sábado, 24 de maio de 2008
Rasgar a solidão
quinta-feira, 22 de maio de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Mil dias antes de te conhecer
"Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu
Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer"
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Até o fim

"(...)
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
terça-feira, 13 de maio de 2008
Minha Senhora
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Tarde demais
domingo, 11 de maio de 2008
sábado, 10 de maio de 2008
Os momentos de desgosto mais profundos e de desespero

sexta-feira, 9 de maio de 2008
Talvez o mais belo

"O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui
à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos
mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo"
quinta-feira, 8 de maio de 2008
E as minhas duas mãos quebradas

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Só em minha alma é noite escura
"Não queiram mal a quem canta quando uma garganta esta desgarra
que a mágoa já não é tanta se a confessar à guitarra.
Quem canta sempre se ausenta da hora cinzenta da sua amargura
Não sente a cruz tão pesada na longa estrada da desventura.
Eu só entendo o fado plangente, amargurado, à noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração num tom magoado, tão frio como as neves do caminho.
Que chore uma saudade ou cante a ansiedade de quem tem por amor chorado.
Oiço guitarras vibrando e vozes cantando na rua sombria
As luzes vão-se apagando a anunciar que é já dia
Fecho em silêncio a janela, já se ouvem na viela rumores de ternura
Surge a manhã fresca e calma, só em minha alma é noite escura.
Eu so entendo o fado plangente, amargurado, à noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração num tom magoado tão frio como as neves do caminho
Que chore uma saudade ou cante a ansiedade de quem tem por amor chorado.
Dirão que isto é fatal, é natural, mas é lisboeta e isto é que é o fado..."
terça-feira, 6 de maio de 2008
Não conseguir aguentar a vida

domingo, 4 de maio de 2008
E por vezes feliz

sábado, 3 de maio de 2008
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Na realidade repetidamente

quarta-feira, 30 de abril de 2008
O vácuo e o porquê

segunda-feira, 28 de abril de 2008
Tu tens um fado, eu tenho outro
Que toda a gente ao ouvi-lo
Visse que o fado era teu.
Fado estranho e magoado,
Mas que pudesses senti-lo
Tão na alma como eu.
E seria tão diferente
Que ao ouvi-lo toda a gente
Dissesse quem o cantava.
Quem o escreveu não importa
Que eu andei de porta em porta
Para ver se te encontrava.
Eu hei-de pôr nalguns versos
O fado que há nos teus olhos
O fado da tua voz.
Nossos fados são diversos
Tu tens um fado, eu tenho outro
Triste fado temos nós."
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Juntos de outono, de água, de quadris

quarta-feira, 23 de abril de 2008
De te amar porque te vi

O que nunca te direi
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei
Como quem sabe quem sou
Depois passam dias meses
Sem que vás por onde vou
Como nunvens pelo céu
Passam os sonhos por mim
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi"
terça-feira, 22 de abril de 2008
Coisas Pequenas
"Coisas pequenas são
Coisas pequenas
São tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são, coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar
Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é, coisa pequena,
que nada é maior que amar
E a hora, que te espreita, é só tua
decerto, não será só a que resta,
a hora que esperei a vida toda
é esta
E a hora, que te espreita, é derradeira
decerto já bateu à tua porta
a hora que esperei a vida inteira
é agora
é agora."
Pedro Ayres Magalhães por Madredeus, in 'O Paraíso'
quinta-feira, 17 de abril de 2008
O que em mim vai
"Sopra demais o vento para eu poder descansar ...Há no meu pensamento qualquer coisa que vai parar.
Talvez esta coisa da alma que acha real a vida,
Talvez esta coisa calma que me faz a alma vivida ...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo se me perco a meditar
Vento que passa e esquece, poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse saber o que em mim vai..."
quarta-feira, 16 de abril de 2008
E se um olhar lhe bastasse
"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P´ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!"
terça-feira, 15 de abril de 2008
Um pôr-do-sol no pensamento

