terça-feira, 30 de setembro de 2008

Et si c'est pas une vie de te suivre et bien ce s'ra c' que ce s'ra



"On a parcouru le chemin De tes rêves à mes rêves
Tes doigts à mes seins De ta bouche à mes lèvres
De la guerre à la trêve Combien d' fois, mon amour
Combien d'aller-retour Entre la haine et l'amour
Chaque fois, la route et ses chaos Et ses roches et ses trous
M'arrachaient à ta peau Me rej'taient sur tes g'noux
Me tatouaient sur ta joue Combien de grands voyages
Pour autant de naufrages Sur ce même rivage
Jusqu'au jour où j'ai dit: "Va t'en ! J'ai plus rien à blesser
Qui soit vierge de coups J' suis fatiguée des kilomètres
Qu'on franchit pour être À un plus mauvais bout"
J'ai dit: "Prends ta voiture de fortune Et roule tant qu' tu voudras
Va t'en donc promettre ta lune À une autre que moi"
J' croyais pas qu' t'allais m'obéir À la lettre comme ça
J' t'ai regardé partir En mourant tout bas
Sur la véranda Brisée à des endroits Que j' me connaissais pas
Entre mon coeur et tes bras Les étoiles qu' j'avais dans l' regard
Et qui semblaient te plaire Sont venues s'échouer
Comme des étoiles de mer Sur l'estran désert
Le coeur comme un souv'nir Le corps comme un grenier
J'ai eu peur d' m'écrouler Je sais pas d' quelle manière
Comme poussée par le vent J' me suis mise à poursuivre, en courant
Le nuage de poussière Qu' ta voiture de misère
Faisait tourbillonner en filant Puis j'ai crié: "Attends-moi j'arrive !
Je peux pas vivre sans toi Et si c'est pas une vie de te suivre
Et bien ce s'ra c' que ce s'ra T'as encore, dans les mains
La petite cuillère Qui m' ramassait si bien
Quand j' m'écrasais par terre T'as encore, dans les mains
La petite caresse Qui m' ferait, comme un chien Haleter d'allégresse"
Mais, bien sûr, t'as rien entendu Et ton nuage et toi
Vous avez disparu Et je suis restée là Comme un cheval de bois
Qui ne berce plus personne Et que l'on abandonne Que l'on met au rebus
Un jour que j' me croyais mieux Que j'allais au village
Et que c'était pluvieux À deux nuages d'un orage
À faire taire les oiseaux À deux pas du resto
Et à trois du garage À deux doigts d'oublier
Perdue dans mon imperméable Et dans quelques pensées
Comme: "C'est drôle dans le sable Toutes ces traces de souliers"
Comme: "J' sais pas c' que j' vais foutre De ma longue soirée"
Juste à coté de moi Ce parfum agréable Ces cheveux familiers
C'était... c'était toi
Et l'orage éclata En même temps que le morceau de chair
Qui me servait de coeur Et le vent se leva En même temps qu'un éclair
Nous fìt tous les deux trembler de peur
J'ai dit: "Si tu viens pour les étoiles Elles sont tombées dans la boue
Si t'es là pour me voir, j' te signale Qu' y'a plus rien à voir du tout"
T'as dis: "J'ai parcouru Les chemins de mes rêves
À des rêves qui n'étaient pas les tiens
J' voulais juste que tu saches, mon amour
Que ces foutus parcours Ont toujours été vains"
Alors j'ai dit: "Puisque t'es là Viens donc prendre un café
Si tu veux, tu jett'ras Quelques bûches au foyer
Ça nous réchauffera Le temps que l'orage passe
Et que le feu s'embrase Comme autrefois !"
Et c'est là qu' t'as baissé les yeux Que t'as dit:
"J' pourrai pas Car, tu vois, y a un voeu Que j'ai fait là-bas
Elle te ressemble un peu Celle à qui j'ai dit: "Oui"
Ce petit "Oui" précieux Que je n' t'ai jamais dit"
T'as ajouté qu'aussi Elle prend bien soin du p'tit
Et qu' t'es déjà trop vieux, aujourd'hui Pour réparer l'erreur
La pire de ta vie Qui est celle d'être parti d'ici
Tu t'es mis à g'noux dans la vase Pour me d'mander pardon
Le tonnerre m'a volé ta phrase Et tu t'es levé d'un bond
Et t'es parti, l'air malheureux Le pantalon tout sale
Et, au coin de mes yeux Y'avait comme... des étoiles"


Lynda Lemay

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tudo o que é vida e vibra eternamente


"És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!

És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...

Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!

Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A Terra? - Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!"
Florbela Espanca
(Para os meus tios Zé e Rosinda que fizeram ontem 50 anos de casados. Pela inspiração, pelo carinho, pela presença. Obrigado.)

domingo, 28 de setembro de 2008

Numa manhã sem nuvens


... E eu queria isso tudo mas quero mais ainda porque o quero contigo ao meu lado. E queria adormecer contigo nos meus braços e acordar com o brilho dos teus olhos e o calor do teu sorriso. E era só isso que queria entre raios de sol e lençóis amarrotados. E amava-te assim, numa manhã sem nuvens, descobrindo o teu corpo a pouco e pouco e gozando cada minuto dessa entrega única. E era assim que te queria... É assim que te quero.

sábado, 27 de setembro de 2008

«Tu és um grande amigo»


“Não se pode ter muitos amigos e mesmo os poucos amigos que se tem, não se podem ter tanto como nos apetecia. Para não passar mal, aprende-se a economia da amizade, ciência um bocado triste e um bocado simples que consiste em ampliar os gestos e os momentos de comunidade para compensar os grandes desertos de silêncio e de separação que são normais. Como por exempo? Como, por exemplo, abrir mesmo os braços e dar mesmo um abraço. Dizer mesmo na cara de alguém «Tu és um grande amigo» e ser mesmo verdade. Acho que não é de aproveitar todos os momentos como se fossem os únicos, porque isso seria uma forma de paixão, mas antes estarmos com os amigos, nos poucos momentos que se têm, como se nunca nos tivéssemos separado.
A amizade é uma condição que nunca pode ser excepcional. Tem de ser habitual e eterna e previsível. E a economia dela nota-se mais quando reparamos que, sempre que não estamos com os nossos amigos, estamos sempre a falar deles. É bom dizer bem de um amigo, sem que ele venha a saber que dissemos. E ter a certeza que ele faz o mesmo, pensando que nós não sabemos.
A amizade vale mais que a razão, o senso comum, o espírito crítico e tudo o mais que tantas vezes justifica a conversação, o convívio e a traição. A amizade tem de ser uma coisa à parte, onde a razão não conta. Ter um amigo é como ter uma certeza. Num mundo onde certezas, como é óbvio, não há.”

Miguel Esteves Cardoso, inOs Amigos e os Amigalhaços
Para o Manel e a Joana, que hoje se casam. Porque foste tu que me mostraste este texto, Manel, e porque ser teu padrinho de casamento é uma enorme honra.
«Tu és um grande amigo»

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Aconteceu diferente das histórias

"Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor"

Adriana Calcanhoto por Cristina Branco, in 'Corpo Iluminado'

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

a terra e orgulho por ter enlouquecido


"estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento"

Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Cause all I need is five minutes of everything


"Give me please five minutes of everything
Those days when you wake up
And there's no one by your side
My arm slides slowly to my left side
And to my right side, there's no one there
To kiss you or to hear you
And you go out of bed
Thinking in those days that you need
You used to talk and talk about
And everything that stops your attention
You used to talk, talk about
Everything
Those days when you walk at the bar
And try to keep a conversation with somebody else
And no one out there you could sit down or walk
There's no one there.
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Five minutes of passion
And no one knows the right place to go
No meaning or just self-control maybe
And you walk out of there
You need to talk with somebody else
And to know the problems are waiting for
Outside the door
Are waiting for
The clock won't stop
And even if it stops
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Of passion
Five minutes of everything
Of everything
Maybe you want to talk about old questions
Right next to my ear
But I don't care about those silly things
Cause all I need is five minutes of everything"

The Gift

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Não ter laços nem limites


"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!"

Sophia de Mello Breyner Anderson
(pudesses tu...)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Amo-a porque a odeio


"Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
(...)
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la."

Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

domingo, 21 de setembro de 2008

Yo no se si tu ausencia me mate


"Ojala, que te vaya bonito

Ojala, que se acaben tus penas
Que te digan que yo ya no existo
Que conoscas personas mas buenas
Que te den lo que no pude darte
Aunque yo te haya dado de todo
Nunca mas volvere a molestarte
Te adore, te perdi ya mi modo
Cuantas cosas quedaron prendidas,
hasta dentro del fondo de mi alma
Cuantas luces dejaste encendidas
Yo no se como voy a apagarlas
Ojala que mi amor no te duela
Y te olvides de mi para siempre
Que se llenen de sangre tus venas
Y conoscas una vida de suerte
Yo no se si tu ausencia me mate
Aunque tengo mi pecho de acero
Pero nadie me llame cobarde
Sin saber hasta donde te quiero
Cuantas cosas quedaron prendidas,
hasta dentro del fondo de mi alma
Cuantas luces dejaste encendidas
Yo no se como voy a apagarlas
Ojala........ que te vaya...... bonito...... "

Jose Alberto Jimenez por Chavela Vargas, in 'Macorina'

sábado, 20 de setembro de 2008

Contingentes e efémeros


"Despedir-se é negar a separação, é dizer: Hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingentes e efémeros."


