segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Um longo instante


"(...)
Um grande rio da vida correu entre nós e essa data tão distante. Mal se pode ver, se é que alguma coisa pode ver-se através de fosso tão largo. A mim parece-me ter acontecido, não direi ontem, mas hoje. O sofrimento é um longo instante. Não podemos dividi-lo em partes. Só podemos lembrar-nos dos estados de espírito e descrever o seu reaparecimento. Connosco o tempo não avança: gira. Parece contornar a dor. A paralisante imobilidade de uma vida em que todas as circusntâncias são reguladas por um padrão imutável, para que possamos comer, beber, passear, dormir e orar, ou pelo menos ajoelharmo-nos para rezar, e de acordo com as leis inflexíveis de uma fórmula férrea; esta imobilidade que torna cada horrível dia, no seu mais ínfimo pormenor, igual ao seu irmão, parece comunicar-se àquelas forças externas cuja essência é uma contínua mudança. Nada sabemos e nada podemos saber do tempo da sementeira ou da colheita, dos ceifeiros que se debruçam sobre o cereal ou dos vindimadores enfileirados entre os vinhedos, da erva do pomar tornada branca pelas flores caídas ou coberta pelos frutos. Para nós há apenas uma estação, a estação do Sofrimento. Parece que até o próprio Sol e a própria Lua nos foram tirados. Lá fora o dia pode estar azul e doirado, mas a luz que se escoa através do vidro, espessamente fosco, da pequena janela gradeada por detrás do qual nos sentamos é cinzenta e mesquinha. É sempre crepúsculo nas nossas celas, tal como é sempre meia-noite no nosso coração. E na esfera do pensamento, tanto como na esfera do tempo, não existe movimento. Aquilo que tu pessoalmente já esqueceste há muito tempo, ou podes esquecer facilmente, está a acontecer-me agora e acontecer-me-á amanhã. Lembra-te disto e assim serás capaz de compreender um pouco mais porque te escrevo desta maneira. (...)"

Oscar Wilde, in 'Carta a Bosie'

sábado, 29 de agosto de 2009

Gayatri Devi, a última Maharani de Jaipur


Gayatri Devi, Maharani of Jaipur, died on July 29th, aged 90.

Through India has not been ruled by princes for many decades, it is not hard to find princesses about the place. Bollywood stars, for example, in sheaths, shades and bling, whose every move and change of wardrobe is recorded in flashy magazines; fashionistas, aping Kareena’s T-shirt or Priyanka’s bobbed hair, who spend their afternoons eating ice cream in Delhi’s malls; and the VIPs, or VVIPs, who force their cars through the traffic with horns blaring, and who refuse the indignity of being searched at airports.

In contrast to these one may sometimes find, at high tea at the Delhi Polo Club or in the lounge of the Taj hotel, the genuine article. Gayatri Devi was among the most famous of these. Her beauty was astonishing, praised by Clark Gable, Cecil Beaton and Vogue, but liner or lipstick had nothing to do with it. She had a maharani’s natural poise and restraint. From her grandmother, she had learned that emeralds looked better with pink saris rather than green. From her mother, she knew not to wear diamond-drop earrings at cocktail parties. A simple strand of pearls, a sari in pastel chiffon and dainty silk slippers were all that was required. The fact that she looked equally good in slacks, posing by one of the 27 tigers she personally eliminated, or perched, smoking, on an elephant, merely underlined the point. She was a princess, and a princess could make Jackie Kennedy appear almost a frump.

Money was never lacking in her life. As the daughter of Prince Narayan of Cooch Behar, in West Bengal, she grew up with dozens of staff and governesses recommended by Queen Mary. Thirty horses, six butlers and four lorryloads of luggage accompanied the family to their holiday cottage. “Broomstick”, as the family called her—other members were “Bubbles” and “Diggers”—was polished up in Lausanne and Knightsbridge, where she rather redundantly took a secretarial course. Her future husband, the Maharajah of Jaipur (“Jai” to her) first appeared at Woodlands, the family home in Kolkata, resplendent in an open-top green Rolls Royce. When she married him in 1940 her presents included a Bentley, a hill-station house and a trousseau that was left for collection at the Ritz in Paris. Their life came to revolve round the polo seasons in which he starred: winter and spring in India, summer in Windsor or Surrey, the thundering chukkas interspersed with plentiful champagne.

