaram-se aos teus dedos, foram ao encontro das mãos, roçaram pelos teus seios, aconchegaram-se no côncavo do teu corpo. Os restos de uma onda vieram cobrir-me os pés."segunda-feira, 9 de julho de 2007
Ao silêncio
quinta-feira, 5 de julho de 2007
O dia dos meus anos*

Eu era feliz e ninguém estava morto
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha
Estava certa como uma religião qualquer
No tempo em que festejava o dia dos meus anos
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma
De ser inteligente para entre a família
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças."
No sé del dolor
y te ofrezcan un sol y un cielo entero;
si te acuerdas de mí no me menciones
porque vas a sentir amor del bueno.
Y si quieren saber de tu pasado
es preciso decir una mentira,
dí que vienes de allá de un mundo raro,
que no sabes llorar, que no entiendes de amor
y que nunca has amado.
Porque yo a donde voy, hablaré de tu amor
como un sueño dorado
y olvidando el rencor no diré que tu amor
me volvio desgraciado.
Y si quieren saber de mi pasado,
es preciso decir otra mentira,
les diré que llegué de un mundo raro,
que no sé del dolor, que triunfé en el amor
y que nunca he llorado."
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Embriaguez de ti
domingo, 1 de julho de 2007
Vestígio de passagem
1.jpg)
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem."
sexta-feira, 29 de junho de 2007
El valor de no negarlo...
que me sirvan otra copa y muchas mas
que me sirvan de una vez pa' todo el año
que me pienso seriamente enborrachar
orgullosamente diles que es por ti
porque yo tendre el valor de no negarlo
gritare que por tu amor me estoy matando
y sabran que por tus besos me perdi
cantare por todo el mundo mi dolor y mi tristeza
Porque se que de este golpe ya no voy a levantarme
y aunque yo no lo quisiera voy a morirme de amor..."
Cada um de nós
quarta-feira, 27 de junho de 2007
Grande silêncio
segunda-feira, 25 de junho de 2007
Que sintas o que sinto
Mais só que um vagabundo num banco de jardim,
É quando tenho dó de mim e, por contraste,
Eu tenho ódio ao mundo que nos separa assim.
Quando me sinto só sabe-me a boca a fado,
Lamento de quem chora a sua triste mágoa.
Rastejando no pó, o meu coração cansado
Lembra uma velha nora, morrendo à sede de água.
Para que não façam pouco, procuro não gritar,
A quem pergunta, minto, não quero que tenham dó.
Num egoísmo louco eu chego a desejar
Que sintas o que sinto quando me sinto só."
quarta-feira, 20 de junho de 2007
De que foges
"(...) Prometi a mim mesmo que vou regressar à vida. Para isso inventei um ritual. Agarrei na caixa que tenho com as infinitas fotografias que te tirei e decidi que todos os dias escolho uma. Passo horas a fixá-la até a conhecer de cor e no fim rasgo-a em mil pedaços. Conto com isto acabar com todas a fotografias e poder enfim passar a um plano menos corpóreo da tua memória. Porque se conseguir fixar todos os teus traços e expressões, não vai haver perigo de que te esqueça. É disso que tenho medo. De me esquecer da tua cara. Há histórias de pessoas que a pouco e pouco vão esquecendo as feições dos que mais amaram. (...) Mas já pensaste o que seria, se te esquecesse?segunda-feira, 18 de junho de 2007
Perdido no vazio de outros passos
"Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando me encontrar
E nesse desepero em que me vejo
já cheguei a tal ponto
de me trocar diversas vezes por você
só pra ver se te encontro
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la."
Caetano Veloso






.jpg)
