sexta-feira, 4 de julho de 2008

Teu nome sussurrado


"Não te disse do amor. Nem tu disseste
da sedução vivida ou do desejo
dos nossos corpos e das nossas almas
naquele silêncio de palavras raras.

Não te disse do espanto. Ou do anseio
de ver em ti a luz reencontrada
no reverso do dia e seu contraste
em que perdidos acaso nos achámos.

Calámos as distâncias descompassos
dos nossos passos sós pelos caminhos
do amor sem ter amor que percorremos.

Mas a angústia ficou quando partiste
no silêncio de nós que o consentimos.
Teu nome sussurrado não esqueci."

João Mattos e Silva, in 'Marítimo Caminho'
(Porque não consigo mesmo esquecer-te e sussurro o teu nome muitas vezes (demais) para fingir que ainda estás aqui...)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A iludir a distância tão curta e tão longa


"Tinham 15 anos quando se apaixonaram e na memória de ambos ficou gravado aquele primeiro amor.
Ele era tão esperto e tão bonito, tinha uns olhos trocistas e um riso sempre adivinhado no traço da sua boca. Ela era tímida, tão tímida que os risos dele a atemorizavam, antes daquela ida ao cinema, ele a olhá-la em vez de ver o filme, a mão dele a procurar a mão dela, devagarinho, a deixar-se ficar ali, sem apertar, a evitar a recusa.
Ouviram juntos os discos que chegavam de Londres, aprenderam juntos a dançar nas festas em casa de uns e de outros, falavam das aulas, da escolha do curso e riam, riam perdidamente a imaginar-se adultos e sisudos.
Sentiram a descoberta da atracção física, um pequeno esboço, claro, mas ainda assim intenso e assustador, tudo contado e revivido em cartas ou falado em longas e sussurradas conversas ao telefone, a iludir a distância tão curta e tão longa. Não era fácil encontrarem-se e uns fugazes momentos a sós tinham que contar com a cumplicidade discreta dos amigos, era assim na altura e também tinha o seu encanto.
Nunca conversaram sobre aquele afastamento lento, insidioso, um ano é muito tempo para a impaciência de quem está a crescer. Só sabiam que um dia a carta não teve resposta, no outro o telefone não tocou, zangaram-se sem conversar, foi assim, ela tão tímida que não perguntou, ele tão esperto e bonito que não precisava de responder.
Quando se encontraram por acaso, muitos anos mais tarde, ele olhou-a com os mesmos olhos trocistas, o mesmo riso contido no traço da boca, e na sua voz ciciada de menino arriscou um “ainda temos muito que conversar”, mas ela riu-se e foi-se embora. Nunca mais seria tempo de conversarem.
Da vez seguinte que se encontraram ela não o reconheceu no homem grisalho e disforme que a olhou com uns olhos trocistas quando a cumprimentou com reserva. E ele, tão esperto, percebeu, e afastou-se, sem sombra de riso no traço da sua boca.
Ela lembrou-se de tudo isto quando foi buscar a cartas envelhecidas que ele lhe escrevera quando eram quase crianças e as leu, uma a uma, até lhe ouvir de novo a voz ciciada e o riso solto. No dia em que ele morreu."
Moura, in 'O.Insecto'

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Por um sorriso seu


"Você não sabe quanta coisa eu faria
Além do que já fiz
Você não sabe até onde eu chegaria
Pra te fazer feliz

Eu chegaria
Onde só chegam os pensamentos
Encontraria uma palavra que não existe
Pra te dizer nesse meu verso quase triste
Como é grande o meu amor

Você não sabe que os anseios do seu coração
São muito mais pra mim
Do que as razões que eu tenha
Pra dizer que não
E eu sempre digo sim
E ainda que a realidade me limite
A fantasia dos meus sonhos me permite
Que eu faça mais do que as loucuras
Que já fiz pra te fazer feliz

Você só sabe
Que eu te amo tanto
Mas na verdade
Meu amor não sabe o quanto
E se soubesse iria compreender
Razões que só quem ama assim pode entender

