segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

E agora menos que nem vida tenho

"Senhor António:
O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.
(…)
- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou a chorar.

Maria José“


Fernando Pessoa
(Pessoa teve um único heterónimo feminino. Chamou-se Maria José e em seu nome escreveu um único texto: esta carta.)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Welcome guest


.

"Thy hand, Belinda, darkness shades me,
On thy bosom let me rest,
More I would, but Death invades me;
Death is now a welcome guest.
When I am laid in earth,
May my wrongs create
No trouble in thy breast;
Remember me, but ah! forget my fate."

Henry Purcell, in 'Dido and Aeneas'
(versão: Janet Baker, Anthony Lewis and the English Chamber Orchestra)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Já ao acordar estava triste

"O dia deu em chuvoso. A manhã, contudo, estava bastante azul. O dia deu em chuvoso. Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso.
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efectivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afectos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso.
(...)"

Álvaro de Campos, in 'Poesia'

sábado, 26 de janeiro de 2008

Cansaço

Chegou a casa e a primeira coisa que fez foi pôr a tocar o Cansaço, de Amália Rodrigues. Sempre que ouvia esta música sentia-se um pouco melhor. SEMPRE. A sua letra, simples, retratava um estado de espírito. Revia-se nela vezes sem conta. Cansaço era talvez a palavra que mais lhe passava pela cabeça. Cansaço quando acordava. Cansaço quando se arrastava para fora da cama. Cansaço quando saía de casa. Cansaço quando trabalhava quase mecanicamente. Cansaço quando voltava a casa ao fim do dia. Cansaço. Um cansaço intrínseco, real, palpável, que o paralisava, que tolhia, que impedia. Era um profundo desencanto com o mundo, com a vida. Era o ter tudo e não ter nada. Mas era também o não querer nada. Nem ninguém.
.
"Daí este meu casanço/ de sentir que quanto faço/ não é feito só por mim".

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Trago os meus sonhos perdidos

"Trago fados nos sentidos
Tristezas no coração
Trago os meus sonhos perdidos
Em noite de solidão
Trago versos trago sons
Duma grande sinfonia
Tocada em todos os tons
Da tristeza e da agonia
Trago amarguras ao molhos
Lucidez e desatinos
Trago secos os meu olhos
Que choram desde meninos
Trago noites de luar
Trago planícies de flores
Trago o céu e trago o mar
Trago dores ainda maiores"
Amália Rodrigues por Cristina Branco, in 'Live'

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Uma tristeza de todo o ser

"(...) Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
(...)"


Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

The promise of life

"Dearest Cecilia,
the story can resume. The one I had been planning on that evening walk. I can become again the man who once crossed the surrey park at dusk, in my best suit, swaggering on the promise of life. The man who, with the clarity of passion, made love to you in the library. The story can resume. I will return. Find you, love you, marry you and live without shame."


Ian McEwan, in 'Atonement'

domingo, 20 de janeiro de 2008

Até os meus sonhos

"Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Feharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua
Não há travessa achada o número de portas que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
(...)"


Álvaro de Campos, in 'Poesias'

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Hasta tu lado

"Gracias a tu cuerpo doy
Por haberme esperado
Tuve que perderme pa'llegar hasta tu lado
Gracias a tus brazos doy
Por haberme alcanzado
Tuve que alejarme pa'llegar hasta tu lado
Gracias a tus manos doy
Por haberme aguantado
Tuve que quemarme
Pa'llegar hasta tu lado"

Lhasa de Sela, in 'The living road'

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

As coisas possíveis


"Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Francisco José Viegas, in 'Se me Comovesse o Amor'

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

No sé si necesito tenerte o perderte


"(...)

Quisiera amarte menos
No verte más quisiera
Salvarme de esta hoguera
Que no puedo resistir.
No quiero este cariño
Que no me da descanso
Pues sufro si te alcanzo
Y lejos no sé vivir,
Quisiera amarte menos
Porque esta ya no es vida
Mi vida está perdida
De tanto quererte,
No sé si necesito
Tenerte o perderte
Yo se que te he querido
Más de lo que he podido
Quisiera amarte menos
Buscando el olvido
Y en vez de amarte menos,
Te quiero mucho mas!...
(...)"


