terça-feira, 22 de abril de 2008

Coisas Pequenas

"Coisas pequenas são
Coisas pequenas
São tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são, coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar

Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é, coisa pequena,
que nada é maior que amar

E a hora, que te espreita, é só tua
decerto, não será só a que resta,
a hora que esperei a vida toda
é esta

E a hora, que te espreita, é derradeira
decerto já bateu à tua porta
a hora que esperei a vida inteira
é agora
é agora."

Pedro Ayres Magalhães por Madredeus, in 'O Paraíso'

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O que em mim vai

"Sopra demais o vento para eu poder descansar ...
Há no meu pensamento qualquer coisa que vai parar.
Talvez esta coisa da alma que acha real a vida,
Talvez esta coisa calma que me faz a alma vivida ...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo se me perco a meditar
Vento que passa e esquece, poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse saber o que em mim vai..."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 16 de abril de 2008

E se um olhar lhe bastasse


"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P´ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!"

por Camané

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um pôr-do-sol no pensamento


"Talvez não saibas mas dormes nos meus dedos
aonde fazem ninho as andorinhas
e crescem frutos ruivos e há segredos
das mais pequenas coisas que são minhas.

Talvez tu não conheças mas existe
um bosque de folhagem permanente
aonde não te encontro e fico triste
mas só de te buscar fico contente.

Oh meu amor, quem sabe se tu sabes
sequer se em ti existo ou sou demora,
ou sou como as palavras, essas aves
que cantam o teu nome a toda a hora.

(...)

Talvez não compreendas mas o vento
anda a espalhar em ti os meus recados,
e que há um pôr-do-sol no pensamento
quando os dias são azuis e perfumados.

Oh meu amor, quem sabe se tu sabes
sequer se em ti existo ou sou demora,
ou sou como as palavras, essas aves
que cantam o teu nome a toda a hora."

Joaquim Pessoa por Katia Guerreiro, in 'Tudo ou Nada'

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Da alvorada que há em ti

"Queria conhecer os teus segredos
e penetrar-te assim devassamente.
E ter tua vontade entre os meus dedos
e comandá-la assim seguramente.
Queria dizer - vem - e tu partires
ao meu encontro muito alegremente - 
e dizer-te - não venhas - e não vires
chorando um bem perdido eternamente.
Queria que me desses tão somente 
um pouco da alvorada que há em ti
e a tua coerência incoerente.
Mas se apenas na noite se pressente
esses sinais de um tempo que perdi
que seja noite indefinidamente."
João Mattos e Silva, in 'Intemporal - Antologia'

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Incerteza


"Gostaria de conseguir apagar dos teus olhos a incerteza de ti próprio."
Assunção Castelo Branco, in 'Coisas da Vida'

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Eterna, continuas...


"Ó solidão! À noite, quando, estranho,
Vagueio sem destino, pelas ruas,
O mar todo é de pedra... E continuas.
Todo o vento é poeira... E continuas.
A lua, fria, pesa... E continuas.
Uma hora passa e outra... E continuas.
Nas minhas mãos vazias continuas,
No meu sexo indomável continuas,
Na minha branca insónia continuas,
Paro como quem foge. E continuas.
Chamo por toda a gente. E continuas.
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.
Invento um verso... E rasgo-o. E continuas.
Eterna, continuas...
Mas sei por fim que sou do teu tamanho!"


Pedro Homem de Mello, in 'Poesias Escolhidas'

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Se querer-te fosse fácil...