Jorge Luis Borges, in 'O Fazedor'
(para o meu querido amigo Mário que parte hoje para Pequim por alguns anos. Vais fazer falta por aqui!)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

It stops


(A propósito de "Love Streams", de John Cassavetes)

"Afinal era num tribunal. Ao saber que a filha fica "confiada" ao pai, Gena Rowlands colapsa sem qualquer colapso. Deita-se apenas no chão. Pura impotência. Mais adiante (...) Rowlands está no psiquiatra (...) e ambos fumam (...). Rowlands explica que o amor é uma corrente ("love streams") e, como tal, é contínuo. Não pára. Tudo o que lhe acontece - a família esfarelada, a vida absurda - resulta de essa corrente poder ser interrompida, o que ela recusa. Aí entra o psiquiatra. Diz-lhe que, contrariamente ao que ela pensa, o amor pára ("it stops"). E pára mesmo. Se calhar, o papel do psiquiatra é precisamente o de nos dizer que o amor pára. Ele é necessário porque não existe qualquer corrente de amor em regime de continuidade. É ele que devolve "realismo" ao absurdo gerado pela não compreensão do fim da corrente. Talvez o essencial se resuma, afinal, ao meu querer que haja uma corrente infinita e ela não estar lá. Nunca. Daí o álcool, os comprimidos, os amantes furtivos. Deus? A Duras tinha uma "fórmula" cruel para dizer isto. O álcool tomou o papel de Deus. Substituiu-O. Será verdade? (...)"

João Gonçalves, in 'Portugal dos Pequeninos'

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Da falta que tu me fazes



"Disse-te adeus não me lembro
Em que dia de Setembro
Só sei que era madrugada
A rua estava deserta
E até a lua discreta
Fingiu que não deu por nada

Sorrimos à despedida
Como quem sabe que a vida
É nome que a morte tem
Nunca mais nos encontrámos
E nunca mais perguntámos
Um p'lo outro a ninguém

Que memória ou que saudade
Contará toda a verdade
Do que não fomos capazes
Por saudade ou por memória
Eu só sei contar a história
Da falta que tu me fazes"

Manuela de Freitas por Carmo Rebelo de Andrade
(fizeste falta ao meu lado hoje... Há distâncias que são demasiado grandes...)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mas cada vez há mais vento



"Escrevi teu nome no vento,
convencido que o escrevia
na folha do esquecimento
que no vento se perdia.

Ao vê-lo seguir envolto
na poeira do caminho,
julguei meu coração solto
dos elos do teu carinho.

Pobre de mim não pensava
que tal e qual como eu,
o vento se apaixonava
por esse nome que é teu.

Mas quando o vento se agita,
agita-se o meu tormento,
quero esquecer-te, acredita,
mas cada vez há mais vento."

Fernando Maurício por Carmo Rebelo de Andrade
(Julguei meu coração solto...)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

À mesa do café


"O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo."

José Tolentino Mendonça
(Porque hoje, no Jardim do Principe Real, estes versos fizeram ainda mais sentido...)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Um extravio morno da minha consciência


"Eu quero um colo, um berço, um
braço quente em torno ao meu pescoço
E uma voz que cante baixo e pareça querer fazer-me chorar
Eu quero um calor no inverno
Um extravio morno da minha consciência
E depois sem som
Um sonho calmo
Um espaço enorme
Como a lua rodando entre as estrelas "

Fernando Pessoa

(Porque às vezes, querer ouvir é diferente de precisar de ouvir...)

domingo, 14 de setembro de 2008

Pelo olhar que demora

"Diz-me agora o teu nome se já dissemos que sim
pelo olhar que demora porque me olhas assim
porque me rondas assim
toda a luz da avenida se desdobra em paixão
magias de druida p’lo teu toque de mão
soam ventos amenos p’los mares morenos
do meu coração
espelhando as vitrinas da cidade sem fim
tu surgiste divina porque me abeiras assim
porque me tocas assim
e trocámos pendentes, velhas palavras tontas
com sotaque diferentes, nossa prosa está pronta
dobrando esquinas e gretas, p’lo caminho das letras
que tudo o resto não conta
e lá fomos audazes, por passeios tardios
vadiando o asfalto, cruzando outras pontes
de mares que são rios
e num bar fora de horas se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa
dizes-me então que sou teu, que tu és toda p’ra mim
que me pões no apogeu, porque me abraças assim
porque me beijas assim
por esta noite adiante, se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim
à luz vã dos faróis, são de seda os lençóis
porque me amas assim