Luis César Amadori por Chavela Vargas, in 'Volver Volver'

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Espelho assíncrono

"Deixei que a escuridão me tomasse o olhar. Esperei que a imagem no espelho recuperasse o tempo próprio dos gestos que eu simulava do outro lado do quarto (coisa mais estranha, um espelho assíncrono, pensei). Todavia, tinha sido engraçado, e até estimulante, verificar como os meus gestos eram lentos (e eu queria que fossem rápidos), tornados ainda mais lentos pelo desfasamento entre o momento em que eram executados e o posterior momento em que, tal como num filme, os via naquele espelho pousado na parede, do outro lado do quarto.
A dada altura, não sei muito bem quando, os meus gestos tornaram-se, de facto, concomitantes (aquém e além do espelho), aprisionados em reflexões fugazes e animadas pelo meu movimento contínuo. Foi nessa altura que peguei no revólver e despachei o assunto. Dei um tiro no meu próprio reflexo, no sítio onde era suposto estar o coração (a sua imagem reflectida, pensei mal, a imagem reflectida de um pullover azul sob o qual deveria estar: pele, costelas, músculos, pulmões e, talvez, um coração, pensei melhor). Os vidros estilhaçados (que agora repousam no caixote do lixo da cozinha) são a prova de uma tentativa de assassinato (e não de suicídio). Tentativa, digo bem: ainda aqui estou, vivo e castigado pelo cinto do meu pai. O espelho era novo, vou ter que pagá-lo com a minha mesada."

Francisco Curate, in 'Daedalus'

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Intermitência


"É a intermitência do sono que nos permite aguentar os dias de trabalho. Muitas das minhas recordações desvaneceram-se ao evocá-las, ficaram em pó como um vidro irremediavelmente ferido.
(...) Não vivi, talvez em mim mesmo; vivi, talvez, a vida dos outros. (...) A minha vida é uma vida feita de todas as vidas - as vidas do poeta."


Pablo Neruda in 'Confesso que Vivi'

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Llorando

"Yo estaba bien por un tiempo
volviendo a sonrire
luego anoche te vi
tu mano me tuco y el saludo de tu voz
te hable muy bien y tu sin saber que estado
llorando por tu amor
llorando por tu amor
llorando por tu amor
luego de tu adios senti todo mi dolor
sola y llorando llorando llorando
no es facil d’entender que al verte otra vez
yo este llorando
Yo que pense que te olvide
pero es verdad es la verdad
que te quiero aun mas mucho mas que ayer
dime tu que puedo hacer no me quieres ya
y siempre estare
llorando por tu amor
llorando por tu amor
tu amor se llevo todo mi corazon
y quedo llorando
llorando
llorando
llorando
llorando
llorando por tu amor"

"Llorando" por Rebekah del Rio, in 'Mulholland Drive'

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Vastness of eternity

"Men are hunted by the vastness of eternity, and so we ask ourselves, will our actions echo acroos the centuries? will strangers hear our names and wonder who we were? how bravely we fought? how fiercely we loved?"
in 'Troy'

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Horizonte firme



"Ah, quem me dera
Ir-me contigo agora
A um horizonte firme, comum
Embora amar-te
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que nem presumes
Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais contado
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Ah, quem me dera ter-te
Morar-te até morrer-te"




Vinícius de Morais



terça-feira, 1 de janeiro de 2008

2008




"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."




Carlos Drummond de Andrade (obrigado Suntas)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Sei bem o que faço

'Existem pessoas para quem a vida não chega e depois existem as outras para quem a vida é demasiado longa', pensou com ironia enquanto tomava o último dos 54 comprimidos que andava a juntar para o dia em que perdesse a paciência de uma vez por todas. Tinha sido exactamente isso que escrevera na nota de despedida, uma nota breve, concisa e talvez explicativa demais para a sua personalidade simples.
Tinha escolhido o último dia do ano para pôr termo à sua triste existência. Arrumara a roupa e fizera lotes de cd's e livros que separara com um post-it para cada um dos seus amigos mais chegados. Depois de limpar toda a casa dedicou um tempo especial a preparar a sua cerimónia fúnebre. Queria que fosse uma coisa simples, claro, mas queria que fosse absoluta e esteticamente inesquecível. Para o velório colocou no seu I-pod uma playlist a que chamou 'Série Músicas que Arrepiam' com as músicas que deveriam passar em repetição até que tudo aquilo acabasse. Eram as suas músicas favoritas. Cada uma delas tinha uma mensagem importante para cada um dos seus amigos e cabia-lhes agora decifrar esse puzzle.
Escolheu para que lhe vestissem um fato cinzento escuro, uma camisa branca e uma gravata roxa, a sua predilecta, que por ter pequenas coroas lhe garantia sempre uma ou outra piada que envolvia a República e a Monarquia. Escolheu a roupa interior com o mesmo cuidado com que escolheria se fosse o dia do seu casamento. Engraxou os sapatos e arranjou tudo colocando em cada sítio post-its amarelos que fossem indicando o caminho a quem tivesse que o preparar para o seu funeral.
À medida que o tempo passava e os comprimidos começavam a fazer efeito ia ficando cada vez mais seguro de que tinha tomado a decisão correcta. Estava, evidentemente, com medo de que as coisas não corressem bem, mas por outro lado sabia que a libertação era garantida.
Deitou-se finalmente na cama feita de lavado, colocou ao seu lado uma Bíblia e na mão prendeu o terço de plástico que brilha no escuro que trazia habitualmente ao pescoço. Enquanto as pálpebras se iam tornando cada vez mais pesadas começou a rezar fixando a fotografia dos pais que tinha na cómoda do seu quarto. Rezava para que soubessem sobreviver à sua morte, para que compreendessem o seu cansaço, para que perdoassem a sua cobardia. Antes de fechar os olhos pela última vez disse bem alto 'Perdoa-me Senhor, mas sei bem o que faço". Lembrou-se no último instante da resposta de Virgínia Woolf à pergunta "where will we go when we die?" que a sua pequena sobrinha lhe dirigira. "We go back to where we came from"... Suspirou fundo e deixou-se morrer. Morria no auge das suas capacidades, consciente de que se vivesse caminharia inexoravelmente por uma vida de desencanto e desilusão.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Orgulho