Yet there was an oddity about Gayatri Devi. She was a tomboy who liked to keep company with the servants, worrying about their wages, and with the mahouts, learning their songs and stories of elephants. After meeting Jai at the age of 12 she began to wish she could be his groom, fortuitously brushing his beautiful hand as she handed him his polo stick. Distinctions between raja and praja, prince and people, did not bother her, and she could be as cavalier about the yawning social divide between women and men. As Jai’s third wife, she should have been in purdah in a “city” of 400 other lounging and sewing women, watching the world through filigree screens. Instead she kept him company in the palace, riding and big-game hunting, or flying to Delhi in her private plane to shop. And she set up a girls’ school in Jaipur through which, she hoped, other daughters of the nobility might eventually learn to stick up for themselves.

The perfumed prison

Independence in 1947 brought a democratised India and the replacement of the 562 princely states with centralised, socialist government, but her attachment to “my people” did not change. Command, like style, came naturally to her. In both Cooch Behar and Jaipur, arriving becomingly wind-blown at the wheel of her Buick or her Ferrari, she would be greeted with flowers and incense and with deep prostrations in the dust. The villagers trusted her to help them, so she tried. That intimate understanding between ruler and ruled, she often said later, was sadly missing from modern India. It went with the crumbling of modern Jaipur which, under the maharajahs, had been a glorious desert city of wide avenues, palaces, peacocks and pink walls. She always saw it that way.

In 1960, having asked Jai’s permission and summoned the party secretary to the palace, she joined the liberal Swatantra party to oppose Jawaharlal Nehru’s left-wing Congress. She did not like socialism or five-year plans. A run for parliament two years later for the Rajasthan constituency gave her the world’s largest landslide, 192,909 votes. But this was hardly surprising. The people were voting for “Ma”, their princess, an exquisite figure in pearls and pale chiffon enthroned on a palanquin of carpets, who nevertheless called them her sisters and her brothers.

She continued to field their problems to the end of her life, though her political career as such did not long outlast a spell in Delhi’s Tihar prison in 1975, under Indira Gandhi. The charge was currency offences, based on a few Swiss francs found in her bungalow among the jade, rose-quartz, Lalique and Rosenthal. The prime minister seemed mostly to object to her aristocracy. Gayatri Devi softened the blow by pouring French perfume into the open sewer in her cell. As it ran through the building, Asia’s largest prison and one of its worst, other prisoners gathered to inhale the wafting vapours, the true scent of royalty.

in 'The Economist'

Gayatri Devi, a última Maharani de Jaipur, e as suas memórias, 'Une princesse se souvient' foram a causa primeira do meu encantamento pela Índia. Uma Índia que, como pude comprovar, já não existe. A sua morte, aos 90 anos, encerra um ciclo na história desse grande país.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Pelo nosso amor desfeito (Letra para um fado tradicional)


Estes silêncios que calo
Bem fundo no coração
São lágrimas que não te entrego
São vozes da solidão

É a tristeza que guardo
Nos olhos e dentro do peito
É esta alma marcada
Pelo nosso amor desfeito

Vivo sem ti (e não vivo),
Vivo sem ti (por viver)
Uma existência vazia
Que é este amar sem te ter.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Das pessoas em particular


"(...)
Era um homem já de idade e com uma inteligência incontestável. Falava do mesmo modo sincero, embora com ironia, mas uma triste ironia. Gosto da humanidade, dizia ele, mas eu próprio me admiro: quanto mais gosto da humanidade em geral, menos gosto das pessoas em particular, isto é, das pessoas em separado, das pessoas concretas. Nos meus sonhos, dizia ele, chego muitas vezes às ideias apaixonadas de servir a humanidade , se calhar, seria mesmo capaz de subir ao calvário pelas pessoas se de repente isso fosse necessário; ao mesmo tempo, sou incapaz de conviver com alguém no mesmo quarto durante dois dias, digo-o por experiência. Mal alguém fica perto de mim, logo a sua personalidade me oprime o amor-próprio e me constrange a liberdade. Sou capaz de ganhar ódio, de um dia para o outro, à melhor das pessoas: odeio este porque come devagar ao almoço, odeio aquele porque está constipado e não pára de assoar o nariz. Basta as pessoas tocarem-me ao de leve, dizia-me ele, para me tornar inimigo delas. Entretanto, continuava, sempre me sucedeu que, quanto mais detestei as pessoas em particular, tanto mais glorioso era o meu amor pela humanidade em geral. (...)"

Fiódor Dostoiévski, in 'Os irmãos Karamázov'

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

No teu sorriso


'Tu partiste nos quatro versos
que antecederam estas linhas;
ou partiu o teu sorriso, porque tu
sempre moraste no teu sorriso,
chuva verde nas folhas, o teu sorriso,
bater de asas no pulso, o teu sorriso,
e o sabor, esse ardor da luz
sobre os lábios, quando os lábios são
rumor de sol nas ruas, o teu sorriso.'


