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sexta-feira, 7 de março de 2014

De casas em silêncio.


A minha tristeza é feita de dia-a-dia e de repetições, 
de ausência.
A minha tristeza é feita de dias cinzentos e de vendavais, 
de noites sem lua.
A minha tristeza é feita de reencontros e de separações, 
de promessas adiadas.
A minha tristeza é feita de canções e de poemas, 
de cinema mudo.
A minha tristeza é feita de despertares contrariados e de camas vazias, 
de casas em silêncio. 
A minha tristeza é feita de cansaços e de lágrimas, 
de palavras por dizer. 
A minha tristeza é um dia a seguir ao outro a seguir ao outro a seguir ao outro.
A minha tristeza é um Deus calado e sem respostas.

A minha tristeza é uma morte lenta.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Todos os meus mortos



Hoje convoco todos os meus mortos.
Hoje quero os seus sorrisos.
Quero as suas mãos no meu cabelo. Quero os seus gestos contidos. Quero os seus olhares perdidos. Quero choros e gemidos.
Quero sobretudo vê-los.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Em cada despedida



Fito a morte com a mesma tranquilidade com que vejo um pôr do sol.
Há nas suas repetições a confirmação de uma sentença.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Junto ao mar


Eu queria morrer nos teus olhos.
Queria ter como mortalha os entardeceres que passámos junto ao mar
Que a marcha fúnebre fosse a tua gargalhada
E que de mim dissessem apenas: morreu de amor.


para M.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De volta à Índia...


Mais uma vez, parto hoje para a Índia. Regresso a essa Pátria que, não sendo a minha, me faz sentir tão próximo de mim. Desta vez o Norte. Kashmir, o Tibete Indiano, as terras do chá, o Butão!
Durante as próximas semanas vou passar por Delhi, Rishikesh, Chandigarh, Amritsar, Jammu, Srinagar, Gulmarg, Kargil, Leh, Bagdogra, Darjeeling, Phuntsoling, Thimpu, Paro, e finalmente Delhi, de novo, para regressar a Lisboa.
É sempre uma emoção voltar. É sempre uma alegria voltar a ver os amigos: Prashant e Mukul! Até já!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Esse futuro



Outros entardeceres haverá em que os nossos olhos se encontrarão para mais uma despedida.
E num novo adeus, brindaremos em silêncio a esse velho futuro que perdemos.

domingo, 4 de abril de 2010

Este amor sem tamanho


Quem és tu, de xaile negro
que ouço na rua a cantar?
Como sabes do degredo
que é este sofrer por amar?

Que lágrimas são essas que caem
Quando apertas o xaile no peito?
Sentes ainda o calor
Do nosso abraço desfeito?

Que fado é esse que cantas
com tanta amargura na voz?
Falas de tristezas tantas
Parece que falas de nós...

Que palavras são essas que choras
Que promessas, que solidão
Que olhar é esse perdido
No meio da escuridão?

Que amargura é essa que escondes?
Que olhos tristes os teus…
Lembras os dias felizes
Ou choras o ultimo adeus?

Que vida é esta que tenho,
que dor e que prisão,
é este amor sem tamanho
que trago no coração?

sábado, 6 de março de 2010

O teu sorriso



O que espero da vida?
O teu sorriso ao acordar.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Bruma e incerteza


Na escuridão dos teus olhos repousa esse passado que perdemos.
Observas o fogo em silêncio e sentes o futuro feito em cinzas.
Longe estão, já, os dias de luminosas gargalhadas.
Resta apenas este presente de bruma e incerteza.
É tempo de partir - dizes - e apagas a luz para que não te veja chorar.

para a Joana A.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Além de ti


Quem?
Quem, além de ti, poderia eu amar assim?


para M.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

De uma pátria emprestada


.
"As coisas vulgares que há na vida não deixam saudade,
só as lembranças que doem ou fazem sorrir".
.
Estou em São Paulo. Vim para estar junto da minha avó, hoje, quando passa um ano sobre a sua morte.
Não esqueço este dia. Não esqueço o seu último olhar. Não esqueço o último beijo que trocámos. Não esqueço as promessas de encontros futuros. Não esqueço a esperança de que tudo iria acabar bem. Não esqueço como tudo acabou mal.
Perante o seu túmulo, numa terra que não é a nossa, neste calor de Dezembro de uma pátria emprestada, desejo a chuva e o frio de Lisboa. Só isso faz sentido num dia como o de hoje. Até sempre Avó.


"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade "

Jorge Fernando por Mariza, in 'Concerto em Lisboa'

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A criada que queria muito ser princesa


Era uma vez uma criada que queria muito ser princesa. Sonhava todos os dias que chegaria um Príncipe num cavalo branco para a resgatar dessa vida triste. Tanto andou, tanto andou que acabou por casar com um polícia. Foi a farda que a iludiu. Conheceram-se quando ele foi a casa da patroa entregar uma notificação do tribunal. O casamento foi simples mas bonito. Ela foi de branco porque até então não conhecera homem. A menina das alianças foi a vizinha do terceiro andar que era anã e parecia uma criança. Mas não foi de branco porque essa, sim, conhecera homens vários, aliás, conhecia-os pelo menos às terças e quintas das 16h às 18h (menos aos feriados). A criada e o polícia viviam juntos numas águas furtadas na Mouraria. Ele gostava de fado e ela gostava de futebol. A Fátima não iam muito porque era longe mas chegaram a ir e pararam na Casa das Regueifas para comprar uma regueifa que comeram às fatias, torradas com manteiga nessa mesma noite. A vida lá ia andando, uns dias melhor e nos outros pior, como Deus queria. Aos domingos iam à missa e quando ele estava de folga iam a Sintra comer queijadas. Um dia o polícia levou um tiro num bairro problemático de Lisboa e morreu no hospital de Amadora-Sintra. Ela nunca mais foi à missa mas concorreu a um concurso público e passou a lavar as escadas do Palácio da Ajuda que ainda por cima eram muitas. Diz que um dia destes se deixa ficar por lá durante a noite e vai experimentar as camas todas que encontrar. Para ser princesa por um dia. As más linguas dizem que ela quer é experimentar os seguranças todos do palácio. Mas disso eu não percebo nada...