Você não sabe quanta coisa eu faria
Por um sorriso seu
Você não sabe
Até onde chegaria
Amor igual ao meu

Mas se preciso for
Eu faço muito mais
Mesmo que eu sofra
Ainda assim eu sou capaz
De muito mais
Do que as loucuras que já fiz
Pra te fazer feliz"

Roberto Carlos por Maria Bethânia, in 'As canções que você fez pra mim'
(Porque tu não sabes quantas coisas eu faria ou até onde eu chegaria para te fazer feliz...)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Como un secreto

"Es verdad que nunca y siempre
son palabras que acostumbran
a repetir los amantes,
aunque tú nunca me has dicho
que vas a quererme siempre.
Solo has usado dos veces, 
en mi honor, como un secreto,
nunca esto, nunca aquello,
aunque tú no lo recuerdes
auque yo no lo repita,
ni otras cosas que yo he dicho,
por vuergüenza. Que el amor
que se siente un privilegio
se vuelve un poco ridículo
si sale mucho de casa."
Esther Morillas, in 'Mujeres'

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mas o amor também tem o peso do mundo


"Poderia libertar-me do peso do mundo nos teus braços;
poderia tirá-lo de cima de mim, atirá-lo para o outro lado
da casa, para algum canto escondido; e poderia
ficar contigo, na leveza do teu corpo, ouvindo
o cair do tempo nalgum relógio invisível.
O mundo, no entanto, insiste comigo. Está ali,
no fundo da casa, com o seu peso. Espera que alguém
pegue nele, e volte a descer a escada, curvado, como
se tudo o que tivéssemos de fazer fosse carregá-lo
para baixo e para cima, nestas escadas sem elevador.
E eu, contigo, ao abraçar-te, espero que o mundo
não se mexa no seu canto, no fundo da casa. Abraço-te
como se o teu corpo me libertasse desse peso, como
se ele não estivesse à minha espera, para que o desça
e suba por estas escadas de um prédio sem elevador.
Mas o amor também tem o peso do mundo. E as
palavras com que nos despedimos, antes que eu pegue nele
e te deixe entregue à tua leveza, trazem o eco das coisas
que atirei para o fundo da casa, onde não quero que vás,
para que não tenhas de carregar, também tu, o peso do mundo."

Nuno Júdice, in 'Rimas e Contas'
(para te dizer que tenho muitas saudades da tua leveza)

domingo, 29 de junho de 2008

Para eu aprender a estar só



"Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo."

Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra'

sábado, 28 de junho de 2008

Que é toda minha a saudade



"Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais."

Amália Rodrigues
(Porque é mesmo toda a minha a saudade. Sinto tanto, tanto a tua falta...)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Transpondo os versos vieste a minha vida


"Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.
Os abismos das coisas quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!
Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!
Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.
Transpondo os versos vieste a minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!"
Carlos de Oliveira, 'Carta a Ângela'

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Real happiness

"Okay, life's a fact, people do fall in love, people do belong to each other, because that's the only chance anybody's got for real happiness."
"Breakfast at Tiffany's" de Blake Edwards (1961)
(roubado
daqui)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Tudo quanto sentia


Olharam-se nos olhos como se fossem estranhos e nada daquilo tivesse acontecido. Depois ela começou a falar. A voz saía-lhe mais tranquila do que imaginara. Ensaiara um discurso em casa porque receava que as suas emoções a atraiçoassem e perdesse assim a oportunidade de lhe dizer tudo quanto sentia.

- Sabes, não respeitar os sentimentos dos outros é também uma forma de não gostar dos outros. Não se pode dar sinais numa direcção e depois fugir para outra. Porque és tu quem eu quero apesar de te querer devagar. Estou cansada de desencontros e de não te compreender. Porque por vezes é melhor a verdade do que a omissão. Porque gostava apenas que me dissesses cara a cara que não é nada disto, que estou enganada. Ou que me dissesses apenas que o que eu quero tu não queres.