Eugénio de Andrade
(roubado daqui)

sábado, 8 de agosto de 2009

A partida, o vazio, a ausência


"Agora, há um antes e um depois daquele dia. Mas, quando menos espera ou prevê, o tempo deixa de ser linear e torna-se circular. De repente, tudo regressa àquele momento, àquele corpo, àquele rosto parado. Talvez por isso, poucos dias após aquele dia, ele foi reler uma passagem de "Em Busca do Tempo Perdido": aquela em que, contando a morte da avó, Marcel narra verdadeiramente a morte da mãe de Proust. Diz como o seu rosto rejuvenesceu na hora em que a vida se ausentou dele. Dessas palavras tão frias como a morte que descrevem, ele fixa uma frase, a partir da qual começa a mudar a rota da sua dor: "A vida, ao retirar-se, acabava de levar as desilusões da vida. Parecia haver um sorriso poisado nos lábios da minha avó. Naquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a com a aparência de uma menina." Depois de assim ter lido, regressa ao momento em que chegou ao hospital e lhe deram a notícia. E volta a ver a mãe inclinada para o lado direito (parecia que dormia) e o seu rosto apagado pela morte. Mas não estava mais jovem do que fora, porque antes não envelhecera muito. Nem as rugas lhe desapareceram, porque nunca as tivera. Talvez por isso, ele pensara sempre que a mãe era eterna.

Agora, todos os dias olha as fotografias. Tenta adivinhar as situações em que foram tiradas, procura despertar o instante ali fixado. (...) Finalmente, vê a sua última imagem, sentada no sofá onde costumava estar. Depois de a ver, dirige-se, sem pensar nisso, ao sofá e senta-se no braço, como quando lhe fazia festas. Agora, em vez dela, há ali a partida, o vazio, a ausência - e nos seus olhos surge um brilho triste e húmido. (...)"

José Manuel dos Santos, in 'Impressão Digital'
para a minha avó que morreu há 8 meses

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Por um sorriso seu




Você não sabe quanta coisa eu faria
Além do que já fiz
Você não sabe até onde eu chegaria
Pra te fazer feliz

Eu chegaria
Onde só chegam os pensamentos
Encontraria uma palavra que não existe
Pra te dizer nesse meu verso quase triste
Como é grande o meu amor

Você não sabe que os anseios do seu coração
São muito mais pra mim
Do que as razões que eu tenha
Pra dizer que não
E eu sempre digo sim
E ainda que a realidade me limite
A fantasia dos meus sonhos me permite
Que eu faça mais do que as loucuras
Que já fiz pra te fazer feliz

Você só sabe
Que eu te amo tanto
Mas na verdade
Meu amor não sabe o quanto
E se soubesse iria compreender
Razões que só quem ama assim pode entender

Você não sabe quanta coisa eu faria
Por um sorriso seu
Você não sabe
Até onde chegaria
Amor igual ao meu

Mas se preciso for
Eu faço muito mais
Mesmo que eu sofra
Ainda assim eu sou capaz
De muito mais
Do que as loucuras que já fiz
Pra te fazer feliz

(porque desde que estamos juntos encontrei a paz.)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

And I miss you...




Ask me where I go tonight I go back to today last year. Me and you had to make each other happier, now there's hope with everything.

It's hard enough to feel the world as it is and hold on anything. Without these quiet times you've brought round here.

I'm Gonna have to run away, I'm sure that I belong some other place. I've seen another side of all I've seen it keeps me wondering where my family is.

It's hard enough to see the world as it is, and hold on anything. Without these quiet times coming round here.

Now I miss you...
Now I want you...
But I can't have you...
Even when your here...

Suppose I have to take you with me, broken mind I'd rather leave you here. To forget everything you've seen and known erase every idea.

And you walk up in the street, and hold my hand and smile. Well I won't be taken in, cus I know how it turns out. And it takes me back to these quiet times coming round here.

Now I miss you...
Now I want you...
Your not coming back...
And I need you...
But I can't have you...
Even when your here...



Porque sinto a tua falta. Não gosto quando estás longe.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Luz e guia



"Avé Maria, cheia de graça
que por nós passa dando alegria
Nosso Senhor convosco está
e a nós nos dá o seu amor.

Rogai por nós os pecadores
das nossas dores ouvi a voz
e na agonia, quando chegar,
seja a rezar Avé Maria,
seja a rezar Avé Maria.

Santa Maria, ó Mãe clemente,
da nossa gente sois luz e guia.
Ao português que a paz vos pede
perdão concede mais uma vez."

