segunda-feira, 9 de junho de 2008

Uma mão humana

"Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
Clarice Lispector

sábado, 7 de junho de 2008

Uma cançao que fosse só tua

Certa vez disse-te que um dia te escrevia uma canção. Tu respondeste que sim, que gostavas muito que isso acontecesse. Fui para casa e comecei a juntar palavras na certeza de que queria mesmo escrever uma canção que fosse só tua. Depois percebi que a verdadeira canção estava no teu sorriso. Percebi que os melhores acordes eram os teus olhos. Que a melodia perfeita era o teu olhar. Que não havia partitura tão feliz como o teu corpo. Percebi que eras tu a sinfonia. E que eu nunca seria um compositor de canções porque nem as palavras nem as notas musicais tinham escala para celebrar o que sentia por ti. 

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Made for you



"All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
But these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true...I was made for you

I climbed across the mountain tops
Swam all across the ocean blue
I crossed all the lines and I broke all the rules
But baby I broke them all for you
Because even when I was flat broke
You made me feel like a million bucks
Yeah you do and I was made for you

You see the smile that's on my mouth
Is hiding the words that don't come out
And all of my friends who think that I'm blessed
They don't know my head is a mess
No, they don't know who I really am
And they don't know what I've been through like you do
And I was made for you..."

Brandi Carlile, in 'The Story'

E nunca mais

"Para te amar ensaiei os meus lábios...
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos...
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio...
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!"

Pedro Homem de Mello, in 'Poesias Escolhidas'

quinta-feira, 5 de junho de 2008

palácios e pérolas


"(...)

foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

(...)"

Adília Lopes, in 'Obra'
(porque li isto vezes sem conta sem perceber o quanto faz sentido)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Desse amor que eu nego tanto



"Já conheço os passos dessa estrada,
Sei que não vai dar em nada,
Seus segredos sei de cor.
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar tanto pior.
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto,
Evito tanto,
E que no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar?
Com seus mesmos tristes, velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar.
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer.
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado.
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão.
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração."

Tom Jobim por Maria João, in 'João'

terça-feira, 3 de junho de 2008

Entre um anseio vão e um sonho vão

"Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem."

Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Livre mas triste

"Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."

Fernando Pessoa

domingo, 1 de junho de 2008

Nem já o pranto



"Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura

Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá

Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto...
Sabe-o Deus e sei-o eu"


Fernando Caldeira por Carmo Rebelo de Andrade

sábado, 31 de maio de 2008

Trocando passos com a solidão



"Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
As vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você

É... mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você..."

Ana Carolina
("... e eu vou lembrar você")

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Livre


"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas"


Sophia de Mello Breyner Andresen
(para ti, porque os Horizontes nem sempre são Belos)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Ton corps comme un torrent de Lave



"Lave
Ma mémoire sale dans son fleuve de boue
Du bout de ta langue nettoie-moi partout
Et ne laisse pas la moindre trace
De tout ce qui me lie et qui me lasse
Hélas ..

Chasse
Traque-la en moi, ce n'est qu'en moi qu'elle vit
Et lorsque tu la tiendras au bout de ton fusil
N'écoute pas si elle t'implore
Tu sais qu'elle doit mourir d'une deuxième mort
Alors tue-la encore

Pleure
Je l'ai fait avant toi et ça ne sert à rien
A quoi bon les sanglots, inonder les coussins
j'ai essayé, j'ai essayé
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Alors...

Brûle
Brûle quand tu t'enlises dans mon grand lit de glace
Mon lit comme une banquise qui fond quand tu m'enlaces
Plus rien n'est triste, plus rien n'est grave
Si j'ai Ton corps comme un torrent de Lave
Ma memoire sale dans un fleuve de boue"



Alex Beaupain por Louis Garrel, in 'Les Chansons d'amour'
(para te dizer que as saudades não desaparecem assim...)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Entre a esperança e o medo


“Depois da tristeza vem a alegria; depois da alegria vem a tristeza. Estamos sempre na instabilidade, entre a esperança e o medo.” 