"(...)
Julguei-me grande pelo sofrimento
E pelo orgulho ainda sou maior
(...)"


Florbela Espanca, in 'Eu não sou de ninguém'

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Na cruz do teu adeus

Lágrima por lágrima hei-de te cobrar
Todos os meus sonhos que tu carregaste, hás-de me pagar
A flor dos meus anos, meus olhos insanos de te esperar
Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei-de te cobrar
Cada ruga que trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar
Cada vez que no meu coração, morrer uma ilusão, hás-de me pagar
Toda a festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar
As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar...
Lágrima por lágrima.

Roque Ferreira por Maria Bethânia, in 'Dentro do Mar tem Rio'

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Quem por amor se perdeu



Quem por amor se perdeu não chore, não tenha pena
Uma das santas do céu foi Maria Madalena!

Desse amor que nos encanta
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa
Quem por amor se perdeu

Jesus só nos quis mostrar que o amor não se condena
Por isso quem sabe amar não chore, não tenha pena!

A Virgem Nossa Senhora
Quando o amor conheceu
Fez da maior pecadora
Uma das santas do céu

E de tanta que pecou, da maior à mais pequena
E aquela que mais amou foi Maria Madalena!


Augusto Gil (1873-1929), in 'Music Box' de Yolanda Soares
(um dos melhores projectos em língua portuguesa dos últimos tempos!
Estou à espera do próximo Yolanda!!)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

As sombras da tua pele

"Meu amor corre-me o corpo
Com beijos soltos nos dedos
Que as sombras da tua pele
Aprendam os meus segredos.
.
Meu amor corro-te o corpo
Com beijos soltos dos dedos
Que as sombras da minha pele
Naveguem nos teus segredos
.
Meu amor corre-me o corpo
Com beijos soltos pelos dedos
Que as sombras da minha pele
Se soltem dos teus segredos"


Circe in Ulisses de Cristina Branco

domingo, 16 de dezembro de 2007

No dia em que faço 30 anos

Quando era pequeno imaginava-me já adulto, com 30 anos. Imaginava como ia ser a minha vida e os sonhos e as ilusões desfilavam como se o mundo não tivesse limites. Fazer anos é também fazer balanços. E o balanço, aos 30, é muito positivo. Cheguei calmamente aos 30. As ilusões e os sonhos foram mudando, desparecendo, dando lugar a realidades e a factos. Aos 30 anos sou substancialmente diferente daquilo que imaginei que seria. Não sei dizer se sou mais ou menos feliz. Estou seguro de que sou um felizardo. Tenho ao meu lado, na minha vida, os melhores amigos do mundo. Sei que conto com eles mesmo quando acho que estou sozinho. Os meus amigos são o meu capital e eu sou riquíssimo. Aos amigos soma-se uma uma fé a cada dia mais fortalecida no Deus de Amor e de Misericórdia. É bom ter um Pai que olha por mim, diariamente, assegurando que mesmo nos momentos mais duros eu sou "levado ao colo". Tenho a benção de ter uma família extraordinária, uns pais que fazem tudo por mim e uns irmãos que são, provavelmente os melhores do mundo porque são também os meus melhores amigos. Tenho um trabalho que me estimula diariamente, que não deixa margem para rotinas e que me garante uma realização profissional que nunca imaginei possível com a minha idade. Tudo isto faz com que os 30 anos cheguem serenamente, sem angústias. Tenho sede de viver os próximos 10 e de chegar aos 40 tão tranquilo como me sinto hoje. "Esta é só uma noite para comemorar". Obrigado a todos pela presença, pelo carinho, pela paciência, pela amizade, pelas palavras e pelo silêncio. Sou como sou, hoje, graças a todos os que conheci. Obrigado.