Frei Hermano da Câmara por Maria Ana Bobone
para a minha avó que morreu há 7 meses

terça-feira, 30 de junho de 2009

Contra a distância e o esquecimento


Ela disse: "Eis aquela que parou em frente/ Das altas noites puras e suspensas.// Eis aquela que soube na paisagem/ Adivinhar a unidade prometida:/ Coração atento ao rosto das imagens,/ Face erguida,/ Vontade transparente/ Inteira onde os outros se dividem." Ela assim disse de Santa Clara de Assis, mas foi como se de si dissesse o que disse.

Às vezes, calo-me e fico à espera da sua voz, essa voz magnética como um íman que atraísse o mundo, porque nela mesmo o esperado é inesperado. Oiço-a, porque as vozes, mesmo as que partiram, respondem ao chamamento da nossa imaginação e fazem-se presentes contra a distância e o esquecimento. Às vezes, oiço-a dizer poemas que nunca escreveu, pois a morte lho impediu. Esses poemas são feitos das palavras suas que nos deixou - e que agora escrevem a sua ausência. Às vezes, quando o mundo me foge ou eu lhe fujo, quando tudo se parte ou se retrai - é o mundo, outra vez inteiro, que a sua voz me devolve, tal ele devia ser. Porque a voz de Sophia de Mello Breyner está além da sua contingência e aquém da sua eternidade. Por isso, continua a dizer: "O sol rente ao mar te acordará no intenso azul/ Subirás devagar como os ressuscitados/ Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial/ Emergirás confirmada e reunida/ Espantada e jovem como as estátuas arcaicas/ Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto."

Agora, lembro: uma tarde, marcámos encontro no Chiado, onde ela tinha ido. Nessa altura, já estava desavinda com a violência da vida e a confusão da cidade ("Assim a minha vida que era calma/ De repente se tornou ânsia e saudade"). Não quis ir lanchar à Benard, como costumava acontecer noutros tempos. Assim alguém se dirige a um refúgio, fomos para sua casa, na Graça. Logo que chegámos, ela, acendendo uma veemência de mãe, mostrou-me os quadros do Xavier e contou-me muitas histórias deles. A seguir, sem que eu esperasse, levou-me pelo corredor e abriu-me a porta dum sítio "onde não entra ninguém", o seu escritório, longo como uma carruagem de comboio - e eu vi o caderno de capa preta, onde ela escrevia os poemas e de que fala nalguns poemas ("Quando me perco de novo neste antigo/ Caderno de capa preta de oleado...").

Na mesa da casa de jantar, havia pão torrado e compotas à nossa espera. E o chá abria lentamente como um ouro leve na loiça lisa e branca, dando às horas uma alegria justa. Depois, fomos para a grande sala e falámos de tudo o que havia para falar. Havia nela um desassombro antigo e ainda uma inteligência maliciosa.

De repente, a casa ficou sem mais ninguém e, no meio das nossas palavras, o silêncio era concreto como os frutos que estavam na fruteira. Quando se erguia, a voz dela, magnética como um íman que atraísse o mundo, dizia exactidão, êxtase e exaustão. E a sua atenção fazia-se tão exterior que não deixava espaço para abrir à dúvida o seu caminho. Mas a certeza dela era soletrada e feita de alertas. Para guardar aquele estar ali tão intenso, escrevi, à maneira dela, uma memória que começava: "Como num quadro de Vermeer,/ a tarde era longa, lenta, limpa/ e atenta."
(...)
Sophia morreu há cinco anos, mas a morte, que ela tinha antecipado em versos de uma beleza funda e frontal, não prevalecerá sobre os seus poemas. Estes são-nos próximos como os instantes que vivemos. Por isso, os digo muitas vezes a mim mesmo, ouvindo-os ainda na sua voz rouca e aérea. Por isso, leio a letra frágil com que me dedicou os seus livros e a sua presença demora-se em mim. Por isso, olho a fotografia do Eduardo Gageiro, que tenho dela: Sophia está sentada à mesa de trabalho, junto à janela aberta. Fuma, cisma e escreve. Lá fora, vê-se o vento atravessar a árvore e vir ao nosso encontro...

José Manuel dos Santos, in "Actual" (Expresso)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

De um amor que se revela sofrimento


E depois é este céu cinzento,
Esta luz filtrada e escura
Onde nada é já o que sonhámos
Onde nada é eterno, nada dura.

E és tu debruçada na janela
Abandonada a esse triste pensamento
De uma vida desfeita de tão fria
De um amor que se revela sofrimento.

E é tudo o que sonhámos em abraços
No meio de dois beijos prometidos
E é o nada em que agora nos amamos
Perdidos em futuros não cumpridos.



domingo, 21 de junho de 2009

Nos degraus do cais, em silêncio


Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice, in 'A Partilha dos Mitos'

sábado, 20 de junho de 2009

Da memória que fica delas


Em bando passam aves e eu voando vou com elas
Mas assim que aterro e quebro as asas
Recolho-me à sombra, que não das aves,
Das aves não
Mas da memória que fica delas
Passam lestas chilreando leves
E minh´alma, ninfa triste em seu novelo,
Fica só daqui a vê-lo
O bando não
Mas o que fica de passarem aves.