"Procurou no bolso os comprimidos para dormir que o deixavam absolutamente inconsciente. Não os tinha tomado durante o vôo porque sabia que eram só duas horas. Mas agora, que estava quase a aterrar, apetecia-lhe desligar o cérebro por um instante que fosse... Ao mexer no bolso reparou que tinha trazido a carta, a carta dela que tinha dado origem a tudo. Releu-a uma vez mais:

"Meu bom Peter, queria tanto escrever bonito para tornar mais fácil tudo o que tenho para te dizer. Há já uns dias que ando para te falar mas falta-me a voz. O melhor mesmo é deixar-me de rodeios e escrever. Já não se usa escrever cartas, pois não? Olha, acabou. Acabou, percebes? Acabou tudo! Não quero mais. Estou cansada de vivermos assim. Quero mais. Quero-te aqui. Ou talvez não te queira aqui e isso provavelmente significa que não te quero de todo. Quero o teu sorriso rasgado e os teus olhos brilhantes mas não quero o teu sarcasmo nem o teu desencanto com a vida. Quero as tuas mãos no meu corpo e os teus lábios no meu pescoço mas não quero as tuas lágrimas durante a noite nem o teu cansaço quando acordas. Ah, se eu soubesse o que quero... Se querer-te fosse fácil... Se, se... E no entanto quero-te. Por isso parto. Vou-me embora. Parto para Lhasa dentro de três dias. Não me sigas por favor. Deixa-me ir e querer-te ao longe. Deixa-me viver na distância o que não consigo partilhar. Deixa-me enlouquecer, esquecendo-te todos os dias um pedaço. Vive! Um beijo. Dos bons.""

Pedro Rapoula, in 'Estórias'

terça-feira, 8 de abril de 2008

I'm just a small step behind you

"In this little town
cars they don't slow down
The lonely people here
They throw lonely stares
Into their lonely hearts
I watch the traffic lights
I drift on Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But girl you're so far away
Oh, hold still for a moment and I'll find you
I'm so close, I'm just a small step behind you girl
And I could hold you if you just stood still
I jaywalk through this town
I drop leaves on the ground
But lonely people here
Just gaze their eyes on air
And miss the autumn roar
I roam through traffic lights
I fade through Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But man you're so far away
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
You're so close, I can feel you all around me boy
I know you're somewhere out there
I know you're somewhere out there
Oh, hold still for a moment and I'll find you
You're so close, I can feel you all around me
And I could hold you if you just stood still
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
I'm so close, I'm just a small step behind you
I know you're somewhere out there"

David Fonseca (Feat. Rita Redshoes) in 'Our heart will beat as one'

sábado, 5 de abril de 2008

Dói no corpo devagar



"Esta palavra Saudade
Sete letras de ternura
Sete letras de ansiedade
E outras tantas de aventura
Esta palavra saudade
A mais bela e a mais pura
Sete letras de verdade
E outras tantas, de loucura
Sete pedras, sete cardos
Sete facas e punhais
Sete beijos que são dados
Sete pecados mortais
Esta palavra saudade
Dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta,
fica na cama a chorar
Esta palavra saudade
Sabe a sumo de limão
Tem um travo de amargura,
Que nasceu no coração
Ai palavra amarga e doce
estrangulada na garganta
Palavra com se fosse
o silêncio, que se canta
Meu cavalo imenso e louco
a galopar na distância
Entre o muito e entre o pouco,
que me afasta da infância
Esta palavra saudade
é a mais prenha de pranto,
como um filho que nascesse
Por termos sofrido tanto
Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,
Enquanto a gente for viva
Esta palavra saudade
sabe ao gosto das amoras
Cada vez que tu não vens,
cada vez que tu demoras
Ai palavra amarga e doce,
debruçada na idade
Palavra como se fossemos
resto de mocidade
Marcada por sete letras
a ferro e a fogo no tempo
Ai, palavra dos poetas
que a disparam contra o vento
Esta palavra saudade
dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta
fica na cama a chorar
Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,
Enquanto a gente for viva"

J. C. Ary dos Santos, por Marisa Pinto em 'Um País chamado Simone'

quinta-feira, 3 de abril de 2008

MINCAYENI: A case of you


"Just before our love got lost you said
"I am as constant as a northern star"
And I said, "Constant in the darkness
Where's that at?
If you want me I'll be in the bar"

On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
And I sketched your face on it twice

Oh you are in my blood like holy wine
Oh and you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet

Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me, you said
"Love is touching souls"
Surely you touched mine
"Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time