"Esta é só uma noite para partilhar
qualquer coisa que ainda podemos guardar
cá dentro num lugar a salvo para onde correr
quando nada bate certo
e se fica a céu aberto
sem saber o que fazer
Esta é só uma noite para comemorar
qualquer coisa que ainda podemos salvar
no tempo um lugar pra nós onde demorar
quando nada faz sentido
e se fica mais perdido
e se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar
do que a vida foi fazendo sem nos avisar
foi-se acumulando em fotografias,
em distâncias e saudade numa dor
que nunca acaba e faz transbordar os dias
Esta é só uma noite para me lembrar
que há qualquer coisa infinita como o firmamento,
um sorriso, um abraço
que transcende o tempo

e ter medo como dantes de acordar
a meio da noite a precisar de um regaço"

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Real

Foi no teu olhar frio e na rapidez das tuas palavras, na vontade que demonstravas ter em sair dali o mais rápido possível e na forma como te despediste de mim quando entraste no elevador que percebi que o fim era real. Doeu mais do que imaginava.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Do tempo

Tenho saudades tuas. Do tempo em que éramos dois mas éramos um só. Do tempo em que o primeiro telefonema do dia era para ti. Do tempo em que éramos um do outro e gostávamos disso. Do tempo em que os dias passavam devagar mas não importava porque à noite estávamos juntos. Do tempo em que os teus pés gelados procuravam os meus debaixo dos lençóis. Do tempo em que falávamos com o olhar. Do tempo em que o teu toque me arrepiava. Do tempo em que os teus abraços eram remédio para tudo. Do tempo em que o silêncio não era uma arma. Do tempo em que as discussões eram pretexto para nos amarmos. Do tempo em que me sentia amado. Do tempo em que me fazias feliz e eu a ti. Do tempo em que éramos felizes mas não sabíamos. Tenho saudades nossas.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Só sei que não posso ficar


"Só hoje senti que o rumo a seguir levava pra longe
Senti que este chão já não tinha espaço pra tudo o que foge
Não sei o motivo pra ir só sei que não posso ficar
Não sei o que vem a seguir mas quero procurar
E hoje deixei de tentar erguer os planos de sempre
Aqueles que são pra outro amanhã que há-de ser diferente
Não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar um pouco de céu
Um pouco de céu
Só hoje esperei já sem desespero que a noite caísse
Nenhuma palavra foi hoje diferente do que já se disse
E há qualquer coisa a nascer bem dentro no fundo de mim
E há uma força a vencer qualquer outro fim
Não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar um pouco de céu
Um pouco de céu"

"Um pouco de céu" de Mafalda Veiga, in 'Tatuagem'

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Infinitamente assim

"Mesmo quando não te vejo, é nisto que penso: és tão bonita.
Queria-to dizer, mas não consigo: há coisas que não sei dizer.
Penso nelas e vejo-as muito claramente, mas não consigo dizê-las.
A beleza tornou-te inaudita.
Sorrio.
Olho para a estrada mas a pensar em ti.
O meu silêncio nomeia devagarinho a tua beleza.
Invoco-te de uma forma delicada. Invoco cada detalhe, cada
pormenor. Mas é da beleza por inteiro que o meu silêncio se ocupa.
Silêncio e beleza e pensamento, ocupam-se por inteiro.
Preenchem-se.
Mesmo calado, penso em ti e consigo ver-te.
Apesar de olhar para a frente, é para dentro que eu vejo.
Poderias ficar infinitamente assim: tu.
Até que um dia o esquecimento seja mais forte, eu vejo-te.
Os olhos, os lábios, a boca, a testa, o nariz, as mãos, o cabelo, o pescoço, a pele.
Tu.
Tu com o teu sorriso.
Até mesmo esse ar sério que fazes quando não olhas para mim.
A maneira como fumas ou como olhas para a frente
enquanto avançamos pela estrada. Tu. Eu. Nós.
O mesmo instante.
A juventude é o chão sob os teus pés. E eu sempre a pensar
até quando não digo nada: és tão bonita.
Mesmo quando não acontece nada.
Até quando já não penso em ti."

Rui Machado, in 'A Ausência Próxima'

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tudo



Nem tudo o que é sol me parece dia
Nem tudo o que é noite me parece lua
Nem tudo o que é lua me parece estrela
Nem tudo o que me dizes é verdade sentida
Nem tudo o que é abraço me parece um beijo
Nem tudo o que é carinho me parece amor
Nem tudo o que me mostras é aquilo que vejo
Nem tudo o que choro te parece dor.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Irremediavelmente longe ou demasiado perto


"(...)
Eu por mim nunca sei
se estou irremediavelmente longe ou demasiado perto de Deus
às vezes pergunto-me quantas vezes o corvo deverá
bater as asas negras
entre o meu corpo e o seu"
José Tolentino Mendonça, in 'A Estrada Branca'