Fausto por Cristina Branco, in 'Ulisses'

sábado, 13 de setembro de 2008

O desejo entregue a nós

"Talvez por não saber falar de cor, Imaginei
Talvez por não saber o que será melhor, Aproximei
Meu corpo é o teu corpo o desejo entregue a nós
Sei lá eu o que queres dizer, Despedir-me de ti
Adeus um dia voltarei a ser feliz

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei, o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender

Talvez por não saber falar de cor, Imaginei
Triste é o virar de costas, o último adeus
Sabe Deus o que quero dizer

Obrigado por saberes cuidar de mim,
Tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou,
e se ao menos tudo fosse igual a ti

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender

É o amor, que chega ao fim, um final assim,
assim é mais fácil de entender"


The Gift, in 'AM/FM'

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Even though I was alone


"I... I used to make long speeches to you after you left.
I used to talk to you all the time, even though I was alone.
I walked around for months talking to you.
Now I don't know what to say. It was easier when I just imagined you. I even imagined you talking back to me. We'd have long conversations, the two of us. lt was almost like you were there. I could hear you, I could see you, smell you. I could hear your voice. Sometimes your voice would wake me up. It would wake me up in the middle of the night, just like you were in the room with me. Then... it slowly faded. I couldn't picture you anymore. I tried to talk out loud to you like I used to, but there was nothing there. I couldn't hear you. Then... I just gave it up. Everything stopped. You just... disappeared. And now I'm working here. I hear your voice all the time. Every man has your voice."


Jane (Natassja Kinski) no filme 'Paris-Texas', de Wim Wenders
(para M. pela surpresa da descoberta. Pelas possibilidades. Pelo começar do zero)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A eternidade em que se vive


"(...) Como poderia eu ter imaginação para te reconstituir na sólida delicadeza da tua fragilidade? (...) O amor e a morte inserem-se um no outro, deves saber. Mas eu sobrevivi e isso é uma condenação. Penso-te e o teu esplendor renasce-me no meu pensar e a minha idade retrai-se quando me apareces. E a eternidade em que se vive, mesmo se a velhice é real, restabelece-me igual a ti que nunca envelheceste. E não me perguntes porque te escrevo se tudo é em vão. Mas há o meu desejo de te fixar na palavra escrita que te diz, para ficares aí com o milagre que puder. É Primavera e tudo é nítido no seu ser real. (...)"

Vergílio Ferreira, in 'Para Sempre'

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A natureza da tua vida


"Reconheço a tua mão nesse abandono
visível não sei se pela escuridão
ou pela luz
quase sinto a natureza da tua vida
nesta mão
elegante, íntima, delicada
os dedos em inclinação muito leve
nem chega a ser um gesto

tanto se parece a uma despedida"


José Tolentino Mendonça

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tornar em sonhos, rever-te


"Um dia, quando isso for
Deixar o teu corpo em flor
E se aproximar do fim
Queria partir, sem te ver
Sentir o mundo morrer
Lá longe, dentro de mim
Depois, em vez de esquecer-te
Tornar em sonhos, rever-te
Lá longe, na solidão
De ver-te sozinho assim
Ver-te só dentro de mim
Dentro do meu coração
É que não posso partir
Sem me partir dos teus olhos
Antes do adeus derradeiro
É que partir sem te ver
É duas vezes morrer
De alma e de corpo inteiro"

António Calém por Katia Guerreiro, in 'Tudo ou Nada'
(para M., que está longe)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!


"Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas,

E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...

E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,

Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!"

José Régio

domingo, 7 de setembro de 2008

Na face incompleta do amor


"Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser."
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I, 1944

sábado, 6 de setembro de 2008

Trazendo a saudade

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade"

Jorge Fernando por Mariza

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Realmente livre


"Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre"

Fernando Pessoa

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Todo o amor que nos prendera




"Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia.
Ai funesta primavera,
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia.
E condenaram-me a tanto,
Viver comigo o meu pranto,
Viver, e viver sem ti,
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi.
Pão duro da solidão
somente o que nos dão a comer.
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver.
Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera,
Em pavor se convertia.
Ninguém fale em primavera,
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia."

