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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A criada que queria muito ser princesa


Era uma vez uma criada que queria muito ser princesa. Sonhava todos os dias que chegaria um Príncipe num cavalo branco para a resgatar dessa vida triste. Tanto andou, tanto andou que acabou por casar com um polícia. Foi a farda que a iludiu. Conheceram-se quando ele foi a casa da patroa entregar uma notificação do tribunal. O casamento foi simples mas bonito. Ela foi de branco porque até então não conhecera homem. A menina das alianças foi a vizinha do terceiro andar que era anã e parecia uma criança. Mas não foi de branco porque essa, sim, conhecera homens vários, aliás, conhecia-os pelo menos às terças e quintas das 16h às 18h (menos aos feriados). A criada e o polícia viviam juntos numas águas furtadas na Mouraria. Ele gostava de fado e ela gostava de futebol. A Fátima não iam muito porque era longe mas chegaram a ir e pararam na Casa das Regueifas para comprar uma regueifa que comeram às fatias, torradas com manteiga nessa mesma noite. A vida lá ia andando, uns dias melhor e nos outros pior, como Deus queria. Aos domingos iam à missa e quando ele estava de folga iam a Sintra comer queijadas. Um dia o polícia levou um tiro num bairro problemático de Lisboa e morreu no hospital de Amadora-Sintra. Ela nunca mais foi à missa mas concorreu a um concurso público e passou a lavar as escadas do Palácio da Ajuda que ainda por cima eram muitas. Diz que um dia destes se deixa ficar por lá durante a noite e vai experimentar as camas todas que encontrar. Para ser princesa por um dia. As más linguas dizem que ela quer é experimentar os seguranças todos do palácio. Mas disso eu não percebo nada...

terça-feira, 26 de maio de 2009

O Comboio ou A Varanda que via passar mulheres



Era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação vomitando nas plataformas mulheres apressadas e homens distraídos. Mas aquele não era um comboio qualquer porque era um comboio especial. De todos os comboios que conheço era provavelmente o mais especial que havia. Vinha dos mesmos sítios que os outros e ia para os mesmos sítios que os outros. Mas era especial no meio de todos porque nenhum ambicionava nada enquanto aquele ambicionava tudo. E o seu maior sonho era ser um barco e navegar pelos mares.
Era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação vomitando nas plataformas mulheres apressadas e homens distraídos. E no alto daquele prédio cor de tempos passados, uma varanda tímida espreitava as mulheres que passavam, apressadas, e sentia o íntimo desejo de ter nascido como elas, mutantes, velozes, portáteis!
E sempre que era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação, varanda e comboio trocavam sonhos e desejos vivendo entre os dois a partilha de uma fantasia que os transformava respectivamente em barco e mulher à deriva pelo mar. E riam-se da pressa das mulheres e da distracção dos homens que não percebiam nada e que não aproveitavam os barcos e os mares para fugir ou para sonhar!
Desta rotina nasceu obviamente um amor enorme da varanda pelo comboio. E quando ele por alguma razão não vinha, a triste varanda perdia-se em divagações românticas e em ciúmes enlouquecidos, imaginando que o comboio era finalmente um barco e que alguma daquelas mulheres que ele transportava tinha descoberto o caminho directo para o seu coração... Aquele sofrimento era feroz e durava até à próxima manhã em que, cedo, o apito ecoava pela estação. Só os pássaros que por ali pousavam testemunhavam estes desvarios e por toda a cidade já se comentava a loucura da varanda que não percebia que era apenas uma varanda!
Os tempos foram passando, o comboio foi fazer outras paragens e deu por si a fazer a linha do Estoril, ao lado do rio, e acabou mesmo por se esquecer que era comboio para se convencer que era um grande e forte barco, porque só via água!
Quanto à varanda, essa foi enlouquecendo sozinha à medida que percebeu que nunca seria mulher. A última vez que soube dela estava apaixonada por uma gaivota que ainda por cima só abusou da sua boa vontade. Hoje quando lá passo ainda olho para cima mas é raro a varanda reagir. Perdeu o juízo e agora vai deixando cair pedacinhos de si quando passa alguma mulher. Queria confortá-la mas não sei. O meu forte nunca foi varandas.
(para a Fernanda, a quem escrevi isto há algum tempo atrás.)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Tudo quanto sentia


Olharam-se nos olhos como se fossem estranhos e nada daquilo tivesse acontecido. Depois ela começou a falar. A voz saía-lhe mais tranquila do que imaginara. Ensaiara um discurso em casa porque receava que as suas emoções a atraiçoassem e perdesse assim a oportunidade de lhe dizer tudo quanto sentia.

- Sabes, não respeitar os sentimentos dos outros é também uma forma de não gostar dos outros. Não se pode dar sinais numa direcção e depois fugir para outra. Porque és tu quem eu quero apesar de te querer devagar. Estou cansada de desencontros e de não te compreender. Porque por vezes é melhor a verdade do que a omissão. Porque gostava apenas que me dissesses cara a cara que não é nada disto, que estou enganada. Ou que me dissesses apenas que o que eu quero tu não queres.

O seu tom de voz decidido não deixava margens para dúvidas. Ele baixou os olhos, bebeu um pouco do gin que tinha nas mãos e não disse nada. No seu pensamento estava apenas o momento em que se viram pela primeira vez naquele aeroporto do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tarde demais

Cumprimentaram-se friamente. Era a primeira vez que se viam desde a separação daí que ele não estranhasse o salto no estômago quando a viu no meio de toda aquela gente. Foi um encontro completamente inesperado. Por um momento pensou em abraçá-la, dar-lhe um beijo, mesmo, mas quando ela estendeu a mão deixou-o completamente desarmado. Achava estranho que, daquele corpo que já tinha sido seu, lhe oferecessem apenas o toque de uma mão. Trocaram umas meras palavras de circunstância e continuaram os seus caminhos. Enquanto descia a rua, ele disfarçava as lágrimas para que não percebessem que a sua ausência ainda doía muito. E compreendeu naquele instante que por vezes o amor se revela tarde demais.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Se querer-te fosse fácil...