Oh you are in my blood like holy wine
And you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet

I met a woman
She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
"Go to him, stay with him if you can
Oh but be prepared to bleed"
Oh but you are in my blood you're my holy wine
Oh and you taste so bitter but you taste so sweet
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet

Joni Mitchell by Cristina Branco, in 'Ulisses'

terça-feira, 1 de abril de 2008

I’d like to call you sometime

"What would you do if I kissed you?
What would you do if I held your hand and laid you down?
Would you find me overly unkind to you?
Would you call me insensitive, and say that I deserve to die?
What do I do with all these feelings tearing me up inside?
What do I do with all these wasted hours dreaming of you at night?
I' d like to call you sometime…
What would you do if you knew the truth?
What would you do if I told you the story of my life?
Would you find me overly familiar towards you?
Would you call me crude, fling me aside to the birds?
What do I do with all these feelings holding me back inside?
What do I do with all these wasted hours dreaming of you at night?
I'd like to call you sometime
I'd like you to need me one time
I’d like to call you sometime
What would you do if I kissed you?
What would you do if I held your hand and laid you down?
Would you recognize it’s a need I've been fighting for so long?
Would you recognize it’s a hunger only you can fill?
What do I do with all these feelings warming me up inside?
What do I do with all these glorious hours dreaming of you at night?
I'd like to call you sometime
I'd like you to need me one time
I'd like to have you all the time
I'd like to call you..."

"I'd Like" by Freshlyground, in 'Nomvula'

segunda-feira, 31 de março de 2008

Todos os dias

"(...)
És, para meu desespero, como as nuvens que andam altas.
Todos os dias te espero, todos os dias me faltas."

João Linhares Barbosa

quinta-feira, 27 de março de 2008

A cumprir uma pena


Porque será que não canto como canta a cotovia?
O meu cantar nem é pranto, é gemer de uma agonia.
Chora sim meu coração, tens razão para o fazer.
Matou a vida a ilusão, que não tornas a viver
'Sofrer fez-me diferente' - dizes tu e tens razão,
Pois não é impunemente que se tem um coração.
Ando a cumprir uma pena mas crime não cometi.
Só sei que ela me condena a viver longe de ti.

por Maria Teresa de Noronha

terça-feira, 25 de março de 2008

Tenho mais medo da vida



Eu quero bem aos teus olhos
Mas muito mais quero aos meus
pois se perdesse os meus olhos
Não podia ver os teus

Se eu de saudades morrer 
Apalpa o meu coração 
Talvez eu torne a viver
Ao calor da tua mão 

Se os meus olhos te incomodam 
Quando estão na tua frente 
Ai, eu prometo arrancá-los
E amar-te cegamente

Gosto de cantar o fado, 
Acho que o fado tem raça
E que não foi só criado
Para cantar a desgraça

Se tenho medo da morte
(Não tanto como supões),
Tenho mais medo da vida
E das suas ilusões

por Maria Teresa de Noronha

sábado, 22 de março de 2008

Say...


"RAOUL
No more talk of darkness,
Forget these wide-eyed fears
I'm here, nothing can harm you
my words will warm and calm you
Let me be your freedom,
let daylight dry your tears.
I'm here with you, beside you,
to guard you and to guide you...

CHRISTINE
Say you love me every waking moment,
turn my head with talk of summertime...
Say you need me with you now and always...
Promise me that all you say is true
that's all I ask of you

RAOUL
Let me be your shelter
let me be your light
You're safe, No one will find you
your fears are far behind you...

CHRISTINE
All I want is freedom,
a world with no more night
and you, always beside me, to hold me and to hide me...

RAOUL
Then say you'll share with me
one love, one lifetime
let me lead you from your solitude
Say you need me with you here, beside you...
anywhere you go, let me go too
Christine, that's all I ask of you...

CHRISTINE
Say you'll share with me one love, one lifetime...
say the word and I will follow you...
Share each day with me,
each night, each morning...
Say you love me...

RAOUL
You know I do...