Arménio Vieira

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ser céu sol e estrelas


digo que te amo
sorris e eu amo, digo que te quero
sorris e eu quero, dizes em sonhos

em sonhos que já tive, onde desejei ser céu sol e
estrelas para que te pudesse olhar eternamente

Jorge Reis-Sá, in 'A Palavra no Cimo das Águas'

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Mais do que te sei dizer



Por mais que a vida nos agarre assim
Nos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir

Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes fogo e mar, loucura e chão
Às vezes só a cinza que sobrou

Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

Mafalda Veiga, in 'Chão'
(para ti, porque todos os dias (mesmo hoje) sinto isto)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O justo momento


"morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento"

Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho e Outros Poemas'
(para a minha avó que morreu há seis meses)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

O Comboio ou A Varanda que via passar mulheres



Era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação vomitando nas plataformas mulheres apressadas e homens distraídos. Mas aquele não era um comboio qualquer porque era um comboio especial. De todos os comboios que conheço era provavelmente o mais especial que havia. Vinha dos mesmos sítios que os outros e ia para os mesmos sítios que os outros. Mas era especial no meio de todos porque nenhum ambicionava nada enquanto aquele ambicionava tudo. E o seu maior sonho era ser um barco e navegar pelos mares.
Era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação vomitando nas plataformas mulheres apressadas e homens distraídos. E no alto daquele prédio cor de tempos passados, uma varanda tímida espreitava as mulheres que passavam, apressadas, e sentia o íntimo desejo de ter nascido como elas, mutantes, velozes, portáteis!
E sempre que era manhã cedo em Lisboa e o comboio apitava na estação, varanda e comboio trocavam sonhos e desejos vivendo entre os dois a partilha de uma fantasia que os transformava respectivamente em barco e mulher à deriva pelo mar. E riam-se da pressa das mulheres e da distracção dos homens que não percebiam nada e que não aproveitavam os barcos e os mares para fugir ou para sonhar!
Desta rotina nasceu obviamente um amor enorme da varanda pelo comboio. E quando ele por alguma razão não vinha, a triste varanda perdia-se em divagações românticas e em ciúmes enlouquecidos, imaginando que o comboio era finalmente um barco e que alguma daquelas mulheres que ele transportava tinha descoberto o caminho directo para o seu coração... Aquele sofrimento era feroz e durava até à próxima manhã em que, cedo, o apito ecoava pela estação. Só os pássaros que por ali pousavam testemunhavam estes desvarios e por toda a cidade já se comentava a loucura da varanda que não percebia que era apenas uma varanda!
Os tempos foram passando, o comboio foi fazer outras paragens e deu por si a fazer a linha do Estoril, ao lado do rio, e acabou mesmo por se esquecer que era comboio para se convencer que era um grande e forte barco, porque só via água!
Quanto à varanda, essa foi enlouquecendo sozinha à medida que percebeu que nunca seria mulher. A última vez que soube dela estava apaixonada por uma gaivota que ainda por cima só abusou da sua boa vontade. Hoje quando lá passo ainda olho para cima mas é raro a varanda reagir. Perdeu o juízo e agora vai deixando cair pedacinhos de si quando passa alguma mulher. Queria confortá-la mas não sei. O meu forte nunca foi varandas.
(para a Fernanda, a quem escrevi isto há algum tempo atrás.)

sábado, 23 de maio de 2009

De uma vida menos vasta


"Quando se tiver diminuído o mais possível as servidões inúteis, evitado as desgraças desnecessárias, continuará a haver sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não correspondido, a amizade recusada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta que os nossos projectos e mais enevoada que os nossos sonhos: todas as infelicidades causadas pela divina natureza das coisas."

Marguerite Yourcenar
(obrigado Filipe, pela sugestão)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Até Sempre, meu Amigo.

Foto by Luís Filipe Catarino

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente João Bénard da Costa porque durante os útimos três anos ele foi Presidente e eu vogal das Comissão das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Sempre que estivemos juntos, ele ensinou-me muito e eu aprendi muito. Com uma disponibilidade invulgar num homem da sua dimensão, Bénard da Costa nunca se impacientou com as minhas perguntas ou com a minha falta de respostas. Pelo contrário, guiou-me, dirigiu-me, orientou-me na procura incessante de conhecimento que era sua e que rapidamente me contagiou. E a preparação das Comemorações era sempre entusiasmante pelas coisas que ano após ano eu ia descobrindo por seu intermédio.
Portugal continua, as Comemorações também. Só Bénard da Costa está ausente. Este ano, em Santarém, vou sentir falta das nossas conversas. Até sempre, meu Amigo.