John Owen

terça-feira, 27 de maio de 2008

Do meu amor viajante

"Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo."
Pablo Neruda
(porque sinto tanto, tanto a tua falta...)

sábado, 24 de maio de 2008

Rasgar a solidão

"Já estou farta de estar só
Acompanhada de nada
Já estou louca de ser rua
Tão corrida tão pisada
Já estou prenhe de amizade
Tão barriga de saudade

Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar
O olhar de uma canção
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto
Mais longe e mais além
Mas a saber que sou alguém

Na cidade sou loucura
Sou begónia sou ciúme
E eu que sonhava ser rua
Caminho atalho lonjura
Não tenho assento na festa
Sou a migalha que resta."

por Raquel Tavares, in 'Bairro'
(Custa-me a tua ausência. Mas isso, claro, tu já sabes.)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Svanì per sempre il sogno mio d'amore...





'Tosca' de Puccini, 
em cena no Teatro Nacional de São Carlos até 7 de Junho 

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Destruição


"Quando se trata de destruir, todas as ambições se aliam facilmente."
Júlio Verne

"Não destruas o que não fizeste."
Sólon

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Mil dias antes de te conhecer




"Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer"

Edu Lobo e Chico Buarque por Maria João, in 'João'

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Até o fim


"(...)
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
(...)"


Alguns versos de Chico Buarque cantados hoje por Maria João, no Teatro São Luíz, num concerto fantástico. A tua cadeira, ao meu lado, ficou vazia. E foi a tua ausência o que me custou mais... Estás longe.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Minha Senhora



"Minha Senhora das Dores
A dor que por mim sentiste
É dor que ainda persiste
em cada dos teus favores.
Teus lábios tecem louvores,
Louvores que eu pouco mereço.
E é maldade o que eu te ofereço,
Ofensas e dissabores.
Senhora, trocas louvores
Pelos meus carinhos pardos,
Pois são espinhos e são cardos
Que eu troco p'las tuas flores.
Num cortejo de mil cores
É o céu que de ti vem,
Ó Senhora minha Mãe,
Minha Senhora das Dores."

Jorge Rosa, por Katia Guerreiro e Bernardo Sassetti

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tarde demais

Cumprimentaram-se friamente. Era a primeira vez que se viam desde a separação daí que ele não estranhasse o salto no estômago quando a viu no meio de toda aquela gente. Foi um encontro completamente inesperado. Por um momento pensou em abraçá-la, dar-lhe um beijo, mesmo, mas quando ela estendeu a mão deixou-o completamente desarmado. Achava estranho que, daquele corpo que já tinha sido seu, lhe oferecessem apenas o toque de uma mão. Trocaram umas meras palavras de circunstância e continuaram os seus caminhos. Enquanto descia a rua, ele disfarçava as lágrimas para que não percebessem que a sua ausência ainda doía muito. E compreendeu naquele instante que por vezes o amor se revela tarde demais.

domingo, 11 de maio de 2008

sábado, 10 de maio de 2008

Os momentos de desgosto mais profundos e de desespero

"Mas o que é que se está a passar comigo neste momento? Uma alegria tão ligeira, quase brincalhona? Ontem foi um dia difícil, muito difícil, no qual houve muito sofrimento interior a ter de interiorizar. E mais uma vez superei tudo o que veio ao meu encontro, e consigo aguentar novamente mais do que ontem. E foi isso provavelmente que me deu a satisfação interior e a calma: como eu noto, de cada vez que consigo lidar com as coisas completamente sozinha, como o meu coração não mirra de amargura nesse processo, e também como os momentos de desgosto mais profundos e de desespero deixam em mim as suas sementes e me fortalecem. Não tenho grandes ilusões acerca da verdadeira situação e até mesmo à pretensão de ajudar os outros eu renuncio. Hei-de partir sempre do princípio de ajudar Deus tanto quanto possível e se conseguir, pois bem, nesse caso também estou disponível para outros. Mas ilusões heróicas sobre isso, é melhor também não as ter."

Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Talvez o mais belo


"O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo"


José Tolentino Mendonça, in Baldios

quinta-feira, 8 de maio de 2008

E as minhas duas mãos quebradas


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Só em minha alma é noite escura