"Talvez não saibas mas dormes nos meus dedos
aonde fazem ninho as andorinhas
e crescem frutos ruivos e há segredos
das mais pequenas coisas que são minhas.
Talvez tu não conheças mas existe
um bosque de folhagem permanente
aonde não te encontro e fico triste
mas só de te buscar fico contente.
Oh meu amor, quem sabe se tu sabes
sequer se em ti existo ou sou demora,
ou sou como as palavras, essas aves
que cantam o teu nome a toda a hora.
(...)
Talvez não compreendas mas o vento
anda a espalhar em ti os meus recados,
e que há um pôr-do-sol no pensamento
quando os dias são azuis e perfumados.
Oh meu amor, quem sabe se tu sabes
sequer se em ti existo ou sou demora,
ou sou como as palavras, essas aves
que cantam o teu nome a toda a hora."
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Da alvorada que há em ti
"Queria conhecer os teus segredossexta-feira, 11 de abril de 2008
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Eterna, continuas...

Vagueio sem destino, pelas ruas,
O mar todo é de pedra... E continuas.
Todo o vento é poeira... E continuas.
A lua, fria, pesa... E continuas.
Uma hora passa e outra... E continuas.
Nas minhas mãos vazias continuas,
No meu sexo indomável continuas,
Na minha branca insónia continuas,
Paro como quem foge. E continuas.
Chamo por toda a gente. E continuas.
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.
Invento um verso... E rasgo-o. E continuas.
Eterna, continuas...
Mas sei por fim que sou do teu tamanho!"
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Se querer-te fosse fácil...

