terça-feira, 11 de março de 2014

Por dentro das paredes


'Senhor, liberta-me de mim mesmo' 

para que eu possa esconder-me dentro 
delas. Dentro dela há pouco espaço, 
ela só me tem amor. Compra-me cigarros, cozinha-me refeições, expõe-me 
como refugiado aos efeitos benéficos do álcool – e aguarda.
Aguarda que lhe devolva amor.

Por isso, Senhor, peço: 'liberta-me 
de mim mesmo' para que eu possa esconder-me 
dentro delas, das paredes. 
Dois metros e vinte por outros tantos ou mais é espaço suficiente 
para que possa esconder-me e servir-Te como mereces: 
erguer-Te uma capela, pintar-Te um fresco, ser genial para Ti, Senhor,
liberto de mim mesmo 
por dentro das paredes 
do útero dela.

Inês Fonseca Santos, in 'A Habitação de Jonas'

segunda-feira, 10 de março de 2014

Como quem espera ser aguardado.



Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos obre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

Maria do Rosário Pedreira, in 'Nenhum nome depois'

sexta-feira, 7 de março de 2014

De casas em silêncio.


A minha tristeza é feita de dia-a-dia e de repetições, 
de ausência.
A minha tristeza é feita de dias cinzentos e de vendavais, 
de noites sem lua.
A minha tristeza é feita de reencontros e de separações, 
de promessas adiadas.
A minha tristeza é feita de canções e de poemas, 
de cinema mudo.
A minha tristeza é feita de despertares contrariados e de camas vazias, 
de casas em silêncio. 
A minha tristeza é feita de cansaços e de lágrimas, 
de palavras por dizer. 
A minha tristeza é um dia a seguir ao outro a seguir ao outro a seguir ao outro.
A minha tristeza é um Deus calado e sem respostas.

A minha tristeza é uma morte lenta.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Todos os meus mortos



Hoje convoco todos os meus mortos.
Hoje quero os seus sorrisos.
Quero as suas mãos no meu cabelo. Quero os seus gestos contidos. Quero os seus olhares perdidos. Quero choros e gemidos.
Quero sobretudo vê-los.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Em cada despedida



Fito a morte com a mesma tranquilidade com que vejo um pôr do sol.
Há nas suas repetições a confirmação de uma sentença.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Junto ao mar


Eu queria morrer nos teus olhos.
Queria ter como mortalha os entardeceres que passámos junto ao mar
Que a marcha fúnebre fosse a tua gargalhada
E que de mim dissessem apenas: morreu de amor.


para M.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Com morte te paguei o teu amor.


"Infante : […] Como poderei ver aqueles olhos
cerrados pera sempre? Como aqueles
cabelos já não de ouro, mas de sangue?
Aquelas mãos tão frias, e tão negras,
que antes via tão alvas, e fermosas?
Aqueles brancos peitos trespassados
de golpes tão cruéis? Aquele corpo,
que tantas vezes tive nos meus braços
vivo, e fermoso, como morto agora,
e frio o posso ver? Ai como aqueles
penhores seus tão sós? Ó pai cruel,
tu não me vias neles? Meu amor,
já me não ouves? Já não te hei-de ver?
Já te não posso achar em toda a terra?
Chorem meu mal comigo quantos me ouvem,
chorem as pedras duras, pois nos homens
s’achou tanta crueza. E tu, Coimbra,
cubre-te de tristeza pera sempre.
Não se ria em ti nunca, nem se ouça
senão prantos, e lágrimas: em sangue
se converta aquela água do Mondego.
As árvores se sequem, e as flores.
Ajudem-me pedir aos céus justiça
deste meu mal tamanho.
Eu te matei, senhora, eu te matei.
Com morte te paguei o teu amor.
Mas eu me matarei mais cruelmente
do que te a ti mataram, se não vingo
com novas crueldades tua morte.
Para isto me dá, Deus, somente vida.
Abra eu com minhas mãos aqueles peitos.
Arranque deles uns corações feros,
que tal crueza ousaram: então acabe.
Eu te perseguirei, Rei meu imigo.
Lavrará muito cedo bravo fogo
nos teus, na tua terra; destruídos
verão os teus amigos, outros mortos,
de cujo sangue s’encherão os campos,
de cujo sangue correrão os rios,
em vingança daquele. Ou tu me mata,
ou fuge da minh’ira, que já agora
te não conhecerá por pai. Imigo
me chamo teu, imigo teu me chama.
Não m’és pai, não sou filho, imigo sou.
Tu, senhora, estás lá nos céus; eu fico
enquanto te vingar; logo lá voo.
Tu serás cá rainha, como foras.
Teus filhos, só por teus serão infantes.
Teu inocente corpo será posto
em estado real; o teu amor
m’acompanhará sempre, té que deixe
o meu corpo c’o teu, e lá vá est’alma
descansar com a tua pera sempre."


