segunda-feira, 27 de outubro de 2008

The loneliest people


"If you wanna be my friend
You want us to get along
Please do not expect me to
Wrap it up and keep it there
The observation I am doing could
Easily be understood
As cynical demeanour
But one of us misread...
And what do you know
It happened again

A friend is not a means
You utilize to get somewhere
Somehow I didn't notice
friendship is an end
What do you know
It happened again

How come no-one told me
All throughout history
The loneliest people
Were the ones who always spoke the truth
The ones who made a difference
By withstanding the indifference
I guess it's up to me now
Should I take that risk or just smile?

What do you know
It happened again
What do you know"

Kings of Convenience, in 'Riot on an empty street'

domingo, 26 de outubro de 2008

E de tudo que há nas ilusões


"O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim. A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções."

Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

sábado, 25 de outubro de 2008

Diante do teu olhar

 

"O que desejei às vezes

Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!

Tão pouca que nem existe!

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste."

António Botto

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

E isto não ser tudo


"A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos.
Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre há muito tempo.
Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.
Deus é o existirmos e isto não ser tudo."

Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A angústia das pequenas coisas ridículas


"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

Álvaro de Campos

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Tanta pena y tanto mal



"Soledad,
fue una noche sin estrellas
cuando al irte
me dejaste tanta pena
y tanto mal.

Soledad
desde el dia en que te fuiste
en el pueblo solo existe
un silencio conventual.

Soledad,
los arrollos están secos,
en lascalles hay mil ecos
que te gritan sin cesar

Soledad
vuelve ya...
Vuelve ya mi Soledad..."

por Chavela Vargas

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma


"Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar-entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!"


Álvaro de Campos

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mais que um crime é um castigo

"Proibissem a saudade de cantar,
Havia de ser bonito…
Entre os versos da canção mais popular,
Ai, é o dito por não dito.

E as guitarras, sob a escuta na batuta de outras modas,
Escondem no trinar das cordas o pesar.
E o poeta vigiado, forçado ao assobio,
Carpe as mágoas do destino sem mostrar.

E ao calor de uma fogueira, um amigo
Com a voz mais aquecida lá entoa:
Que a saudade mais que um crime é um castigo,
E prisão por prisão, temos Lisboa."

Deolinda

domingo, 19 de outubro de 2008

Os meus desejos são cansaços


"Dorme enquanto eu velo…
Deixa-me sonhar…
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir…
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir."

Fernando Pessoa

sábado, 18 de outubro de 2008

O meu amor não estava



"a noite vinha fria
negras sombras a rondavam
era meia-noite
e o meu amor tardava

a nossa casa, a nossa vida
foi de novo revirada
à meia-noite
o meu amor não estava

ai, eu não sei aonde ele está
se à nossa casa voltará
foi esse o nosso compromisso

e acaso nos tocar o azar
o combinado é não esperar
que o nosso amor é clandestino

com o bebé, escondida,
quis lá eu saber, esperei
era meia-noite
e o meu amor tardava

e arranhada pelas silvas
sei lá eu o que desejei:
não voltar nunca...
amantes, outra casa...

e quando ele por fim chegou
trazia flores que apanhou
e um brinquedo pró menino

e quando a guarda apontou
fui eu quem o abraçou
o nosso amor é clandestino"

Deolinda
(Hoje, na Aula Magna, pelas 22H. A não perder.)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Em nome da tua ausência


Gosto tanto de estar contigo e às vezes quero tanto estar sozinho. Às vezes preciso tanto de ti e outras vezes preciso só de mim. Às vezes quero que estejas aqui em casa e outras vezes não. E às vezes esse querer dura apenas alguns minutos ou segundos. Mas há dias em que a solidão e o frio me invadem e eu sinto-me pequeno e só e triste. E acho que amar devia dar um pouco mais de calor... Na verdade tenho saudades tuas. Mas saudades mesmo. Daquelas que provocam um peso no estômago e fazem doer. E é nestes dias que tenho mais dificuldade em sair da cama. E chego a ficar assim, congelado, como se apenas a tua presença ao meu lado me trouxesse algum conforto. Em nome da tua ausência arrasto os olhos de rosto em rosto, buscando a tua face. Em nome da tua ausência perco horas na cidade a percorrer os teus caminhos, sonhando com os teus passos. Em nome da tua ausência gasto os dias em angustias, em lágrimas, em solidão. Em nome da tua ausência deixei de sentir. Na verdade tenho saudades tuas. É tempo de aceitar que te perdi de vez.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

No desalinho triste das minhas emoções confusas...


"Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas."

Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A mão doçura

"Ai! minha mãe
minha ‘’mãe menininha’’
ai! minha ‘’mãe
menininha’’ do Gantois
- a estrela mais linda, hein?
- tá no Gantois
- a beleza do mundo, hein?
- tá no Gantois
- e a mão doçura, hein?
- tá no Gantois
- o consolo da gente, ai?
- ta no Gantois
- a oxum mais bonita, hein
- ta no gantoi
Olorum que mandou
essa filha de oxum
tomar conta da gente
e de tudo cuidar
Olorum que mandô-ê-ô
ora-iê-iê-ô."

Dorival Caymmi por Maria Bethânia, Caetano Veloso e Dona Canô
(Esta é por razão nenhuma. Porque há momentos tão simples e tão bonitos que se tornam inesquecíveis.)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O que deve estar na alma


"(...)
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
(...)"

Alberto Caeiro in 'O Guardador de Rebanhos'

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Escolheu meu coração

"Minha vida que parece muito calma
Tem segredos que eu não posso revelar
Escondidos bem no fundo de minh'alma
Não transparecem nem sequer em um olhar
Vive sempre conversando à sós comigo
Uma voz eu escuto com fervor
Escolheu meu coração pra seu abrigo
E dele fez um roseiral em flor"

domingo, 12 de outubro de 2008

Aunque me haga pedazos la vida



"Cuando lejos te encuentres de mi,
Cuando quieras que yo este contigo,
No tendras un recuerdo de mi,
Ni tendras mas amores conmigo.

Te lo juro que no volveré,
Aunque me haga pedazos la vida,
Si una vez con locura te ame,
Ya de mi alma estaras despedida.

No... Volveré.
Te lo juro por Dios que me mira,
Te lo digo llorando de rabia,
Yo no volveré.

No... Parare
Hasta ver que mi llanto ha formado,
Un arrollo de olvido anegado,
Donde yo tu recuerdo ahogare.

Fuimos nubes que el viento aparto,
Fuimos piedras que siempre chocamos,
Gotas de agua que el sol reseco,
Borracheras que no terminamos.

En el tren de la ausencia me voy,
Mi boleto no tiene regreso,
Lo que quieras de mi te lo doy
Pero no te devuelvo tus besos.

No... Volveré
Te lo juro por Dios que me mira,
Te lo digo llorando de rabia,
No volveré.

No... Parare
Hasta ver que mi llanto ha formado,
Un arrollo de olvido anegado,
Donde yo tu recuerdo.... ahogare."

Antonio Bribiesca por Chavela Vargas

sábado, 11 de outubro de 2008

Onde anda a minha saudade


"(...)

Meu coração, inundado
Pela luz do teu olhar,
Dorme quieto como um lírio,
Banhado pelo luar.

(...)

Eu sei que me tens amor,
Bem o leio no teu olhar,
O amor quando é sentido
Não se pode disfarçar.

Os olhos são indiscretos;
Revelam tudo que sentem,
Podem mentir os teus lábios,
Os olhos, esses, não mentem.

Bendita seja a desgraça,
Bendita a fatalidade,
Bendito sejam teus olhos
Onde anda a minha saudade.

Não há amor neste mundo
Como o que eu sinto por ti,
Que me ofertou a desgraça
No momento em que te vi.

O teu grande amor por mim,
Durou, no teu coração,
O espaço duma manhã,
Como a rosa da canção.

(...)

Dizem-me que te não queira
Que tens, nos olhos, traição.
Ai, ensinem-me a maneira
De dar leis ao coração!

Tanto ódio e tanto amor
Na minha alma contenho;
Mas o ódio inda é maior
Que o doido amor que te tenho.

Odeio teu doce sorriso,
Odeio teu lindo olhar,
E ainda mais a minh'alma
Por tanto e tanto te amar!

Quando o teu olhar infindo
Poisa no meu, quase a medo,
Temo que alguém advinhe
O nosso casto segredo.

Logo minh'alma descansa;
Por saber que nunca alguém
Pode imaginar o fogo
Que o teu frio olhar contém.

Quem na vida tem amores
Não pode viver contente,
É sempre triste o olhar
Daquele que muito sente.

Adivinhar o mistério
Da tua alma quem me dera!
Tens nos olhos o outono,
Nos lábios a primavera...

Enquanto teus lábios cantam
Canções feitas de luar,
Soluça cheio de mágua
O teu misterioso olhar...

Com tanta contradição,
O que é que a tua alma sente?
És alegre como a aurora,
E triste como um poente...

Desabafa no meu peito
Essa amargura tão louca,
Que é tortura nos teus olhos
E riso na tua boca!

