''A SOLIDÃO DESOLA-ME; A COMPANHIA OPRIME-ME. A PRESENÇA DE OUTRA PESSOA DESENCAMINHA-ME OS PENSAMENTOS; SONHO A SUA PRESENÇA COM UMA DISTRACÇÃO ESPECIAL, QUE TODA A MINHA ATENÇÃO ANALÍTICA NÃO CONSEGUE DEFINIR.'' (FERNANDO PESSOA)
"Proibissem a saudade de cantar, Havia de ser bonito… Entre os versos da canção mais popular, Ai, é o dito por não dito.
E as guitarras, sob a escuta na batuta de outras modas, Escondem no trinar das cordas o pesar. E o poeta vigiado, forçado ao assobio, Carpe as mágoas do destino sem mostrar.
E ao calor de uma fogueira, um amigo Com a voz mais aquecida lá entoa: Que a saudade mais que um crime é um castigo, E prisão por prisão, temos Lisboa."
Gosto tanto de estar contigo e às vezes quero tanto estar sozinho. Às vezes preciso tanto de ti e outras vezes preciso só de mim. Às vezes quero que estejas aqui em casa e outras vezes não. E às vezes esse querer dura apenas alguns minutos ou segundos. Mas há dias em que a solidão e o frio me invadem e eu sinto-me pequeno e só e triste. E acho que amar devia dar um pouco mais de calor... Na verdade tenho saudades tuas. Mas saudades mesmo. Daquelas que provocam um peso no estômago e fazem doer. E é nestes dias que tenho mais dificuldade em sair da cama. E chego a ficar assim, congelado, como se apenas a tua presença ao meu lado me trouxesse algum conforto. Em nome da tua ausência arrasto os olhos de rosto em rosto, buscando a tua face. Em nome da tua ausência perco horas na cidade a percorrer os teus caminhos, sonhando com os teus passos. Em nome da tua ausência gasto os dias em angustias, em lágrimas, em solidão. Em nome da tua ausência deixei de sentir. Na verdade tenho saudades tuas. É tempo de aceitar que te perdi de vez.
"Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas."
"Ai! minha mãe minha ‘’mãe menininha’’ ai! minha ‘’mãe menininha’’ do Gantois - a estrela mais linda, hein? - tá no Gantois - a beleza do mundo, hein? - tá no Gantois - e a mão doçura, hein? - tá no Gantois - o consolo da gente, ai? - ta no Gantois - a oxum mais bonita, hein - ta no gantoi Olorum que mandou essa filha de oxum tomar conta da gente e de tudo cuidar Olorum que mandô-ê-ô ora-iê-iê-ô."
Dorival Caymmi por Maria Bethânia, Caetano Veloso e Dona Canô (Esta é por razão nenhuma. Porque há momentos tão simples e tão bonitos que se tornam inesquecíveis.)
"Minha vida que parece muito calma Tem segredos que eu não posso revelar Escondidos bem no fundo de minh'alma Não transparecem nem sequer em um olhar Vive sempre conversando à sós comigo Uma voz eu escuto com fervor Escolheu meu coração pra seu abrigo E dele fez um roseiral em flor"
"Tudo o que se sobressai da utopia que advogo Não é mais do que um substrato do tempo que vivi, Como a lágrima vertida na atmosfera onde vogo Não é mais do que um piano pungente que tange por ti…
E as mãos que, na solidão, se intimidam, Que se desertificam aquando o tempo evanesce Não são mais do que as palavras nunca antes ditas E veladas num âmago isolado que entorpece…
Por isso, vem… que a saudade não desvanece… Vem… que o tempo permanece… E prende-me em ti…
Tudo o que se ocultava no silêncio temível Não era mais do que a soturna certeza Que teimava em calcular pela matemática falível Nos teoremas esotéricos da imensurável natureza.
E se, novamente, me vires assim, imerso no pensamento, Pensa que emergi do livro do cepticismo filosófico Escrito pelas mãos da poesia na candura do tempo E do exagero desenfreado de um amor platónico.