BOTH
Love me - that's all I ask of you
Anywhere you go let me go too
Love me - that's all I ask of you..."

Andrew Lloyd Webber, in 'The Phantom Of The Opera'

sexta-feira, 21 de março de 2008

A promessa


A promessa do teu olhar ficou por cumprir.
Morreram ali as madrugadas,
E uma névoa de desencanto apagou as memórias de um tempo feliz.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Destino


"O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui
(...)"


José Tolentino Mendonça, in 'A noite abre meus olhos'

segunda-feira, 10 de março de 2008

Me aceitar sem você

"Eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes, eu pensei que já nem me lembrasse de coisas passadas. Eu pensei que pudesse enganar à mim mesma dizendo que essas coisas da vida em comum não ficavam marcadas. Não pensei que me fizessem falta umas poucas palavras dessas coisas simples que dizemos antes de dormir. De manhã um "bom dia", na cama a conversa informal, o beijo, depois o café, os carros, o jornal. Os costumes me falam de coisas e factos antigos. Não esqueço das tardes alegres com nossos amigos. Um final de programa, fim de madrugada, o aconchego na cama, a luz apagada. Essas coisas só mesmo com o tempo se pode esquecer. Então eu me vejo sozinha, como estou agora e respiro toda liberdade que alguém pode ter. De repente ser livre até me assusta, me aceitar sem você, certas vezes me custa. Como posso esquecer dos costumes se nem mesmo me esqueci de você?"

da dupla Roberto Carlos/Erasmo Carlos
por Maria Bethânia, in '
As canções que você fez pra mim'

(O vídeo é absolutamente medonho mas era o que havia. Descobri esta música recentemente - esta semana - e gosto tanto que não resisto a colocá-la aqui. Sei que ando meio ausente e meio disperso. O Da.Inquietude tem ficado por actualizar. É mesmo falta de tempo, falta de paciência e falta de vontade. Melhores dias virão.)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Que a solidão não seja deserta


"(...) importa-me que a solidão não seja deserta, por isso fico sozinho com muitos amigos cada vez mais imaginários: a amália, a patty waters, o caetano veloso, a lisa gerrard, a diamanda galás, a billie holiday, o devendra banhart, o bosch, o william blake, o conde de lautréamont, o lars von trier, o oscar wilde, o william shakespeare, o camões, o jorge melícias, a josefa de óbidos, o mozart, o da vinci, o josé saramago, a vashti bunyan, a baby dee, o cartola, o david tibet, o ruy belo, o vitorino nemésio, a lisa santos silva, david sylvian, o samuel beckett, o rui lage, o luís miguel nava, o al berto, o jean genet, o chico buarque, o antónio lobo antunes, o ingmar bergman, o júlio saul dias, o hitchcock, o david lynch, a michelle pfeiffer, o antonio gamoneda, a nina simone, a ella fitzgerald, o mário de carvalho, o raul perez, o loius armstrong, o chet baker, o mário cláudio, o artur do cruzeiro seixas, o mário de cesariny, o lee ranaldo, a kim gordon, o mahler, o joão peste, o joão gilberto, a elizabeth frazer, o william burroughs, o franz kafka, a isabel de sá, o daniel faria, o eça de queirós, o manuel de oliveira, a agustina, o federico fellini, o pier paolo pasolini, o vítor rios, o ferreira gullar, o bach, o vergílio ferreira, a chan marshall, o rostropovich, o gould, o arvo part, a adília lopes, o josé régio, o baudelaire, o t. s. elliot, o umberto eco, o ítalo calvino, a lula pena. etc etc etc etc. (...)
se não fosse a escrita só a música me ganharia. ou a pintura. ou o cinema. o teatro. ou um projecto incrível em áfrica ou outro lugar qualquer onde pudesse salvar uma vida e entender porque sempre acreditei que entre tudo os outros são sempre o mais importante do mundo. como se deus existisse e quisesse muito que eu acreditasse nele."


Valter Hugo Mãe, in 'Autobiografia'