(...)"

Florbela Espanca

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Que a saudade não desvanece…


"Tudo o que se sobressai da utopia que advogo
Não é mais do que um substrato do tempo que vivi,
Como a lágrima vertida na atmosfera onde vogo
Não é mais do que um piano pungente que tange por ti…

E as mãos que, na solidão, se intimidam,
Que se desertificam aquando o tempo evanesce
Não são mais do que as palavras nunca antes ditas
E veladas num âmago isolado que entorpece…

Por isso, vem… que a saudade não desvanece…
Vem… que o tempo permanece…
E prende-me em ti…

Tudo o que se ocultava no silêncio temível
Não era mais do que a soturna certeza
Que teimava em calcular pela matemática falível
Nos teoremas esotéricos da imensurável natureza.

E se, novamente, me vires assim, imerso no pensamento,
Pensa que emergi do livro do cepticismo filosófico
Escrito pelas mãos da poesia na candura do tempo
E do exagero desenfreado de um amor platónico.

Por isso, vem… que a saudade não desvanece…
Vem… que o tempo permanece…
E prende-me em ti…"

João Garcia Barreto

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Longos poentes


"Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta."

Sophia de Mello Breyner Andresen
(Para o Tiago. Nunca te esqueceremos.)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Paz


Conheço a Raquel há cerca de 10 anos. Desde que nos conhecemos que somos amigos. Partilhamos valores, crenças, risos, lágrimas, preocupações e alegrias. Não estamos juntos tantas vezes quantas gostaríamos (e menos ainda agora que a Raquel está em Bruxelas). Nutro pela família da Raquel uma enorme simpatia, um carinho imenso pela forma como sempre me fizeram sentir um deles. Acabei de saber há minutos que morreu o Tiago, casado com a Fau, irmã da Raquel.
O Tiago estava doente há algum tempo, com uma leucemia, mas ainda há quinze dias, num casamento em Coimbra, diziam-me que tinham encontrado um dador compatível e que só estavam à espera que o Tiago ficasse mais forte para fazer um transplante de medula. Infelizmente parece ter sido tarde de mais. O Tiago morreu esta noite.
Conheci o Tiago numa das muitas festas a que fui em casa dos pais da Raquel. Era um pouco mais novo que eu mas tinha uma energia contagiante, um sorriso aberto e luminoso e um sentido de humor único. Sinto muito a perda daquela família, tanto mais que o Tiago estava casado há muito pouco tempo e tinha sido pai recentemente.
Às vezes, por maior que seja a nossa fé, é muito complicado compreender os desígnios de Deus. Neste momento de dor e de perda, só me resta o silêncio e a oração. O sorriso do Tiago ficará sempre na minha memória como prova da sua luz e da sua alegria.
Meus queridos amigos, estou longe mas estou convosco em oração. Coragem.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Todo o espaço para amar

"O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois

a imaginar, a imaginar?..

O meu peito contra o teu peito,

cortando o mar, cortando o ar.

Num leito
há todo o espaço para amar!


Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,

e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!"



Alexandre O´Neill

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Que baste


Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 5 de outubro de 2008

Qualquer coisa antes que durma...


"Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...
Vai tudo dormir...
Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! — Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dói-me...
Vai tudo dormir...
Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa."
Álvaro de Campos

sábado, 4 de outubro de 2008

Se te recuso ou desejo

"Ai esta ausência de mim / Esta lenta nostalgia
Ai esta noite sem fim / Na nossa cama tão fria
Ai este já não saber / Se te recuso ou desejo
Ai este não entender / Porque me negas um beijo
Meu amor, amor que eu quero
Meu desespero sem fim
Meu amor, amor sincero
Anda morar no meu corpo
Vem morar dentro de mim
Ai este riso algemado / Como se fosse um queixume
Ai este corpo gelado / Sem o teu corpo de lume
Ai esta boca sedenta / A limitar-me os espaços
Ai esta fome violenta / De te prender nos meus braços"

Fernando Campos de Castro

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Amores improváveis


"Que estranho destino é o meu que apenas me consente paixões ardentes e me faz esgotar em amores improváveis."


José Manuel Saraiva, in 'Aos Olhos de Deus'
(nos pacotes de açucar)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Ao som da água


"Quantos em ti lagos e rios
Quantos em ti os oceanos
Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos
É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando
E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos"

David Mourão Ferreira

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

À míngua dos teus dedos


"Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres."


Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Et si c'est pas une vie de te suivre et bien ce s'ra c' que ce s'ra



"On a parcouru le chemin De tes rêves à mes rêves
Tes doigts à mes seins De ta bouche à mes lèvres
De la guerre à la trêve Combien d' fois, mon amour
Combien d'aller-retour Entre la haine et l'amour
Chaque fois, la route et ses chaos Et ses roches et ses trous
M'arrachaient à ta peau Me rej'taient sur tes g'noux
Me tatouaient sur ta joue Combien de grands voyages
Pour autant de naufrages Sur ce même rivage
Jusqu'au jour où j'ai dit: "Va t'en ! J'ai plus rien à blesser
Qui soit vierge de coups J' suis fatiguée des kilomètres
Qu'on franchit pour être À un plus mauvais bout"
J'ai dit: "Prends ta voiture de fortune Et roule tant qu' tu voudras
Va t'en donc promettre ta lune À une autre que moi"
J' croyais pas qu' t'allais m'obéir À la lettre comme ça
J' t'ai regardé partir En mourant tout bas
Sur la véranda Brisée à des endroits Que j' me connaissais pas
Entre mon coeur et tes bras Les étoiles qu' j'avais dans l' regard
Et qui semblaient te plaire Sont venues s'échouer
Comme des étoiles de mer Sur l'estran désert
Le coeur comme un souv'nir Le corps comme un grenier
J'ai eu peur d' m'écrouler Je sais pas d' quelle manière
Comme poussée par le vent J' me suis mise à poursuivre, en courant
Le nuage de poussière Qu' ta voiture de misère
Faisait tourbillonner en filant Puis j'ai crié: "Attends-moi j'arrive !
Je peux pas vivre sans toi Et si c'est pas une vie de te suivre
Et bien ce s'ra c' que ce s'ra T'as encore, dans les mains
La petite cuillère Qui m' ramassait si bien
Quand j' m'écrasais par terre T'as encore, dans les mains
La petite caresse Qui m' ferait, comme un chien Haleter d'allégresse"
Mais, bien sûr, t'as rien entendu Et ton nuage et toi
Vous avez disparu Et je suis restée là Comme un cheval de bois
Qui ne berce plus personne Et que l'on abandonne Que l'on met au rebus
Un jour que j' me croyais mieux Que j'allais au village
Et que c'était pluvieux À deux nuages d'un orage
À faire taire les oiseaux À deux pas du resto
Et à trois du garage À deux doigts d'oublier
Perdue dans mon imperméable Et dans quelques pensées
Comme: "C'est drôle dans le sable Toutes ces traces de souliers"
Comme: "J' sais pas c' que j' vais foutre De ma longue soirée"
Juste à coté de moi Ce parfum agréable Ces cheveux familiers
C'était... c'était toi
Et l'orage éclata En même temps que le morceau de chair
Qui me servait de coeur Et le vent se leva En même temps qu'un éclair
Nous fìt tous les deux trembler de peur
J'ai dit: "Si tu viens pour les étoiles Elles sont tombées dans la boue
Si t'es là pour me voir, j' te signale Qu' y'a plus rien à voir du tout"
T'as dis: "J'ai parcouru Les chemins de mes rêves
À des rêves qui n'étaient pas les tiens
J' voulais juste que tu saches, mon amour
Que ces foutus parcours Ont toujours été vains"
Alors j'ai dit: "Puisque t'es là Viens donc prendre un café
Si tu veux, tu jett'ras Quelques bûches au foyer
Ça nous réchauffera Le temps que l'orage passe
Et que le feu s'embrase Comme autrefois !"
Et c'est là qu' t'as baissé les yeux Que t'as dit:
"J' pourrai pas Car, tu vois, y a un voeu Que j'ai fait là-bas
Elle te ressemble un peu Celle à qui j'ai dit: "Oui"
Ce petit "Oui" précieux Que je n' t'ai jamais dit"
T'as ajouté qu'aussi Elle prend bien soin du p'tit
Et qu' t'es déjà trop vieux, aujourd'hui Pour réparer l'erreur
La pire de ta vie Qui est celle d'être parti d'ici
Tu t'es mis à g'noux dans la vase Pour me d'mander pardon
Le tonnerre m'a volé ta phrase Et tu t'es levé d'un bond
Et t'es parti, l'air malheureux Le pantalon tout sale
Et, au coin de mes yeux Y'avait comme... des étoiles"


Lynda Lemay

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tudo o que é vida e vibra eternamente


"És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!

És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...

Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!

Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A Terra? - Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!"
Florbela Espanca
(Para os meus tios Zé e Rosinda que fizeram ontem 50 anos de casados. Pela inspiração, pelo carinho, pela presença. Obrigado.)

domingo, 28 de setembro de 2008

Numa manhã sem nuvens


... E eu queria isso tudo mas quero mais ainda porque o quero contigo ao meu lado. E queria adormecer contigo nos meus braços e acordar com o brilho dos teus olhos e o calor do teu sorriso. E era só isso que queria entre raios de sol e lençóis amarrotados. E amava-te assim, numa manhã sem nuvens, descobrindo o teu corpo a pouco e pouco e gozando cada minuto dessa entrega única. E era assim que te queria... É assim que te quero.

sábado, 27 de setembro de 2008

«Tu és um grande amigo»


“Não se pode ter muitos amigos e mesmo os poucos amigos que se tem, não se podem ter tanto como nos apetecia. Para não passar mal, aprende-se a economia da amizade, ciência um bocado triste e um bocado simples que consiste em ampliar os gestos e os momentos de comunidade para compensar os grandes desertos de silêncio e de separação que são normais. Como por exempo? Como, por exemplo, abrir mesmo os braços e dar mesmo um abraço. Dizer mesmo na cara de alguém «Tu és um grande amigo» e ser mesmo verdade. Acho que não é de aproveitar todos os momentos como se fossem os únicos, porque isso seria uma forma de paixão, mas antes estarmos com os amigos, nos poucos momentos que se têm, como se nunca nos tivéssemos separado.
A amizade é uma condição que nunca pode ser excepcional. Tem de ser habitual e eterna e previsível. E a economia dela nota-se mais quando reparamos que, sempre que não estamos com os nossos amigos, estamos sempre a falar deles. É bom dizer bem de um amigo, sem que ele venha a saber que dissemos. E ter a certeza que ele faz o mesmo, pensando que nós não sabemos.
A amizade vale mais que a razão, o senso comum, o espírito crítico e tudo o mais que tantas vezes justifica a conversação, o convívio e a traição. A amizade tem de ser uma coisa à parte, onde a razão não conta. Ter um amigo é como ter uma certeza. Num mundo onde certezas, como é óbvio, não há.”

Miguel Esteves Cardoso, inOs Amigos e os Amigalhaços
Para o Manel e a Joana, que hoje se casam. Porque foste tu que me mostraste este texto, Manel, e porque ser teu padrinho de casamento é uma enorme honra.
«Tu és um grande amigo»

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Aconteceu diferente das histórias

"Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor"

Adriana Calcanhoto por Cristina Branco, in 'Corpo Iluminado'

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

a terra e orgulho por ter enlouquecido


"estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento"

Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Cause all I need is five minutes of everything


"Give me please five minutes of everything
Those days when you wake up
And there's no one by your side
My arm slides slowly to my left side
And to my right side, there's no one there
To kiss you or to hear you
And you go out of bed
Thinking in those days that you need
You used to talk and talk about
And everything that stops your attention
You used to talk, talk about
Everything
Those days when you walk at the bar
And try to keep a conversation with somebody else
And no one out there you could sit down or walk
There's no one there.
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Five minutes of passion
And no one knows the right place to go
No meaning or just self-control maybe
And you walk out of there
You need to talk with somebody else
And to know the problems are waiting for
Outside the door
Are waiting for
The clock won't stop
And even if it stops
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Of passion
Five minutes of everything
Of everything
Maybe you want to talk about old questions
Right next to my ear
But I don't care about those silly things
Cause all I need is five minutes of everything"

The Gift

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Não ter laços nem limites


"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!"

Sophia de Mello Breyner Anderson
(pudesses tu...)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Amo-a porque a odeio


"Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
(...)
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la."

Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

domingo, 21 de setembro de 2008

Yo no se si tu ausencia me mate


"Ojala, que te vaya bonito

Ojala, que se acaben tus penas
Que te digan que yo ya no existo
Que conoscas personas mas buenas
Que te den lo que no pude darte
Aunque yo te haya dado de todo
Nunca mas volvere a molestarte
Te adore, te perdi ya mi modo
Cuantas cosas quedaron prendidas,
hasta dentro del fondo de mi alma
Cuantas luces dejaste encendidas
Yo no se como voy a apagarlas
Ojala que mi amor no te duela
Y te olvides de mi para siempre
Que se llenen de sangre tus venas
Y conoscas una vida de suerte
Yo no se si tu ausencia me mate
Aunque tengo mi pecho de acero
Pero nadie me llame cobarde
Sin saber hasta donde te quiero
Cuantas cosas quedaron prendidas,
hasta dentro del fondo de mi alma
Cuantas luces dejaste encendidas
Yo no se como voy a apagarlas
Ojala........ que te vaya...... bonito...... "

Jose Alberto Jimenez por Chavela Vargas, in 'Macorina'

sábado, 20 de setembro de 2008

Contingentes e efémeros


"Despedir-se é negar a separação, é dizer: Hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingentes e efémeros."