O seu tom de voz decidido não deixava margens para dúvidas. Ele baixou os olhos, bebeu um pouco do gin que tinha nas mãos e não disse nada. No seu pensamento estava apenas o momento em que se viram pela primeira vez naquele aeroporto do Rio de Janeiro.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Hei-de encontrar o caminho



"Cinzento porque chovia
Todo o céu que me cobria
Comigo chorava tanto
Mas ali à minha frente
Afastado e tão presente
O rio secou o meu pranto

No fundo das suas águas
Adormeceu minhas mágoas
E acordei menos triste
A dor ao mar entregava
Enquanto às margens contava
A razão por que partiste

Sem ti seguirei viagem
Como o rio que larga a margem
E continua sozinho
Com a força da corrente
Que se reparte entre a gente
Hei-de encontrar o caminho

É na força da corrente
Que se reparte entre a gente
Que eu encontro o meu caminho"

Aldina Duarte e Manuela de Freitas por Camané, in 'Esta coisa da alma'

segunda-feira, 23 de junho de 2008

As minhas lágrimas juntas


"Amar por amar não posso.
Amar por amar não sei.
Amar por amar não posso.
Amo aquilo só que é nosso
Amando à margem da lei.


Amar por amar não posso
Amar por amar não sei.

(...)


Ninguém me faça perguntas!
Trago o coração já frio...
Ninguém me faça perguntas,
Que as minhas lágrimas juntas
Davam para encher um rio!


As minhas lágrimas juntas
Davam para encher um rio!


Pedro Homem de Mello, in 'Fandangueiro'

domingo, 22 de junho de 2008

É tão simples ser feliz


Um sábado cheio de sol e coisa nenhuma para fazer. O mimo de quem gosta mesmo de nós. (O bem que me fazes, Marta!) Um brunch com amigos no Príncipe Real. Um convite inesperado para almoçar numa quinta do século XVI nos arredores de Lisboa. Um cesto de ginjas para a dona da casa. Chegar e ter melão fresquinho à nossa espera acompanhado de uma limonada acabada de fazer. Um mergulho numa piscina com água da nascente. Ioga antes de almoçar. Um almoço no jardim que se estende pela tarde fora. O carinho de quem é civilizado e nos faz sentir em casa. Um atelier de uma GRANDE artista e a vontade de ficar por ali a pintar com ela. Buganvílias em flor e a vontade de trazer aquela cor connosco. A certeza de que encontrarei aquela cor na Índia dentro de pouco tempo. Uma despedida com promessa de muitos mais dias assim. A percepção de que há coisas que ocupam a nossa mente (e o nosso coração) e afinal não nos fazem falta nenhuma. A convicção de que a nossa felicidade só depende de nós: é tão simples ser feliz!

Obrigado Marta, Paulo, Rosário e Ana pela companhia. Obrigado Graça e Manuel por receberem tão bem!
(A foto foi tirada com o meu telemovel.)

sábado, 21 de junho de 2008

Desses nossos desencontros



"Paz, eu quero paz
Já me cansei de ser a última a saber de ti
Se todo mundo sabe quem te faz chegar mais tarde
Eu já cansei de imaginar você com ela
Diz pra mim se vale a pena, amor
A gente ria tanto desses nossos desencontros
Mas você passou do ponto e agora eu já não sei mais...

Eu quero paz
Quero dançar com outro par para variar, amor
Não dá mais pra fingir que ainda não vi
As cicatrizes que ela fez
Se desta vez ela é senhora deste amor
Pois vá embora, por favor
Que não demora pra essa dor... sangrar"


Marcelo Camelo (Los Hermanos) por Maria João, in 'Maria João'
(Uma música que adoro da voz mais fantástica que existe em Portugal: Maria João)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A hora é suave


"No ouro sem fim da tarde morta,
Na poeira do ouro sem lugar
da tarde que me passa à porta
para não parar,

No silêncio dourado ainda
dos arvoredos verde fim
recordo. Eras antiga e linda
e estás em mim...

Tua memória há sem que houvesses
teu gesto, sem que fosses alguém
como uma brisa me estremeces
e eu choro um bem...