António Ferreira, in "Castro"

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De volta à Índia...


Mais uma vez, parto hoje para a Índia. Regresso a essa Pátria que, não sendo a minha, me faz sentir tão próximo de mim. Desta vez o Norte. Kashmir, o Tibete Indiano, as terras do chá, o Butão!
Durante as próximas semanas vou passar por Delhi, Rishikesh, Chandigarh, Amritsar, Jammu, Srinagar, Gulmarg, Kargil, Leh, Bagdogra, Darjeeling, Phuntsoling, Thimpu, Paro, e finalmente Delhi, de novo, para regressar a Lisboa.
É sempre uma emoção voltar. É sempre uma alegria voltar a ver os amigos: Prashant e Mukul! Até já!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

À espera do seu tempo e do seu precipício



"Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte
violar-nos
tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas
portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar"

Mário Cesariny

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Esse futuro



Outros entardeceres haverá em que os nossos olhos se encontrarão para mais uma despedida.
E num novo adeus, brindaremos em silêncio a esse velho futuro que perdemos.

sábado, 8 de maio de 2010

A certeza de ficar sem ti


"Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança..."

David Mourão Ferreira

domingo, 2 de maio de 2010

O menino que adormeceu nos teus olhos


"No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas..."

Eugénio de Andrade, para a minha mãe no Dia da Mãe

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Inventários e detalhes


"Deus não aparece no poema
apenas escutamos a sua voz de cinza
e assistimos sem compreender
a escuras perícias

A vida reclama inventários e detalhes
não a oiças
quando inutilmente perscruta as sequências
do seu trânsito

Só há um modo verdadeiro de rezar:
estende o teu corpo ao longo do barco
que desce silencioso o canal
e deixa que as folhas mortas dos bosques
te cubram"

José Tolentino Mendonça
(no dia em que este blog completa 4 anos)

domingo, 4 de abril de 2010

Este amor sem tamanho


Quem és tu, de xaile negro
que ouço na rua a cantar?
Como sabes do degredo
que é este sofrer por amar?

Que lágrimas são essas que caem
Quando apertas o xaile no peito?
Sentes ainda o calor
Do nosso abraço desfeito?

Que fado é esse que cantas
com tanta amargura na voz?
Falas de tristezas tantas
Parece que falas de nós...

Que palavras são essas que choras
Que promessas, que solidão
Que olhar é esse perdido
No meio da escuridão?

Que amargura é essa que escondes?
Que olhos tristes os teus…
Lembras os dias felizes
Ou choras o ultimo adeus?

Que vida é esta que tenho,
que dor e que prisão,
é este amor sem tamanho
que trago no coração?

sexta-feira, 26 de março de 2010

No cimo das coisas


"nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso

nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco."

Filipa Leal

quarta-feira, 24 de março de 2010

Morrer tudo com a tua morte



"(...) O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido. O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu. Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre. Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma. Tudo isto tem significado para o teu presente. Mas recua duzentos anos e verás que nada disto tem já significado. "
Vergílio Ferreira, in 'Escrever'
(porque hoje acordei com pensamentos menos felizes)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Para que não se extinga o seu lume


"Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua."

Eugénio de Andrade

sábado, 6 de março de 2010

O teu sorriso



O que espero da vida?
O teu sorriso ao acordar.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Bruma e incerteza


Na escuridão dos teus olhos repousa esse passado que perdemos.
Observas o fogo em silêncio e sentes o futuro feito em cinzas.
Longe estão, já, os dias de luminosas gargalhadas.
Resta apenas este presente de bruma e incerteza.
É tempo de partir - dizes - e apagas a luz para que não te veja chorar.

para a Joana A.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O que tive da vida


"Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci."

Maria do Rosário Pedreira