David Mourão-Ferreira por Amália Rodrigues

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Na tristeza do momento


"(...)
E as palavras que eu invento
Na tristeza do momento
de te ver partir agora
são palavras, são carinhos
são os restos dos espinhos
do nosso amor que demora
E a cidade entristecida
dorme à noite recolhida
porque a lembrança sorri
Como quem espera em ternura
que um dia à nossa procura
possas voltar sempre aqui"

(Não me lembro do nome do autor. Assim que souber ponho aqui.)
Para M. Que o teu regresso seja em breve. Vou sentir a tua falta!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Para atravessar contigo


"Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento"

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Io sono in pace



Chorus: E pensando di lei
Mi sopragiunse uno soave sonno

Ego dominus tuus
Vide cor tuum
E d'esto core ardendo
Cor tuum
(Chorus: Lei paventosa)
Umilmente pascea.
Appreso gir lo ne vedea piangendo.

La letizia si convertia
In amarissimo pianto

Io sono in pace
Cor meum
Io sono in pace
Vide cor meum



Chorus: And thinking of her
Sweet sleep overcame me

I am your master
See your heart
And of this burning heart
Your heart
(Chorus: She trembling)
Humbly eats.
Weeping, I saw him then depart from me.

Joy is converted
To bitterest tears

I am in peace
My heart
I am in peace
See my heart


Vide Cor Meum é uma música composta por Patrick Cassidy, com letra baseada na obra "La Vita Nuova" de Dante, especificamente no soneto "A ciascun'alma presa" (cap. 3). A música foi produzida por Patrick Cassidy e Hans Zimmer e interpretada pela Libera / Lyndhurst Orchestrathe, dirigida por Gavin Greenaway. Os cantores são Danielle de Niese e Bruno Lazzaretti.

(Para ti, que voltaste depois de tanto silêncio.)

domingo, 31 de agosto de 2008

Esse país de mar, de ilhas, de sol, de azul...


Às vezes penso que não é verdade. Às vezes penso que a falta que me fazes não dói assim tanto. Mas depois fico sem ar e percebo que a tua ausência se torna difícil de ultrapassar. Por ser tão real, tão corpórea. Quero-te. Porque te amo. Não sei. Ou talvez porque não te amo mas porque me fazes falta. O teu corpo. O teu cheiro. O teu toque. O teu olhar. (Ah, esses olhos azuis.) É sentir-te longe e querer acreditar que estás perto de mim. Uma proximidade que se torna real no amor que quero fingir que não sinto... Quero partir contigo para esse país de mar, de ilhas, de sol, de azul... Do azul dos teus olhos.

sábado, 30 de agosto de 2008

Minha dor e meu caminho


Perdi-me no teu olhar
Cor de mar, azul profundo
Deixei tudo para te amar
Fiz do teu o nosso mundo.

Meu amor, minha gaivota,
minha dor e meu caminho
Enlouqueço por te não ter
Já não sei viver sozinho

Ouço o Fado dos teus olhos
Que me negam o teu amor
Calo o lamento em meu peito
E morro de tanta dor.

Foi no azul dos teus olhos
Que perdi o meu sossego
E choro no escuro da noite,
Porque te amo em segredo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Que foi para sempre abandonado

"Que eu pudesse, enfim, dizer o que trago dentro de mim.
Gritar: gente, mentia-vos
Ao dizer que não tenho ISTO em mim,
Quando ISTO permanece cá de dia e de noite.
Embora, justamente graças a ISTO
Soube descrever as vossas cidades inflamáveis,
Os vossos breves amores e jogos desfazendo-se em pó,
Brincos, espelhos, uma alça que caía,
Cenas em quartos e em campos após a batalha.

A escrita era para mim estratégia de camuflagem,
De apagar vestígios. Porque não se gosta daqueles
Que aspiram o proibido.
Socorro-me dos rios nos quais nadava, dos lagos
Com uma passagem entre os juncais, do vale,
Onde o eco da cantiga é secundado pela luz do ocaso,
E confesso que os meus elogios extáticos da existência
Poderiam ser meros exercícios de estilo elevado,
Mas por baixo estava ISTO que não sou capaz de nomear.

ISTO é comparável aos pensamentos do desabrigado
Quando vai pela cidade gélida e estranha.

E ao instante em que o judeu acossado vê aproximarem-se
Os pesados capacetes dos gendarmes alemães.

ISTO revela-se também quando um príncipe vai à cidade
E vê o mundo real: a miséria, a doença, a velhice e a morte.

ISTO está igualmente no rosto petrificado de quem
Descobriu que foi para sempre abandonado.

E nas palavras do médico sobre a sentença sem recurso.

Porque ISTO significa o esbarrar contra o muro,
Sabendo que ele não cederá a quaisquer implorações nossas."



MIŁOSZ, Czesław, in 'Alguns Gostam de Poesia (antologia)'

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Como um só momento


"Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber."