terça-feira, 8 de abril de 2008
I'm just a small step behind you
"In this little town
cars they don't slow down
The lonely people here
They throw lonely stares
Into their lonely hearts
I watch the traffic lights
I drift on Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But girl you're so far away
Oh, hold still for a moment and I'll find you
I'm so close, I'm just a small step behind you girl
And I could hold you if you just stood still
I jaywalk through this town
I drop leaves on the ground
But lonely people here
Just gaze their eyes on air
And miss the autumn roar
I roam through traffic lights
I fade through Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But man you're so far away
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
You're so close, I can feel you all around me boy
I know you're somewhere out there
I know you're somewhere out there
Oh, hold still for a moment and I'll find you
You're so close, I can feel you all around me
And I could hold you if you just stood still
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
I'm so close, I'm just a small step behind you
I know you're somewhere out there"
David Fonseca (Feat. Rita Redshoes) in 'Our heart will beat as one'
sábado, 5 de abril de 2008
Dói no corpo devagar
"Esta palavra Saudade
Sete letras de ternura
Sete letras de ansiedade
E outras tantas de aventura
Esta palavra saudade
A mais bela e a mais pura
Sete letras de verdade
E outras tantas, de loucura
Sete pedras, sete cardos
Sete facas e punhais
Sete beijos que são dados
Sete pecados mortais
Esta palavra saudade
Dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta,
fica na cama a chorar
Esta palavra saudade
Sabe a sumo de limão
Tem um travo de amargura,
Que nasceu no coração
Ai palavra amarga e doce
estrangulada na garganta
Palavra com se fosse
o silêncio, que se canta
Meu cavalo imenso e louco
a galopar na distância
Entre o muito e entre o pouco,
que me afasta da infância
Esta palavra saudade
é a mais prenha de pranto,
como um filho que nascesse
Por termos sofrido tanto
Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,
Enquanto a gente for viva
Esta palavra saudade
sabe ao gosto das amoras
Cada vez que tu não vens,
cada vez que tu demoras
Ai palavra amarga e doce,
debruçada na idade
Palavra como se fossemos
resto de mocidade
Marcada por sete letras
a ferro e a fogo no tempo
Ai, palavra dos poetas
que a disparam contra o vento
Esta palavra saudade
dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta
fica na cama a chorar
Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,
Enquanto a gente for viva"
quinta-feira, 3 de abril de 2008
MINCAYENI: A case of you
And I said, "Constant in the darkness
Where's that at?
If you want me I'll be in the bar"
On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
And I sketched your face on it twice
Oh you are in my blood like holy wine
Oh and you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet
Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me, you said
"Love is touching souls"
Surely you touched mine
"Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time
Oh you are in my blood like holy wine
And you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet
I met a woman
She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
"Go to him, stay with him if you can
Oh but be prepared to bleed"
Oh but you are in my blood you're my holy wine
Oh and you taste so bitter but you taste so sweet
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet
terça-feira, 1 de abril de 2008
I’d like to call you sometime
"What would you do if I kissed you?
What would you do if I held your hand and laid you down?
Would you find me overly unkind to you?
Would you call me insensitive, and say that I deserve to die?
What do I do with all these feelings tearing me up inside?
What do I do with all these wasted hours dreaming of you at night?
I' d like to call you sometime…
What would you do if you knew the truth?
What would you do if I told you the story of my life?
Would you find me overly familiar towards you?
Would you call me crude, fling me aside to the birds?
What do I do with all these feelings holding me back inside?
What do I do with all these wasted hours dreaming of you at night?
I'd like to call you sometime
I'd like you to need me one time
I’d like to call you sometime
What would you do if I kissed you?
What would you do if I held your hand and laid you down?
Would you recognize it’s a need I've been fighting for so long?
Would you recognize it’s a hunger only you can fill?
What do I do with all these feelings warming me up inside?
What do I do with all these glorious hours dreaming of you at night?
I'd like to call you sometime
I'd like you to need me one time
I'd like to have you all the time
I'd like to call you..."
"I'd Like" by Freshlyground, in 'Nomvula'
segunda-feira, 31 de março de 2008
Todos os dias
quinta-feira, 27 de março de 2008
A cumprir uma pena
Porque será que não canto como canta a cotovia?
terça-feira, 25 de março de 2008
Tenho mais medo da vida
sábado, 22 de março de 2008
Say...
Forget these wide-eyed fears
I'm here, nothing can harm you
my words will warm and calm you
Let me be your freedom,
let daylight dry your tears.
I'm here with you, beside you,
to guard you and to guide you...
CHRISTINE
Say you love me every waking moment,
turn my head with talk of summertime...
Say you need me with you now and always...
Promise me that all you say is true
that's all I ask of you
RAOUL
Let me be your shelter
let me be your light
You're safe, No one will find you
your fears are far behind you...
CHRISTINE
All I want is freedom,
a world with no more night
and you, always beside me, to hold me and to hide me...
RAOUL
Then say you'll share with me
one love, one lifetime
let me lead you from your solitude
Say you need me with you here, beside you...
anywhere you go, let me go too
Christine, that's all I ask of you...
CHRISTINE
Say you'll share with me one love, one lifetime...
say the word and I will follow you...
Share each day with me,
each night, each morning...
Say you love me...
RAOUL
You know I do...
BOTH
Love me - that's all I ask of you
Anywhere you go let me go too
Love me - that's all I ask of you..."
sexta-feira, 21 de março de 2008
A promessa
segunda-feira, 17 de março de 2008
Destino
segunda-feira, 10 de março de 2008
Me aceitar sem você
"Eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes, eu pensei que já nem me lembrasse de coisas passadas. Eu pensei que pudesse enganar à mim mesma dizendo que essas coisas da vida em comum não ficavam marcadas. Não pensei que me fizessem falta umas poucas palavras dessas coisas simples que dizemos antes de dormir. De manhã um "bom dia", na cama a conversa informal, o beijo, depois o café, os carros, o jornal. Os costumes me falam de coisas e factos antigos. Não esqueço das tardes alegres com nossos amigos. Um final de programa, fim de madrugada, o aconchego na cama, a luz apagada. Essas coisas só mesmo com o tempo se pode esquecer. Então eu me vejo sozinha, como estou agora e respiro toda liberdade que alguém pode ter. De repente ser livre até me assusta, me aceitar sem você, certas vezes me custa. Como posso esquecer dos costumes se nem mesmo me esqueci de você?"