Poema em ziguezague


Afecto,
tormenta
taciturna.

Casa
deserta,
vazia.

Tenho para mim que te esqueço em menos de um dia.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Paisagem


Trago nos olhos cansaços de uma paz que não chega
E há na tua voz um sobressalto que esconde tréguas tardias
Perdemos o futuro em perdões adiados
Nada mexe já na paisagem de fim de tarde.

Cá dentro o silêncio, o abandono, a esperança.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Da espera


"em fuga.
quero o teu corpo todo em mim
tantas vezes quanto o corpo nos permitir
e adormecer depois com o cansaço quente como almofada
de seda e prazer

único.
depois da alucinação a frustração da espera
e este o último poema que escrevo para ti?
ou o primeiro momento na longa queda deste outono oxigenado?

toma conta de mim este som sangue sinal"


M. Tiago Paixão

terça-feira, 19 de maio de 2009

Se bastasse

"Ai meu amor se bastasse
Saberes que eu te amo tanto
E cada vez que eu cantasse
Ai meu amor se bastasse
Saberes que é por ti que eu canto

Ai meu amor se bastasse
O que a cantar eu consigo
E mesmo que eu não cantasse
Ai meu amor se bastasse
O que a falar eu não digo

Ai meu amor se bastasse
Eu saber que não te basta
E na vida que eu gastasse
A Cantar eu reparasse
Que a nossa vida está gasta

Se o que eu tenho p'ra te dar
Quando eu canto te chegasse
Se isso pudesse bastar
Se me bastasse cantar
Ai meu amor se bastasse."
Manuela de Freitas por Aldina Duarte

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um rio que não acaba


(...)
III
imaginar quer dizer
isso mesmo e é real
não digo chuva sem me molhar
e o teu nome sem que me beijes
enquanto te espero aqui
vês a chuva?

Continuo sentado enquanto o céu se move
a cor muda
comigo em espera

tenho frio
(já te disse antes como tenho frio)
vejo mais longe do que todas as pessoas que aqui estão
(falei-te do medo e da vertigem)

mudo de margem e (h)à margem enquanto escrevo
abandono os tectos as casas a um passado olhar
esquecido da gramática morta em cima da mesa
voltarei mais tarde ao som da tua voz

(da tua boca saem nuvens e um rio que não acaba)

M. Tiago Paixão

terça-feira, 12 de maio de 2009

Quase nada


"Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. E eu - que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras... Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de quarto... Eu - que mudei de computador e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima... Eu - que mudei de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu - que mudei de lume, que mudei de medos... Eu - que mudei de planos, de lençóis, de secretária... Eu - que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado... Eu - que mudei de tudo que em quase nada mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor."

Filipa Leal

sábado, 9 de maio de 2009

Caminhos


“Ainda que os teus passos pareçam inúteis, vai abrindo caminhos, como a água que desce cantando da montanha. Outros te seguirão...”

Antoine de Saint-Exupery

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Um lugar vazio


"na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu, depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco."

José Luis Peixoto
(para a minha avó que morreu há 5 meses)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Só eu na escuridão


"Era a noite que caía
E na sombra recolhia
O voo das andorinhas.
Era a voz que se calava,
Era a dor de ver que estava
Sem as tuas mãos nas minhas.
Eram passos que escutei,
Que eram teus ainda pensei,
Iludiu-me o coração.
Foram pela rua escura
Longe da minha amargura
E acompanhei-os em vão.
Fiquei perto da janela,
Pus-me a abri-la com cautela,
Fiz disfarce da cortina.
Vi então na luz incerta
Que a rua estava deserta
E deserta estava a esquina.
Era só eu na escuridão,
Era no peito um rasgão,
Era já no céu a lua,
Que me importa?, à minha porta
A sombra que se recorta
Bem pode ainda ser a tua."

Vasco Graça Moura

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Palavras caladas


"Quis um poema que te dissesse,
Quis tempo novo para te dizer
Uma palavra que enlouquece,
Que oferece vida e faz morrer.

Amor, amor, teu nome antigo,
Teu nome breve e tão eterno,
Primavera agora,Verão amigo,
Amor, amor, sol de Inverno.

