quarta-feira, 8 de abril de 2009

Belo


"C'est à cause que tout doit finir que tout est si beau."

("É por tudo ter de acabar que tudo é tão belo")
Charles Ferdinand Ramuz, in 'Adieu à beaucoup de personnages et autres morceaux '


terça-feira, 7 de abril de 2009

Ao teu pensar-me querendo-te...


"Morde-me com o querer-me que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti-própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te...

Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me... E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstracção...

Possue-me-te, seja eu em ti meu spasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha...
Meu amor será o sair de mim do teu ocio
E eu nunca serei teu, ó apenas-minha?"


Fernando Pessoa

segunda-feira, 6 de abril de 2009

E vivo só p'ra te amar



"Eu quero morrer de amores como os rios morrem no mar
Campos inteiros de flores não chegam pra me deitar
Eu quero morrer de amores como os rios morrem no mar

Eu quero o pranto das rosas nas bocas que desfolhei
Perdi todas as demoras, perdi e não me encontrei
Eu quero o pranto das rosas nas bocas que desfolhei

Meu grande amor, meu sorriso de amargura
Nasce a luz na noite escura quando vens para me abraçar
Ó meu amor rasga essa dor e sorri
Eu não sei viver sem ti e vivo só p'ra te amar

Eu quero mais que ninguém o silêncio, a solidão
Eu queria ser mais além, sabor amargo a limão
Eu quero mais que ninguém o silêncio, a solidão

Mas não serei o navio que se verga à tempestade
Nas margens de um novo rio cantarei a liberdade
Nas margens de um novo rio cantarei a liberdade

Meu grande amor, meu sorriso de amargura
Nasce a luz na noite escura quando vens para me abraçar
Ó meu amor rasga essa dor e sorri
Eu não sei viver sem ti e vivo só p'ra te amar"

Paulo Valentim por Katia Guerreiro, in 'Fado'

domingo, 5 de abril de 2009

Que silêncio é este


"Há um silêncio pesado que não sei de onde é que vem
Nem sei se lhe chamam fado ou que outro nome é que tem
Se canto, não me dói tanto o coração magoado
Mas há em tudo o que canto este silêncio pesado

Não é mágoa nem saudade nem é pena de ninguém
O silêncio que me invade e não sei de onde é que vem
Silêncio que anda comigo e que mesmo sem eu querer
Diz através do que eu digo o que eu não posso dizer

Este silêncio pesado que me suspende e sustém
Não sei se lhe chamam fado ou que outro nome é que tem
Se com palavras se veste a alegria e pranto
Então que silêncio é este que há em tudo o que eu canto"


Manuela de Freitas

sábado, 4 de abril de 2009

You made me forget myself



"Just a perfect day drink sangria in the park
And then later when it gets dark we go home
Just a perfect day feed animals in the zoo
Then later a movie too
and then home
Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on you just keep me hanging on
Just a perfect day
problems all left alone
Weekenders on our own it's such fun
Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was someone else someone good
Oh, it's such a perfect day I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
you just keep me hanging on
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow"
Lou Reed

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Os erros do que fui


"Deixei atrás os erros do que fui
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Where the clouds are far behind




"Somewhere over the rainbow
Way up high
There's a land that I heard of once in a lullaby

Somewhere over the rainbow
Skies are blue
And the dreams that you dare to dream really do come true

Someday I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemon drops
A way above the chimney tops
That's where you'll find me

Somewhere over the rainbow
Blue birds fly
Birds fly over the rainbow
Why then oh why can't I?

If happy little blue birds fly beyond the rainbow
Why oh why can't I? "

Para a minha querida Denisa, que está a passar o pior momento da sua vida.
Estou ao teu lado neste momento de dor.
Conta sempre comigo.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Um dia


Um dia ainda hei-de falar-te da falta que me fazes...

quinta-feira, 19 de março de 2009

Aconteceu

"Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor"

Adriana Calcanhoto por Cristina Branco, in 'Corpo Iluminado'

quarta-feira, 18 de março de 2009

Um dia puro

"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."

Sophia de Mello Breyner Andresen
(para ti.)

terça-feira, 17 de março de 2009

Sem razão

A Tristeza anda a rondar-me...
(Sem razão aparente. E se é mesmo verdade que eu não sei ser feliz?)
imagem roubada daqui

segunda-feira, 2 de março de 2009

Em silêncio


"Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!"


Florbela Espanca

A minha tia Rosinda morreu ontem. Olho para o teclado do meu computador porque queria escrever qualquer coisa sobre ela, uma homenagem, um texto que pudesse dizer a falta que vou sentir dela. Mas a verdade é que só mesmo o silêncio me convém. O silêncio para que me lembre da sua voz a declamar Florbela Espanca enquanto cozinhava. O silêncio para poder escutar a sua gargalhada quando contava histórias antigas da família. O silêncio para poder ouvir a sua forma romântica de falar das coisas mais vulgares como os amores e desamores das princesas europeias.
A minha tia Rosinda era uma mulher única. Lia poesia com o mesmo fervor com que discutia as revistas do social. Falava de História com a mesma paixão com que preparava as mais extraordinárias refeições para toda a família. Era uma chefe de clã. Motivava-nos, mimava-nos, repreendia-nos. Tratava-nos a todos como se fossemos seus filhos. E quando estávamos juntos, entre almoços, chás, jantares e ceias, descobríamos que éramos todos do mesmo sangue ainda que fossemos de sangues diferentes.
A minha tia Rosinda, casada com o irmão mais velho do meu pai, o meu tio Zé, foi a minha primeira avó. Com ela aprendi que devemos seguir sempre os nossos sonhos, por mais disparatados que nos pareçam. Aprendi que amar é uma luta diária mas que diariamente vale a pena. Aprendi que os amores só são impossíveis se desistirmos de os viver.
O peso da sua ausência é intransponível. Voltar à Quinta das Mimosas sem a sua presença é enfrentar um silêncio terrível. A sua morte, ontem, representa o fim de um ciclo feliz. Se há três meses a morte da minha avó Maria do Carmo foi um duro golpe, a morte da minha tia Rosinda, ontem, representa o fim da minha infância. A partir de hoje espero tudo. Porque o seu sorriso quando nos encontrávamos representava a pureza dos anos em que fui mais feliz. E esse sorriso será em silêncio que o recordarei. Para sempre.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Nos braços da paz



"Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu

É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais
Teu cheiro me dá prazer
Quando estou com você
Estou nos braços da paz

Pensamento viaja
E vai buscar meu bem-querer
Não posso ser feliz, assim
Tem dó de mim
O que é que eu posso fazer?"

Por Maria Bethânia
(para ti. Porque estas duas semanas parecem dois meses.
E porque "é tão difícil ficar sem você". Sinto a tua falta TODOS os dias.)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Maior que tudo quanto existe



"Minha bem-amada
Quero fazer de um juramento uma canção

Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente teu e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou, ninguém

Minha bem-amada
Estrela pura, aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe
Oh, meu amor"

Vinícius de Moraes, por Caetano Veloso
(Para ti. Porque é isto mesmo. E porque nunca tinha sentido nada assim.
E porque também tu "enches os meus dias"...)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Da claridade da sua face




"Foi aos poucos que me apercebi de como era bela. Há pessoas assim. Que se revelam devagar, que não têm qualquer pressa em mostrar como são, em chegar ao nosso ombro, à nossa frente. Pessoas que têm o tempo do seu lado. O exacto contrário de mim que habito a ansiedade de todas as horas. A primeira vez que a vi nada vi a não ser uma cara, um corpo, gestos. Não me apercebi da claridade da sua face, do seu corpo longo, dos gestos lentos e delicados das mãos e dos braços, das suas incisivas palavras. (...)


Eu queria ver pelos teus olhos. Sentir com o teu coração. Morrer por ti."



Pedro Paixão, in 'O Mundo é tudo o que acontece'

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

E como o despertar depois de um sonho mau

"Sem correr
Bem devagar
A felicidade voltou para mim
Sem perceber
Sem suspeitar
O meu coração deixou você surgir
E como o despertar depois de um sonho mau
Eu vi o amor sorrindo em seu olhar
E a beleza da ternura de sentir você
Chegou sem correr
Bem devagar
Amor velho que se perde
Sai correndo para outro ninho
Amor novo que se ganha
Vem sem pressa, vem mansinho"

Gilberto Gil por Caetano Veloso

sábado, 24 de janeiro de 2009

As mãos como os meus dias

"Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
«Não partas nunca mais»
E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.
E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.
Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.
E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.
E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,


E eu não sei quem te perdeu."



Pedro Abrunhosa por Margarida Guerreiro

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Pesa-me tudo menos a dor

"Pesa-me, inteira, a flor que falta
Para a roseira ficar mais alta.
Pesa-me a Lua! E a noite vem,
De espada nua, buscar alguém…
Pesa-me a neve. Ou a montanha?
Dizem que é leve. Mas, é tamanha!
Chumbo ou veludo. Seja o que for!
Pesa-me tudo menos a dor."

Pedro Homem de Mello

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Esta visão de ausência e interrogação


Olho pela janela e percebo que o Tejo se confunde com o céu. O nevoeiro esconde a outra margem e esta visão de ausência e interrogação remete-me para outras paisagens, mais quentes, mais distantes, mais coloridas, mais confusas. Regressei há oito dias a Lisboa. Na boca tenho ainda o sabor dos teus beijos. No coração, a cinza de um amor que não pode arder. Tenho as mãos vazias e sei que muito em breve deixarei de saber como é o calor do teu toque. Não há derrotas nem perdas: apenas a certeza de que há vidas que se tocam. Nada será diferente daqui para a frente. Encontro na tua ausência formas de te perpetuar. Não te amo mas desejo-te. E trago no sorriso a certeza de que, por breves instantes, fui feliz ao teu lado.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A paz de um amor tranquilo


E hoje estou assim, neste limbo entre o cinzento e o azul, neste corpo de saudade e ausência, neste intervalo entre a dor e o riso, neste conflito entre o sentir-me um viajante e um desterrado, nesta distância entre o desconhecido e a descoberta. E depois há o pensar que devo afastar de mim os pensamentos menos felizes para viver em pleno esta experiência de viagem. Mas há também a certeza de que estes períodos de longo afastamento voluntário só fazem sentido porque volto para os braços (e abraços) dos que diariamente viajam comigo nos olhos e no coração.
(E depois existe essa breve vertigem da noite de fim de ano quando, aqui tão longe (meu Deus, aqui tão longe) encontrei e amei outro olhar, de cor diferente, de língua diferente, de calor e toque diferentes mas de entrega tão igual. E essa presença persiste em me acompanhar agora, com uma força e uma intensidade que não podem existir nem fazem sentido. E conto os dias para a rever, nem que seja por uma última vez, desta vez enquanto não existem outras vezes, do outro lado do Atlântico onde vive. E assim, separados por tantos oceanos diferentes, descubro que apenas sei amar o impossível e que não existe para mim a paz de um amor tranquilo.)