Jorge Luis Borges, in 'O Fazedor'
(para o meu querido amigo Mário que parte hoje para Pequim por alguns anos. Vais fazer falta por aqui!)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

It stops


(A propósito de "Love Streams", de John Cassavetes)

"Afinal era num tribunal. Ao saber que a filha fica "confiada" ao pai, Gena Rowlands colapsa sem qualquer colapso. Deita-se apenas no chão. Pura impotência. Mais adiante (...) Rowlands está no psiquiatra (...) e ambos fumam (...). Rowlands explica que o amor é uma corrente ("love streams") e, como tal, é contínuo. Não pára. Tudo o que lhe acontece - a família esfarelada, a vida absurda - resulta de essa corrente poder ser interrompida, o que ela recusa. Aí entra o psiquiatra. Diz-lhe que, contrariamente ao que ela pensa, o amor pára ("it stops"). E pára mesmo. Se calhar, o papel do psiquiatra é precisamente o de nos dizer que o amor pára. Ele é necessário porque não existe qualquer corrente de amor em regime de continuidade. É ele que devolve "realismo" ao absurdo gerado pela não compreensão do fim da corrente. Talvez o essencial se resuma, afinal, ao meu querer que haja uma corrente infinita e ela não estar lá. Nunca. Daí o álcool, os comprimidos, os amantes furtivos. Deus? A Duras tinha uma "fórmula" cruel para dizer isto. O álcool tomou o papel de Deus. Substituiu-O. Será verdade? (...)"

João Gonçalves, in 'Portugal dos Pequeninos'

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Da falta que tu me fazes



"Disse-te adeus não me lembro
Em que dia de Setembro
Só sei que era madrugada
A rua estava deserta
E até a lua discreta
Fingiu que não deu por nada

Sorrimos à despedida
Como quem sabe que a vida
É nome que a morte tem
Nunca mais nos encontrámos
E nunca mais perguntámos
Um p'lo outro a ninguém

Que memória ou que saudade
Contará toda a verdade
Do que não fomos capazes
Por saudade ou por memória
Eu só sei contar a história
Da falta que tu me fazes"

Manuela de Freitas por Carmo Rebelo de Andrade
(fizeste falta ao meu lado hoje... Há distâncias que são demasiado grandes...)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mas cada vez há mais vento



"Escrevi teu nome no vento,
convencido que o escrevia
na folha do esquecimento
que no vento se perdia.

Ao vê-lo seguir envolto
na poeira do caminho,
julguei meu coração solto
dos elos do teu carinho.

Pobre de mim não pensava
que tal e qual como eu,
o vento se apaixonava
por esse nome que é teu.

Mas quando o vento se agita,
agita-se o meu tormento,
quero esquecer-te, acredita,
mas cada vez há mais vento."

Fernando Maurício por Carmo Rebelo de Andrade
(Julguei meu coração solto...)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

À mesa do café


"O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo."

José Tolentino Mendonça
(Porque hoje, no Jardim do Principe Real, estes versos fizeram ainda mais sentido...)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Um extravio morno da minha consciência


"Eu quero um colo, um berço, um
braço quente em torno ao meu pescoço
E uma voz que cante baixo e pareça querer fazer-me chorar
Eu quero um calor no inverno
Um extravio morno da minha consciência
E depois sem som
Um sonho calmo
Um espaço enorme
Como a lua rodando entre as estrelas "

Fernando Pessoa

(Porque às vezes, querer ouvir é diferente de precisar de ouvir...)

domingo, 14 de setembro de 2008

Pelo olhar que demora

"Diz-me agora o teu nome se já dissemos que sim
pelo olhar que demora porque me olhas assim
porque me rondas assim
toda a luz da avenida se desdobra em paixão
magias de druida p’lo teu toque de mão
soam ventos amenos p’los mares morenos
do meu coração
espelhando as vitrinas da cidade sem fim
tu surgiste divina porque me abeiras assim
porque me tocas assim
e trocámos pendentes, velhas palavras tontas
com sotaque diferentes, nossa prosa está pronta
dobrando esquinas e gretas, p’lo caminho das letras
que tudo o resto não conta
e lá fomos audazes, por passeios tardios
vadiando o asfalto, cruzando outras pontes
de mares que são rios
e num bar fora de horas se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa
dizes-me então que sou teu, que tu és toda p’ra mim
que me pões no apogeu, porque me abraças assim
porque me beijas assim
por esta noite adiante, se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim
à luz vã dos faróis, são de seda os lençóis
porque me amas assim