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

De saudade e remorso e ausência sem ter fim


"Os amigos...
(Enquanto oiço, numa tenda montada ao vento do rio Tejo, as novas canções da «Madredeus»)
... São aqueles que sabem sorrir depois de muitos anos de ausência. Os que se comovem com um abraço forte e chegado. Os que sabem ler no silêncio as palavras que nos faltaram. Cujos nomes não esquecemos nem precisamos de lembrar. São os que queríamos ao pé de nós naquele momento que eles não poderiam adivinhar. Os que estão sempre. São os que citamos. Cujas histórias recordamos com gosto e prolongadamente. Os que nos fazem lembrar. São aqueles de quem nos lembramos numa paisagem que se reconhece, num cheiro que nos faz lembrar, numa cor que nos diz respeito. Os que aparecem repentinamente e nos surpreendem. Aqueles com quem quero agora partilhar estas canções. Aqueles que queria agora aqui bem perto. Os que encontro nestes bastidores e me fazem voltar anos e anos para trás. São os olhares que não mudaram, as palavras e os risos que perdemos da vista e do ouvido e imediatamente nos soam e são familiares. Os que dizem a palavra que ficou debaixo da língua. Os que percebem a palavra sem que a digamos. São os que não têm medo de olhar, mesmo quando olhar custa porque o tempo passou e estamos todos mais velhos. São os que descem juntos ao «abismo do vertiginoso futuro». Os que não cobram nem pagam. Os que mantém a conta-corrente em aberto. Os que sabem que a soma das partes não faz um todo, mas não deixam de entender que no todo estão partes de cada um de nós.
Passam os anos e regressamos sempre, e há reencontros que nos parecem óbvios, ainda que inesperados, e outros que nos apanham de surpresa, mesmo que improvisados num degrau dos dias.
São assim. São os que sei que vou ver no próximo concerto, na próxima paragem, na próxima estação. Os que acabam por parar sempre nos lugares onde também inevitavelmente paro. Os que abrandam, não vá a gente estar por ali. Os que «apitam», «assobiam», telefonam, chamam, gritam. Cujas vozes andam connosco para todo o lado, como grilos nas noites de Verão, e a elas recorremos quando de uma voz precisamos, quando daquela voz precisamos. São os que nunca morrem, mesmo quando vão daqui para outro lado,(...). Os que ficam nossos porque dos nossos também são(...). São os que de certeza inspiraram uma canção – (...)– ou de quem nos lembramos por causa de uma canção. Os que fazem o coração dar voltas sobre si próprio de saudade e remorso e ausência sem ter fim. São os que merecem o ponto de exclamação no final de um sonoro «que falta que me faz». E a falta que faz um ! no fim deste «que falta me faz». Fica: !
... E a falta, por mais falta que seja, nunca nos falta quando é deles que falamos. Porque neste «balanço de perdas e danos» o melhor é sabermos que existem e pensam em nós como nós pensamos neles. Um dia vamos chorar porque queríamos mais, e mais tempo, e o tempo não chegou.
São os que nos ajudam, os que ainda sabem quem somos e de que somos capazes. Os que nos recordam quem fomos. Aqueles em quem nos revemos, nem que seja por instantes, nem que seja por conta de um instante que já passou. Aqueles cuja palavra é exacta, um «sim» quer dizer mesmo «sim», um «não» é a perfeita negação, a recusa, a rejeição.
... Na exactidão da verdade, eles são o pior e o melhor de nós. Penso neles quando passo uma noite a ouvir a «Madredeus». Penso neles quando regresso ao meu melhor passado e sinto que o tempo não me afastou. Nem eu dele. Como dos amigos. E eu deles."




Pedro Rolo Duarte, in 'Sozinho em Casa'

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Que há de ser de mim?


"(...)
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
(...)"

Álvaro de Campos, in 'Passagem das Horas'

sábado, 24 de novembro de 2007

Há nos meus olhos ironias e cansaços

'Cântico Negro' de José Régio, por Maria Bethânia

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Saudades


“Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinha..... Essa – a alegria que Ele quer...”


João Guimarães Rosa, in 'Grande Sertão: Veredas'

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A mais dolorosa das histórias

"Silêncio
Façam silêncio
Quero dizer-vos minha tristeza
Minha saudade e a dor
A dor que há no meu canto
Oh, silenciai
Vós que assim vos agitais
Perdidamente em vão
Meu coração vos canta
A mais dolorosa das histórias
Minha amada partiu
Partiu
Oh, grande desespero de quem ama
Ver partir o seu amor"


Vinícius de Moraes, in 'Poesia completa e prosa: Cancioneiro'

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?

"Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado."

Esquadros de Adriana Calcanhoto, in 'Público'

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Talvez seja assim todo o amor

"Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor."