"Não queiram mal a quem canta quando uma garganta esta desgarra
que a mágoa já não é tanta se a confessar à guitarra.
Quem canta sempre se ausenta da hora cinzenta da sua amargura
Não sente a cruz tão pesada na longa estrada da desventura.
Eu só entendo o fado plangente, amargurado, à noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração num tom magoado, tão frio como as neves do caminho.
Que chore uma saudade ou cante a ansiedade de quem tem por amor chorado.
Dirão que isto é fatal, é natural, mas é lisboeta e isto é que é o fado.
Oiço guitarras vibrando e vozes cantando na rua sombria
As luzes vão-se apagando a anunciar que é já dia
Fecho em silêncio a janela, já se ouvem na viela rumores de ternura
Surge a manhã fresca e calma, só em minha alma é noite escura.
Eu so entendo o fado plangente, amargurado, à noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração num tom magoado tão frio como as neves do caminho
Que chore uma saudade ou cante a ansiedade de quem tem por amor chorado.
Dirão que isto é fatal, é natural, mas é lisboeta e isto é que é o fado..."

por Raquel Tavares

terça-feira, 6 de maio de 2008

Não conseguir aguentar a vida


"(...) Às vezes custa-me tanto esforço para estabelecer a fasquia de trabalho para o dia: levantar-me, lavar-me, fazer ginástica, calçar meias sem buracos, pôr a mesa, em suma, "orientar-me" no dia-a-dia, que poucas forças me restam para outras coisas. Então fico, após me ter levantado a horas como outro cidadão qualquer, com o sentimento de orgulho de já ter realizado uma porção de coisas. Contudo, isso é o mais importante para mim: a disciplina exterior, enquanto a interior ainda não está em ordem. Se de manhã durmo por mais uma hora, tal não significa para mim recuperar o sono, significa sim não conseguir aguentar a vida e fazer greve."

Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

domingo, 4 de maio de 2008

E por vezes feliz

"(...)
Não existe a fusão de duas vidas. Pelo menos para mim não. Às vezes, por alguns momentos, sim. Mas será que esses momentos justificam a união para uma vida inteira? Será que essa meia dúzia de momentos consegue cimentar uma vida em comum? Porém também há um sentimento forte. E por vezes feliz. Só. Deus. Mas custa. Porque o mundo permanece inóspito. 
O meu coração é muito bravio, mas nunca para uma só pessoa. Para todas as pessoas. Este coração é também, creio, muito rico E antigamente pensava sempre como é que o iria dar a uma só pessoa. Mas isto não tem sentido. E quando uma pessoa aos 27 anos atinge estas pesadas "verdades", se isso provoca, por um lado, um sentimento de desespero e solidão e medo, por outro, também provoca uma sensação de independência e de orgulho. Estou confiada a mim mesma e terei de me desembaraçar sozinha. O único padrão que tens és tu própria. Repito-te mais uma vez. E a única responsabilidade com que poderás arcar na tua vida, é para contigo própria. Mas neste caso também terás que o fazer totalmente."

Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

sábado, 3 de maio de 2008

Não compreender



"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
(...)"




Alberto Caeiro

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Na realidade repetidamente

"Há um desassossego em mim, um desassossego bizarro, diabólico, que poderia ser produtivo se eu o soubesse utilizar. Um desassossego criador. Não se trata de um desassossego do corpo. Nem mesmo uma dúzia de excitantes noites de amor lhe conseguiriam pôr fim. É um desassossego quase "sagrado". 
(...)
Às vezes desejava estar numa cela conventual, com a sabedoria sublimada de séculos nas prateleiras de livros ao longo das paredes, e com vista para as searas - têm mesmo de ser searas e também de ondular - e aí eu quereria aprofundar-me nos séculos e em mim mesma, e, com o correr do tempo, viriam então o sossego e a clareza. Mas assim não custaria nada. Aqui, neste lugar, neste mundo e agora, tenho de alcançar o entendimento, o sossego e o equilíbrio. Tenho de me lançar na realidade repetidamente, tenho de me explicar tudo o que surge no meu caminho, o mundo exterior precisa de receber sustento do meu mundo interior e vice-versa, mas é tudo tão extremamente difícil, e porque é que tenho esta sensação de sufoco por dentro?"


Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O vácuo e o porquê

"(...)
O dia começou tão bem, nítido e claro na minha cabeça, devo escrever sobre isso mais tarde, e depois uma grande depressão; uma pressão no crânio da qual não me consegui livrar, e pensamentos deprimentes, demasiado deprimentes para meu gosto, e por detrás deles o vácuo e o porquê, mas contra isso tambem hei-de lutar.
Como uma melodia, o mundo rola nas mãos de Deus, estas palavras de Verwey não me saíram da cabeça durante todo o dia. Quem me dera ser melodicamente eu a rolar nas mãos de Deus.
(...)"
Etty Hillesum, in 'Diário 1941-1943'

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Tu tens um fado, eu tenho outro


"Eu queria cantar-te um fado
Que toda a gente ao ouvi-lo
Visse que o fado era teu.
Fado estranho e magoado,
Mas que pudesses senti-lo
Tão na alma como eu.
E seria tão diferente
Que ao ouvi-lo toda a gente
Dissesse quem o cantava.
Quem o escreveu não importa
Que eu andei de porta em porta
Para ver se te encontrava.
Eu hei-de pôr nalguns versos
O fado que há nos teus olhos
O fado da tua voz.
Nossos fados são diversos
Tu tens um fado, eu tenho outro
Triste fado temos nós."

A. de Sousa Freitas por Amália Rodrigues, in 'Amália - No Café Luso'

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Juntos de outono, de água, de quadris



"Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo, que solidão errante até tua companhia! Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva. Em taltal não amanhece ainda a primavera. Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos, juntos desde a roupa às raízes, juntos de outono, de água, de quadris, até ser só tu, só eu juntos. Pensar que custou tantas pedras que leva o rio, a desembocadura da água de Boroa, pensar que separados por trens e nações tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos com todos confundidos, com homens e mulheres, com a terra que implanta e educa cravos."

Pablo Neruda

quarta-feira, 23 de abril de 2008

De te amar porque te vi


"Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei

Olhas para mim às vezes
Como quem sabe quem sou
Depois passam dias meses
Sem que vás por onde vou

(...)
Como nunvens pelo céu
Passam os sonhos por mim
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi"


Fernando Pessoa

terça-feira, 22 de abril de 2008

Coisas Pequenas

"Coisas pequenas são
Coisas pequenas
São tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são, coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar

Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é, coisa pequena,
que nada é maior que amar

E a hora, que te espreita, é só tua
decerto, não será só a que resta,
a hora que esperei a vida toda
é esta

E a hora, que te espreita, é derradeira
decerto já bateu à tua porta
a hora que esperei a vida inteira
é agora
é agora."

Pedro Ayres Magalhães por Madredeus, in 'O Paraíso'

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O que em mim vai

"Sopra demais o vento para eu poder descansar ...
Há no meu pensamento qualquer coisa que vai parar.
Talvez esta coisa da alma que acha real a vida,
Talvez esta coisa calma que me faz a alma vivida ...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo se me perco a meditar
Vento que passa e esquece, poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse saber o que em mim vai..."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 16 de abril de 2008

E se um olhar lhe bastasse


"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P´ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!"

por Camané

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um pôr-do-sol no pensamento


"Talvez não saibas mas dormes nos meus dedos
aonde fazem ninho as andorinhas
e crescem frutos ruivos e há segredos
das mais pequenas coisas que são minhas.

Talvez tu não conheças mas existe
um bosque de folhagem permanente
aonde não te encontro e fico triste
mas só de te buscar fico contente.

Oh meu amor, quem sabe se tu sabes
sequer se em ti existo ou sou demora,
ou sou como as palavras, essas aves
que cantam o teu nome a toda a hora.

(...)

Talvez não compreendas mas o vento
anda a espalhar em ti os meus recados,
e que há um pôr-do-sol no pensamento
quando os dias são azuis e perfumados.

Oh meu amor, quem sabe se tu sabes
sequer se em ti existo ou sou demora,
ou sou como as palavras, essas aves
que cantam o teu nome a toda a hora."

Joaquim Pessoa por Katia Guerreiro, in 'Tudo ou Nada'

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Da alvorada que há em ti

"Queria conhecer os teus segredos
e penetrar-te assim devassamente.
E ter tua vontade entre os meus dedos
e comandá-la assim seguramente.
Queria dizer - vem - e tu partires
ao meu encontro muito alegremente - 
e dizer-te - não venhas - e não vires
chorando um bem perdido eternamente.
Queria que me desses tão somente 
um pouco da alvorada que há em ti
e a tua coerência incoerente.
Mas se apenas na noite se pressente
esses sinais de um tempo que perdi
que seja noite indefinidamente."
João Mattos e Silva, in 'Intemporal - Antologia'

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Incerteza


"Gostaria de conseguir apagar dos teus olhos a incerteza de ti próprio."
Assunção Castelo Branco, in 'Coisas da Vida'

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Eterna, continuas...