Por isso, vem… que a saudade não desvanece… Vem… que o tempo permanece… E prende-me em ti…"
"Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa, Será o mesmo jardim à minha porta, E os cabelos doirados da floresta, Como se eu não estivesse morta."
Sophia de Mello Breyner Andresen (Para o Tiago. Nunca te esqueceremos.)
Conheço a Raquel há cerca de 10 anos. Desde que nos conhecemos que somos amigos. Partilhamos valores, crenças, risos, lágrimas, preocupações e alegrias. Não estamos juntos tantas vezes quantas gostaríamos (e menos ainda agora que a Raquel está em Bruxelas). Nutro pela família da Raquel uma enorme simpatia, um carinho imenso pela forma como sempre me fizeram sentir um deles. Acabei de saber há minutos que morreu o Tiago, casado com a Fau, irmã da Raquel. O Tiago estava doente há algum tempo, com uma leucemia, mas ainda há quinze dias, num casamento em Coimbra, diziam-me que tinham encontrado um dador compatível e que só estavam à espera que o Tiago ficasse mais forte para fazer um transplante de medula. Infelizmente parece ter sido tarde de mais. O Tiago morreu esta noite. Conheci o Tiago numa das muitas festas a que fui em casa dos pais da Raquel. Era um pouco mais novo que eu mas tinha uma energia contagiante, um sorriso aberto e luminoso e um sentido de humor único. Sinto muito a perda daquela família, tanto mais que o Tiago estava casado há muito pouco tempo e tinha sido pai recentemente. Às vezes, por maior que seja a nossa fé, é muito complicado compreender os desígnios de Deus. Neste momento de dor e de perda, só me resta o silêncio e a oração. O sorriso do Tiago ficará sempre na minha memória como prova da sua luz e da sua alegria. Meus queridos amigos, estou longe mas estou convosco em oração. Coragem.
Cada dia é mais evidente que partimos Sem nenhum possível regresso no que fomos, Cada dia as horas se despem mais do alimento: Não há saudades nem terror que baste.
"Começa a haver meia-noite, e a haver sossego, Por toda a parte das coisas sobrepostas, Os andares vários da acumulação da vida... Calaram o piano no terceiro andar... Não oiço já passos no segundo andar... No rés-do-chão o rádio está em silêncio... Vai tudo dormir... Fico sozinho com o universo inteiro. Não quero ir à janela: Se eu olhar, que de estrelas! Que grandes silêncios maiores há no alto! Que céu anticitadino! — Antes, recluso, Num desejo de não ser recluso, Escuto ansiosamente os ruídos da rua... Um automóvel — demasiado rápido! — Os duplos passos em conversa falam-me... O som de um portão que se fecha brusco dói-me... Vai tudo dormir... Só eu velo, sonolentamente escutando, Esperando Qualquer coisa antes que durma... Qualquer coisa."
Ai esta noite sem fim / Na nossa cama tão fria Ai este já não saber / Se te recuso ou desejo Ai este não entender / Porque me negas um beijo Meu amor, amor que eu quero Meu desespero sem fim Meu amor, amor sincero Anda morar no meu corpo Vem morar dentro de mim Ai este riso algemado / Como se fosse um queixume Ai este corpo gelado / Sem o teu corpo de lume Ai esta boca sedenta / A limitar-me os espaços Ai esta fome violenta / De te prender nos meus braços"
"Quantos em ti lagos e rios Quantos em ti os oceanos Água vermelha que aos ouvidos traz o aviso de nenhuns campos É bom sondarmos os abismos que nunca vão cicatrizando E ao som da água pressentirmos de onde provimos aonde vamos"
"Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto e a luz é fraca e treme e eu tenho medo das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai demorar-se a regressar. Há tempo para uma história que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres, serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória, como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono se agora apenas me olhares de longe e adormeceres."
"Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?"