''A SOLIDÃO DESOLA-ME; A COMPANHIA OPRIME-ME. A PRESENÇA DE OUTRA PESSOA DESENCAMINHA-ME OS PENSAMENTOS; SONHO A SUA PRESENÇA COM UMA DISTRACÇÃO ESPECIAL, QUE TODA A MINHA ATENÇÃO ANALÍTICA NÃO CONSEGUE DEFINIR.'' (FERNANDO PESSOA)
"Deus não aparece no poema apenas escutamos a sua voz de cinza e assistimos sem compreender a escuras perícias
A vida reclama inventários e detalhes não a oiças quando inutilmente perscruta as sequências do seu trânsito
Só há um modo verdadeiro de rezar: estende o teu corpo ao longo do barco que desce silencioso o canal e deixa que as folhas mortas dos bosques te cubram"
José Tolentino Mendonça (no dia em que este blog completa 4 anos)
"nos dias tristes não se fala de aves liga-se aos amigos e eles não estão e depois pede-se lume na rua como quem pede um coração novinho em folha.
nos dias tristes é inverno e anda-se ao frio de cigarro na mão a queimar o vento e diz-se bom dia! às pessoas que passam depois de já terem passado e de não termos reparado nisso
nos dias tristes fala-se sozinho e há sempre uma ave que pousa no cimo das coisas em vez de nos pousar no coração e não fala connosco."
"(...) O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido. O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu. Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre. Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma. Tudo isto tem significado para o teu presente. Mas recua duzentos anos e verás que nada disto tem já significado. "
Vergílio Ferreira, in 'Escrever' (porque hoje acordei com pensamentos menos felizes)
"Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém - mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar, para que não se extinga o seu lume, o seu lume breve. Palavras que muito amei, que talvez ame ainda. Elas são a casa, o sal da língua."
"Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci."
"Sei o mês exacto por medo de perder-te Ainda. Como as viúvas indo para a missa Cobrindo-me de luto, curva Tão dolorosa, pondão desasteado, mendigo A quem tivéssemos dado pão. A porção Exacta, sei-a - eu dividi Para dar-ta inteira - a minha vida"
"com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. (...). fica-se muito zangado como pessoa. não se criem dúvidas acerca disso. fica-se zangado e deseja-se aos outros pouco bem, e o mal que lhes pode acontecer é-nos indiferente ou, mais sinceramente, até nos reconforta, isso sim, como um abraço de embalo, para que não se ponham por aí a arder como o sol, e sobretudo, não nos falem com uma alegriazinha ingénua, de tempo contado, e não nos façam perceber o quanto éramos também ingénuos e nunca nos preparámos para a derrocada de todas as coisas. nunca nos preparamos para a realidade. passamos a ser cidadãos terrivelmente antipáticos, mesmo que façamos uma gestão inteligente desse desprezo que alimentamos crescendo. e só não nos tornamos perigosos porque envelhecer é tornarmo-nos vulneráveis e nada valentes, pelo que enlouquecemos um bocado e somos só como feras muito grandes sem ossos, metidas dentro de sacos de pele imprestáveis que já não servem para nos impor verticalidade nem nas mais pequenas batalhas. como faria falta ferrarmos toda a gente e vingarmo-nos do mundo por manter as primaveras e a subitamente estúpida variedade das espécies e as manifestaçoes do mar e a expectativa do calor e a extensão dos campos e as putas das flores e das arvorezinhas cheias de passarinhos cantantes aos quais devíamos torcer o pescoço para nunca mais interferirem com as nossas feridas profundas. que se fodam. que se fodam os discursos de falsa preocupação dessa gente que sorri diante de nós mas que pensa que é assim mesmo, afinal, estamos velhos e temos de morrer, um primeiro e o outro depois e está tudo muito bem. sorriem, umas palmadinhas nas costas, devagar que é velhinho, e depois vão-se embora para casa a esquecerem as coisas mais aborrecidas dos dias. onde ficamos nós, os velhinhos, uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos. que ódio tão profundo nos nasce. como incrivelmente nos nasce alguma coisa num tempo que já supúnhamos tão estéril."
valter hugo mãe, in 'a máquina de fazer espanhóis'
"Silêncio! Do silêncio faço um grito O corpo todo me dói Deixai-me chorar um pouco.
De sombra a sombra Há um Céu...tão recolhido... De sombra a sombra Já lhe perdi o sentido.
Ao céu! Aqui me falta a luz Aqui me falta uma estrela Chora-se mais Quando se vive atrás dela.
E eu, A quem o sol esqueceu Sou a que o mundo perdeu Só choro agora Que quem morre já não chora.
Solidão! Que nem mesmo essa é inteira... Há sempre uma companheira Uma profunda amargura.
Ai, solidão Quem fora escorpião Ai! solidão E se mordera a cabeça!
Adeus Já fui para além da vida Do que já fui tenho sede Sou sombra triste Encostada a uma parede.
Adeus, Vida que tanto duras Vem morte que tanto tardas Ai, como dói A solidão quase loucura"
Amália Rodrigues (para a Natasha, autora da foto. Há mortes que nos entram pela casa quando menos esperamos. São perdas estúpidas, inúteis e revoltantes. Hoje estou revoltado. Perdi uma recente mas boa amiga. Escolheu deixar-nos. E deixou-nos. Sem respostas. Impotentes. E muito mais vazios. Até sempre Natasha!)
"Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe Ter escrito com o sangue. Também poderia ter escrito as visões Se os olhos divididos em partes não sobrassem No vazio de ceguez E luz. Poderia ter escrito o que sei Do futuro e de ti E de ter visto o deserto O silêncio, o fogo e o dilúvio. De dormir cheio de sede e poderia Escrever O interior do repouso E ser faúlha onde a morte vive E a vida rompe. E poderia ter escrito o meu nome no teu nome Porque me alimento da tua boca E na palavra me sustento em ti."
"A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua mais que perfeita imprecisão, os dias que contam quando não se espera, o atraso na preocupação dos teus olhos, e as nuvens que caíram mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações a abrir-se para dentro e para fora dos sentidos que nada têm a ver com círculos, quadrados, rectângulos, nas linhas rectas e paralelas que se cruzam com as linhas da mão;
a vida que traz consigo as emoções e os acasos, a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram e dos encontros que sempre se soube que se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, sob a luz indecisa que apenas mostra as paredes nuas, de manchas húmidas no gesso da memória;
a vida feita dos seus corpos obscuros e das suas palavras próximas."
Esses estranhos que nós amamos e nos amam olhamos para eles e são sempre adolescentes, assustados e sós sem nenhum sentido prático sem grande noção da ameaça ou da renúncia que sobre a luz incide descuidados e intensos no seu exagero de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza pois o fortuito significado dos campos explica por outras palavras aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria de uma maneira que nem se consegue e por isso ténue, misteriosa: talvez seja assim todo o amor"
um poema de José Tolentino Mendonça que lhe dedico no dia do seu aniversário. Obrigado pela presença, pelo carinho e pela amizade. Muitos parabéns!
"As coisas vulgares que há na vida não deixam saudade, só as lembranças que doem ou fazem sorrir".
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Estou em São Paulo. Vim para estar junto da minha avó, hoje, quando passa um ano sobre a sua morte.
Não esqueço este dia. Não esqueço o seu último olhar. Não esqueço o último beijo que trocámos. Não esqueço as promessas de encontros futuros. Não esqueço a esperança de que tudo iria acabar bem. Não esqueço como tudo acabou mal.
Perante o seu túmulo, numa terra que não é a nossa, neste calor de Dezembro de uma pátria emprestada, desejo a chuva e o frio de Lisboa. Só isso faz sentido num dia como o de hoje. Até sempre Avó.
"As coisas vulgares que há na vida Não deixam saudades Só as lembranças que doem Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história da história da gente e outras de quem nem o nome lembramos ouvir
São emoções que dão vida à saudade que trago Aquelas que tive contigo e acabei por perder
Há dias que marcam a alma e a vida da gente e aquele em que tu me deixaste não posso esquecer
A chuva molhava-me o rosto Gelado e cansado As ruas que a cidade tinha Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça perdida gritava à cidade que o fogo do amor sob chuva há instantes morrera
A chuva ouviu e calou meu segredo à cidade E eis que ela bate no vidro Trazendo a saudade "
Se a minha avó fosse viva, fazia hoje 82 anos. Parto para o Brasil esta noite para a homenagear na cidade em que passou os seus ultimos anos de vida. Dia 8 passará um ano da sua morte. Estarei junto ao seu túmulo para encerrar este ano de luto. E de perdas. A dela foi apenas a primeira.
Neste dia do seu aniversário, fica um ramo de rosas vermelhas, as suas flores favoritas. Amanhã estaremos mais próximos.
"Encham a casa de rosas Mas de rosas naturais Dessas que trepam viçosas Pelos muros dos quintais
Rosas de todas as cores Que me tragam alegria Que têm todas as flores Abertas à luz do dia
E que sejam macias Para as ter ao pé de mim Mas não sejam rosas frias Como essas de cetim
E seja tudo surpresa Como se fosse a sonhar Ponham, ponham flores na mesa Que hoje não quero chorar."
Era uma vez uma criada que queria muito ser princesa. Sonhava todos os dias que chegaria um Príncipe num cavalo branco para a resgatar dessa vida triste. Tanto andou, tanto andou que acabou por casar com um polícia. Foi a farda que a iludiu. Conheceram-se quando ele foi a casa da patroa entregar uma notificação do tribunal. O casamento foi simples mas bonito. Ela foi de branco porque até então não conhecera homem. A menina das alianças foi a vizinha do terceiro andar que era anã e parecia uma criança. Mas não foi de branco porque essa, sim, conhecera homens vários, aliás, conhecia-os pelo menos às terças e quintas das 16h às 18h (menos aos feriados). A criada e o polícia viviam juntos numas águas furtadas na Mouraria. Ele gostava de fado e ela gostava de futebol. A Fátima não iam muito porque era longe mas chegaram a ir e pararam na Casa das Regueifas para comprar uma regueifa que comeram às fatias, torradas com manteiga nessa mesma noite. A vida lá ia andando, uns dias melhor e nos outros pior, como Deus queria. Aos domingos iam à missa e quando ele estava de folga iam a Sintra comer queijadas. Um dia o polícia levou um tiro num bairro problemático de Lisboa e morreu no hospital de Amadora-Sintra. Ela nunca mais foi à missa mas concorreu a um concurso público e passou a lavar as escadas do Palácio da Ajuda que ainda por cima eram muitas. Diz que um dia destes se deixa ficar por lá durante a noite e vai experimentar as camas todas que encontrar. Para ser princesa por um dia. As más linguas dizem que ela quer é experimentar os seguranças todos do palácio. Mas disso eu não percebo nada...
"Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?"