"Ó solidão! À noite, quando, estranho,
Vagueio sem destino, pelas ruas,
O mar todo é de pedra... E continuas.
Todo o vento é poeira... E continuas.
A lua, fria, pesa... E continuas.
Uma hora passa e outra... E continuas.
Nas minhas mãos vazias continuas,
No meu sexo indomável continuas,
Na minha branca insónia continuas,
Paro como quem foge. E continuas.
Chamo por toda a gente. E continuas.
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.
Invento um verso... E rasgo-o. E continuas.
Eterna, continuas...
Mas sei por fim que sou do teu tamanho!"


Pedro Homem de Mello, in 'Poesias Escolhidas'

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Se querer-te fosse fácil...


"Procurou no bolso os comprimidos para dormir que o deixavam absolutamente inconsciente. Não os tinha tomado durante o vôo porque sabia que eram só duas horas. Mas agora, que estava quase a aterrar, apetecia-lhe desligar o cérebro por um instante que fosse... Ao mexer no bolso reparou que tinha trazido a carta, a carta dela que tinha dado origem a tudo. Releu-a uma vez mais:

"Meu bom Peter, queria tanto escrever bonito para tornar mais fácil tudo o que tenho para te dizer. Há já uns dias que ando para te falar mas falta-me a voz. O melhor mesmo é deixar-me de rodeios e escrever. Já não se usa escrever cartas, pois não? Olha, acabou. Acabou, percebes? Acabou tudo! Não quero mais. Estou cansada de vivermos assim. Quero mais. Quero-te aqui. Ou talvez não te queira aqui e isso provavelmente significa que não te quero de todo. Quero o teu sorriso rasgado e os teus olhos brilhantes mas não quero o teu sarcasmo nem o teu desencanto com a vida. Quero as tuas mãos no meu corpo e os teus lábios no meu pescoço mas não quero as tuas lágrimas durante a noite nem o teu cansaço quando acordas. Ah, se eu soubesse o que quero... Se querer-te fosse fácil... Se, se... E no entanto quero-te. Por isso parto. Vou-me embora. Parto para Lhasa dentro de três dias. Não me sigas por favor. Deixa-me ir e querer-te ao longe. Deixa-me viver na distância o que não consigo partilhar. Deixa-me enlouquecer, esquecendo-te todos os dias um pedaço. Vive! Um beijo. Dos bons.""

Pedro Rapoula, in 'Estórias'

terça-feira, 8 de abril de 2008

I'm just a small step behind you

"In this little town
cars they don't slow down
The lonely people here
They throw lonely stares
Into their lonely hearts
I watch the traffic lights
I drift on Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But girl you're so far away
Oh, hold still for a moment and I'll find you
I'm so close, I'm just a small step behind you girl
And I could hold you if you just stood still
I jaywalk through this town
I drop leaves on the ground
But lonely people here
Just gaze their eyes on air
And miss the autumn roar
I roam through traffic lights
I fade through Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But man you're so far away
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
You're so close, I can feel you all around me boy
I know you're somewhere out there
I know you're somewhere out there
Oh, hold still for a moment and I'll find you
You're so close, I can feel you all around me
And I could hold you if you just stood still
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
I'm so close, I'm just a small step behind you
I know you're somewhere out there"

David Fonseca (Feat. Rita Redshoes) in 'Our heart will beat as one'

sábado, 5 de abril de 2008

Dói no corpo devagar



"Esta palavra Saudade
Sete letras de ternura
Sete letras de ansiedade
E outras tantas de aventura
Esta palavra saudade
A mais bela e a mais pura
Sete letras de verdade
E outras tantas, de loucura
Sete pedras, sete cardos
Sete facas e punhais
Sete beijos que são dados
Sete pecados mortais
Esta palavra saudade
Dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta,
fica na cama a chorar
Esta palavra saudade
Sabe a sumo de limão
Tem um travo de amargura,
Que nasceu no coração
Ai palavra amarga e doce
estrangulada na garganta
Palavra com se fosse
o silêncio, que se canta
Meu cavalo imenso e louco
a galopar na distância
Entre o muito e entre o pouco,
que me afasta da infância
Esta palavra saudade
é a mais prenha de pranto,
como um filho que nascesse
Por termos sofrido tanto
Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,
Enquanto a gente for viva
Esta palavra saudade
sabe ao gosto das amoras
Cada vez que tu não vens,
cada vez que tu demoras
Ai palavra amarga e doce,
debruçada na idade
Palavra como se fossemos
resto de mocidade
Marcada por sete letras
a ferro e a fogo no tempo
Ai, palavra dos poetas
que a disparam contra o vento
Esta palavra saudade
dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta
fica na cama a chorar
Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,
Enquanto a gente for viva"