Perdi-te. Não te tive. A hora
é suave para a minha dor.
Deixa meu ser que rememora
sentir o amor,

Ainda que amar seja um receio,
uma lembrança falsa e vã,
e a noite deste vago anseio
não tenha manhã."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Que sejam justos


"Ensina-se-lhes que sejam valentes, para um dia virem a ser julgados por covardes! Ensina-se-lhes que sejam justos, para viverem num Mundo em que reina a injustiça! Ensina-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia, os leve à forca! Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de, pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?
Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos?"


Luís de Sttau Monteiro, in 'Felizmente Há Luar!' (Acto II)

terça-feira, 17 de junho de 2008

Haja o que houver



"Haja o que houver eu estou aqui
Haja o que houver espero por ti
Volta no vento ó meu amor
Volta depressa por favor
Há quanto tempo já esqueci
Porque fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor
Eu sei quem és para mim
Haja o que houver espero por ti"

Pedro Ayres Magalhães, pelos Madredeus in 'O Paraiso'
(Porque eu estou de facto aqui. E porque, haja o que houver, espero por ti. Assim tu o desejes. E porque os teus problemas podem ser partilhados. E porque pensar faz bem, mas partilhar faz melhor ainda.)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

De todos os ausentes o ausente


"Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio.

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para alem do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente."


Sophia de Mello Breyner Andresen
(Porque a tua ausência me pesa. Porque o teu silêncio me desorienta.)

domingo, 15 de junho de 2008

Mesmo em sonhos proibidos


"Deixa-me olhar
Por dentro do teu olhar
E abrir de par em par
Nossa janela ao destino
E quando entrar
Sempre e em cada momento,
A ouvir a voz do vento
Partiremos sem pensar
Nesse lugar,
Seja lá aonde for!,
Vou fazer do nosso amor
Mil versos p'ra te cantar.
Quero viver
Por dentro dos teus sentidos,
Mesmo em sonhos proibidos
Descobrir a realidade...
Ser tudo ou nada
Mas sempre contigo ao lado
Porque me dás este fado
De viver a felicidade...
Pois nesta vida
Que Deus nos deu p'ra viver
Tudo pode acontecer
Sem nunca haver despedida!"

João Veiga por Katia Guerreiro, in 'Tudo ou Nada'

sábado, 14 de junho de 2008

Põe a tua mão


"Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei porquê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo."  

Fernando Pessoa

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Os instantâneos silêncios de certas formas


"Entre amigo e amigo
jamais se afastam 
coisas tão felizes:
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?"
José Tolentino Mendonça, in 'Baldios'
(porque há noites que são continuações mas também são começos)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Precauções, derrotas, recusas


"Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia

somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções, derrotas, recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão" 

José Tolentino Mendonça in 'A Que distância Deixaste o Coração'

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Em nome da tua ausência


"Em nome da tua ausência
Construi com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei"

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Orpheu e Eurydice'

terça-feira, 10 de junho de 2008

Portugal


"Talvez que eu morra na praia,
Cercado, em pérfido banho,
Por toda a espuma da praia,
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho...

Talvez que eu, morra na rua
- ínvia por mim de repente –
Em noite fria, sem Lua,
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente!

Talvez que eu morra entre grades,
No meio duma prisão
E que o mundo, além das grades,
Venha esquecer as saudades
Que roem meu coração.

Talvez que eu morra dum tiro,
Castigo de algum desejo.
E que, à mercê desse tiro,
O meu último suspiro
Seja o meu primeiro beijo...

Talvez que eu morra num leito,
Onde a morte é natural,
As mãos em cruz sobre o peito...
Da mão de Deus tudo aceito.
- Mas que eu morra em Portugal!"