"Procurou no bolso os comprimidos para dormir que o deixavam absolutamente inconsciente. Não os tinha tomado durante o vôo porque sabia que eram só duas horas. Mas agora, que estava quase a aterrar, apetecia-lhe desligar o cérebro por um instante que fosse... Ao mexer no bolso reparou que tinha trazido a carta, a carta dela que tinha dado origem a tudo. Releu-a uma vez mais:

"Meu bom Peter, queria tanto escrever bonito para tornar mais fácil tudo o que tenho para te dizer. Há já uns dias que ando para te falar mas falta-me a voz. O melhor mesmo é deixar-me de rodeios e escrever. Já não se usa escrever cartas, pois não? Olha, acabou. Acabou, percebes? Acabou tudo! Não quero mais. Estou cansada de vivermos assim. Quero mais. Quero-te aqui. Ou talvez não te queira aqui e isso provavelmente significa que não te quero de todo. Quero o teu sorriso rasgado e os teus olhos brilhantes mas não quero o teu sarcasmo nem o teu desencanto com a vida. Quero as tuas mãos no meu corpo e os teus lábios no meu pescoço mas não quero as tuas lágrimas durante a noite nem o teu cansaço quando acordas. Ah, se eu soubesse o que quero... Se querer-te fosse fácil... Se, se... E no entanto quero-te. Por isso parto. Vou-me embora. Parto para Lhasa dentro de três dias. Não me sigas por favor. Deixa-me ir e querer-te ao longe. Deixa-me viver na distância o que não consigo partilhar. Deixa-me enlouquecer, esquecendo-te todos os dias um pedaço. Vive! Um beijo. Dos bons.""

Pedro Rapoula, in 'Estórias'

sábado, 22 de setembro de 2007

"Sim mãezinha?"


Saiu de casa com a certeza de que não voltaria. Não sabia bem se era o último dia da sua vida ou se era exactamente o primeiro de todo o resto. Sentia apenas que o fim de uma época tinha chegado e que a sua existência iria mudar radicalmente daí para a frente.
Tinha 23 anos protegidos pela asfixiante presença da mãe que se recusava continuamente a perceber que o seu filho tinha crescido. Continuava a ir esperá-lo ao emprego, como tinha esperado o toque de saída no infantário, na escola primária, de sucessivas em sucessivas humilhações até à universidade.

O pai tinha saído de casa poucos anos depois dele ter nascido e esta sombra marcaria para sempre a sua relação com a mãe, uma mulher obcecada com a ideia do abandono. As razões da fuga do seu pai eram para si um mistério. Quando se tocava no assunto, nas raras vezes em que tinha conseguido romper a barreira de silêncio, todos baixavam os olhos com vergonha, ou com receio. A mãe tinha criado uma lenda à volta deste desaparecimento. Dizia a todos que o seu marido tinha sido mais uma vítima da ditadura, sem perceber que as datas não eram sequer coincidentes, ou se calhar compreendendo bem a mentira em que se enredara para poder continuar a viver. Talvez se recusasse a aceitar que o único homem com quem se deitara tinha saído de casa por sua causa, por causa do seu comportamento asfixiante. O filho pensava nas hipóteses: o pai tinha ido embora depois de perceber que a mulher com quem tinha casado não lhe despertava o melhor que tinha dentro de si. Ou porque a sua vida comportava limites mais vastos do que aquele triste quotidiano lhe estabelecia.

Nuno ia já ao fundo da rua (chamava-se Nuno este filho) quando se apercebeu que não sabia o que iria fazer, para onde iria ou o que queria para si. Era domingo e tirando um ou outro transeunte distraído, as ruas estavam praticamente desertas na sua melancólica calma de fim de semana. Caminhava vagarosamente, sentindo a cada passo o peso de uma decisão que iria decerto acabar com a felicidade artificial que a sua mãe tinha criado para os dois.

Enquanto se afastava de casa pensava, orgulhoso, como tinha sido fácil a sua fuga. "Vou comprar pão", disse, sabendo que se lhe faltasse a coragem poderia sempre regressar com um saco de carcaças da Padaria Mimosa que era mesmo ali na esquina. Não acreditava que fosse capaz de ultrapassar essa fronteira.

Quando passou à porta da padaria o seu coração batia a um ritmo descontrolado. Por momentos achou que algo ia explodir no seu peito, que iria ter um colapso e ficar estendido ali mesmo. Parou um pouco e encostou-se à parede, branco, ofegante e a insultar-se pela sua fraqueza. Resolveu entrar e comprar o pão, saindo a correr sem sequer levar o troco o que suscitou a desconfiança da mulher do padeiro que nunca tinha visto aquelas atitudes numa pessoa que sempre lhe parecera calma. Se lhe pedissem para descrever o Nuno diria que era uma daquelas pessoas que fica à espera que o mundo gire para dar um passo. "Uma mosca-morta!"

Entrou em casa batendo com a porta e depois de atirar o pão para a mesa da cozinha trancou-se no quarto com lágrimas de raiva nos olhos, saboreando a sensação de liberdade que lhe percorrera o corpo quando decidira fugir. Mas falhara. Uma vez mais falhara. E quando a mãe lhe bateu à porta para saber o que se passava recompos-se respondendo a frase de sempre: "sim mãezinha?"