Procurei tantas madrugadas,
Encontrei manhãs para respirar,
Encontrei palavras caladas,
Encontrei amor para te cantar."

terça-feira, 5 de maio de 2009

De tanto chorar por ti



"Assim que o barco partir
Rezando a Deus vou pedir
Que te dê felicidade
Que te dê boa viagem
E a mim me dê coragem
Para suportar a saudade

Se não for à despedida
A razão ó minha querida
é fácil de adivinhar
É que a saudade é medonha
E depois tenho vergonha
Que alguém me veja chorar

Se acaso um dia voltares,
Feliz, e não me encontrares,
Ouvires dizer que morri
Foi de saudades, não nego,
Ou então devo estar cego
De tanto chorar por ti"

Carlos Ramos
(estes dias vão ser longos...)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

De um mar da manhã


"Que eu me detenha aqui. E que também eu veja um pouco a natureza.
De um mar da manhã e de um céu sem nuvens
roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo
belo e grande iluminado.

Que eu me detenha aqui. E que me engane para ver isto
(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);
e não aqui também os meus devaneios,
as minhas recordações, os modelos da volúpia."

Konstandinos Kavafis, in 'Poemas e Prosas'

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Em relação à vida e ao acontecer


"Lembro-me perfeitamente de uma pessoa de família, que trazia muito mais marcada do que eu essa distância em relação à vida e ao acontecer. E, numa circunstância que para mim nesse momento era importante, ela encontrou-me a chorar numa varanda, no interior da casa de campo, ao cair da noite. E ela passou e disse-me: "Menina, choras". Eu não disse nada e ela disse "Deixa lá, que na vida ninguém é feliz". Ela não tratou sequer de me consolar, nem de saber as razões. Não tinha importância; o facto é que aquele era um momento amargo para mim, e ela então consolou-me dessa maneira."
Agustina Bessa Luís
(em entrevista)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mais



Hoy el mar es mas azul que el cielo...

José Manuel Capelo, por Ricardo Ribeiro (numa composição de João Gil)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Levar-te-ei, sorrindo


"Levar-te-ei, sorrindo, pelo braço
até quando as palavras
não forem mais que sombras;
até quando as estátuas
se aborreçam da vida e pulverizem;
até quando os lagos
noivaram as nuvens e se puser o Sol.
Levar-te-ei, não esqueças,
até ao pôr-do-sol."

António Rebordão Navarro

terça-feira, 28 de abril de 2009

Neste dormir de brilhos azulados


"Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados."

Jorge de Sena

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A íntima chama de um fogo


"De ti e desta nuvem; desta nuvem
branca como voo de pássaro
em manhã de abril; de ti
e da íntima chama de um fogo
que não consente extinção;
de ti e de mim fazer um só acorde,
um acorde só; para não te perder. "

Eugénio de Andrade

domingo, 26 de abril de 2009

Para te ter e te amar


"Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou."

Alberto Caeiro

sábado, 25 de abril de 2009

Só hoje soube o verdadeiro valor do vento


"Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
Só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
O vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
A música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto."

Ruy Belo

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Nos teus segredos



"Meu amor corre-me o corpo
Com beijos soltos nos dedos
Que as sombras da tua pele
Aprendam os meus segredos.

Meu amor corro-te o corpo
Com beijos soltos dos dedos
Que as sombras da minha pele
Naveguem nos teus segredos

Meu amor corre-me o corpo
Com beijos soltos pelos dedos
Que as sombras da minha pele
Se soltem dos teus segredos"


Circe, in Ulisses de Cristina Branco

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dentro da eternidade


"Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude."

Vinicius de Morais
(3 meses)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ser teu


"Estou cansado
Quero dormir nos teus braços,
por um instante ser teu
Em pensamentos — a espaços,
acredito que em teus braços
encontro o Outro no céu"

João Monge

terça-feira, 21 de abril de 2009

Um desejo por esquecer


"Tudo parece inteiro
vindo de tão longe
presentes de regresso
à beira dos teus olhos
dois sóis quase extintos
em esperança sem pontaria
na partida da adolescência
pediste com as duas mãos
uma das minhas sempre frias
julgando assim conseguir
descrever um adeus
sem choro nem piedade
nos teus beijos de mãos
abertas na minha cara
por ti a distinguir o traçado
da beleza na pele branca
um desejo por esquecer
que nunca esteve perdido
no lastro de dois corações
o sustento e a musicalidade
a alegria que desmancha a dor
na intensidade de um fado
que se cumpriu a si mesmo
aqui na terra como no céu...

- Amor, finalmente, chegaste! - "

Aldina Duarte

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Já não posso andar só


"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."


Alberto Caeiro

domingo, 19 de abril de 2009

O amor do teu encanto


"Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça."

Jorge de Sena

sábado, 18 de abril de 2009

Onde está o que sonho


"Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo."

Alberto Caeiro

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Do teu sereno olhar


"De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: - «Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro."

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O teu nome


"Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã."


Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Quando o amor chegou


"O corpo não espera. Não. Por nós ou pelo amor. Este pousar de mãos, tão reticente e que interroga a sós a tépida secura acetinada, a que palpita por adivinhada em solitários movimentos vãos; este pousar em que não estamos nós, mas uma sêde, uma memória, tudo o que sabemos de tocar desnudo o corpo que não espera; este pousar que não conhece, nada vê, nem nada ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou."

Jorge de Sena

terça-feira, 14 de abril de 2009

Cumprindo o seu destino


"Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim."
Cecília Meireles

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Puro


"Está tão puro já meu coração,
que é o mesmo que morra
ou cante."


Juan Ramón Jiménez

domingo, 12 de abril de 2009

Súbitos momentos


"Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente"


Ruy Belo

sábado, 11 de abril de 2009

Sem disfarce


"Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!"


José Régio

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Tesouro


"O meu tesouro és tu
eternamente tu
não há passos divergentes
para quem se quer encontrar..."

Jorge Palma

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Dentro de mim estou completo


"Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim."


Alberto Caeiro

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Belo


"C'est à cause que tout doit finir que tout est si beau."

("É por tudo ter de acabar que tudo é tão belo")
Charles Ferdinand Ramuz, in 'Adieu à beaucoup de personnages et autres morceaux '


terça-feira, 7 de abril de 2009

Ao teu pensar-me querendo-te...


"Morde-me com o querer-me que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti-própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te...

Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me... E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstracção...

Possue-me-te, seja eu em ti meu spasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha...
Meu amor será o sair de mim do teu ocio
E eu nunca serei teu, ó apenas-minha?"


Fernando Pessoa

segunda-feira, 6 de abril de 2009

E vivo só p'ra te amar



"Eu quero morrer de amores como os rios morrem no mar
Campos inteiros de flores não chegam pra me deitar
Eu quero morrer de amores como os rios morrem no mar

Eu quero o pranto das rosas nas bocas que desfolhei
Perdi todas as demoras, perdi e não me encontrei
Eu quero o pranto das rosas nas bocas que desfolhei

Meu grande amor, meu sorriso de amargura
Nasce a luz na noite escura quando vens para me abraçar
Ó meu amor rasga essa dor e sorri
Eu não sei viver sem ti e vivo só p'ra te amar

Eu quero mais que ninguém o silêncio, a solidão
Eu queria ser mais além, sabor amargo a limão
Eu quero mais que ninguém o silêncio, a solidão

Mas não serei o navio que se verga à tempestade
Nas margens de um novo rio cantarei a liberdade
Nas margens de um novo rio cantarei a liberdade

Meu grande amor, meu sorriso de amargura
Nasce a luz na noite escura quando vens para me abraçar
Ó meu amor rasga essa dor e sorri
Eu não sei viver sem ti e vivo só p'ra te amar"

Paulo Valentim por Katia Guerreiro, in 'Fado'

domingo, 5 de abril de 2009

Que silêncio é este


"Há um silêncio pesado que não sei de onde é que vem
Nem sei se lhe chamam fado ou que outro nome é que tem
Se canto, não me dói tanto o coração magoado
Mas há em tudo o que canto este silêncio pesado

Não é mágoa nem saudade nem é pena de ninguém
O silêncio que me invade e não sei de onde é que vem
Silêncio que anda comigo e que mesmo sem eu querer
Diz através do que eu digo o que eu não posso dizer

Este silêncio pesado que me suspende e sustém
Não sei se lhe chamam fado ou que outro nome é que tem
Se com palavras se veste a alegria e pranto
Então que silêncio é este que há em tudo o que eu canto"


Manuela de Freitas

sábado, 4 de abril de 2009

You made me forget myself



"Just a perfect day drink sangria in the park
And then later when it gets dark we go home
Just a perfect day feed animals in the zoo
Then later a movie too
and then home
Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on you just keep me hanging on
Just a perfect day
problems all left alone
Weekenders on our own it's such fun
Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was someone else someone good
Oh, it's such a perfect day I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
you just keep me hanging on
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow"
Lou Reed

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Os erros do que fui


"Deixei atrás os erros do que fui
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Where the clouds are far behind




"Somewhere over the rainbow
Way up high
There's a land that I heard of once in a lullaby

Somewhere over the rainbow
Skies are blue
And the dreams that you dare to dream really do come true

Someday I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemon drops
A way above the chimney tops
That's where you'll find me

Somewhere over the rainbow
Blue birds fly
Birds fly over the rainbow
Why then oh why can't I?

If happy little blue birds fly beyond the rainbow
Why oh why can't I? "

Para a minha querida Denisa, que está a passar o pior momento da sua vida.
Estou ao teu lado neste momento de dor.
Conta sempre comigo.