Pedro Homem de Mello

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Uma mão humana

"Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
Clarice Lispector

sábado, 7 de junho de 2008

Uma cançao que fosse só tua

Certa vez disse-te que um dia te escrevia uma canção. Tu respondeste que sim, que gostavas muito que isso acontecesse. Fui para casa e comecei a juntar palavras na certeza de que queria mesmo escrever uma canção que fosse só tua. Depois percebi que a verdadeira canção estava no teu sorriso. Percebi que os melhores acordes eram os teus olhos. Que a melodia perfeita era o teu olhar. Que não havia partitura tão feliz como o teu corpo. Percebi que eras tu a sinfonia. E que eu nunca seria um compositor de canções porque nem as palavras nem as notas musicais tinham escala para celebrar o que sentia por ti. 

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Made for you



"All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
But these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true...I was made for you

I climbed across the mountain tops
Swam all across the ocean blue
I crossed all the lines and I broke all the rules
But baby I broke them all for you
Because even when I was flat broke
You made me feel like a million bucks
Yeah you do and I was made for you

You see the smile that's on my mouth
Is hiding the words that don't come out
And all of my friends who think that I'm blessed
They don't know my head is a mess
No, they don't know who I really am
And they don't know what I've been through like you do
And I was made for you..."

Brandi Carlile, in 'The Story'

E nunca mais

"Para te amar ensaiei os meus lábios...
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos...
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio...
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!"

Pedro Homem de Mello, in 'Poesias Escolhidas'

quinta-feira, 5 de junho de 2008

palácios e pérolas


"(...)

foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

(...)"

Adília Lopes, in 'Obra'
(porque li isto vezes sem conta sem perceber o quanto faz sentido)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Desse amor que eu nego tanto



"Já conheço os passos dessa estrada,
Sei que não vai dar em nada,
Seus segredos sei de cor.
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar tanto pior.
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto,
Evito tanto,
E que no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar?
Com seus mesmos tristes, velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar.
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer.
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado.
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão.
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração."

Tom Jobim por Maria João, in 'João'

terça-feira, 3 de junho de 2008

Entre um anseio vão e um sonho vão

"Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem."

Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Livre mas triste

"Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."

Fernando Pessoa

domingo, 1 de junho de 2008

Nem já o pranto



"Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura

Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá

Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto...
Sabe-o Deus e sei-o eu"


Fernando Caldeira por Carmo Rebelo de Andrade

sábado, 31 de maio de 2008

Trocando passos com a solidão



"Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
As vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você

É... mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você..."

Ana Carolina
("... e eu vou lembrar você")

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Livre


"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas"


Sophia de Mello Breyner Andresen
(para ti, porque os Horizontes nem sempre são Belos)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Ton corps comme un torrent de Lave



"Lave
Ma mémoire sale dans son fleuve de boue
Du bout de ta langue nettoie-moi partout
Et ne laisse pas la moindre trace
De tout ce qui me lie et qui me lasse
Hélas ..

Chasse
Traque-la en moi, ce n'est qu'en moi qu'elle vit
Et lorsque tu la tiendras au bout de ton fusil
N'écoute pas si elle t'implore
Tu sais qu'elle doit mourir d'une deuxième mort
Alors tue-la encore

Pleure
Je l'ai fait avant toi et ça ne sert à rien
A quoi bon les sanglots, inonder les coussins
j'ai essayé, j'ai essayé
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Alors...

Brûle
Brûle quand tu t'enlises dans mon grand lit de glace
Mon lit comme une banquise qui fond quand tu m'enlaces
Plus rien n'est triste, plus rien n'est grave
Si j'ai Ton corps comme un torrent de Lave
Ma memoire sale dans un fleuve de boue"



Alex Beaupain por Louis Garrel, in 'Les Chansons d'amour'
(para te dizer que as saudades não desaparecem assim...)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Entre a esperança e o medo


“Depois da tristeza vem a alegria; depois da alegria vem a tristeza. Estamos sempre na instabilidade, entre a esperança e o medo.” 