Fausto por Cristina Branco, in 'Ulisses'

sábado, 13 de setembro de 2008

O desejo entregue a nós

"Talvez por não saber falar de cor, Imaginei
Talvez por não saber o que será melhor, Aproximei
Meu corpo é o teu corpo o desejo entregue a nós
Sei lá eu o que queres dizer, Despedir-me de ti
Adeus um dia voltarei a ser feliz

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei, o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender

Talvez por não saber falar de cor, Imaginei
Triste é o virar de costas, o último adeus
Sabe Deus o que quero dizer

Obrigado por saberes cuidar de mim,
Tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou,
e se ao menos tudo fosse igual a ti

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender

É o amor, que chega ao fim, um final assim,
assim é mais fácil de entender"


The Gift, in 'AM/FM'

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Even though I was alone


"I... I used to make long speeches to you after you left.
I used to talk to you all the time, even though I was alone.
I walked around for months talking to you.
Now I don't know what to say. It was easier when I just imagined you. I even imagined you talking back to me. We'd have long conversations, the two of us. lt was almost like you were there. I could hear you, I could see you, smell you. I could hear your voice. Sometimes your voice would wake me up. It would wake me up in the middle of the night, just like you were in the room with me. Then... it slowly faded. I couldn't picture you anymore. I tried to talk out loud to you like I used to, but there was nothing there. I couldn't hear you. Then... I just gave it up. Everything stopped. You just... disappeared. And now I'm working here. I hear your voice all the time. Every man has your voice."


Jane (Natassja Kinski) no filme 'Paris-Texas', de Wim Wenders
(para M. pela surpresa da descoberta. Pelas possibilidades. Pelo começar do zero)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A eternidade em que se vive


"(...) Como poderia eu ter imaginação para te reconstituir na sólida delicadeza da tua fragilidade? (...) O amor e a morte inserem-se um no outro, deves saber. Mas eu sobrevivi e isso é uma condenação. Penso-te e o teu esplendor renasce-me no meu pensar e a minha idade retrai-se quando me apareces. E a eternidade em que se vive, mesmo se a velhice é real, restabelece-me igual a ti que nunca envelheceste. E não me perguntes porque te escrevo se tudo é em vão. Mas há o meu desejo de te fixar na palavra escrita que te diz, para ficares aí com o milagre que puder. É Primavera e tudo é nítido no seu ser real. (...)"

Vergílio Ferreira, in 'Para Sempre'

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A natureza da tua vida


"Reconheço a tua mão nesse abandono
visível não sei se pela escuridão
ou pela luz
quase sinto a natureza da tua vida
nesta mão
elegante, íntima, delicada
os dedos em inclinação muito leve
nem chega a ser um gesto

tanto se parece a uma despedida"


José Tolentino Mendonça

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tornar em sonhos, rever-te


"Um dia, quando isso for
Deixar o teu corpo em flor
E se aproximar do fim
Queria partir, sem te ver
Sentir o mundo morrer
Lá longe, dentro de mim
Depois, em vez de esquecer-te
Tornar em sonhos, rever-te
Lá longe, na solidão
De ver-te sozinho assim
Ver-te só dentro de mim
Dentro do meu coração
É que não posso partir
Sem me partir dos teus olhos
Antes do adeus derradeiro
É que partir sem te ver
É duas vezes morrer
De alma e de corpo inteiro"

António Calém por Katia Guerreiro, in 'Tudo ou Nada'
(para M., que está longe)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!


"Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas,

E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...

E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,

Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!"

José Régio

domingo, 7 de setembro de 2008

Na face incompleta do amor


"Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser."
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I, 1944

sábado, 6 de setembro de 2008

Trazendo a saudade

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade"

Jorge Fernando por Mariza

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Realmente livre


"Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre"

Fernando Pessoa

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Todo o amor que nos prendera




"Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia.
Ai funesta primavera,
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia.
E condenaram-me a tanto,
Viver comigo o meu pranto,
Viver, e viver sem ti,
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi.
Pão duro da solidão
somente o que nos dão a comer.
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver.
Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera,
Em pavor se convertia.
Ninguém fale em primavera,
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia."