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Nos meus ombros


"(...) e ela voltava a olhar lá para fora e perguntava, o que veio ver à janela. ele respondia, foi só para apanhar ar, ficamos os dois tanto tempo metidos aqui dentro que chego a convencer-me de que as paredes estão assentes nos meus ombros. (...)"

Valter Hugo Mãe,
in 'o apocalipse dos trabalhadores'

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O nosso caminho


"(...)
Nada nos pode deter:
O nosso caminho é de Astro!
Luto — embora! — o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há-de ser! ...
(...)"

Mário de Sá-Carneiro
(Para ti, cujos cabelos de ouro são o meu astro. Faz sentido?)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Would we stop to feel?



"We'd be so less fragile
If we're made from metal
And our hearts from iron
And our minds from steel
And if we built an armor
For our tender bodies
Could we love each other?
Would we stop to feel?

And you want three wishes:
One to fly the heavens
One to swim like fishes
And then one you're saving for a rainy day
If your lover ever takes her love away

You say you want to know her like a lover
And undo her damage, she'll be new again
Soon you'll find that if you try to save her
It renews her anger
You will never win

And you only want three wishes:
You want never bitter
And all delicious
And then one you're saving for a rainy day
If your lover ever takes her love away

You only want three wishes:
One to fly the heavens
One to swim like fishes
You want never bitter
And all delicious
And a clean conscience
And all it's blisses
You want one true lover with a thousand kisses
You want soft and gentle and never vicious
And then one you're saving for a rainy day
If your lover ever takes her love away"

domingo, 24 de agosto de 2008

Perdi a alma por te amar


Toquei teu cabelo cor de areia,
Amei teus olhos cor do mar.
Ganhei voz só por te ver,
Perdi a alma por te amar.

Partiste em hora sombria
Sem lágrimas, sem um lamento
Era noite ou era dia?
Eu morri nesse momento.

Eu queria ver os teus olhos
Azuis como a minha alma
É só por ti que eu espero
És só tu quem me traz calma

Essa gaivota que trazes
presa no pensamento
É o amor que eu te tenho,
É a razão do meu tormento.

Espero por ti, meu amor.
Espero por ti e lamento
Que não ouças a minha dor
Que te grita a voz do vento

Este meu fado é diferente
Daquele que tanto sonhei
No meio de tanta gente
Só perdi quem mais amei.

(Para a Katia, o Rui, o Marcello e o Mário.
Pela noite inesquecível. Pela partilha. Pelo Fado. Pela promessa. Pelo futuro.)

sábado, 23 de agosto de 2008

Todos temos nosso fado



"Bem pensado
Todos temos nosso fado
E quem nasce mal fadado
Melhor fado não terá.
Fado é sorte
E do berço até à morte,
Ninguém foge, por mais forte,
Ao destino que Deus dá.

No meu fado amargurado
A sina minha
Bem clara se revelou,
Pois cantado
Seja quem for adivinha
Na minha voz, soluçando,
Que eu finjo ser quem não sou.

Bom seria poder um dia
Trocar-se o fado
Por outro fado qualquer…
Mas a gente
Já traz o fado marcado
E nenhum mais inclemente
Do que este de ser mulher."


Joao da Silva Tavares e Frederico de Freitas por Amália Rodrigues

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O que a noite nos fez em muitos anos


"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos."

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

À procura de um país de árvores


"Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia


primeiro vive-se e não se pensa em nada

não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa

não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores

e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção"

José Tolentino Mendonça, in 'A noite abre meus olhos"

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Caminhar por uma terra assim


«Todas as coisas que amei ou acarinhei me foram roubadas. (...) Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadámos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trepámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isto marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia - quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como os nomes dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem monogâmicos nos nossos gostos ou experiências. Eu só desejava caminhar por uma terra assim, onde não existissem mapas.»


Michael Ondaatje, in 'O Doente Inglês'
(via Portugal dos Pequeninos)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

E dançar e cantar e dançar


"Vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar um novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e cantar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar, eu vou te dar, eu vou...

Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar um novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Vou sair da beira do abismo
E dançar e cantar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar, eu vou te dar, eu vou...

Hoje tem goiabada
Hoje tem marmelada
Hoje tem palhaçada
O circo chegou
Hoje tem batucada
Hoje tem gargalhada
Riso, risada de meu amor."


Arnaldo Antunes por Maria Bethânia, in 'Imitação da Vida'

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

De tanto te encontrar e te perder


"Não sei de amor senão o amor perdido
o amor que só se tem de nunca o ter
procuro em cada corpo o nunca tido
e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido
de tanto te encontrar e te perder.