José Tolentino de Mendonça in 'De igual para igual'
(obrigado pela sua companhia Pd. Tolentino, e pelas muitas conversas que nos esperam)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

São Paulo (ou o descanso do guerreiro)

"Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
da dura poesia concreta de tuas esquinas
da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee,
a tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi de mau gosto, mau gosto
é que Narciso acha feio o que não é espelho
e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
afasto o que não conheço
e quem vende outro sonho feliz de cidade
aprende depressa a chamar-te de realidade
porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
da força da grana que ergue e destrói coisas belas
da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Panaméricas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
mais possível novo quilombo de Zumbie
os novos baianos passeiam na tua garoa
e novos baianos te podem curtir numa boa."

Sampa de Caetano Veloso, in 'Circulado ao Vivo'

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Morreria

"Nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso, porque então morreria."

Pablo Neruda
(num dia feliz, passado em sua casa, onde só faltou o teu sorriso...)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Estoy triste: pero siempre estoy triste.


"Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.
Fui tuyo, fuiste mía. Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.
Fui tuyo, fuiste mía.
Tu serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.
Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy....
Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós."


Pablo Neruda
(porque me sinto assim tantas e tantas vezes... sim, sinto a tua falta.)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

No quiero ser sin que me mires

"Ahora me dejen tranquilo.
Ahora se acostumbren sin mí.
Yo voy a cerrar los ojos
Y sólo quiero cinco cosas,
cinco raices preferidas.
Una es el amor sin fin.
Lo segundo es ver el otoño.
No puedo ser sin que las hojas vuelen
y vuelvan a la tierra.
Lo tercero es el grave invierno,
la lluvia que amé,
la caricia del fuego en el frío silvestre.
En cuarto lugar el verano redondo
como una sandía.
La quinta cosa son tus ojos,
Matilde mía, bienamada,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera por que tú me sigas mirando.
Amigos, eso es cuanto quiero.
Es casi nada y casi todo.
Ahora si quieren se vayan.
He vivido tanto que un día tendrán que olvidarme por fuerza,
borrándome de la pizarra: mi corazón fue interminable.
Pero porque pido silencio
no crean que voy a morirme:
me pasa todo lo contrario:
sucede que voy a vivirme.
Sucede que soy y que sigo.
No será, pues, sino que adentro de mí crecerán cereales,
primero los granos que rompen la tierra para ver la luz,
pero la madre tierra es oscura:
y dentro de mí soy oscuro:
soy como un pozo en cuyas aguas la noche deja sus estrellas
y sigue sola por el campo.
Se trata de que tanto he vivido que quiero vivir otro tanto.
Nunca me sentí tan sonoro, nunca he tenido tantos besos.
Ahora, como siempre, es temprano.
Vuela la luz con sus abejas.
Déjenme solo con el día.
Pido permiso para nacer.
"

Pablo Neruda
(junto à sua casa em Isla Negra o mar é quase português)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Inalienavelmente alheio


"Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas
Nada contava nem tinha nome
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono."



Pablo Neruda
(porque aqui é primavera e aí é outono e no meu coração está frio)

domingo, 4 de novembro de 2007

E assim tu pão e luz e sombra és...

"É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei,
nem donde vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz e sombra és.
Chegaste à minha vida com o que trazias,
feita de luz e pão e sombra,
eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir o que não lhes direi,
que o leiam aqui e retrocedam hoje
porque é cedo para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor,
uma folha que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura de um amor verdadeiro."

Pablo Neruda
(porque estou aqui e penso em ti...)

sábado, 3 de novembro de 2007


"Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas llenas del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto."


Pablo Neruda
(porque também te amo quando estás em silêncio)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Como é a natureza


"Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza."


Pablo Neruda
(para ti que me perdoas sempre...)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O vento da vida

"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi:
não soube que ias comigo,
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."
Pablo Neruda
(porque a paisagem chilena também é triste)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Tão curto o amor, tão longo o esquecimento

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo.
Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."


Pablo Neruda
(no dia em que parto para o seu país)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Onde o olhar começa a doer

"Tu estás onde o olhar começa
a doer, reconheço o preguiçoso
rumor de agosto, o carmim do mar.
Fala-me das cigarras, desse estilo
de areia, os pés descalços,
o grão do ar."
Eugénio de Andrade, in 'Matéria Solar'

domingo, 28 de outubro de 2007

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis

"Encosta-te a mim
Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.
Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim. "

Jorge Palma, in 'Voo Nocturno'

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Terror de não haver ninguém

"Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens
Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos."
José Tolentino de Mendonça, in 'A noite abre os meus olhos'

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Frio


Dei por mim sentado no chão do quarto a contar as horas para que a noite caísse. Sabia que a noite nos traria a cumplicidade dos corpos... Era a cama o nosso território. Quando se passou aquele par de horas sem que aparecesses percebi que algo de trágico teria acontecido. Por isso quando o telefone tocou e me disseram que tinhas tido um desastre e estavas em coma, a notícia não causou em mim qualquer surpresa. Senti apenas o arrepio daqueles momentos em que nos apercebemos de que a vida não vai voltar a ser igual.