J. C. Ary dos Santos, por Marisa Pinto em 'Um País chamado Simone'

quinta-feira, 3 de abril de 2008

MINCAYENI: A case of you


"Just before our love got lost you said
"I am as constant as a northern star"
And I said, "Constant in the darkness
Where's that at?
If you want me I'll be in the bar"

On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
And I sketched your face on it twice

Oh you are in my blood like holy wine
Oh and you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet

Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me, you said
"Love is touching souls"
Surely you touched mine
"Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time

Oh you are in my blood like holy wine
And you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet

I met a woman
She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
"Go to him, stay with him if you can
Oh but be prepared to bleed"
Oh but you are in my blood you're my holy wine
Oh and you taste so bitter but you taste so sweet
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
Still I'd be on my feet
I'd still be on my feet

Joni Mitchell by Cristina Branco, in 'Ulisses'

terça-feira, 1 de abril de 2008

I’d like to call you sometime

"What would you do if I kissed you?
What would you do if I held your hand and laid you down?
Would you find me overly unkind to you?
Would you call me insensitive, and say that I deserve to die?
What do I do with all these feelings tearing me up inside?
What do I do with all these wasted hours dreaming of you at night?
I' d like to call you sometime…
What would you do if you knew the truth?
What would you do if I told you the story of my life?
Would you find me overly familiar towards you?
Would you call me crude, fling me aside to the birds?
What do I do with all these feelings holding me back inside?
What do I do with all these wasted hours dreaming of you at night?
I'd like to call you sometime
I'd like you to need me one time
I’d like to call you sometime
What would you do if I kissed you?
What would you do if I held your hand and laid you down?
Would you recognize it’s a need I've been fighting for so long?
Would you recognize it’s a hunger only you can fill?
What do I do with all these feelings warming me up inside?
What do I do with all these glorious hours dreaming of you at night?
I'd like to call you sometime
I'd like you to need me one time
I'd like to have you all the time
I'd like to call you..."

"I'd Like" by Freshlyground, in 'Nomvula'

segunda-feira, 31 de março de 2008

Todos os dias

"(...)
És, para meu desespero, como as nuvens que andam altas.
Todos os dias te espero, todos os dias me faltas."

João Linhares Barbosa

quinta-feira, 27 de março de 2008

A cumprir uma pena


Porque será que não canto como canta a cotovia?
O meu cantar nem é pranto, é gemer de uma agonia.
Chora sim meu coração, tens razão para o fazer.
Matou a vida a ilusão, que não tornas a viver
'Sofrer fez-me diferente' - dizes tu e tens razão,
Pois não é impunemente que se tem um coração.
Ando a cumprir uma pena mas crime não cometi.
Só sei que ela me condena a viver longe de ti.

por Maria Teresa de Noronha

terça-feira, 25 de março de 2008

Tenho mais medo da vida



Eu quero bem aos teus olhos
Mas muito mais quero aos meus
pois se perdesse os meus olhos
Não podia ver os teus

Se eu de saudades morrer 
Apalpa o meu coração 
Talvez eu torne a viver
Ao calor da tua mão 

Se os meus olhos te incomodam 
Quando estão na tua frente 
Ai, eu prometo arrancá-los
E amar-te cegamente

Gosto de cantar o fado, 
Acho que o fado tem raça
E que não foi só criado
Para cantar a desgraça

Se tenho medo da morte
(Não tanto como supões),
Tenho mais medo da vida
E das suas ilusões

por Maria Teresa de Noronha

sábado, 22 de março de 2008

Say...


"RAOUL
No more talk of darkness,
Forget these wide-eyed fears
I'm here, nothing can harm you
my words will warm and calm you
Let me be your freedom,
let daylight dry your tears.
I'm here with you, beside you,
to guard you and to guide you...

CHRISTINE
Say you love me every waking moment,
turn my head with talk of summertime...
Say you need me with you now and always...
Promise me that all you say is true
that's all I ask of you

RAOUL
Let me be your shelter
let me be your light
You're safe, No one will find you
your fears are far behind you...

CHRISTINE
All I want is freedom,
a world with no more night
and you, always beside me, to hold me and to hide me...