Não sei de amor senão o não ter tido
teu corpo que não cesso de perder
nem de outro modo sei se tem sentido
este amor que só vive de não ter
o teu corpo que é meu porque perdido
não sei de amor senão esse doer.

Não sei de amor senão esse perder
teu corpo tão sem ti e nunca tido
para sempre só meu de nunca o ter
teu corpo que me dói no corpo ferido
onde não deixou nunca de doer
não sei de amor senão o amor perdido.

Não sei de amor senão o sem sentido
deste amor que não morre por morrer
o teu corpo tão nu nunca despido
o teu corpo tão vivo de o perder
neste amor que só é de não ter sido
não sei de amor senão esse não ter.

Não sei de amor senão o não haver
amor que dure mais do que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer
só esse é que não morre de tão perdido
só esse é sempre meu de nunca o ser
não sei de amor senão o amor ferido.

Não sei de amor senão o tempo ido
em que amor era amor de puro arder
tudo passa mas não o não ter tido
o teu corpo de ser e de não ser
só esse meu por nunca ter ardido
não sei de amor senão esse perder.

Cintilante na noite um corpo ferido
só nele de o não ter tido eu hei-de arder
não sei de amor senão amor perdido."

Manuel Alegre

domingo, 17 de agosto de 2008

Na surpresa dos instantes

"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes."
Sophia de Mello Breyner Andresen
 

sábado, 16 de agosto de 2008

Se sinto demais ou de menos


"Não sei sentir, não sei ser humano, não sei conviver de dentro da alma triste, com os homens, meus irmãos na terra. Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático, quotidiano, nítido. Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo. Mas tudo ou sobrou ou foi pouco, não sei qual, e eu sofri. Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos. E fiquei triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse. Amei e odiei como toda gente. Mas para toda gente isso foi normal e instintivo. Para mim sempre foi a excepção, o choque, a válvula, o espasmo. Não sei se a vida é pouca ou demais para mim. Não sei se sinto demais ou de menos. Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos, a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, a dar vontade de dar pulos, de ficar no chão, de sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas e ir ser sevalgem entre árvores e esquecimentos."
Álvaro de Campos

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Que sejas o presente

"Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio 
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado."
Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A hora de preparar o coração...


"No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estaria inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração..."
Antoine de Saint-Exupéry, in 'O Principezinho'
(O inesperado acontece. Boas férias, no Báltico!)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Aquele que partiu


"Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.

Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas

Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo

Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento

E que ninguém repita o seu nome proibido."

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Apenas nos iludimos


"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

E hoje deixei de tentar erguer os planos de sempre


"Só hoje senti
que o rumo a seguir
levava pra longe
senti que este chão
já não tinha espaço
pra tudo o que foge
não sei o motivo pra ir
só sei que não posso ficar
não sei o que vem a seguir
mas quero procurar

e hoje deixei
de tentar erguer
os planos de sempre
aqueles que são
pra outro amanhã
que há-de ser diferente
não quero levar o que dei
talvez nem sequer o que é meu
é que hoje parece bastar
um pouco de céu
um pouco de céu

só hoje esperei
já sem desespero
que a noite caísse
nenhuma palavra
foi hoje diferente
do que já se disse
e há qualquer coisa a nascer
bem dentro no fundo de mim
e há uma força a vencer
qualquer outro fim

não quero levar o que dei
talvez nem sequer o que é meu
é que hoje parece bastar
um pouco de céu
um pouco de céu"

Mafalda Veiga

domingo, 10 de agosto de 2008

Solidão, quem pode evitar?




"O deserto que atravessei
Ninguém me viu passar
Estranha e só
Nem pude ver que o céu é maior

Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar

É deserto onde eu te encontrei
Você me viu passar
Correndo só
Nem pude ver que o tempo é maior

Olhei pra mim
Me vi assim
Tão perto de chegar
Onde você não está

No silêncio uma catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir
Eu sei, vai ter que existir
Vai resistir nosso lugar

Solidão, quem pode evitar?
Te encontro enfim
Meu coração é secular
Sonha e desagua dentro de mim
Amanhã, devagar
Me diz como voltar

Se eu disser que foi por amor
Não vou mentir pra mim
Se eu disser deixa pra depois
Não foi sempre assim

Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar"

Zelia Duncan
(No dia em que assumi o fim. Até sempre meu amor.)

sábado, 9 de agosto de 2008

Qualquer outro lugar comum



"Vamos fugir!
Deste lugar
Baby!
Vamos fugir
Tô cansado de esperar
Que você me carregue...

Vamos fugir!
Pr'outro lugar
Baby!
Vamos fugir
Pr'onde quer que você vá
Que você me carregue...