John Owen

terça-feira, 27 de maio de 2008

Do meu amor viajante

"Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo."
Pablo Neruda
(porque sinto tanto, tanto a tua falta...)

sábado, 24 de maio de 2008

Rasgar a solidão

"Já estou farta de estar só
Acompanhada de nada
Já estou louca de ser rua
Tão corrida tão pisada
Já estou prenhe de amizade
Tão barriga de saudade

Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar
O olhar de uma canção
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto
Mais longe e mais além
Mas a saber que sou alguém

Na cidade sou loucura
Sou begónia sou ciúme
E eu que sonhava ser rua
Caminho atalho lonjura
Não tenho assento na festa
Sou a migalha que resta."

por Raquel Tavares, in 'Bairro'
(Custa-me a tua ausência. Mas isso, claro, tu já sabes.)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Svanì per sempre il sogno mio d'amore...





'Tosca' de Puccini, 
em cena no Teatro Nacional de São Carlos até 7 de Junho 

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Destruição


"Quando se trata de destruir, todas as ambições se aliam facilmente."
Júlio Verne

"Não destruas o que não fizeste."
Sólon

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Mil dias antes de te conhecer




"Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer"

Edu Lobo e Chico Buarque por Maria João, in 'João'

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Até o fim


"(...)
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
(...)"


Alguns versos de Chico Buarque cantados hoje por Maria João, no Teatro São Luíz, num concerto fantástico. A tua cadeira, ao meu lado, ficou vazia. E foi a tua ausência o que me custou mais... Estás longe.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Minha Senhora



"Minha Senhora das Dores
A dor que por mim sentiste
É dor que ainda persiste
em cada dos teus favores.
Teus lábios tecem louvores,
Louvores que eu pouco mereço.
E é maldade o que eu te ofereço,
Ofensas e dissabores.
Senhora, trocas louvores
Pelos meus carinhos pardos,
Pois são espinhos e são cardos
Que eu troco p'las tuas flores.
Num cortejo de mil cores
É o céu que de ti vem,
Ó Senhora minha Mãe,
Minha Senhora das Dores."

Jorge Rosa, por Katia Guerreiro e Bernardo Sassetti

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tarde demais

Cumprimentaram-se friamente. Era a primeira vez que se viam desde a separação daí que ele não estranhasse o salto no estômago quando a viu no meio de toda aquela gente. Foi um encontro completamente inesperado. Por um momento pensou em abraçá-la, dar-lhe um beijo, mesmo, mas quando ela estendeu a mão deixou-o completamente desarmado. Achava estranho que, daquele corpo que já tinha sido seu, lhe oferecessem apenas o toque de uma mão. Trocaram umas meras palavras de circunstância e continuaram os seus caminhos. Enquanto descia a rua, ele disfarçava as lágrimas para que não percebessem que a sua ausência ainda doía muito. E compreendeu naquele instante que por vezes o amor se revela tarde demais.

domingo, 11 de maio de 2008

sábado, 10 de maio de 2008

Os momentos de desgosto mais profundos e de desespero

"Mas o que é que se está a passar comigo neste momento? Uma alegria tão ligeira, quase brincalhona? Ontem foi um dia difícil, muito difícil, no qual houve muito sofrimento interior a ter de interiorizar. E mais uma vez superei tudo o que veio ao meu encontro, e consigo aguentar novamente mais do que ontem. E foi isso provavelmente que me deu a satisfação interior e a calma: como eu noto, de cada vez que consigo lidar com as coisas completamente sozinha, como o meu coração não mirra de amargura nesse processo, e também como os momentos de desgosto mais profundos e de desespero deixam em mim as suas sementes e me fortalecem. Não tenho grandes ilusões acerca da verdadeira situação e até mesmo à pretensão de ajudar os outros eu renuncio. Hei-de partir sempre do princípio de ajudar Deus tanto quanto possível e se conseguir, pois bem, nesse caso também estou disponível para outros. Mas ilusões heróicas sobre isso, é melhor também não as ter."

Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Talvez o mais belo


"O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo"


José Tolentino Mendonça, in Baldios

quinta-feira, 8 de maio de 2008

E as minhas duas mãos quebradas


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Só em minha alma é noite escura



"Não queiram mal a quem canta quando uma garganta esta desgarra
que a mágoa já não é tanta se a confessar à guitarra.
Quem canta sempre se ausenta da hora cinzenta da sua amargura
Não sente a cruz tão pesada na longa estrada da desventura.
Eu só entendo o fado plangente, amargurado, à noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração num tom magoado, tão frio como as neves do caminho.
Que chore uma saudade ou cante a ansiedade de quem tem por amor chorado.
Dirão que isto é fatal, é natural, mas é lisboeta e isto é que é o fado.
Oiço guitarras vibrando e vozes cantando na rua sombria
As luzes vão-se apagando a anunciar que é já dia
Fecho em silêncio a janela, já se ouvem na viela rumores de ternura
Surge a manhã fresca e calma, só em minha alma é noite escura.
Eu so entendo o fado plangente, amargurado, à noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração num tom magoado tão frio como as neves do caminho
Que chore uma saudade ou cante a ansiedade de quem tem por amor chorado.
Dirão que isto é fatal, é natural, mas é lisboeta e isto é que é o fado..."

por Raquel Tavares

terça-feira, 6 de maio de 2008

Não conseguir aguentar a vida


"(...) Às vezes custa-me tanto esforço para estabelecer a fasquia de trabalho para o dia: levantar-me, lavar-me, fazer ginástica, calçar meias sem buracos, pôr a mesa, em suma, "orientar-me" no dia-a-dia, que poucas forças me restam para outras coisas. Então fico, após me ter levantado a horas como outro cidadão qualquer, com o sentimento de orgulho de já ter realizado uma porção de coisas. Contudo, isso é o mais importante para mim: a disciplina exterior, enquanto a interior ainda não está em ordem. Se de manhã durmo por mais uma hora, tal não significa para mim recuperar o sono, significa sim não conseguir aguentar a vida e fazer greve."

Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

domingo, 4 de maio de 2008

E por vezes feliz

"(...)
Não existe a fusão de duas vidas. Pelo menos para mim não. Às vezes, por alguns momentos, sim. Mas será que esses momentos justificam a união para uma vida inteira? Será que essa meia dúzia de momentos consegue cimentar uma vida em comum? Porém também há um sentimento forte. E por vezes feliz. Só. Deus. Mas custa. Porque o mundo permanece inóspito. 
O meu coração é muito bravio, mas nunca para uma só pessoa. Para todas as pessoas. Este coração é também, creio, muito rico E antigamente pensava sempre como é que o iria dar a uma só pessoa. Mas isto não tem sentido. E quando uma pessoa aos 27 anos atinge estas pesadas "verdades", se isso provoca, por um lado, um sentimento de desespero e solidão e medo, por outro, também provoca uma sensação de independência e de orgulho. Estou confiada a mim mesma e terei de me desembaraçar sozinha. O único padrão que tens és tu própria. Repito-te mais uma vez. E a única responsabilidade com que poderás arcar na tua vida, é para contigo própria. Mas neste caso também terás que o fazer totalmente."

Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

sábado, 3 de maio de 2008

Não compreender



"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
(...)"




Alberto Caeiro

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Na realidade repetidamente

"Há um desassossego em mim, um desassossego bizarro, diabólico, que poderia ser produtivo se eu o soubesse utilizar. Um desassossego criador. Não se trata de um desassossego do corpo. Nem mesmo uma dúzia de excitantes noites de amor lhe conseguiriam pôr fim. É um desassossego quase "sagrado". 
(...)
Às vezes desejava estar numa cela conventual, com a sabedoria sublimada de séculos nas prateleiras de livros ao longo das paredes, e com vista para as searas - têm mesmo de ser searas e também de ondular - e aí eu quereria aprofundar-me nos séculos e em mim mesma, e, com o correr do tempo, viriam então o sossego e a clareza. Mas assim não custaria nada. Aqui, neste lugar, neste mundo e agora, tenho de alcançar o entendimento, o sossego e o equilíbrio. Tenho de me lançar na realidade repetidamente, tenho de me explicar tudo o que surge no meu caminho, o mundo exterior precisa de receber sustento do meu mundo interior e vice-versa, mas é tudo tão extremamente difícil, e porque é que tenho esta sensação de sufoco por dentro?"


Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'