da dupla Roberto Carlos/Erasmo Carlos
por Maria Bethânia, in 'As canções que você fez pra mim'
(O vídeo é absolutamente medonho mas era o que havia. Descobri esta música recentemente - esta semana - e gosto tanto que não resisto a colocá-la aqui. Sei que ando meio ausente e meio disperso. O Da.Inquietude tem ficado por actualizar. É mesmo falta de tempo, falta de paciência e falta de vontade. Melhores dias virão.)
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Que a solidão não seja deserta
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Como se as coisas boas também nos dessem medo
em angola, dissera-me anos mais tarde a minha professora, os meninos são pretos como a noite. eu, nessa altura, não me lembrava de nada. nem dos meninos da noite nem do menino do dia vinte e cinco de abril de setenta e quatro. acho que só aos oito ou nove anos me lembrei do sucedido. comprovei a história com os meus pais. apareceu-me como uma encarnação passada e mediu a minha vida com outra extensão. na minha meninice livre, permitida numa vila pequena como era paços de ferreira, abria-se um fosso no tempo e também lembrei como corremos, eu e a minha mãe, aos gritos do meu pai aflito sob os ruídos dos tiros. corríamos de cabeça baixa que a minha mãe era assim que fazia, e eu sei que ainda corri um pouco e depois fui tomado no colo. não nos deixámos parados dentro do carro. o meu pai imediato nos levou dali para fora. a capital estava a ser revolucionada, e ainda que as pessoas confusas achassem que era para o bem, os tiros ouviam-se e pareciam tão rentes como coisas do mal.
eu expliquei à minha professora que não me lembrava dos meninos de áfrica, mas que me lembrara de estranhar os meninos mais claros de portugal. na altura ainda lhe disse algo sobre uma menina da classe. tinha os cabelos muito loiros e alguém lhe chamava de francesa. para a frança emigravam as pessoas todas daquela zona, por isso, o estrangeiro para nós era paris.
no liceu fiz uma qualquer redacção sobre o vinte e cinco de abril, não sei bem que coisa disse – a nota não foi muito boa – sei o que quis dizer. no dia em que a minha cabeça nasceu ofereceram-me a liberdade e conheci a diferença. conheci e aceitei a diferença. que no mundo haveria de ver gente clara ou escura, pobre ou rica, mão esquerda ou mão direita fechada sobre o peito, e haveria de me reportar constantemente àquele momento que guardei esquecido para só entender mais tarde. haveria de entender, vez por todas, que não desperdiçaria nunca coisa tão cara que um só dia me trouxe. fiquei inchado diante da professora a sentir-me bom aluno.
assim, vivi em paços de ferreira, onde fiz a escola primária, e lembro da cidade – uma vila muito pequena, então – como um lugar pacífico onde se brincava na rua sem medos, entre riachos e mato, terras que aluíam e caminhos de paralelo a prejudicar as rodas das nossas bicicletas. a escola onde andei foi deitada abaixo em favor de um prédio horrível. a casa onde vivi – a casa da dona alice, devota da santa sílvia cardoso – esteve em ruínas muito tempo a albergar toxicodependentes. agora, disse-me o senhor luís magalhães, meu amigo de freamunde, foi deitada abaixo. fui verificar e tenho uma só fotografia onde se vêm as suas paredes rosa. à frente dela estou eu, com sete anos talvez, uns calções brancos, cara de miúdo bem comportado, muitos sonhos a nascer. no nosso quintal imenso apareceram prédios. os meus amigos de infância, com quem perdi o contacto, são estofadores de móveis, diabéticos, casados, gordos, donos de fábricas e distantes.
era uma casa imensa para mim, dividida ao meio por um longo corredor, como uma casa com risca ao meio, e eu podia ir da sala ao meu quarto de bicicleta. era cor de rosa velho e tinha heras agarradas aos muros, muitas, assim a tapar as vistas e a criar uma privacidade que nos possibilitava, aos miúdos, acampar no quintal pelo verão, cheios de medo que viesse um bicho qualquer que nos fizesse viver uma aventura maravilhosa. vivíamos assim, como se as coisas boas também nos dessem medo, de tanta ansiedade por elas."
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
O triste deste amor em fim de tarde
E tanto que nem sei se vale a pena
Amar e sempre amar quem mais clama
O nosso desamor feito dilema
Um dar e não saber se quem recebe
É cego ou não quer ver toda a saudade
Que existe e que persiste e não percebe
O triste deste amor em fim de tarde
Ninguém mais do que tu foi tão verdade
Das coisas que nos dão razão à vida
Prisão que ontem foi de liberdade
E hoje se transforma em chaga viva
Amar como te amei ninguém mais ama
De tanto que nem sei se vale a pena
manter nesta paixão acesa a chama
ou apagar num sopro este dilema"
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Those failed expectations…
And the storm is through,
Now will you pick another?
What will you get into?
So you stand in the corner,
With those boxing gloves on you,
You’re old, scared and lonely,
Yeah we’ve all been there too… uh uh
We’ve been all there too…
Kiss me, oh kiss me,
If that can make it right.
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you’re through.
Cause I just might, take them home with me.
And the cracks in the pavement,
Yeah we’ve all fell there before,
And bones built into skeleton,
We’ve all been through that door.
Kiss me, oh kiss me,
If that can make it right.
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you’re through.
Cause I just might…
Kiss me, oh kiss me,
Will that make things right ?
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you’re through.
Cause I just might…
I just might, take you home.
Kiss me, kiss me,
We’ve all been there too,
Kiss me, kiss me
We have all been there too,
Kiss me, kiss me
We’ve all been there too,
Kiss me, kiss me
So kiss me…"
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Os teus olhos foram esperança
"Pelo céu às cavalitas
Escondi nos teus caracóis
A estrela mais bonita que eu já vi
Eu cresci com o encanto
De ser caçador de sóis
Eu já corri tanto, tanto, para ti
Fui um príncipe encantado
Montado nos teus joelhos
Um eterno enamorado a valer
Lancelote de algibeira
Mas segui os teus conselhos
Pra voltar à tua beira
E ser o que eu quiser
Os teus olhos foram esperança
Os meus olhos girassóis
Fomos onde a vista alcança
Da nossa janela
Já deixei de ser criança
E tu dormes à lareira
Ainda sinto a minha estrela
Nos teus caracóis"
Ala dos Namorados, in 'Mentiroso Normal'
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Fechar os olhos
"(...) aqui estou na praia que veêm, de limonada na mão, refastelado e indiferente à passagem das horas, que aqui se escoam com uma majestade de paraíso. Se pudesse, suspendia o relógio, queimava todas as pontes e deixava-me ao abandono dos trópicos, afogado pela natureza. Aqui não falo. Não há com quem possa falar. Aqui não leio. Um livro soa a falso, tamanha é a magreza do estro dos mais inspirados poetas perante a imponência do meio. Aqui, se medito, perco-me. Prefiro fechar os olhos, sentir a brisa e o cantar das ondas suaves que à praia vêm morrer. Aqui, Liberdade, trato-te pelo nome."quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Superfície da minha própria vida
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Amor é amor a nada

Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira,
no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo
porque não amo bastante
ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga
nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor."
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
A sensação de arrepio
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea —
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem —
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração."
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Escuridão da noite

Eis-me aqui, na fortaleza da solidão, em desterro de silêncio (...), carecido de tempo para responder a tão novas e dilatadas matérias, cercado de professias e prognósticos, e para mais febril e com receio de que a febre se faça ou seja habitual e que a debilidade do sujeito fique incapaz de outros remédios.
Ergo meus olhos ao céu e rezo para que a escuridão da noite se deixe rasgar pela faísca de uma estrela."
(400 anos passados do seu nascimento)
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
E agora menos que nem vida tenho
O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
(…)
- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Aí tem e estou a chorar.
(Pessoa teve um único heterónimo feminino. Chamou-se Maria José e em seu nome escreveu um único texto: esta carta.)
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Welcome guest
.
"Thy hand, Belinda, darkness shades me,
On thy bosom let me rest,
More I would, but Death invades me;
Death is now a welcome guest.
When I am laid in earth,
May my wrongs create
No trouble in thy breast;
Remember me, but ah! forget my fate."
Henry Purcell, in 'Dido and Aeneas'
(versão: Janet Baker, Anthony Lewis and the English Chamber Orchestra)
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Já ao acordar estava triste
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efectivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afectos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso.
(...)"
sábado, 26 de janeiro de 2008
Cansaço