Pois diga que irá
Ira já, Ira já
Prá onde eu só veja você
Você veja a mim só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer...
Guaporé, Guaporé
Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, Céu azul
Onde haja só meu corpo nú
Junto ao seu corpo nú...

Vamos fugir!
Pr'outro lugar
Baby!
Vamos fugir
Pr'onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue...

Vamos fugir!
Deste lugar
Baby!
Vamos fugir
Tô cansado de esperar
Que você me carregue...

Pois diga que irá
Ira já, Ira já
Prá onde eu só veja você
Você veja a mim só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer...
Guaporé, Guaporé
Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, Céu azul
Onde haja só meu corpo nú
Junto ao teu corpo nú...

Vamos fugir!
Pr'outro lugar
Baby!
Vamos fugir
Pr'onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue...

Tô cansado de esperar
Que você me carregue
Todo dia de manhã
Flôres que a gente regue...

Uma banda de maçã
Outra banda de reggae..."

Gilberto Gil por Skank, no dia dos teus anos
(Vamos fugir? Encontramo-nos na Índia?)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Busca

"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem"


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Porto sventura a chi bene mi vuole!


"La mamma morta
m'hanno a la porta
della stanza mia;
moriva e mi salvava!...
Poi a notte alta io cor.Bersi errava,
quando,ad un tratto,un livido
bagliore
guizza e rischiara innanzi a'passi
miei
la cupa via!
Guardo!...Bruciava il loco di mia
culla!
Così fui sola!...E intorno il nulla!
Fame e miseria!...
Il bisogno,il periglio!...
Caddi malata!...
E Bersi,buona e pura,
di sua bellezza ha fatto
un mercato,un contratto per me!
Porto sventura a chi bene mi vuole!

Fu in quel dolore
che a me venne l'amor!
Voce piena d'armonia
E dice: "Vivi ancora! Io son la vita!
Nè miei occhi è il tuo cielo!
Tu non sei sola! Le lagrime tue
io le raccolgo!...io sto sul tuo
Cammino
e ti sorreggo!
Sorridi e spera! Io son l'amore!...
Tutto intorno è sangue e fango?...
Io son divino!...
Io son l'oblio!...
Io sono il dio
che sovra il mondo scende da
l'empireo.
Fa della terra un ciel....
Ah! Io son l'amor!..."
"They killed my mother
Close by the doorway leading to
my chamber.
In dying,she saved my life.
Then,at dead of night.
I left the house with Bersi,
And in the distance,
The flames leapt up behind us;
Fierce tongues of fire set all the
sky aglow,
Lighting our path.
My home,my well-loved home,
Was burnt to ashes.
I was alone.
I had no shelter.
Hungry and needy,danger
haunted my footsteps.
Then I fell ill, and Bersi, poor
faitful creature,
She would not leave me:
She bartered her beauty to kee me alive.
I bring misfortune even to those.
who love me.
In all this sorrow,
My poor heart woke to love.
In a voice of soft compassion he
murmured: "Heard him who
calls thee. Life itseid enfolds thee!
In my arms, no harm can befall
thee,
I am here beside thee.
Thy tears of despair,I will banist
Tho guide thy faltering footsteps,
I shall be near thee!
Let joy fill thy being,
For Love itseld am I!
Though thy path be dark with
terror,
I shall bring solace.
Take heart again!
Raise your eyes and behold me;
I come to thee from out the vault
of heavem above,
Making earth a paradise.
The god of Love am I!"


Giordano: Andrea Chénier - Act 3: La Mamma Morta 
(Maria Callas; Tullio Serafin: Philharmonia Orchestra)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Demasiado amargo para que queira saber


"Na rua, um silêncio absoluto. Vêm-me à memória ou à imaginação, aquelas manhãs em que esperava pela minha mãe: à memória, porque foram, sem dúvida, manhãs; à imaginação, porque, como a vida, foram e já não voltam. Não sei se é saudade, não sei se é tristeza, não sei, porque é demasiado amargo para que queira saber. Penso num verso: A essência de Ser sufoca ante a visão do vazio infinito. A vida é um problema Distância e movimento, se Deus não chegar, a morte acabará por me levar até Ele e, mesmo aí, Deus pode não estar. Pode ser que Deus seja uma manhã em que eu, fingindo dormir, espere a voz da minha mãe; pode ser que a Morte seja o silêncio das ruas e a Fé uma vontade de sonhar.

Tenho tantas saudades tuas."

Pedro in 'Blog para Nada'

terça-feira, 5 de agosto de 2008

No demorado adeus da nossa condição

"Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente"

Ruy Belo