RAOUL
Then say you'll share with me
one love, one lifetime
let me lead you from your solitude
Say you need me with you here, beside you...
anywhere you go, let me go too
Christine, that's all I ask of you...

CHRISTINE
Say you'll share with me one love, one lifetime...
say the word and I will follow you...
Share each day with me,
each night, each morning...
Say you love me...

RAOUL
You know I do...

BOTH
Love me - that's all I ask of you
Anywhere you go let me go too
Love me - that's all I ask of you..."

Andrew Lloyd Webber, in 'The Phantom Of The Opera'

sexta-feira, 21 de março de 2008

A promessa


A promessa do teu olhar ficou por cumprir.
Morreram ali as madrugadas,
E uma névoa de desencanto apagou as memórias de um tempo feliz.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Destino


"O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui
(...)"


José Tolentino Mendonça, in 'A noite abre meus olhos'

segunda-feira, 10 de março de 2008

Me aceitar sem você

"Eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes, eu pensei que já nem me lembrasse de coisas passadas. Eu pensei que pudesse enganar à mim mesma dizendo que essas coisas da vida em comum não ficavam marcadas. Não pensei que me fizessem falta umas poucas palavras dessas coisas simples que dizemos antes de dormir. De manhã um "bom dia", na cama a conversa informal, o beijo, depois o café, os carros, o jornal. Os costumes me falam de coisas e factos antigos. Não esqueço das tardes alegres com nossos amigos. Um final de programa, fim de madrugada, o aconchego na cama, a luz apagada. Essas coisas só mesmo com o tempo se pode esquecer. Então eu me vejo sozinha, como estou agora e respiro toda liberdade que alguém pode ter. De repente ser livre até me assusta, me aceitar sem você, certas vezes me custa. Como posso esquecer dos costumes se nem mesmo me esqueci de você?"

da dupla Roberto Carlos/Erasmo Carlos
por Maria Bethânia, in '
As canções que você fez pra mim'

(O vídeo é absolutamente medonho mas era o que havia. Descobri esta música recentemente - esta semana - e gosto tanto que não resisto a colocá-la aqui. Sei que ando meio ausente e meio disperso. O Da.Inquietude tem ficado por actualizar. É mesmo falta de tempo, falta de paciência e falta de vontade. Melhores dias virão.)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Que a solidão não seja deserta


"(...) importa-me que a solidão não seja deserta, por isso fico sozinho com muitos amigos cada vez mais imaginários: a amália, a patty waters, o caetano veloso, a lisa gerrard, a diamanda galás, a billie holiday, o devendra banhart, o bosch, o william blake, o conde de lautréamont, o lars von trier, o oscar wilde, o william shakespeare, o camões, o jorge melícias, a josefa de óbidos, o mozart, o da vinci, o josé saramago, a vashti bunyan, a baby dee, o cartola, o david tibet, o ruy belo, o vitorino nemésio, a lisa santos silva, david sylvian, o samuel beckett, o rui lage, o luís miguel nava, o al berto, o jean genet, o chico buarque, o antónio lobo antunes, o ingmar bergman, o júlio saul dias, o hitchcock, o david lynch, a michelle pfeiffer, o antonio gamoneda, a nina simone, a ella fitzgerald, o mário de carvalho, o raul perez, o loius armstrong, o chet baker, o mário cláudio, o artur do cruzeiro seixas, o mário de cesariny, o lee ranaldo, a kim gordon, o mahler, o joão peste, o joão gilberto, a elizabeth frazer, o william burroughs, o franz kafka, a isabel de sá, o daniel faria, o eça de queirós, o manuel de oliveira, a agustina, o federico fellini, o pier paolo pasolini, o vítor rios, o ferreira gullar, o bach, o vergílio ferreira, a chan marshall, o rostropovich, o gould, o arvo part, a adília lopes, o josé régio, o baudelaire, o t. s. elliot, o umberto eco, o ítalo calvino, a lula pena. etc etc etc etc. (...)
se não fosse a escrita só a música me ganharia. ou a pintura. ou o cinema. o teatro. ou um projecto incrível em áfrica ou outro lugar qualquer onde pudesse salvar uma vida e entender porque sempre acreditei que entre tudo os outros são sempre o mais importante do mundo. como se deus existisse e quisesse muito que eu acreditasse nele."


Valter Hugo Mãe, in 'Autobiografia'