sábado, 7 de novembro de 2009

A mesma bruma


Procuro no teus olhos um amor por confirmar
Encontro neles ausência.
La fora o cinzento do céu, o silêncio, a melancolia
E no meu peito a dor de uma dúvida
A inquietação de um abandono,
a bruma.
Sempre a mesma bruma.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Porque te encontrei



Ouço o disco 'Alina', de Arvo Pãrt. Se a tristeza fosse um som, era este. Sem querer penso no que não devo. Penso nos meus. Nos que perdi. Nos que partiram. Sinto as ausências de todos. E ainda assim, num ano tão fortemente marcado pela morte, estou tranquilo. Porque te encontrei.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Pelo nosso amor desfeito (Letra para um fado tradicional)


Estes silêncios que calo
Bem fundo no coração
São lágrimas que não te entrego
São vozes da solidão

É a tristeza que guardo
Nos olhos e dentro do peito
É esta alma marcada
Pelo nosso amor desfeito

Vivo sem ti (e não vivo),
Vivo sem ti (por viver)
Uma existência vazia
Que é este amar sem te ter.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

De um amor que se revela sofrimento


E depois é este céu cinzento,
Esta luz filtrada e escura
Onde nada é já o que sonhámos
Onde nada é eterno, nada dura.

E és tu debruçada na janela
Abandonada a esse triste pensamento
De uma vida desfeita de tão fria
De um amor que se revela sofrimento.

E é tudo o que sonhámos em abraços
No meio de dois beijos prometidos
E é o nada em que agora nos amamos
Perdidos em futuros não cumpridos.



terça-feira, 26 de maio de 2009

O Comboio ou A Varanda que via passar mulheres



Era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação vomitando nas plataformas mulheres apressadas e homens distraídos. Mas aquele não era um comboio qualquer porque era um comboio especial. De todos os comboios que conheço era provavelmente o mais especial que havia. Vinha dos mesmos sítios que os outros e ia para os mesmos sítios que os outros. Mas era especial no meio de todos porque nenhum ambicionava nada enquanto aquele ambicionava tudo. E o seu maior sonho era ser um barco e navegar pelos mares.
Era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação vomitando nas plataformas mulheres apressadas e homens distraídos. E no alto daquele prédio cor de tempos passados, uma varanda tímida espreitava as mulheres que passavam, apressadas, e sentia o íntimo desejo de ter nascido como elas, mutantes, velozes, portáteis!
E sempre que era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação, varanda e comboio trocavam sonhos e desejos vivendo entre os dois a partilha de uma fantasia que os transformava respectivamente em barco e mulher à deriva pelo mar. E riam-se da pressa das mulheres e da distracção dos homens que não percebiam nada e que não aproveitavam os barcos e os mares para fugir ou para sonhar!
Desta rotina nasceu obviamente um amor enorme da varanda pelo comboio. E quando ele por alguma razão não vinha, a triste varanda perdia-se em divagações românticas e em ciúmes enlouquecidos, imaginando que o comboio era finalmente um barco e que alguma daquelas mulheres que ele transportava tinha descoberto o caminho directo para o seu coração... Aquele sofrimento era feroz e durava até à próxima manhã em que, cedo, o apito ecoava pela estação. Só os pássaros que por ali pousavam testemunhavam estes desvarios e por toda a cidade já se comentava a loucura da varanda que não percebia que era apenas uma varanda!
Os tempos foram passando, o comboio foi fazer outras paragens e deu por si a fazer a linha do Estoril, ao lado do rio, e acabou mesmo por se esquecer que era comboio para se convencer que era um grande e forte barco, porque só via água!
Quanto à varanda, essa foi enlouquecendo sozinha à medida que percebeu que nunca seria mulher. A última vez que soube dela estava apaixonada por uma gaivota que ainda por cima só abusou da sua boa vontade. Hoje quando lá passo ainda olho para cima mas é raro a varanda reagir. Perdeu o juízo e agora vai deixando cair pedacinhos de si quando passa alguma mulher. Queria confortá-la mas não sei. O meu forte nunca foi varandas.
(para a Fernanda, a quem escrevi isto há algum tempo atrás.)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Poema em ziguezague


Afecto,
tormenta
taciturna.

Casa
deserta,
vazia.

Tenho para mim que te esqueço em menos de um dia.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Paisagem


Trago nos olhos cansaços de uma paz que não chega
E há na tua voz um sobressalto que esconde tréguas tardias
Perdemos o futuro em perdões adiados
Nada mexe já na paisagem de fim de tarde.

Cá dentro o silêncio, o abandono, a esperança.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Um dia


Um dia ainda hei-de falar-te da falta que me fazes...