David Mourão-Ferreira por Amália Rodrigues

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Na tristeza do momento


"(...)
E as palavras que eu invento
Na tristeza do momento
de te ver partir agora
são palavras, são carinhos
são os restos dos espinhos
do nosso amor que demora
E a cidade entristecida
dorme à noite recolhida
porque a lembrança sorri
Como quem espera em ternura
que um dia à nossa procura
possas voltar sempre aqui"

(Não me lembro do nome do autor. Assim que souber ponho aqui.)
Para M. Que o teu regresso seja em breve. Vou sentir a tua falta!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Para atravessar contigo


"Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento"

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Io sono in pace



Chorus: E pensando di lei
Mi sopragiunse uno soave sonno

Ego dominus tuus
Vide cor tuum
E d'esto core ardendo
Cor tuum
(Chorus: Lei paventosa)
Umilmente pascea.
Appreso gir lo ne vedea piangendo.

La letizia si convertia
In amarissimo pianto

Io sono in pace
Cor meum
Io sono in pace
Vide cor meum



Chorus: And thinking of her
Sweet sleep overcame me

I am your master
See your heart
And of this burning heart
Your heart
(Chorus: She trembling)
Humbly eats.
Weeping, I saw him then depart from me.

Joy is converted
To bitterest tears

I am in peace
My heart
I am in peace
See my heart


Vide Cor Meum é uma música composta por Patrick Cassidy, com letra baseada na obra "La Vita Nuova" de Dante, especificamente no soneto "A ciascun'alma presa" (cap. 3). A música foi produzida por Patrick Cassidy e Hans Zimmer e interpretada pela Libera / Lyndhurst Orchestrathe, dirigida por Gavin Greenaway. Os cantores são Danielle de Niese e Bruno Lazzaretti.

(Para ti, que voltaste depois de tanto silêncio.)

domingo, 31 de agosto de 2008

Esse país de mar, de ilhas, de sol, de azul...


Às vezes penso que não é verdade. Às vezes penso que a falta que me fazes não dói assim tanto. Mas depois fico sem ar e percebo que a tua ausência se torna difícil de ultrapassar. Por ser tão real, tão corpórea. Quero-te. Porque te amo. Não sei. Ou talvez porque não te amo mas porque me fazes falta. O teu corpo. O teu cheiro. O teu toque. O teu olhar. (Ah, esses olhos azuis.) É sentir-te longe e querer acreditar que estás perto de mim. Uma proximidade que se torna real no amor que quero fingir que não sinto... Quero partir contigo para esse país de mar, de ilhas, de sol, de azul... Do azul dos teus olhos.

sábado, 30 de agosto de 2008

Minha dor e meu caminho


Perdi-me no teu olhar
Cor de mar, azul profundo
Deixei tudo para te amar
Fiz do teu o nosso mundo.

Meu amor, minha gaivota,
minha dor e meu caminho
Enlouqueço por te não ter
Já não sei viver sozinho

Ouço o Fado dos teus olhos
Que me negam o teu amor
Calo o lamento em meu peito
E morro de tanta dor.

Foi no azul dos teus olhos
Que perdi o meu sossego
E choro no escuro da noite,
Porque te amo em segredo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Que foi para sempre abandonado

"Que eu pudesse, enfim, dizer o que trago dentro de mim.
Gritar: gente, mentia-vos
Ao dizer que não tenho ISTO em mim,
Quando ISTO permanece cá de dia e de noite.
Embora, justamente graças a ISTO
Soube descrever as vossas cidades inflamáveis,
Os vossos breves amores e jogos desfazendo-se em pó,
Brincos, espelhos, uma alça que caía,
Cenas em quartos e em campos após a batalha.

A escrita era para mim estratégia de camuflagem,
De apagar vestígios. Porque não se gosta daqueles
Que aspiram o proibido.
Socorro-me dos rios nos quais nadava, dos lagos
Com uma passagem entre os juncais, do vale,
Onde o eco da cantiga é secundado pela luz do ocaso,
E confesso que os meus elogios extáticos da existência
Poderiam ser meros exercícios de estilo elevado,
Mas por baixo estava ISTO que não sou capaz de nomear.

ISTO é comparável aos pensamentos do desabrigado
Quando vai pela cidade gélida e estranha.

E ao instante em que o judeu acossado vê aproximarem-se
Os pesados capacetes dos gendarmes alemães.

ISTO revela-se também quando um príncipe vai à cidade
E vê o mundo real: a miséria, a doença, a velhice e a morte.

ISTO está igualmente no rosto petrificado de quem
Descobriu que foi para sempre abandonado.

E nas palavras do médico sobre a sentença sem recurso.

Porque ISTO significa o esbarrar contra o muro,
Sabendo que ele não cederá a quaisquer implorações nossas."



MIŁOSZ, Czesław, in 'Alguns Gostam de Poesia (antologia)'