Cheguei ao hospital passado pouco tempo. A tua mãe já estava sentada na sala de espera, hirta, com uma expressão muito dura no rosto. Deixei-me ficar ao seu lado, em silêncio, sem perceber se devia pegar-lhe na mão e desejando ardentemente que ela me confortasse com umas festas. E ficámos ali os dois, numa tensão surda, as duas pessoas que mais te amavam à espera da confirmação da tua morte ou da tua salvação.

Quando o médico apareceu levantámo-nos os dois em menos de nada. A notícia de que a operação tinha corrido bem não foi sequer festejada porque a informação de que continuavas em coma deixou-nos completamente transidos de terror. Estavas agora num território só teu e apenas tu poderias encontrar o caminho de volta.

Nunca como naqueles dez dias que durou o teu coma eu senti tanto frio. Por mais que me agasalhasse estava constantemente gelado. Era o medo de te perder para sempre que me gelava a alma, o corpo, o coração. Era a certeza de que te amava que me deixava esmagado de desespero. E foram as recordações dos tempos felizes que me fizeram ultrapassar a tua perda. O fim é sempre mais trágico quando não o esperamos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A queda

Em resposta a este post da Laura



O Silêncio. O tal silêncio que deixava todos envergonhados quando se olhavam nos olhos. Sobreviver à tragédia era, no fim de contas, viver a humilhação da derrota. Ao fim de tantos e tantos dias os pesados portões da cidade continuavam abertos. Não havia nada para defender que justificasse a sua urgente reconstrução.
Começaram por limpar as ruas, enterrando os mortos em fundas covas nos limites das grandes muralhas, no sítio mais longe da vista de todos. Em vez de cruzes plantaram uma árvore no lugar de cada morto: pinheiros bravos para os homens e árvores de fruto para as mulheres. Passado este tempo recomeçaram a construção das grandes portas da cidade. Quando as fecharam respiraram de alívio por se saberem separados do resto do mundo. Escondiam a vergonha e a desilusão dos olhares indiscretos de todos os que agora se regozijavam com a queda daquela cidade antes impenetrável. Só depois, pedra a pedra, levantaram as paredes das casas, uma a uma. Sem luxos, sem sedas, sem ouro. Apenas a crueza da pedra e o aveludado da madeira. O regresso às origens. A austeridade humilde dos que precisam da simplicidade para se fortalecerem. O luto durou um tempo indeterminado. Só quando se ouviu o choro da primeira criança nascida depois do ataque, a cidade voltou a respirar de alívio. E nesse dia as árvores no cemitério floriram pela primeira vez. E nas janelas das austeras casas de pedra começaram a aparecer pequenos vasos com rosas de todas as cores. A tristeza dera lugar à esperança. A vida recomeçara. E todo aquele sofrimento deu lugar à certeza de que não voltariam a ser humilhados daquela forma.

sábado, 20 de outubro de 2007

Olhar-te última vez com tristes olhos



Acordei antes de ti, bela Lisboa
Que dormes ainda nos braços do teu Tejo
Amante fiel que a solidão perdoa
Rio alegre que me traz tudo o que vejo.

O Tejo não é rio, já é mar.
É mar que também ama e não esquece
A dor de partir além de ti,
A dor de ficar num espaço breve.

Lisboa que ainda dormes sem saber
Que esta manhã já não acordas a meu lado,
Que este sol que nos invade também separa,
Que este mar que hoje me leva não é salgado.

Lisboa adormecida, minha amante
Que lânguida te abandonas em meus braços
Deixa-me olhar-te última vez com tristes olhos
Que pelo mundo levarão o teu retrato.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Intervalo

"Eu só quero o silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto
Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias
Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma,
Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam."


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Em verdade e transparência

"Nunca mais
A tua face será pura, limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre.
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei Senhor que possa morrer."


Sophia de Mello Breyner,
in “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”

Amar-te

"1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia
2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia
3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo
4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma
5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia
6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.
7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados)."

Manuel Rui, in 'A Onda'

domingo, 14 de outubro de 2007

Na placidez dos lábios

"(...) Mas insensivelmente os lábios foram-se separando um pouco. Um dente. Subtil iluminado de pacificação serenidade alegria de ser - se te demorasses um pouco. E seres aí a vida rodeada de verdade por todos os lados. Um dente visível. Mas os lábios separaram-se um mais e são agora um sorriso claro solar. E instintivamente deixei que se demorasse aí até eu poder reconhecer-lhe o esplendor. É um riso, não vou cometer a imprudência de o perder. Está na linha do céu e do mar, não vou. A juventude sem uma força excessiva de o ser. A confiança - não vou. O futuro dos séculos a quererem vir. A segurança contra o medo a vileza a degradação. A morte. Nem na realidade há nele futuro algum. Porque todos os séculos do futuro e do passado se conglomeram ali no instantâneo presente. O riso. Sem olhos nem face. Nem cabelos. Porque toda a sua ausência está lá. São olhos iluminados de uma festa terrível, cabelos de ar. Fixar-te para sempre, riso da minha pacificação. Mas pouco a pouco houve primeiro um estremecimento aos cantos da boca. Pouco a pouco um encrespado na placidez dos lábios repousados um no outro e depois a boca alargada, vejo-a alargar-se por dentro do meu pavor. E os dentes já visíveis onde o ódio começa, a boca toda aberta, aberta. Rasgada, escancarada até ao limite do seu possível. Os dentes, a língua. E de súbito, entalado na garganta, de súbito um grito horríssono, ouço-o. Tapo os ouvidos, ouço-o. Horror, ódio, desespero. Vem das cavernas do Mundo. Das trevas de todas as noites. Rebenta-me os ouvidos, o crânio. Urro de massacre, a terra treme. Olho a boca selvagem, os dentes carnívoros. A língua. Aguardo que o urro se acabe. E com efeito, subitamente cessou. Mas a imagem imobilizou-se no grito enorme que já não ouve. É o horror inaudível, mas presente assim na imagem fixa. Sem o estridor que a estremecesse. Mais plausível no imaginário de o ouvir.(...)"

Vergílio Ferreira, in 'Na tua face'

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Mais sem fim


"Hoje é o primeiro dia do mês e de ti
dia iluminado pela exactidão solar do teu nascer
dia sem noite e sem confim

dia que te deu o rigor e a regra
o fiel certo da balança humana do olhar
signo da justiça da luz e do ar

dia pleno de ti
dia em que não pesei a solidão
porque nos teus olhos reconheci
ainda sem o ver
o amor mais fundo e mais sem fim"


José Manuel dos Santos , in 'O livro dos registos'

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Um dia de ilusão

"Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou é um grito
Que nasce em qualquer lugar
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou
Às vezes sou
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão
Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que eu sou"


Maria Guinot

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mas não quando se ama


"Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferença,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te."


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Tempo sem recordações

Sento-me e peço un gin tónico. A Pamela atende-me com o sorriso de sempre, aberto, carinhoso, fiel. Percebo no seu olhar a surpresa de me ver pedir uma bebida tão forte quando ainda não é meio-dia. Mas não diz nada. Baixa os olhos, como eu os baixo por sentir que a minha angústia está espelhada no meu rosto.

À minha volta há demasiada gente, demasiada luz. Há barulho de crianças a correr pela praça e há conversas cruzadas. Todos parecem ter algo a dizer. Eu não converso com ninguém. Não tenho com quem conversar. Ninguém sabe quem sou, de onde venho e porque estou ali sentado, a beber um gin tónico quando ainda não é meio-dia. Nunca ouviram falar de ti nem da demência que a tua ausência quase me causou. Ninguém sabe que desde que partiste eu não vivi, eu sobrevivi apenas. Ninguém faz ideia de como me perturbam e me irritam as gentes, a luz em demasia, as crianças a correr pela praça, as conversas cruzadas. Ninguém imagina como queria ter para onde ir, como queria ir para qualquer lugar, deixar para trás as recordações de um tempo sem recordações e aceitar que tudo vai ser diferente daqui para a frente...

Na rádio toca "Los Panchos". Associo-te a esta música. É quente... e apesar de estarmos em Agosto e de os termómetros marcarem mais de 30 graus, morro de frio ao pensar na tua ausência...

Lento desejo do teu corpo

"(...) E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo."
Herberto Helder, in 'O Amor em visita'

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Dia Mundial da Música


"Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando há traição, ciúme e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
No dia de procissão
Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinhos
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar
Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca, mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, folião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E então
E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Ah! Corre em vertigem num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado."

domingo, 30 de setembro de 2007

Maldição


"Que destino ou maldição
Manda em nós, meu coração,
Um do outro assim perdidos?
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.
Por ti sofro e vou morrendo.
Não te encontro, não te entendo,
Amo e odeio sem razão.
Coração quando te cansas
Das nossas mortas esperanças
Quando páras coração?
Nesta luta, nesta agonia
Canto e choro todo dia
Sou feliz e desgraçada.
Que sina tua meu peito
Que nunca estás satisfeito
Que dás tudo e não tens nada.
Ó gelada solidão
Que tu me dás coração
Não é vida nem é morte.
É lucidez, desatino
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte..."

(Alfredo Duarte e Armando V. Pinto)